prazer secreto

quer saber? parte de mim vai ficar no mistério, peixe fora da armada.

livre de todas as redes, teias, conexões.

tão, tão bom dormir nesse amparo de não se saber por inteiro!

para quem só poderia ser

Quando eu aprendi a sonhar, não sabia pra que mar esse rio correria. Tinha vontade de ser, e era só.

Sonhava com amor eterno. Sonhava com causas nobres. Sonhava com mil bocas me beijando, uma para cada um que meu olhar percorria em desejo adolescente, inconstante, mas intenso e fiel no momento em que manifesta. Eu sonhava com um amor gentil, esculpia um homem quase irrealizável com um coração maior, um pouco maior que o normal.

Um dia , você me apareceu, ou eu que apareci, sei lá. Fui eu que saltei sobre você, como fazia na época, cansada de ser presa de espera na torre dourada. Há muito tinha perdido os sonhos de princesa. Sonhava só com alguém com o coração além da conta, exaurida que  estava de tantas batalhas perdidas. Ou ganhas. Toda batalha, em si, já era uma perda, pelo menos nesse campo amarelo. Que nele brotassem flores, sem respingos de tinta vermelha.

Desse sonho chegou você, também vagando entre devaneios parecidos. Chegou e plantou bandeira no meu sonho, rasgou a terra com uma frase já quase banal: eu te amo. E seria mais uma das tantas proclamadas, jazidas no deserto das palavras vazias, se não fosse dita com tom de sentença, com a coragem de quem encerra a frase num ponto. Não era declaração disfarçando carência,esperando retorno. O ponto final concluía, delimitava, seu sentido, seu significado absoluto e completo de servir apenas ao seu significado: amar, e só.

Rasga, meu amor, agora, a pele, como quem já me feriu a terra. Penetra novamente nesse mundo das palavras mudas, dos toques umedecidos pelo sal da gente, pelo gosto de gente fora de si. Chegue novamente com a delicadeza de quem sopra chama nova, colhida do fogo em plena ventania. Protege, com as mãos, essa alma nova, com promessa de fogo eterno, mas sempre delicado, e sempre sujeito às cinzas. Revela sua alma desvairada, febril, liberta o seu ser dessa febre vivendo a paixão do seu desejo. Aceita a vida com toda sua força e fluxo, jogue-se de costas na corrente. Beija a vida que te abençoa, reconhece esse pulso no outro, na boca ao lado, sempre ao lado, esperando velada entre os véus da rotina. Desnuda, revela, desvela, torna essa força novamente sua, toma cada lábio separado e junto, bebe dessa vontade que também é minha.

promessa de outono

Outra eu vaza pelas grades

sutil, espreita

gotícula, quase ainda umidade,

passa pelas frestas, quase ainda invisíveis

das invivíveis represas:  fortes, firmes, fiéis (ao reter);

frágeis, falíveis, fumaça cortinando (ser)

aprendendo a separar

o que eu quero

o que eu acho que quero

o que eu aprendi a querer,

o que eu acho que deveria querer.

(…)

e que separar não é tão fácil quanto parece,

e que essas opções não são tão claras como poderiam,

e que a mente trai o corpo, às vezes,

que os moralismos traem a gente, sempre.

crônicas de kung fu II – A gente morre (ou vive) pelo coração.

Havia uma brecha, sei lá quando ou onde. Talvez eu já tivesse dormido assim, ou sonhado com alguma coisa estranha. Nada que eu tenha conseguido pensar, ou aprofundar, ou ouvir de mim. Acordei como todos os dias, talvez mais preocupada que o habitual pelo (já quase habitual) excesso de coisas, talvez estivesse pendendo pra fora do eixo, sem guarda. Se nessas horas entra palavra estranha, que soa brusca demais pro cedo das horas, evidencia a fissura. Não sei. Mas se até vento batendo nas costas de surpresa pode dar em resfriado, torcicolo ou coisa pior, assim é a palavra dura dita de relance, ainda acordando, ainda sem estar inteira.

Assim cheguei na aula, mesmo sem saber, ou sabendo sem dar importância às coisas pequenas de sempre. O corpo acolhe tudo, a mente disfarça, finge que não. Não é nada, sempre nada, até que um dia acorda espantada com coisa antiga que queria não ver. Assim cheguei, meio quebrada no peito, por coisa pouca, pequena, cotidiana. Cansaço de coisas somadas, de excessos pendentes, de cuidados não ditos.

No meio do aquecimento, a coisa cresce. Socando o ar, em exercício, lá fui eu para o meu deserto árido das impotências. Um deserto. Tudo bem que havia o cansaço físico e a cabeça já estava atrapalhada, mas não é nessa justa hora que se abrem as portas para os invisíveis? E ainda há quem pense que viagem no espaço/tempo é coisa de máquinas. Lá fui eu, sei lá pra onde, de corpo quebrado, equilíbrio cruzado, socando inimigo impalpável e só querendo me jogar no chão, curvar o corpo em meia-lua e semente. Precisando de abraço alheio, com vergonha daquele lugar, e como é possível sentir vergonha de um desejo de amor? De acolhida? Que dureza é essa que não permite o amparo?

Até que chegou num ponto impossível de coordenar, não havia mais braços, pernas, quadris, era uma massa incontrolável querendo desaguar. O peito, coração vazio. Aí percebi que do quadril vem o movimento, e a força vem do coração. Não é frase solta, emotiva, feita, é fato real, concreto. Coração é o centro do centro, e não à toa, fica no meio de tudo, e é de onde a gente começa a existir. Um ponto que pulsa, em big bang, daí viemos. De lá somos. Sem lá, tudo se desmorona.

através

eu filtro o mundo de fora por lentes: câmeras, óculos, crenças e outros enquadramentos.

o de dentro, por personagens.

será que a realidade me queimaria os dedos, os olhos, a língua, se não houvesse intermediários?

ou tem coisa que a gente só capta assim, pelas bordas, pelas voltas, no tempo fora das horas?