segunda gira com Clarice

RELATO COM O MENDIGO

Mulher I
Vou contar pra vocês um segredo, vocês são as únicas pessoas que saberão dessa história. Eu não saio contando coisas assim por aí, entende?

Era um dia comum, e meu lar era longe de casa. Na verdade, eu estava sem o endereço de mim mesma. Bússola na mão apontava pro norte, mas eu não sabia o que o norte dizia. A agulha rodava em torno do eixo, e eu, sem eixo, girava de pergunta em pergunta.
Trabalho? Ofício? Religião? Qual é o lugar no mundo reservado a quem não crê naturalmente mas quer, para não morrer em vida, acreditar sem ingenuidade?
Nunca me veio resposta…

Ah, sim…o segredo que eu ia contar….

Todos os dias, no caminho do meu quase lar, eu via um mendigo… um mendigo que tocava gaita… Nesse dia, eu estava muito amargurada, mais perturbada que qualquer outra coisa, e no meio do trajeto, vi novamente aquele homem – o mendigo que tocava gaita – como fazia sempre, gente, todos os dias! E riu para mim. Então eu ri para ele. Não sei o que me aconteceu, fui tomada por uma legião de sentimentos inoportunos que não saberia bem descrever, que não sei bem o que era no momento, comecei a me movimentar junto dele, dançamos sem parar… ele tocava a gaita e dançava, eu dançava com ele… Dancei descompassada, eu e o mendigo, como se algo me tomasse pelo meio, como se um vulcão de respostas estivessem próximas a mim, dancei ao vento, apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia inteiro como o corpo de quem ri, aquela sensação de morte a gargalhadas. Eu e ele, dançado, aquilo durou cerca de uns quinze, vinte minutos, tão depressa como o tempo da dança, comecei a andar, ainda meio tonta, mais depressa, agora sem pudor, tentando recolher, do meio fio, os andaimes da minha vida, parecia que eu tinha encontrado um súbito destino. Aí eu ria, e chorava.

De que rimos nós? Do nosso encontro que era de alegria. Não perguntei o nome dele, porque esqueci que mendigo tem nome, porque esqueci o nome de todas as coisas. Saí dali tomada por um desespero, mudei meu rumo, fui ter com uma amiga, a única que eu achava que podia me entender. Quando cheguei na casa dela, não contei o que tinha me acontecido.

Vocês entendem por que? Ela não entenderia! Ninguém entenderia! Seria folclórico! Exótico! Eu não queria que o asfalto ficasse cinza de novo, porque naquele dia ele era de diamantes…E eu, que não acredito em milagres e achava que tinha vivenciado um, tinha medo de ver meu ceticismo espelhado no outro no exato momento em que eu contasse essa história…

(Coloca as mãos na boca, assustada com a idéia da perda do sagrado. Faz como se tirasse algo de dentro dela, e fecha as mãos em concha, como se protegesse algo raro. Respira, aliviada)
Ainda está aqui…

Será que quando a gente conta um segredo ele se perde no tempo? Porque segredo contado deixa de ser segredo, mas que sentido tem guardar uma imagem que se não revelada pode virar areia na memória? Vou contar, então, posso? Posso confiar que vocês não vão me julgar pelo que fiz, ou pelo que senti?…

Naquela dança, eu tive um desejo…Um prazer sem tamanho, que só cabia nos limites da minha pele porque eu sentia o suor escorrendo, e eu quis beijar aquele homem, e eu quis experimentar um pouco mais daquele contato na pele da boca. Porque eu queria experimentar um pouco do que se pode ser quando não se tem função definida, nome definido, RG, utilidade. Eu sentia o desejo dele todo, de comer num beijo uma fração daquela possibilidade de simplesmente estar sendo sem nenhum sentido que não fosse apenas ser-se.

(pausa)

Eu só queria dar um beijo na liberdade para saber o gosto doce e inteiro do que se perde em míseros pedaços todos os dias…

Mulher 2
Qual seria o nome dele? José? João? Jonas? John!

Mulher 3
John, eu nunca esquecerei você. Porque nós fomos eternos naquele instante. Meu irmão. Você me deixou plena e útil.

