para quem não esperava o impossível

Eis que em pleno outono
num fim de um dia,
o inesperado aconteceu:

O menino voou.

Furou a melancolia da tarde com seus dois pés apontados ao alto, com seu grito de êxtase, de quem consegue o impossível. Ria, ria muito, celebrando consigo aquele desatino, aquele vento contrário, o pendular em festa, animado pelo próprio impulso.

Furou minha tristeza dos tempos duros, das tantas injustiças, dos gestos áridos, da fala navalha, do luto carente de espaço, do tempo seco, da vã esperança, do peito vazio.

Atravessou esse vácuo preenchendo o oco,
o grito do menino.

Voou por meia hora, incansável.
Depois desceu, orgulhoso da conquista, e pediu abraço.
Então quem decolou fui eu,
plena de ar novo,
para a terra das infâncias destrancadas.

 

(para Chico)

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