pequena ode à real democracia

As eleições estão aí. E como ficar à parte é uma escolha que determina sua parte, decidi entrar no jogo das opiniões e tornar público meu ponto de vista.

Nesse domingo encerra-se mais um espetáculo democrático. Ainda vai ter dedo no olho, certamente, no último round em rede nacional. Luta de gladiadores, numa arena em que nos permitem brincar de Cesar e apontar polegares: cada um, um dedo: voto.

Sim, essa democracia é um avanço, se formos comparar com monarquias absolutistas, ditaduras e outras pérolas de nosso lento engatinhar. E hoje, tecnicamente, qualquer um de sangue vermelho pode se candidatar. Contanto que legalize um partido, tarefa que alguns deixaram bastante árdua. Ou arranje um que te acolha, e se for eleito, reze pela sua vida na corte.

Ainda assim, é uma democracia.

Democracia representativa. Democracia de avatares. Não de fato, real, horizontal, com o poder na mão de todos. De todos?

Em outras épocas, eu usaria o termo “poder popular”, mas a palavra popular é agora pronunciada por quem não se sente popular, o que não é meu caso. Faço parte dessa grande massa-classe-média que trabalha e sonha com dias melhores, na mais torpe das hipóteses, ou faz coisas para que esses dias melhores realmente aconteçam, numa versão mais lúcida. Mas também reconheço que tive certos privilégios fundamentais: um pouco de estima acima da média da classe, por ter tido a sorte de ser amada e ter tido acesso a alguns bens. Nem falo de geladeiras, carros e televisores, mas um bem maior: educação e senso crítico.

Mas voltando à vaca fria: Nossa ilusória sensação de poder. Poder escolher, como se estivéssemos livres de uma ditadura velada. Ou, para usar um termo menos datado: como se estivéssemos livres da dominação. Porque apesar de reconhecer a evolução histórica, apesar de preferir ver um assalariado a um escravo ou a alguém pendurado numa fogueira pra ser assado e comido, juro que às vezes me pergunto se minha casa não é uma caverna estilizada. A casa-planeta, digo. Desculpe, alguém já disse isso. Platão?

Mas sou otimista. Apesar.

Sou otimista com bases realistas. Porque já experimentei o poder HORIZONTAL. Já vivi momentos em que um grupo circular, sem reis ou vassalos, conseguiu tomar decisões coletivas preservando individualidades. Preservando a diversidade. Um equilíbrio sutil, suave, que só é possível vindo de um lugar: o além-mim.

O além-mim é um lugar de transcendência. Diferente do não-eu que caracterizou muitos coletivos em que indivíduos sentiam-se massacrados, e depois vieram cobrar essa dívida num individualismo crônico. O além-mim é a integral preservação do eu e suas particularidades, mas com um salto além, com uma nota acima, uma frequência mais alta. Uma nota em uníssono com diferentes vozes. Um consenso que não vem da cabeça, de um cálculo, de um raciocínio, mas se uma necessidade profunda de unidade interna.

O além-mim, feito de tantos, nunca é estático. A respiração de um faz o conjunto se mover e novamente, instavelmente, se reequilibrar na ponta de um só pé. Impossível parar, estagnar. O consenso é uma dança infinita, não para nem na menor unidade de tempo.

Já vivi momentos assim, de além-mim. E já os vivi em grupo, num maravilhoso além-nós.

Depois o eu cobra sua parte desse latifúndio, faz cálculos, como é típico de sua natureza. Totalmente compreensível, sem ele estaríamos mortos. Ele é o que nos resta de nossa porção cro-magnon, que garantiu nossa sobrevivência por séculos. Não, não atiro pedras ao eu. Ele, o eu, me trouxe até aqui. Mas aqui não é o fim, e os lugares por onde tenho que entrar – os lugares por inaugurar – me pedem uma nova consciência.

Nesses lugares, a democracia é, de fato, real. Não faz sentido algum escolher representantes. Assim como não faz sentido, hoje, eleger alguém para dar um beijo no ser amado. Eleger alguém para mergulhar na cachoeira, ou para as questões mais simples, como dormir e acordar. Ou morrer.