Mulher 2
John, onde é que você dorme? Eu ainda não sou livre: preciso de uma casa e de uma cama para dormir. Eu não sei dormir na casa dos outros.

Mulher 3
John, num momento de muito desespero eu pedi a Deus que me arranjasse uma ajuda. E a ajuda veio: um homem me telefonou. Aí eu chorei ao telefone. Ele disse: não chore porque chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco. Eu lhe pedi para me telefonar de novo às seis da tarde. Ele disse que não podia. Mas às seis em ponto me telefonou.

Mulher 1
John, o que a gente faz quando o que a gente mais quer acontece? Quando a gente pede pelo milagre, e ele chega? A gente fura os olhos? Recebe a luz que cega? Foi o que aconteceu com você, por isso mendigo, por isso na rua?
(ela abre as mãos, como se deixasse escapar o que continha ali)

Mulher 2
John, por que eu me surpreendi com nosso contato? Por que a gente se surpreende em conviver só por não saber o nome? Por que contando parece loucura se foi tão simples, tão simples, sorrir e dançar com você, John? Por que contando para eles agora parece pouco, parece bobagem, se na hora era só o que se podia fazer da vida?

Mulher 3
John, eu li que a angústia é a vertigem da liberdade. No entanto eu estou tendo essa vertigem, mas sem angústia, como é que se explica?

Mulher 1
(para a platéia)
Era segredo. Não contei antes porque tinha vergonha…vergonha porque depois disso, continuei vendo mendigos sem nome, e se não fosse agora ter contado a vocês, tudo me pareceria absurdo. A vida é absurda quando ela acontece de verdade.

primeira gira com Clarice

(trechos da peça teatral “No Gosto Doce e Amargo das coisas de que somos Feitos”, sobre obra de Clarice Lispector. Direção de Nill Amaral)

ATRIZ 1
Deixe ver…seu futuro…(faz um suspense)…Olha, você tem dois caminhos possíveis…Um é por ali (aponta para a direita)…Não tem muitas pedras. Tem uma cachoeira linda, linda, uma vez que você chegue lá não vai querer sair mais. Muitos recursos materiais também. Não tem muita gente, você não corre o risco de cruzar com pessoas desagradáveis. Nenhum grande amor, mas tem aqui um casamento bem sólido. Nenhum grande sofrimento, nenhum grande risco, é um caminho bastante seguro. Vida longa.
(pausa. Olha a reação da pessoa)
Agora esse outro (aponta para a outra direção)… Olha, não dá pra ver direito… Tem muito vento, é um caminho de muito vento. E muita chuva seguida de sol. Mas esse vento…não dá pra ver muito. Você é que sabe, se quer arriscar…

Atriz pega de volta a xícara. Olha para longe

ATRIZ 1
Um vento…Igual a esse. É raro ver um vento assim, suave e intenso. Dá vontade de sorrir. Já repararam que sorrimos em público do que não sorriríamos se ficássemos sozinhos? Eu, por exemplo, não gosto de rir de piadas, o que dificulta muito sentar numa roda com pessoas a certa hora da noite. Mas gosto de rir com o vento, coisa que ninguém entende.

ATRIZ 2
Eu gosto de rir quando eu chupo manga e fica aquele fiapo no meio dos dentes

ATRIZ 1
Eu gosto de rir quando eu vejo um cachorro chupando manga. Você já viu um? É uma coisa horrível!

ATRIZ 3
Eu gosto de rir quando eu vejo alguém com a roupa do lado avesso sem perceber

ATRIZ 2
Eu gosto de rir quando eu canto

ATRIZ 1
Eu gosto de rir no cinema vendo filme que todo mundo chora

ATRIZ 3
Eu gosto de rir no elevador

ATRIZ 2
Eu gosto de rir escovando os dentes

(podem ficar um tempo nesse jogo)

ATRIZ 1
Eu gosto de rir no vento

As três começam a brincar de pega-pega. O texto vai sendo dito nessa brincadeira, revezando entre elas. A cena vai num crescente.

ATRIZ 1(PARADA)
Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é.
É um cavalo preto e lustroso, inteiramente selvagem : nunca morou antes em ninguém ou nunca lhe puseram rédeas nem sela .

OUTRA ATRIZ (NO JOGO)
Eu gosto de rir em enterros.

