devaneios minguantes

Saiba, menina

Um dia seu frescor será inverno

Entenda, moça,

Que uma estação é apenas evento

Invente, deusa

O tempo de raras belezas

Em que a magia das pétalas recolhidas

Abra seu espírito para o templo de dentro

Para que a segunda primavera seja, de fato,

um jorro

depois da corajosa morte

o Caribe é aqui

 

Esse móvel tem história, uma longa história.
Mas estava tudo escondido sob uma pele desgastada, desbotada, desfiada.
 
Nunca era prioridade essa reforma. Acumulávamos contatos de tapeceiros, pendurados no futuro. Na fila dos boletos, ficava sempre no pé da lista.
 
Enquanto não chegava o dia, eu fazia de tudo pra disfarçar: colocava mantinha por cima (que teimava em deixar à mostra justo a parte rasgada do tecido), e dizia pra mim mesma que aquilo não era tão importante.
 
“É só um sofá, é só um sofá, é só um sofá…”
 
(Mas não colava. Aquele gigante detonado no meio da sala havia se tornando um ícone.)
 
Daí chegou a quarentena. O olhar pra dentro. A urgência da cura, do que pede cuidado.
 
Então ele ousou, o homem-inventor.
Olhou para o corpo rasgado e viu um novo futuro. Pelas suas mãos. Pegou as ferramentas disponíveis, vestiu-se de vontade, e começou.
Um pequeno ajudante, o menino-entusiasmo, somou-se à tripulação.
 
Viraram o casco de cabeça pra baixo, descamaram o tecido doente, e aquela barca revelou sua potencial estrutura. O que estava abaixo era firme. A madeira era forte. Ele iria sobreviver.
 
No lugar do braço, entrou a madeira nova, que estava parada na oficina há anos, apenas esperando sua vez de brilhar.
Aos poucos, a nova forma foi se desenhando: almofadas soltas, madeira aparente. Lixada, envernizada, posta à luz.
Não era uma reforma, era uma revolução.
 
A enorme barca trocou de pele. Ficou com a nossa cara.
O azul profundo do oceano entrou na nossa casa, lavando a memória dos tempos difíceis.
 
Não, não é só um sofá. Nunca foi, nunca será, só.
Esse é nosso navio, e com ele desbravaremos novos mares.
 
(agradecemos aos familiares que nos apoiaram nessa viagem e à Dona Catarina que costurou as almofadas… <3)

o primeiro passo pra fora do ninho

Todos os dias temos a “hora da história”. Um momento de recolhimento antes de dormir. Equalizar a escolha do conto não é fácil, são idades muito diferentes. Mas, com um pouco de ginástica, funciona.
 
Até que chegou o dia.
Quando me dei conta, estava falando sozinha.
Pedro lia um livro, Gabriel outro, e o Chico os imitava.
 
Fiquei puta. Dei chilique. “De que adianta contar uma história se ninguém quer escutar?”
 
Discursei sobre a preciosidade do meu tempo, escorrido inutilmente naqueles minutos inférteis. Bla bla bla.
 
Eles se sentiram culpados.
Eu me senti uma déspota.
(eu fui, de fato, uma)
Quando a rainha de copas abandonou meu corpo, entendi meu ataque de frustração: como ousam não depender mais desse rito, nosso ninho enredado pelas tantas histórias contadas?
 
Como ousam crescer em plena quarentena?
 
O que eu faço com esse espaço aberto, escancarado, na minha vida?
 
 
Ontem li um conto para o Chico, enquanto os dois liam seus próprios interesses.
Todos juntos, no mesmo lugar: nossa biblioteca-cafofo-de-embalar-sonhos.
 
“A gente gosta de ficar perto de você, mãe.”
 
Claro, filho. Claro…
Pode ficar…
Para sempre.

saber da semente

 

Se a semente soubesse
que seria terra sua sina
que seria, depois, socada no escuro,
que seria, nunca mais, soprada nos ares,
brotaria?
fugiria?


se a semente só se soubesse semente
e não também raiz
e não também caule
e não também todo o resto, até as folhas,
até as flores,
(e suas partes feito asas, borboletas)
até o fruto.
(voltando a ser grão com desejo de terra).

Se semente se soubesse só
nunca seria.
ainda bem que elas só são.

o dilema da flor

Como ser flor

Em tempos obscuros

Sem ofender, com a cor,

A nuvem cinza que se pensa apenas pesada?

Que pensa carregar penas,

Mas leva as águas,

Destemperadas

Que, uma vez desabadas,

Soltas na terra, como gozo de claro destino,

Vertem dores, desatino

num singelo e pequenino

(broto)

indicio de novas floradas