Meu inverno é fluxo. Minha paz é vermelha.
renamorados
Nos poucos silêncios que nossa vida louca nos oferece,
às vezes contemplo a chuva de prata que se derrama calmamente sobre seus fios escuros.
Como se o tempo não fosse acelerado
Como se a rotina não fosse intensa
Escorre o pra(n)teado pelos anos a fio, lembrando cada uma das tantas travessias.
Desafios mortais, ora em desertos de acidez,
ora em pântanos de desalento.
Eis o conto de fadas da vida adulta: o heroísmo nos mínimos atos cotidianos,
enquanto a aventura grita dentro.
Combatemos feiticeiras, barba-azuis, manipuladoras, assassinos, descrentes da vida, errantes desafortunados,
Combatemos a inconsciência que nos faz refém das vilanias, aquelas que tomam o corpo do ser amoroso.
Mas essas são as provas.
Esses são os percursos que fortalecem, em corrosão, a força do elo.
Por isso sei que te amo. Porque a cada dia, isso é testado. Pelas paisagens interiores, pelo caos do macroambiente, pelas eternas dúvidas que nos chegam da louca década dos nossos 40.
Hoje, meu amor por você é revolucionário.
Porque ele me faz tentar entender sempre, curar padrões, ir além do simplificado e irreal,
além da primeira estampagem que nos finge o romantismo.
Ele nos brinda, espantados,
Como se Romeu e Julieta tivessem renascido após sua primeira morte.
Talvez sim. ![]()
Café com anjos
Às vésperas dos meus 42, acabo me permitindo uma pausa para o momento presente fora das telas. Surpresa com a terceira (ou quarta?) dimensão, observando a espiral que acompanha o aroma da manhã, agradeço.
Apesar de tantas provações, (tantas mesmo, entre paredes, entre bairros, cidades, fronteiras), vou construindo o espírito nessa forja insana dessa época. Tentando manter o peito aberto, a escrita fluida, buscando a arte acima de tudo (em peças, em livros, em imagens), subvertendo a ordem que aponta o dedo para a distopia, subvertendo a vergonha de ser um fracasso nesse sistema, sobrevivendo à tendência de odiar, dividir, pregar o fim dos tempos.
Essa sou eu, aos meus quase 42, início do sétimo setênio. Essa sou eu, mesclada a tantos e tantas que aprendi a reverenciar. Pois se esses tempos me tiram parte do chão (tudo é líquido, ou até vapor), também me levam ao essencial.
Luto, como sempre lutarei, frente às atrocidades dessa época. Mas não deixo de ver que, com a queda de tantas coisas, também sobe o espírito de comunidade. As tantas redes solidárias que se formam na necessidade, e nunca mais se dissolverão.
Nunca precisei de tanta ajuda, e nunca fui tão ajudada.
A começar pelos meus pais, Alfredo e Dadora, que me apoiam desde sempre, e a quem eu tanto amo e admiro. Meus segundos pais, Socorro e Djair, Minhas hermanas Adriana, Denise, Dayse, Flavia, meu querido bro Alfredo (em seu silencioso cuidar), Cecilia e Amanda, acolhendo Chico em seu novo castelo no Espaço Bem Viver, nossa querida comunidade da Escola Waldorf Guayi, terra do coração-semente, Priscilla e Sabine, pelo sonho engendrado nos infinitos mundos, em imagens da Milá. Alessandra, Isabella, Daniela , Cristiano, Daniela, Marco e nossa esperança (ainda) no teatro. Lizandra, primeira parteira dos meus filhos de papel, abrindo uma nova fase da minha vida. Ivana, Roberta, Adriana, pela irmandade compartilhada, e Maria Esther por manter sempre acesa a chama da nossa amizade nas dimensões do espírito. Laura Belo, Felipe Amato, por provarem que o alimento do futuro é possível e acessível, e compartilharem essas informações pro mundo todo.
