min’s gerais

faz tempo que não me dou a mineirices, até porque rótulos me apertam depois de uma estação.

mas não sei se por conta de recentemente mexer em pedras, não sei se por conta de ver fotos de amigos antigos em Ibitipoca, não sei se por conta de qualquer outra coisa, me deu vontade de montanha. de café e de conversa à toa. me deu vontade daquele sotaque calmo, diminutivo, que hoje só me resta vagamente.

assumo: deu saudade daquele tempo sem pressa.

não sei se por conta de saber que a casa onde cresci e fui feliz vai ser demolida e virar prédio. até achei que nem ligava, morando em SP isso é até normal (?). mas será que tem parte minha chamando? Vem aqui um cadim…

não pode ser, né, que parte da gente fique gravada em alicerces de coisas… é só tijolo, areia e concreto! com canos por dentro, tinta por cima, e anos, anos de vida compartilhada, desenhos de giz no quintal traçando caminhos secretos, traçando o mapa do tesouro que um dia eu iria colher. casa sempre cheia, de tantos amigos, de tantas brincadeiras. prontochorei. sua besta, achou que ia passar imune à demolição do concreto da memória?

vou pegar esse trem pra dar uma volta, então, e saber.

carta-prólogo de mim para mim

ainda pra peça.

Querida(o) amiga(o),

Há muito tempo aprendi que não tem como se transmitir registros ou sentimentos. Isso acontece por ressonância, e só o que podemos fazer é vibrar. Então te mando essa mensagem, esperando que ela reverbere no seu vazio. Talvez ainda haja uma partícula de alguma coisa que possa conduzir o dentro de mim para dentro de aí, de você, que também sou eu. Ou serei, ou fui. Sei lá.

Não vou ocupar tanto seu tempo, eu sei que vc tá ocupado. Eu sei que tem trabalho da faculdade, eu sei que também tem trabalho fora, estágio, eu sei que carta tá fora de moda e minha letra é horrível, mas eu não sei escrever em arial. Eu sei que você diz que não tem mais tempo de inventar outros mundos, porque nesse já tem muito trabalho. Eu sei.
Mas outro dia eu te peguei sonhando, lembra aquele dia que você quase perdeu a hora trocando de roupa no quarto? Naquele dia você abriu uma fresta no tempo e eu te raptei, e você nem viu, porque achou que só tinha passado um segundo olhando praquele brinquedo que você nunca lembra de tirar da estante. Você não entendeu como foi que a hora passou tão rápido, porque não lembra da volta que deu comigo. Não lembra da volta que fez naquele tempo sem horas. Sem números. Naquele tempo de sempre presente.
Eu sei que pode parecer confuso, mas no começo é assim mesmo. É que a gente deu vinte e um giros no tempo da experiência. Naquele momento em que ninguém tinha que fazer nada, e a vida passava pela pele como se fosse gelatina. Lembra daquele tempo permeável? Em que nada parecia melhor do que hoje parece idiota. Ou antigo. Aquelas experiências de verdade que entram pelos poros e marcam a pele por dentro, que nem tatuagem, formando o mapa de quem a gente foi. Ou será. Ou ainda é.
Por isso, eu evoco seu tempo de agora pra te dar um presente. Virar sua pele do avesso e mostrar o que fica de dentro pra fora. Mostrar as marcas do que ficou, dos momentos em que você realmente viveu. Porque sentiu. Porque não tinha que fazer. Porque não tinha que nada. Porque só se deixou ir.
Que nem aquele dia em que você fez o pedido praquela estrela que pisca só durante um segundo no exato segundo antes de nascer o sol. Lembra que você ficou esperando, tão cheio de desejos e expectativa? Lembra da duração de cada um daqueles segundos? Lembra do que passou? Do que passa? Lembra?

PARA VER O SOL

Essa cena foi escrita em processo colaborativo com o queridíssimo Otávio Dantas e as alunas do grupo Tangerina (teatro da ESPM).

Me diverti horrores escrevendo. Delícia de viver isso aqui!