ATRIZ 3 (PARADA)
Apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho.
Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito.

OUTRA ATRIZ (NO JOGO)
Eu gosto de rir soluçando.

ATRIZ 2 (PARADA)
A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aquilo que não tem nome: é só chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai.

OUTRA ATRIZ (NO JOGO)
Eu gosto de rir na frente do espelho

ATRIZ 1 (PARADA)
Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.

Atriz 3 toma o lugar parado de Atriz 1, mas interrompe a brincadeira.

ATRIZ 3
Eu preciso confessar um segredo a vocês…

As outras duas continuam o jogo, alheias

ATRIZ 3
Eu preciso confessar um segredo a vocês!

As outras duas seguem o jogo.

ATRIZ 3
Eu não sei como rir.

As duas param de correr

ATRIZ 2
(constrangida)
Eu também não.

ATRIZ 1
(constrangida)
Eu também não.

Tempo

ATRIZ 2
Mas a gente não estava rindo?

ATRIZ 1
A gente estava rindo?

ATRIZ 3
Não há tanto problema nisso. Pelo menos, no fim do dia, não corro o risco de me arrepender de ter sido idiota. Eu durmo bem assim, mesmo com a luz apagada.

Para Araci Cortes 4

(trechos da peça teatral “Pra você que me esqueceu”, sobre a vida da atriz do teatro de revista Araci Cortes. Direção de Dagoberto feliz, com Gisela Milás, Evelyn Klein e Ivan Kraut)

ARACI

A minha alma, a minha vontade desagua doente
enferma enferma grita e desdiz a morte
Vem! Sente!
Esse vapor gelado pelos dentes
sente…
a urgência de não esperar permissão
Vem! Ó frágil reprimido
vem e afasta o perverso da submissão
Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso
recusa o que é pudico, mesmo que pareça sensato
me deixa assim entregue a deus
me deixa assim como deus me fez
me deixa ser seu lavapés
me deixa ser seu louva-deus
despe-se em meia-noite de lua
no meio da noite do medo
antes do amor me pegar pelos dentes
me cuspir no infinito
E gozar na minha cara.
Te amo tanto, meu amado!
Te amo!
ME AMA!
ME DÁ, DESESPERADAMENTE, ME DÁ AMOR!
Em que momento, me diz, me esqueci lá atrás,
como uma mártir acorrentada num labirinto sem volta?
Sinto que estou secando
Em calmas ondas cristalinas…

Para Araci Cortes 3

Entra Araci– cantarola Os Rouxinóis
No palco, a figura de um compositor

COMPOSITOR

Boneca de Piche, Os Rouxinóis, cabocla cheirosa, chora, violão, chora que passa, é no toco da goiaba, esse mulato vai ser meu, gemer no violão, Lamartine babo, minha favela, minha pátria, Ary Barroso, Custódio Mesquita, Morena querida, Francisco Alves, Mulato bamba, Noel Rosa, mulata revoltosa, mulato bamba, pernas, pra que te quero, Luis Peixoto, João de Barro, Palhaço não chora, Na pavuna, Benedito Lacerda, Racho Fundo, que antes era na Grota funda, cruz-credo, quindins de yayá, salada portuguesa, salve-se quem puder, flor do lodo, sinhô, Henrique Vogeler, não convém, não quero mais saber de amor, Assis valente, alma da rua, no alto da serra, chora que passa, Ismael Silva, Luiz Iglesias, vai cumprir o teu destino, Arthur costa, quero sossego, cada macaco no seu galho, velha baiana, Pixinguinha!

ARACI
(começa a falar simultaneamente na metade do texto anterior)

Eles, meninos, nomes que antes eram apenas palavras desconhecidas escrevendo palavras-semente. E eu era a alma daquelas palavras para que elas viessem ao mundo. Alguém conhecia? Não! A boca santa cantava, paria cada letra daquelas, e elas povoavam os ouvidos daquela platéia maravilhosa…e os meninos viravam homens, compositores. E as palavras, juntas, viravam história.

pausa

Hoje a boca é outra. rádio, TV, nem é de carne nem osso, sem suspiro. E deixa a memória doente.

