vereda da promessa

A flor da pele

é feita por fios brotados de fendas

conta casos de dessassossego

desmedidas deseducadas

vermelhas pétalas desamparadas em terra seca e bruta 

surgidas em pés de quem caminha em desertos

(crendo, ainda, nos oásis gramados

mesmo que em outras eras)

Arremedo de flor cheirosa,

caminho traçado por espinhos arando aridez

Esperança de rosa

de terra fofa e cuidada,

única promessa de quem escala tantas pontas.

a sombra de todos os medos

– Mãe, tô com medo.

– Do que, Chico?

– Da folha!

 

Foram dias assim.

Não adiantava perguntar que folha era aquela. Muito menos dizer que folha não mete medo, não se faz isso com o imaginário de uma criança. Eu, que tinha medo até do triângulo das bermudas, medo de que meu pai fosse sequestrado por extraterrestres, medo de areia movediça, medo de trocar de dentes, medo de Gremlin, medo do Nada (da História sem Fim), de cão raivoso no mês de agosto, de todas as doenças que o Fantástico anunciava, medo de tanta coisa absurda que não caberia aqui dizer, era a última pessoa com direitos a pedir por um mínino de explicação do por que o Francisco tinha medo de algo tão insignificante como uma folha.

Mas e aí, o que fazer?

Comecei a perceber que isso acontecia mais no crepúsculo. Achei que seria sono. Ele sempre chorava na hora mágica, ficava querendo colo quando estava prestes a dormir, não sei se lida muito bem com esses umbrais. Será que a folha é esse quase-escuro?

Aos poucos, foi virando uma folha em branco, tela onde eu projetei primeiro os medos dele, depois os meus. Porque é tanta coisa absurda que ainda segue me aterrorizando, tanto medo infundado, medo de conta bancária, medo de polícia, medo de político, medo de ficar sem água, e fora o medo de areia movediça e rio que vira lama, que ainda tenho. E mesmo que uma voz cálida e cheia de abraço me acolhesse, seria essa a solução para um futuro aterrorizante? Dizer que aquilo não existe?

Não, isso não funciona.
 
O jeito era enfrentar aquela coisa indefinida. Mas como, se eu nem sabia onde encontrar a diaba?
 
Até que um dia, sentado no vaso sanitário, o Chico me apontou pra janela e disse: Olha lá, mãe, a folha! Tô com medo.
 
Sim, lá estavam elas. As folhas das árvores da rua, através do vitrô do banheiro. Formas escuras e malemolentes, mutantes, movendo-se ao ruído sibilante do vento, através de uma luz amarelada e quase morta. Assustador. Nada daquela beleza da árvore à luz do sol. Pura fantasmagoria.
Era o momento de agir. Aquilo não tinha mais direito de nos atormentar. Conspirando, decidimos enfrentar aquela coisa. Gritamos para a janela juntos: Eu não tenho medo de você, folha! Sai pra lá!
 
Depois a gente riu, porque não há fantasma que resista a isso.
 
Então a folha ficou lá,
 
sendo sombra, e só.

 

a-folha

 

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto

pra que a vida nos dê flor

e

fruto.

Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos.

Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”.

Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo da qual sentou Buda. Campo para transformação, ou até transmutação.

Começa com o corpo. Mas além do parto, o que ainda nos espera? A longa estrada da criança: criar além da chegança. Burilar palmo a palmo da pequena alma que eu era, nesse reflexo renovado que, dia a dia, me abraça e mira com todo amor que um dia sonhei sentir.

Cuidar do broto, a cada dia. Entender que espírito é esse que me brindou com sua presença. Ouvir nossa história juntos. Conduzir carinhosamente essa plantinha até a elevação máxima dos seus potenciais, ser também solo, terra. E quando sentir as raízes profundas no corpo do meu ser, confiar que o sol fará sua parte.  Celebrar cada flor que desabrocha, exalando um perfume ímpar: saber-se testemunha do propósito, então do filho, alcançado, vertendo em novos frutos pro mundo.

A co-criação com a vida: é isso, mãe?

gabrielices

(Gabri chorando)

– Que foi, filho?

– Eu só tenho duas mãos!

– E daí? Todo mundo tem duas mãos.