Três meninas (6 a 8 anos de idade) dormem em um quarto. Aos poucos vão abrindo os olhos com um sorriso “sapeca”. Fazem sinal de silêncio umas para as outras. Vagarosamente e, na ponta dos pés, caminham até a porta. Observam fora do quarto se comunicando com gestos. Fecham a porta e comemoram alto. Gritaria total. Se abraçam, pulam e dançam.

Sheila – Finalmente, finalmente!

Manu – Põe a música! A música!

(Manu corre e aperta play em um aparelho de som.

Todas dançam muito animadas uma coreografia em cima de uma música das Spice Girls. Até que uma delas interrompe.)

Sheila – Pára, pára!

(Manu corre para desligar o aparelho).

Sheila – Burras! Burras!

Isa – O que a gente faz?

(Vão todas novamente averiguar em silêncio o que ocorre no corredor do lado de fora do quarto.)

Sheila – Graças a Deus ninguém acordou.

Manu – Tem certeza que ela não desconfia?

Sheila – Do nosso plano?

Manu – A Isa falou bem alto hoje.

Sheila – A mamãe é meio desligada.

Isa – Eu, né? Você é que foi lá perguntar pra ela que hora que o sol nasce.

Sheila – Ela nem desconfiou, sua besta

Manu – A gente falou que era pro trabalho de ciências.

Isa – Tá bom… muitos anos de planos quase vão por águadaixo.

Manu – Água abaixo, Isa.

Sheila – Tá tudo certo, gente, eles tão dormindo. Desencana!

(pausa. As três sentam no chão lado a lado)

Manu – Quantos minutos será que demora?

Sheila – Sei lá. A gente sempre dorme e quando acorda o sol já tá lá no céu, né?

(Sheila tem uma idéia)

Sheila – Quantos sonhos você tem?

Manu –(contando) Ser bailarina, ser bonita, ser filha da minha mãe pro resto da vida…

Sheila (cortante) – Não, ô! Eu tô falando dos sonhos que vc tem de noite!

Isa – Eu tenho um bem grande e outro maior que o infinito!

Sheila – Não é maior que o infinito senão você não acordava nunca!

Manu – Mas por que vc quer saber disso?

Sheila – Pensa bem: Se a gente dorme e sonha e acorda no final do sonho, pra saber quanto tempo  esperar a gente tem que saber o que?

Manu – Sei lá, ué!

Isa – Fala aí, ô!

Sheila -(em tom de revelação) Quanto tempo dura um sonho!

(pausa para pensar)

Manu – Sei lá, ué, nunca contei!

Isa – Se for pesadelo demora mais.

Sheila – É sério, quanto dura?

Manu – Assim…Quantos minutos?

Isa – Ah, eu queria que um sonho demorasse muitos poucos minutos!

Manu – Eu queria que um sonho demorasse a vida toda!

Isa – Tá louca, ô? A gente só ia ver o sol nascer velhinha!

Manu – É verdade! Acaba logo, sonho, pro sol acordar de uma vez!

Sheila – Acaba sonho! Acaba!

Isa – Ô suas tchongas, isso só funciona se a gente tivesse dormindo!

Manu – Ah é, né?

Sheila – E agora? Como é que a gente conta o tempo?

Isa – Desencana, vamos brincar!

Manu – Até o sol nascer?

Isa – É, né?

Sheila – Se a gente desencanar, ele passa rápido!

Manu – o que que passa?

Sheila – O tempo, ô!

(silêncio)

Isa – Brincar, gente!

Sheila – E agora na lista o que é que tem?

Todas (gritando)– Maquiagem!

Isa (não conseguindo falar direito) – Vocês vão ficar… tão… bonitas… e… ai!

Sheila – Isa, você não pode.

Isa – Não posso por que?

Manu – Porque você é pequena!

Isa – Mas eu tenho uma boca bem grande, que nem o lobo mau. (falando alto) pra que essa boca tão grande? Pra falar com a ma…

Sheila (cortando) – Tá bom, tá bom, cala essa boca!