Não cabe todo mundo aqui. Tantas e tantas mais pessoas ao redor, tanto a agradecer. Filhos, árvores, livros, a casa, agora uma escola sendo contruída tijolo a tijolo, literalmente. O amor sempre renovado com Djair Guilherme. Nossas difíceis e diárias decisões, tantas depois daquela primeira, em que decidimos expandir nossa egrégora de enamorados em uma família. (Vocês vão ter mesmo 3 filhos? Que coragem, hein?!) Nem em sonho poderíamos saber o que nos esperava, e faria tudo de novo, sempre.
Assim como lá fora da janela os dias alternam entre a chuva e o sol, dentro choro e reanimo. As águas amolecem a terra dura da minha taurinice, me mostram a reverência. Levantam meu olhar para além da terra que aro sem parar, me direcionam o foco para um novo horizonte. Sim, há esperança, sempre houve, se ainda existir o afeto.
E o afeto, ainda bem, só cresce. Assim como os primeiros fios brancos, assim como os fios invisíveis que tecem os anjos ao nosso redor.
Gracias a la vida, hoje e sempre. ![]()
(escrito em 08/05/17)
o menino, o poente e a crescente
epifanias
– A música Construção é sobre um pedreiro que subiu paredes flácidas, almoçou, bebeu e tropeçou depois caiu na contramão atrapalhando o tráfego, o trânsito e o sábado, né mãe?
– É isso mesmo, Pedro.
– É triste.
– (Gabri) Mas é bonita, né?
– Mãe, tem música que conta história?
– É, Pedro, tem músicas assim.
(epifania)
– UAU! Como nunca pensei nisso antes?
(suspense)
Vou fazer um livro de história-música!
(maio de 2016)
a mãe que consigo ser
Na velha Raposo (Tavares) de sempre. Gabriel, no carro, narrando um pesadelo.
– A gente estava na escola, brincando. Daí chegou um homem, roubou o brinquedo do Chico (o irmão caçula). Depois, mãe, você ofereceu carona pra ele. Aí quando entramos no carro, e ele jogou a gente pra fora. Roubou a gente.
– E você viu que ele tinha feito tudo isso? Por que não me avisou que o homem era assim?
– Porque eu fiquei sem voz.
E eu, abismada.
Foi um sonho muito forte.
Refleti sobre seu sentimento, essa sensação declarada de que o adulto responsável (no caso, eu), não conseguia identificar o perigo iminente.
“Será que é assim que ele me vê?”- pensei. “Tão distraída, no mundo da lua, a ponto de não conseguir protegê-lo?”
Culpa é um bicho alinhavado à revelia na barra da saia da mãe, né? Jurei em segredo que ia ficar mais atenta, presente, e bla bla bla.
Mas o pesadelo já tinha sido.
(Será que se muda passado?)
Como o conflito é minha matéria prima, propus a ele um jogo: Voltar lá e mudar essa narrativa. Fui fazendo perguntas, e ele foi recontando a história com um “novo final”.
Na primeira sua primeira versão, ele conseguia me avisar do perigo e eu dava uma bronca danada no homem, que saía assustado da escola.
Mas aquilo não me convenceu.
– Acho bom falarmos com esse homem. Você não acha?
– Tá.
– Pergunte por que ele roubou o brinquedo do Chico, pra começar.
(O Gabri ficou quieto, ouvindo de fato a resposta lá de longe, no seu interior.)
– Ele disse que roubou porque ele é ladrão.
– Bom, pergunte por que então. (pausa)
– Porque ele quer.
(Vixi. Como saio dessa?)
– Então pergunte por que ele quer esse brinquedo
(silêncio maior)
– Porque a mãe dele morreu. Ele quer roubar a minha mãe porque ele não tem.
(chegamos a um ponto importante)
– Agora pergunte o nome dele.
(silêncio)
– O que ele disse? – insisti.