– Mas eu quero fazer cinco coisas! E eu não tenho cinco mãos!

(…)

 

– Mãe, pega um suco?
(pego)
– Não vai falar obrigado?
– Obrigado… (1 segundo depois) Não vai falar de nada?

A princesa e o pescador

Lenora, uma princesa encantada, linda e formosa, já havia recebido a visita de inúmeros pretendentes. Os mais corajosos traziam-lhe objetos exóticos de lugares distantes, os mais líricos criavam versos de amor incomparáveis, aqueles mais impetuosos lhe ofereciam jóias jamais sonhadas, com pedras puríssimas trazidas de minas profundas. Porém tudo para ela era inútil. Os presentes que conseguiam entrar pelos portões do palácio transformavam-se em pedra bruta, da mais comum, na melhor das hipóteses. Palavras amáveis e lindas canções soavam como ofensas e guinchos, provocando um terror jamais visto, sobrepondo-se ao esplendor da princesa.

Era essa a maldição do palácio, lançada há muitos e muitos anos por um velho feiticeiro que se sentira desprezado por Lenora: Nunca mais ela poderia ser amada por nenhum outro ser vivente. Mas por se tratar de um homem perverso, concedeu a ela um único fio de esperança: uma remotíssima saída. A única forma da princesa quebrar o feitiço seria cruzar os portões do palácio de mãos dadas com outro ser humano.

Para isso, cada pretendente teria que se submeter a três grandes provas: Na primeira, passando por dois guardas, deveria ofertar seu maior tesouro. Ricos príncipes, de posse de um valioso bem – mas não o mais precioso – terminavam ali sua jornada atingidos implacavelmente por um raio, pois o feitiço assegurava que nenhuma mentira fosse encoberta. A segunda prova era curta, porém intensa: Cruzar a ponte levadiça, que provocava logo ao primeiro passo um tremor jamais sentido, despertando um medo intenso e uma instabilidade sem tamanho.

Por mais difíceis que fossem as duas primeiras provas, até ali muitos conseguiram chegar. Mas o feiticeiro, conhecedor da sombra dos homens, sabia que humano algum suportaria a metamorfose à qual estaria sujeito na terceira prova. Dessa forma, ele selou sua vingança: A princesa estaria fadada a algo mais cruel que a solidão infinita: estaria sujeita à eterna espera.

Lenora não sabia disso, e atava-se a essa possibilidade como a única razão de viver. Do alto de sua torre, avistava cada um dos seus pretendentes que ousava se aproximar do castelo, testemunhando, em muda torcida, alguns que chegavam perto dos portões. Nessa hora, sempre, um corvo sobrevoava sua cabeça e grasnava com voz metálica, parecida à do feiticeiro: Jamais! Ao ver a profecia confirmada, a princesa lamentava, e foi tornando-se, pouco a pouco, a Dama dos Tristes Ais. 

Muito tempo se passou, porém o encantamento, para a princesa, tinha o efeito contrário: Tornava-a cada dia mais bela e desejada. Ano a ano, aumentava a fila de príncipes, cavaleiros, ricos comerciantes, todos instigados pela maldição do castelo. Um nobre e corajoso príncipe, certa vez, chegara bem perto, conseguira passar pelas duas primeiras provas e, mais que nenhum outro, esteve próximo de cruzar a terceira. Ele levava consigo dois tesouros ofertados: em uma das mãos, uma espada do mais puro metal, cravejada de diamantes. Na outra, a rosa mais perfeita e delicada que seu reino havia produzido. Os portões estavam sempre abertos, nenhuma outra resistência era oferecida. Mas ao segurar a rosa um pouco além do limiar, já no interior do castelo, vira com terror a flor murchar num segundo, enquanto verrugas virulentas brotavam por sua pele ao lado de grandes pêlos grossos, suas unhas cresciam e ficavam amareladas, e isso já foi o suficiente para que ele cortasse sua mão com a preciosa espada e corresse horrorizado para nunca mais voltar. Nunca mais.

Mesmo com essas histórias correndo léguas, ainda não lhe faltavam ofertas. O brilho emanado por Lenora era como um grande farol, orientando viajantes de terras cada vez mais longínquas. Enquanto esperava, tornou-se quase como uma estrela cintilante, transformando seu desejo numa dança infinita em que girava, girava, girava do alto de sua torre de eterna esperança.