Isa – Peça perdão!

Sheila – (contrariada) Perdão.

Isa – Do jeito certo, por obsésquilo!

Sheila (fazendo uma reverência) – Perdão, senhorita!

Manu – Agora chega, né, Isa?

Isa – Batom! Batom!

Sheila – Gente, eu peguei várias coisas da minha mãe, tipo interna-ci-o-nal! Isa – Eu trouxe isso.

Sheila – Uau, uma sombra!

(Manú põe batom de frente à um espelho, enquanto Sheila passa a maquiagem em Isa.)

Sheila – Azul, Vermelho, Rosa, Laranja… bastante, bastante, bastante…

(Isa se vira e olha no espelho. Grito. As duas tapam a boca dela)

Sheila – Olha isso aqui agora: sabe que batom é esse? Esse batom é de fora, United States of …. (piada que não consegui ouvir). Ele é internacional. Sabe qual o nome dele?

Manu – Não.

Sheila – E-V-A-N (ou algo parecido. a brincadeira é ela exagerar num sotaque frances que na verdade não existe).

Isa e Manu (juntas) – Não acredito!

Manu – Eu quero estar muito bonita pra esta noite. Faz a minha sombra?

Isa – Muito lindo o batom!

Sheila – É caro, caríssimo. Faço sua sombra sim.

Manu – Pode passar laranja e verde.

Isa (passando o batom, olhando no espelho) – Combina com vermelho, nossa adorei. Mas falta alguma coisa. O cabelo!

Todas – O cabelo.

(As três juntas começam a arrumar o cabelo juntas. Abaixam a cabeça até inclinarem o corpo pra frente. Continuam falando assim)

Manu – Temos que arrumar porque hoje é o dia!

Isa – É, hoje é o dia!

(As três levantam o corpo para se olhar no espelho, juntas. Fizeram grandes “chucas”com os cabelos. Meio “xuxa”. Uma um pouco diferente da outra.)

(pequena pausa se olhando no espelho)

Todas – (muito animadas) Nossa! Ficou lindo!

Manu – Eu acho que o sol vai adorar a gente!

Sheila – Agora, madeimoseles, para o banquete!

(Todas assumem uma postura afetada, como se fossem grã-finas em torno de uma mesa. Cumprimentam-se com mesuras exageradas. Sheila volta com uma cumbuca com um pano por cima. Puxa o pano, como se revelasse um prato fino. Na verdade, é uma tigela com uvas passas.  Elas seguem na viagem.

Sheila – Caviar?

Manu – Sim, claro!

Isa – Também quero!

Sheila – Como é que fala, madame?

Isa (fazendo biquinho francês)- Também quero, por favor. (ao ver o que tem na tigela) Eca! Credo!

Manu – Ah, Isa, finge que é bom!

Sheila – Mas é bom!

Isa – Não quero vapássia.

Manu – Uva passa.

Isa – Não quero vapassa.

Sheila – Será que já passou todos os minutos?

Manu – Acho que já deu o tempo! Vamos!!!!

Sheila e Isa – Vamos!!

(caminham até a janela que está fechada)

Todas – 1, 2 , 3!!!

(abrem a janela. Silêncio. Apenas alguns grilos e sapos ao longe. Ainda está de noite)

Isa (tentando alegrar) – Mas o céu tá tão bonito.

Manu – Mas só tem estrelas.

Isa – Mas estrelas estão tão lindas. Elas brilham tanto quanto o sol.

Sheila (decepcionada) – Quanto tempo passou? Às vezes já está quase clareando.

Manu (olhando o relógio) – São 21h40. Tem cara de que ainda demora.

(Todas  em clima de decepção total)

Manu – Mas agora acho que vai passar mais rápido.

(Todas falam juntas alguns lamentos)

(Pausa)

Sheila – Bom, vamos brincar de outra coisa então.

Isa – Tipo?

Sheila – Ah, sei lá… A gente podia… conversar…

Isa – Que mais?