Para Araci Cortes 2

ARACI

A minha alma, a minha vontade desagua doente
enferma enferma grita e desdiz a morte
Vem! Sente!
Esse vapor gelado pelos dentes
sente…
a urgência de não esperar permissão
Vem! Ó frágil reprimido
vem e afasta o perverso da submissão
Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso
recusa o que é pudico, mesmo que pareça sensato
me deixa assim entregue a deus
me deixa assim como deus me fez
me deixa ser seu lavapés
me deixa ser seu louva-deus
despe-se em meia-noite de lua
no meio da noite do medo
antes do amor me pegar pelos dentes
me cuspir no infinito
E gozar na minha cara.
Te amo tanto, meu amado!
Te amo!
ME AMA!
ME DÁ, DESESPERADAMENTE, ME DÁ AMOR!
Em que momento, me diz, me esqueci lá atrás,
como uma mártir acorrentada num labirinto sem volta?
Sinto que estou secando
Em calmas ondas cristalinas…

Para Araci Cortes 1

(trechos da peça teatral “Pra você que me esqueceu”, sobre a vida da atriz do teatro de revista Araci Cortes. Direção de Dagoberto feliz, com Gisela Milás, Evelyn Klein e Ivan Kraut)


FIGURA

Araci, por que você não foi pros Estados Unidos igual à Carmem Miranda?

Araci, enfurecida, aproxima-se dele

ARACI

Porque ela deu o cu!

FIGURA

Nossa! Você não foi a maior de todas?

ARACI

Ah, quer saber? Bota no tijolo o que quiser, que eu sou de chita. Fiz meu nome com vestido de chita e rosa no cabelo, como é que eu vou me incomodar? E tem muita, muita gente que gosta!

FIGURA
(saindo do teatro)

Ô dona mestiça! Você está é com saudades de um tempo que já não é mais! Eu vou é embora que isso aqui tá com cheiro de mofo!

ARACI

Vai mesmo, vai embora, leva daqui esse despeito, ô seu merda! Dizem por aí que saudade é coisa bonita, tristeza é parte do samba. Pra que? Me diz aí, pra que tudo isso? Eu não! Carregar uma mala dessa? Daí eu chuto, chuto mesmo, a porta, a mala, essa maldita tristeza que parece que já nasceu agarrada no samba feito erva daninha, deixando tudo igualzinho enquanto o país se escangalha. Es-can-ga-lha!

pausa

Samba é a flor dessa terra, semente cravada no solo pisado que brota de teimosia. É muita petulância maquiada de malemolência, insubmissível! (pausa) Saudade…saudade, meu filho, é que nem fome. Só passa se a gente come a presença.

yes, nós somos bananas. on sale.

Em se plantando, tudo dá.
Oba! Então me dá!

Há algum tempo atrás, a relação mágica do homem com o mundo se dava no espanto com os fenômenos da natureza. Inexplicáveis, divinos, temidos. Hoje, mais esclarecidos, a relação mágica com o mundo é semelhante ao menino mimado que é cuidado por empregados: joga o brinquedo no chão, plim! Ele desaparece a reaparece na caixa! Suja toda a sala e plim! Ela renasce radiante e cheirosa! Estala os dedos e plim! Seu desejo é satisfeito! Quem disse que foram expulsos do Éden?

Pois bem. A combinação matemática do “então me dá” com a relação mágica com o mundo, bastante comum nas cabecinhas das poucas pessoas que detém o PODER DE DECISÃO, HOJE SINÔNIMO DE PODER ECONÔMICO, é a responsável por um fenômeno de cegueira que ameaça nossa Terra e nossa gente.

Mas voltamos ao nosso menininho: esse pequeno míope foi formando seu sisteminha de crenças básicas dessa forma. Ou seja, ele vê o mundo DESDE ESSE PONTO DE VISTA. Ele crê que as coisas são assim. Crê que o mundo é para ele, e a natureza, não à toa chamada de mãe, é uma fonte inesgotável de recursos.

Me dá! Me dá! Me dá!

Mas o menino se aborrece fácil. Ele é muito só. Nem com tantos empregados ele cura sua angústia… então ele se diverte. Há muita diversão por aí. Mas tudo movido a pilha! Então vamos produzir essa fonte energética, senão o mundo vai ficar sem graça! Está criada, pelo bem do planeta, a Pilha Corporation.