Um certo dia, um jovem pescador apresentou-se. No passado, sua origem humilde tornaria seu acesso ao castelo absolutamente proibido, mas depois de tantos séculos em que a maldição operava, os critérios primordialmente estabelecidos foram sendo esquecidos, estendendo o acesso às populações mais simples. Trazia em suas mãos sua oferenda: uma pequena vara de bambu com um pedacinho de chumbo ligado ao anzol, seu instrumento de trabalho. Enganchado a ele, um pequeno peixe dourado, porém de um brilho vívido, que lhe custara anos de audaciosa estratégia, paciência e habilidade para que fosse fisgado. Era, certamente, seu maior tesouro. Desse modo, passou pela primeira prova, apesar de ter sido recebido pela guarda com gargalhadas por sua ingênua pretensão. Mas ele não se abalou. Nascido em uma aldeia próxima ao castelo, havia sido cativado pelo brilho pulsante da Dama dos Tristezais desde a tenra infância, e toda sua vida foi dedicada a se preparar para aquele momento.

Ao chegar na ponte, resistiu aos tremores que tomavam seu corpo como ondas, começando pelos pés e depois atingindo a própria estrutura óssea, como se seus músculos virassem água e seu corpo perdesse todos os contornos. O medo que sentiu foi incomparável, mas ele já havia atravessado algumas tormentas marítimas, e confiante que mais uma vez a sorte estaria ao seu lado, navegando nas ondas que seu corpo emanava, conseguiu chegar até os portões.

Mas frente a frente ao umbral, ele oscilou.

Lá do alto, o corvo profetizou: Jamais.

Então ele lembrou-se do verso que, desde menino,

ouvia junto aos ruídos do cais.

No limiar de entrada, outra voz encantada indagou:

Quem és tu, ó peregrino, que bate nesse portal?

Sou marinheiro, retirante, da tribo dos homens do sal

Para ofertar à princesa, trago-lhe esse vil metal

E preso ao chumbo, atado ao gancho, esse dourado animal.

Que em sacrifício se deu, tirando da terra o mal.

Feito ele, agora eu

me entrego ao destino fatal.

Fechando os olhos, sem mais oscilar, num salto o pescador adentrou no castelo. Sua pele foi dilacerada enquanto ele se tornava uma enorme e terrível criatura, e todo seu nobre sentimento tornou-se forte desejo de aniquilar brutalmente qualquer forma de beleza. O peixe dourado que ele carregava fez-se em cinzas imediatamente. Seu caminhar tornou-se pesado e errático, ainda agravado pela cegueira. Porém, ao dar três passos para dentro do castelo, das cinzas onde jazia o peixe nasceu um enorme boto de ouro. Ao abrir seu bico, deixou sair o mar de lágrimas que a Dama dos Tristezais verteu por toda a eternidade que atravessara em pranto. Com o mesmo bico atirou a criatura em seu dorso e foi nadando pelas escadas, tal como uma cachoeira invertida, até o aposento onde vivia a princesa.

Ao sentir a força das águas que atingiram o topo da torre, Lenora, cuja dança já havia se transformado num transe, abriu os olhos pela primeira vez em séculos. Em segundos, o ser grotesco no qual o pescador havia se transformado avançou sobre ela, mas o brilho que emanava do boto fundiu-se com a luz que ela também irradiava, obrigando o horrível ser a abrir os seus grandes olhos amarelos. Nesse momento, ela mirou na retina do monstro que a devorava e viu, lá no fundo, o olhar do pescador.

Então, no mais denso e escuro, se encontraram,

e palma a palma, pelas mãos se beijaram.

Palma a palma, o portal atravessaram.

Alma a alma, para sempre se amaram.