Mas hoje, época em que avatares vivem a vida em second life, não é de se estranhar. Não é de se estranhar que não se ache estranho um modelo em que alguns decidem o destino de milhares. Impossível abarcar todas as necessidades, ainda que a intenção seja a melhor. Ainda que assim fosse. Ainda que um eleito fosse o eleito de Deus, ainda que Deus fosse.

E olhe que não estou contando as más intenções. Ou, para ser mais realista, as intenções fracionadas. Porque só os vilões da Disney reconhecem a si próprios como “maus”. Mas sim, há grandes equívocos movidos pela cegueira, pelo descaso. Pimenta nos olhos de outros nem mais é refresco: não se conhece. Notícias chegam filtradas na corte. Mas isso não é ignorância inocente, é opção.

Não creio da democracia representativa, assim como não acredito em chefes, mandantes, reis, ou qualquer coisa que seja uma representação externa de uma real divindade que só existe no mundo interno. Aqui fora, estamos ainda atemorizados pelos raios que desconhecemos, na desolação de quem ainda se busca. Criamos Olimpos, é verdade, na ilusão de trazer próximos os deuses, na ilusão de não nos sentirmos mais o desamparo da pergunta: Quem somos? Para onde ir? Ou, simplesmente: ter alguém a quem erguer os braços e pedir a bênção. Nós, nação sem pai. Nós, nação de mães trabalhadoras, nós criados por avós, carentes de referência. Como nos tirar o que resta, a esperança de um salvador? Ou o prazer sadomasoquista de ser pisoteado por déspotas para depois poder atirar-lhe pedras? Os bodes expiatórios são tão antigos quanto as prostitutas.

E eu, que tanto quero o direito, a escolha, e quantas vezes agradeci pela escolha ser alheia? Poder delegar a representantes o fardo da decisão. Um fardo regado com a calda doce do poder, mas ainda assim, pesado. Se não o fosse, não esgotaria tanto quem o carrega. É possível, então, a horizontalidade dos círculos?

Sim, eu já experimentei. Ainda que por tempo limitado, em que um desejo de algo maior se faz presente, compensando e sobrepassando, em importância, nossa carência vertical. O sentido de comunhão é tão verdadeiro quanto as pedras, mas parece efêmero por sua leveza no tempo. Porém existe. E a real democracia virá justamente daí. Por enquanto, em pequenos grupos. Por enquanto, em espaços sagrados onde se suporta a elevada vibração do além-eu, do além-nós.

Enquanto isso, voto, elejo, delego. Enquanto isso.

A tempo: nunca, jamais em toda a vida, votaria no Serra. Votarei no PT com muitas ressalvas, pois apesar de reconhecer as boas reformas vindas de sua história, ainda não é a revolução que espero. Sua raiz sindicalista negocia bons acordos para a massa assalariada, mas não questiona o modelo: por que precisamos de patrões?

Então, entre ressalvas, continuo construindo a anarquia imaginada. E torcendo para que a lucidez e o amor caiam como um raio no coração de quem, agora, disputa a coroa.

aprendendo

(o) Eu

que na sua (minha?) porção rainha

já pisou sobre tapetes estendidos

escarlates

Hoje, elevando, vendo

pisei sobre tapetes púrpuras e amarelos

das ruas em primavera

estendidos não para, mas com.(igo).

Juntas, as cores caídas e eu, agradecemos, horizontalmente, ao tempo de flores.

dos cantos

Minha mãe disse que quando… Antes de eu nascer, durante sete meses, eu chorava na barriga dela todos os dias, às 3 horas da tarde. Mas minha mãe não contou isso para mim. Só depois que eu fiquei sabendo. E eu nascia numa sexta-feira, às 3 horas da tarde.

Até que um dia, eu comecei a ouvir um canto. Você ouve?