Mas vamos precisar dos rios, porque energia vem de algum lado, não brota da terra que nem batata! E agora, vamos brincar de mudar os rios de lugar? Canaliza aí uns três ou quatro! Faz barragem! Tá bom, vai inundar, mas fazer o que? Veado tem de monte no mundo, passarinho também! A gente precisa, senão dá apagão!

E vamos precisar das terras pra ter pasto pra carne. E vamos precisar das terras pra ter espaço pra soja e cana. Que tal tirar um pouco daquele mato inútil na Amazônia? Porque carro não anda sozinho! E o petróleo não é nosso, mas o etanol é a salvação do Brasil!

Mas deixa um pouco do mato, porque vamos precisar da Amazônia pra pegar umas plantinhas…porque não sei por que, não me sinto muito bem nesse planeta…um remedinho vai bem.

Me dá! Me dá! Me dá!
Ah, me esqueci… Ainda precisamos de mão de obra. Já descobriram que sangue, suor e lágrimas, juntos, compõem o combustível mais precioso do planeta: O humanol. E como sintetizamos o humanol? Emprego.

Perfeito. É a solução pra tanta gente que nasce por aqui se ocupar! As corporações de pilha oferecem emprego, muitos empregos, milhões deles. Pagam bem pouquinho, e em dia, o suficiente pra viver mais ou menos, e pra achar que a vida sem ele é pior. Diferente dos outros recursos inanimados, o humanol precisa de estímulo. Então dê a ele parte do Éden. Mas coloque no futuro essa parte, aí ele rende mais.

Agora, vamos dar nomes aos bois. Porque isso não é lenda nem brincadeira de criança. O ROUBO LÍCITO dos bens naturais DE DIREITO A TODOS OS SERES HUMANOS – pra não dizer de todos os seres vivos – tem seus responsáveis. Pessoas que, por herança da pré-história que AINDA vivemos, encontram- se com o poder de decidir por milhões de outras pessoas, sem ponderar os desejos e necessidades dessas mesmas. Apenas uma breve listagem desse rebanho:

– Vale do Ribeira: Grupo Votorantin, representado pelo ilustre cidadão brasileiro, o Sr Antonio Ermírio de Moraes, que insistem em construir a Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto, que apenas beneficiará sua própria empresa, a CBA (Companhia Brasileira de Alumínio). E também a Multinacional Bunge (em Cajati) – poluição do rio Jacupiranguinha – apenas um exemplo do quão interessante será um pólo industrial na região. Mas os empregos…

– O Governo Federal , que adotou o discurso “desenvolvimento é tudo”, em ações como Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) , apoiando agronegócio, hidronegócio, transgeniconegócio e qualquer negócio que faça economista bater palmas e gente pagar caro. Alguns exemplos:

1) Apoiar a construção de três megahidrelétricas no Rio Madeira, o segundo maior rio da Amazônia. Junto, nossas amigas Odebrecht (17,6%), Furnas Centrais Elétricas (39%), Construtora Norberto Odebrecht (1%), Andrade Gutierrez (12,4%), Cemig (10%) e um fundo de investimentos formado por Banif e Santander (20%).
2) Combater o desmatamento com a magnífica idéia de dar a concessão de florestas públicas para exploração comercial sustentável, praticamente deixando lobos pastoreando ovelhas.
3) A controversa transposição do Rio São Francisco (cujo benefício para a população é apenas 4%)
4) Junto ao Governo do estado de SP, ampliação do Porto de Santos , além da construção do porto privado na Barra do Icapara, em Iguape, e do Porto Brazil, em Peruíbe , pela EBX (não preciso citar o impacto junto às comunidades caiçaras locais)

– Alguns de nossos funcionários públicos que governam em benefício do privado, como o Sr Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura, o governador Blairo Maggi (PR-MT), maior produtor de soja do país, e o governador de Rondônia, Ivo Cassol, que apóiam indiscriminadamente o desmatamento e exploração da Amazônia. Mas são bem recompensados. Por exemplo, há uma expectativa do mercado de frigoríficos de investir, nos próximos dois anos, cerca de R$ 1 bilhão em Mato Grosso. Vamos precisar de pasto, não?