E “nunca mais”…

Nunca mais escutaram.

poeminha de auto-retrato

Nunca teórica;
(me falta Apolo)
Apoteótica.
Até poética
(na face clara)
Também apática
(em dia escuro)

 

(criado em brincadeira com a turma do CLIPE 2016 – centro de formação do escritor da Casa das Rosas)

dilemas libertos

– Pedro, você prefere o frio ou o calor?
– Quando tá frio, eu gosto de ficar num lugar quentinho, quando tá calor, num lugar fresquinho.
– Eu tô perguntando se você prefere o tempo frio ou o tempo quente.
– No frio gosto de lugar quentinho, no calor de lugar fresquinho, ué.
(Entendi. Demorou, mas entendi.)

<3

“Acho que o Pedro disse alguma coisa pra Júlia no intervalo que ela não gostou. Ela foi para a sala de aula chorando, disse que não queria fazer aula de educação física, que a cabeça doía muito. Eles não quiseram contar nada, mas é melhor perguntar”. (relato da professora).

O que poderia ter acontecido?

No carro, depuramos o fato, o Dja e eu. Ele chorou.

Que foi, Pedro? Você falou mesmo alguma coisa pra ela?

“A dor de cabeça entrou nela, mãe”.

E foi isso mesmo, depois eu soube. Ela teve uma dor súbita, e ele estava tentando ampará-la, abraçando-a.

Não foi nenhuma palavra doída.

Foi a cabeça.

Ufa.

E ele ainda complementou: “Eu não poderia nunca deixar a Júlia triste”.

Morri de ternura.

 

Carta aos meninos num quase-inverno de 2016

balanço meninos

Meus queridos,

O país ferve. O mundo ferve. As vitórias democráticas conquistadas quando sua mãe tinha a idade de vocês foram novamente ameaçadas. Os livros de História estão se revirando do avesso, com páginas sendo reescritas por múltiplos pontos de vista, com folhas futuras arranhando previsões apaixonadas. É um tempo bem estranho, bem louco, talvez até lúdico, e se comento essas coisas é para explicar a vocês porque às vezes eu, outras seu pai, anda pelos cantos coçando a cabeça.

Porque a gente é teimoso pra caramba.

A gente tem todos os aparatos possíveis para se enquadrar no “sistema”: inteligência, formação em instituição superior reconhecida, informação, ímpeto, talento. Mas a gente preferiu usar tudo isso pra fazer outras coisas, daquelas que colaboram para a vida. Resolvemos não usar um tapa-olho e comprar aquele pacote “vou me submeter ao mal necessário porque tenho filho pra criar”, porque nem vocês nem o planeta merecem essa conta para pagar no futuro. Então é no aqui e agora que nós dois estamos lidando com ela, às custas de muitas conversas buscando saídas e outras contas penduradas.

Muitas vezes, a vontade de gritar é muita. A gente até grita, e deve ser assustador. Tem dias que nem eu me aguento, tem dias que a fé fraqueja, vá pra sala brincar, que não tô podendo com tanta coisa! Nesses momentos me contento em pelo menos não me esquecer de dar o almoço, água, mas colo não dá, porque sou eu quem preciso. Ou seu pai. Vá conversar com seu pai, digo, nos tempos em que ele também se assusta e a bronca entra na frente por se estar vivendo em modo de briga. Porque é preciso reinventar, meninos, o que é ser adulto, o que é ser família, mãe, pai, gente.

Mas não pensem que a coisa é só dura: também tem momentos sublimes. Ouvir, diariamente, o doce canto da vida coerente. Libertar-se de tantas crenças… Retirar do DNA o “ter que ser”, a síndrome do sucesso a qualquer custo, a culpa, a tentação de retroceder… Porque os olhos só brilham se os pés caminharem na direção do espírito. Olhos brilhantes são faróis, iluminando essa trilha obscura e nova.

Isso, queridos, é ser gente grande: já ter cruzado limites. Todos sem volta.

Nessa travessia, é gostoso se deparar com fogueiras no caminho. Ali encontramos gente que também busca. Então cantamos, trocamos medicinas, trocamos marcas no mapa, porque vamos para uma direção parecida, mas o caminho percorrido é dança individual. Seu pai e eu vamos dançando juntos essa canção do espírito. Não há caminhos pavimentados, mas a delícia da aventura é garantida. Uma jornada que se vive na pele, que se arrepia na espinha, que se localiza no coração tantas vezes acelerado, um percurso de verdade, sentido na planta do pé, não projetado em telas planas. É essa a herança que queremos deixar a vocês: a coragem de seguir sua própria verdade, o desejo profundo do ser, sem se submeter às chantagens do que é desumano e decadente, ainda que disfarçado de luxo. Ou pior, de necessidade.