Eu ouvia sempre, sempre, chamando. A água era pouca, tinha que ir buscar no rio, todo dia, ainda criança. Punha o pote na cabeça e ia, doida pra ouvir o barulho da água batendo aqui em cima na volta. Nem ouvia mais meu pai gritando quando saía, porque já estava escutando era a água…

Aperta o passo, minina, que a chuva ainda tá longe. Aperta o passo, minina. E pega a trilha mais curta, sem essa de pará pra ver bicho ou frô seca no pasto. Se apresse, ô minina, e vem com pão e a cachaça, que o tempo não passa sem essa reza pra se esquecê do que se é.

Mas eu parava, parava que só, só pra ver passarinho. E pegava uma pedra e atirava era no galho, não por falta de mira certa, mas por querer ver o bicho voando. E ele voava, crente que fugia da mira, e eu mirava c´os olhos tão longe que nessa hora lembrava: Tô indo, pai! E voava também, c´oa água na cabeça e a cachaça na mão pesando doído, que sabia que dali a uns gole ele virava o capeta, e depois chorava fundo até dormir pro dia seguinte.

Depois de muito tempo eu entendi a sede que meu pai tinha. E aquela água bateu tanto no barro da cabeça que virou um canto comprido, e eu voei por cima do mato seco com promessa de ver o mar.

Ver o mar… Um monte de água salgada que nem pra beber serve… O que é que move a gente? A mágica? A ilusão? O sonho? Ou a mentira?

abrindo as portas do quarto escuro

Tenho medo do passo em falso

Enquanto deveria temer a certeza

pois não é o pé em suspenso, vacilante e instável, que leva ao passo adiante?


Temo as mudanças

ao invés da estagnação.

Ao contrário, a permanência me conforta

as claras respostas vindas das provas concretas.


Peço para que se cale minha dúvida

meus questionamentos,

conflitos.

Que me deixe em paz nessa ilusória permanência de quem recua frente a ele


O medo


Eu, que deveria temer a realidade

temo a mudança

Eu, que deveria temer a certeza,

torturante necessidade

do acerto,

calo minha infantil curiosidade.

Minha intransigente faísca que me impede a certeza absoluta de coisa alguma


Eu, que deveria

deverei,

devo. (embora não saiba o que)


Tenho medo do escuro

mas não entendo o que é a luz.

Só, a sós, sinto seu sibilar

ao passar acerca o livre vento da mudança nas horas boas e mágicas em que o medo se veste de paz.

E dá lugar à fé.

Às vezes, ao firmar o céu,

A gente tem vontade

Quase necessidade

De ver além de estrelas.

só por hoje…

aproveita o feriado e se dê um presente. não, a gente não é mais criança, talvez até esteja ocupado em dar aos filhos, sobrinhos, garotada em geral, um dia especial.

mas hoje eu percebi que às vezes “trabalho de ser mãe”. trabalhar de brincar?

então pelo menos por hoje vou lembrar do que é brincar de verdade. perder a noção do tempo, da limpeza, de quem se é. porque, em sendo criança, quem se é ainda nem é com tanta força, só depois se fica apegado.

sentir a vida como presente, êxtase, dádiva.

sentir o dia passando sem perceber que o dia passou.

do amor em caos cruento I

(*)

Sente

O vapor gelado pelos dentes

sente

a urgência de não esperar a permissão

permita

o selvagem quase sepulto

evita

o perverso da submissão

Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso

recusa

o que é pudico (puto)

mesmo que pareça recato

enxota da alma toda a obediência

dispa-se em meia-noite de lua

no meio da noite do medo. no som da noite do medo.

nem que seja para uma contemplação de si mesma

Resgata a divindade

ser. exatamente

o que a Terra chama

resgata

toda a força que umidece

mas não apenas chora

que empalidece

mas de prazer


Amote a mim

e por isso,

só por isso

também a ti.


(*) esse, entre outros textos, fazem parte da minha primeira experiência como dramaturga. Um processo colaborativo com a amiga Ana Roxo, ainda na ECA, há exatamente 10 anos. A Praça do Relógio estava tomada pela primavera, e na cena final atores saíam correndo de trás de flores gigantes gritando EU TE AMO, entravam num carro e iam embora. uma coisa deliciosa.teve gente que achou besta, mas a gente amou, literalmente.

Um momento especial da vida, mesmo. Essa é a peça que ainda talvez um dia a gente faça.