Sheila – Conversar.

Manu – A gente pode fingir que está contando estrela no teto.

Isa – Isso. Enquanto conversa.

Sheila – Legal, legal! Vamos!

Manu – Ai, vai ser super legal.

(deitam nas camas de barriga pra cima)

Manu – Por que será que tem tanta estrela, né?

Sheila – Ué, eu sei! porque o céu é infinito.

Manu – E daí?

Sheila – Precisa de muita coisa pra cobrir o infinito, né?

Manu – E por que será que o infinito é tão grande?

Isa – É por causa dos micóbios.

Sheila – O que?

Manu – Micróbios?

Sheila – E o que é que tem a ver, Isa?

Manu – Ué, os infinitos enormes e os infinitos pequenos.

Isa – A mamãe falou outro dia que a gente tem infinitos micóbios tão infinitos quanto as estrelas do céu.

Manu – Que bonito!

Isa – Então era bom tapar a boca depois de tossir pros micóbios não fugirem da boca.

Sheila – É na hora de tossir, ô!

Isa – São infinitos os micóbios e o céu.

Sheila – Ela não para de repetir essa palavra infinita!

Isa – Eu gosto de falar infinito.

Manu – Eu gosto de falar borboleta.

Isa – E micóbio.

Sheila – Eu gosto de falar pum.

Manu – Mentira! você não gosta de falar pum, tá inventando agora!

Isa – É, você tem nojo de pum.

Sheila – Tenho nada!

Isa – Então por que quando eu solto pum você reclama?

Sheila – Porque pum da gente tudo bem, mas de outra pessoa não dá, né?

Manu – Será que a gente tem infinitos puns?

Sheila – Lá vem você também com esse infinito!

Manu – Mas deve ser, né? Eles não acabam nunca.

Isa – Que nem os micóbios

Manu – Que nem as estrelas

Sheila – Que nem os sonhos.

(pausa)

Isa – Será que o sol já chegou?

(todas correm para a janela. Voltam a fechar a cortina, decepcionadas. Voltam à posição anterior, deitadas na cama)

Sheila – Não aguento mais ver estrela no céu!

Isa (apontando pro teto)- Mas ó, nesse aqui tem estrela maior que o sol!

Manu – Nossa, que lindo!

Isa – Não é?

Manu – Mais brilhante que a lua e o sol todos juntos!

Sheila – Uau, eu tô vendo várias coisas!

Manu – Eu tô vendo um dinossauro na nuvem.

Sheila – Dinossauro não. É um castelo!

Isa – Ah, eu tô vendo um coração. Um não, vários, vários!

Manu – Ai, um coração. Gente, o João. Ele é tão bonitinho. Sabe o que ele me deu? Um bombom. Mas não foi um bombom. Foi um sonho de valsa.

Isa – Nossa, o bombom do amor.

Manu – Agora só estou vendo coração.

Isa – O amor é lindo.

Manu – Mas acho que pra namorar ainda é muito cedo.

Isa – (Sheila já dormiu) Amor não tem idade. As pessoas se olham. O coração bate. Dái tem essa vontade de se abraçar, de ficar junto. Ficar junto pra sempre. Isso não importa a idade. (Manu dormiu). Depois casa. Aí, todo mundo de branco. E arrumado, igual a gente. Não acha Sheila?

(olha pra Sheila, pra Manu. Estão dormindo)

Isa – Sol, eu te esperarei até o infinito! Infinitos minutos. Infinitos minutos de tempo, mais minutos que as vapassas. Mais minutos….

(Isa rende-se ao sonho também.)

FIM

oi?

como assim? Há um minuto era 09:00, e agora é 09:46?

quanto tempo tem um minuto mesmo?

para tentar entender

Meu pai tem aquela típica fadiga de quem passou a vida achando que tinha que remendar tudo.

Mas a rede de buracos na teia era enorme. Mesmo para alguém formado em medicina.

Agora, cansado, ele se dedica a descosturar cicatrizes. Vive na anti-cirurgia de si.