Se esse fosse um livro de histórias, estaríamos agora naquela parte perigosa. Naquele momento da noite em que a última vela se apaga, e só nos resta a confiança na ajuda vinda das estrelas. É uma pausa no movimento, pede calma, escuta, cautela. O desafio é resistir à tentação de sair correndo, atirando pra qualquer lado, atirando em faces inimigas, atirando a vida numa corrente de ressentimentos. Porque o tempo é de sombras, mas é também de mudanças. Irreverência ao bruto, ainda que solene. Subverter é se permitir sentir, profundamente, a alegria pulsando, insubmissível a qualquer lamento, a qualquer culpa marcada a ferro e brasas, confiando que essa estrada coletiva caminha para um ser verdadeiro.

Confiando que o rio da nossa História transbordará em uma cascata de luz divina, enchendo de frescor e arco-íris por onde passa.

Estamos juntos nessa aventura, queridos. E a cada noite, quando olho para vocês em suas camas depois de cantar nossas músicas, depois de acesa a vela pro anjo, depois de ouvir a singela reza que brota dos seus sorrisos… Depois de sentir reverberar em mim a alegria que sinto fluir dos seus corações…

Sei que estamos rumo a essa cachoeira alucinante, repleta de sons, cores, potência,

paz, consciência,

e fúria de amor.

(di)verso além das palavras

Papai, o Pedro tá estragado.

Eu só tomei conhecimento dessa fala algum tempo depois. Se tivesse ouvido na hora, não sei o que faria, acho que seria quebrada em mil pedaços. Ainda bem, ela foi endereçada ao pai, um consertador nato de coisas.

Você tinha quase cinco anos. Até aquela data, a gente esperou. Coincidíamos, seu pai e eu, sobre a mesma terra firme: não queríamos forçar sua natureza. Sempre soube que não havia algo a se corrigir, e sim a se ampliar. Nunca senti algo errado, era só diferente. Ele ainda não fala? – alguns deixavam escapar, como se fala fosse coisa uniforme. As respostas variavam de acordo com meu estado de espírito: sim, mas a primeira língua dele é a música – era a resposta que mais me ressoava a verdade.

Porém, depois desse pedido de socorro, a gente entendeu que era o momento de pedir ajuda também. Na delicadeza, sem interferências brutas, mas além do limite da nossa ignorância. E graças aos céus, passamos por muitas mãos abençoadas, cada uma contribuindo com seu melhor conhecimento para que entendêssemos o quebra-cabeças dessa mente de outra ordem. Porque, Pedro, você veio de um tempo além das amarras.

Talvez por isso, seu anjo nunca deixou que construíssemos sobre sua liberdade a prisão de um ser especial. Seu pai, logo cedo, ignorando o próprio medo ou terror, lançou-te no turbilhão da vida, percebendo, no espanto, que não só você sobreviveu, mas era feito dessa natureza. Jamais poderia ser protegido, apartado da intensidade que rege a existência, porque você, meu filho, veio em sintonia com o caos das tempestades. Por fora, delicadeza gentil, elegância ímpar. Mas também carrega consigo a fúria das grandes orquestras. Ninguém melhor que você surfa na lógica fragmentada, pesca por telepatia, fala por entrelinhas sutis. Só te custou compreender a redução imposta pela linguagem formatada, essa necessidade de prender conceitos em palavras. Você sempre preferiu deixá-las soltas ao vento, levadas de cá pra lá pela melodia das letras. Mas num dado momento, entendeu que precisaria decifrar essa estranha forma de comunicação: lógica, organizada, enfileirada em frases.

E como tudo a que você se dedica, essa foi uma linda conquista. Tornou-se não um domador da fala, mas um bailarino da linguagem: dança com ela, deixando silêncios, brechas, variações.

Só às vezes, por puro rapto do belo, me furto de reestruturar suas frases forjadas no caos. Deixo, em segredo, a correção para algum ponto futuro.

Não é por nada não, meu filho, mas não é da minha natureza espantar poesia.