– Os governos anteriores, de Pedro I ao PSDB do FHC, que desde 1500 d.c já montaram a banquinha de vende-se bananas a preço de banana, e cultivaram com afinco o campo de impunidade que permite esses absurdos – em nome da ESTABILIDADE NACIONAL! HAHAHAHAHAHAHAHA

– Isso sem falar das corporações dos veneninhos para o bem-estar das lavouras: Monsanto, Bayer, Novartis-Syngenta, Du Pont e Advanta, com sua tecnologia Terminator (genes manipulados)

Para nosso azar, essa lista é muito maior. Esses exemplos servem quase para “tomar a parte pelo todo”. O buraco é bem mais baixo.

Para nossa sorte, a cegueira é contagiosa, mas não é total. Há muitos movimentos, redes, pessoas que dedicam suas vidas a evitar que esse desastre iminente aconteça. São pessoas que não acreditam na tirania vitalícia dos grandes grupos, que não se intimidam com o seu aparente poder. E que, mais do que nunca, precisam de pessoas que também possam se somar, não apenas “fazendo sua parte”, mas fazendo em conjunto a grande parte nos toca: evoluir da pré-história. Não apenas na tecnologia, não apenas gerando pilhas, mas abrindo a mente, compartilhando, vendo o planeta e todos os seus seres não mais como um “para mim”. Isso tem o seu tempo, mas já acontece agora. No tempo presente. Eis apenas algumas, de muitas “luzes no final do túnel” da nossa terra:

Movimento dos Ameaçados por Barragens – MOAB , Movimento dos Atingidos por Barragens (Nacional), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra – MST, Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Equipe de Assessoria e Articulação da Comunidades Negras do Vale do Ribeira – EAACONE, Coletivo Educador do Lagamar (Cananéia, Ilha Comprida, Iguape, Pariquera-Açu), Associação Rede Cananéia, Coletivo Jovem Caiçara, Partido Socialismo e Liberdade – Núcleo Vale do Ribeira, Movimento Humanista, AVV (Associação Vidas Verde), Rede MangueMar Brasil, Deputado Estadual Raul Marcelo, Comitês da Baixada Santista Contra Tijuco Alto, São Paulo Contra Tijuco Alto, Campinas contra Tijuco Alto, Instituto Socioambiental, Pastorais de Igreja Católica, Bispo da Diocese de Registro Dom Luís. Coletivo Alternativa Verde (CAVE), o Sindserve/Cobase, Rede Eco-caiçara, individualidades libertárias, membros do Centro dos Estudantes de Santos (CES), sindicalistas autônomos e anticapitalistas, ACPO – Associação de Combate aos Poluentes Orgânicos, Mongue – Proteção ao Sistema Costeiro, Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (Ibap), Aldeia Indígena Piaçaguera, IDESC – Instituto para o Desenvolvimento Sustentável e Cidadania do Vale do Ribeira , Associação Rede Cananéia, Associação dos Moradores de Bairro Ariri, além de inúmeros ativistas independentes, comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras por todo o país.

de que lado?

quero criar MAS É FODA, tenho que fazer tanta coisa…
quero evoluir MAS É FODA, a vida tem suas mesquinharias
quero acreditar MAS É FODA, quem confia pode ser traído
quero ser feliz MAS É FODA, tem horas que o mundo cai
quero mudar o mundo MAS É FODA, tem horas que faltam forças
quero sorrir mais MAS É FODA, tem dias que não dá vontade
quero ser generosa MAS É FODA, às vezes dá medo da falta
quero ser quem eu sou MAS É FODA, tem horas que é difícil ser firme

tem horas que é difícil ser firme MAS FODA-SE, quero ser quem eu sou

às vezes dá medo da falta MAS FODA-SE, quero ser generosa
tem dias que não dá vontade MAS FODA-SE, quero sorrir mais
tem horas que faltam forças MAS FODA-SE, quero mudar o mundo
tem horas que o mundo cai MAS FODA-SE, quero ser feliz
quem confia pode ser traído MAS FODA-SE, quero acreditar
a vida tem suas mesquinharias MAS FODA-SE, quero evoluir
tenho que fazer tanta coisa… MAS FODA-SE, quero criar