– Ele disse que ele não se lembra. Faz tanto tempo que ninguém chama ele pelo nome…
(…)
– Peça para ele tentar se lembrar.
(pausa)
– Ele é xará de um de nós aqui. – respondeu, com suspense.
– Então diga, filho.
– Francisco.
– Ótimo. Agora pergunta pro Francisco se ele quer um abraço.
– Ele disse que quer muito.
– E você? Quer abraçar ele?
– Quero sim.
(pausa para o abraço)
– Tá tudo bem agora? – perguntei.
– Tá sim, mãe. Tá tudo bem.
A essas alturas, já estávamos perto da casa dos pais do Dja, para onde estávamos indo. Mas eu fiquei tão mexida com aquilo tudo que quando me dei conta, tinha entrado em uma rua X, virado numa y, e já não sabia onde estava. Pedi ajuda pro Waze, enquanto ouvia risadas dos meninos. Eles não se conformavam: Como alguém pode se perder num caminho tão cotidiano?
Sim, filhos, essa sou eu. Eu me distraio e me perco muitas vezes, porque vivo no mundo das histórias.
E elas vivem nos sonhos.
o que tem pra hoje
Foi o pulmão que cresceu pra deixar entrar mais ar
ou o coração que aumentou pra dar conta de tanto?
(difícil é caber tudo sem doer.)
o fim
Eram apenas dois olhos vertendo, vertendo, vertendo…
Sentiu seus braços se erguendo em prece,
e todos os seus espinhos saindo, lentamente, do centro do peito em direção à superfície.
Sua pele, enfim, enrijeceu,
a antiga ardência nas plantas dos pés deu passagem a pequenas raízes,
e a água que era antes jorrava agora também provinha da terra.
Olhou adiante e não mais viu o deserto,
apenas uma enorme pradaria sedenta por novo saber.
Olhou além do horizonte e perdeu-se, enfim, de seu próprio mirar
Ergueu-se entre nuvens frescas
e viu, lá de cima, pela última vez,
um único cacto remanescente sombreando a aridez,
futuro remanso para outros errantes fatigados.
Despediu-se do antigo invólucro,
sorriu em gratidão,
engendrou novas promessas,
teceu uma outra trama.
Então partiu para um próximo sonho onde, enfim, tornaria-se rosa.
(obrigada, Lauren.
Enfim, livre.)
um fim
Num dia de mais caminhar errante
deixando, ao sul, um rastro de fio sangrado dos pés,
um vento bateu no já sempre ar cáustico.
Que era esse sopro? – sussurou-lhe à morada,
depois deslocou com leveza o eixo do mapa de suas miragens
livrou-lhe a areia dos olhos,
arranhou-lhe a fina casca das tantas feridas,
revelou a represa.
Então Lauren ficou ali, lavrando um vasto mundo de infinitas perdas.
Lavando a poeira de tantos desertos caminhados
banhando-se de água salgada,
ai, doce acalanto que brota dos cantos de si.
Passou ali algumas eras
era muitas, e tantas dela levavam às costas flores vincadas na carne.
Da miragem, nada restava.
Da promessa, apenas a seca visão de mais pesadelos de sangue e torpor.
Então decidiu: enterrou ali sua esperança.
Com ela, a coleira,
aquela que arrancou do pescoço, antes atada às mãos do diabo.
Enlutou, por três dias, o Cão e a Rosa.
Depois partiu sem partir.
Não buscou novos caminhos.
Não aceitou seu destino inexorável.
Pairou em um não-lugar, paradoxo.
Mas esse não era o rascunho de nova miragem desenhada,
era um profundo desejo de alma gritada.
Ficou ali mergulhada nesse novo sentimento,
nessa nova fonte que jorrava do mais profundo desespero.
Nada mais importava: nem caminhar, nem morrer.
Plantou-se, imóvel, abaixo de sol e estrelas em incansável alternância.
Parou ali.




