toda vez que me pergunto pra que ando servindo, o que ando produzindo,
me pergunto também a que serve essas perguntas
a quem serve?
servidão.
e de repente dá um impulso incontrolável de ser absolutamente inútil, além de só existir.

de Claudia Pucci Abrahão
toda vez que me pergunto pra que ando servindo, o que ando produzindo,
me pergunto também a que serve essas perguntas
a quem serve?
servidão.
e de repente dá um impulso incontrolável de ser absolutamente inútil, além de só existir.
estou vulnerável.
as tantas e tantos em mim disputam espaços. já nem sei mais. cada qual com sua própria bússola, seu tão seu norte.
sou vaso pronto pra ser fincado na terra, se escolho viver entre os homens. busco um propósito-raiz que valha. mas se ainda envergo com o vento, sabe-se lá o dia em que poderei remover as estacas. dói de vergonha ainda estar atada a um pau inerte, por medo de me afundar demais, e morrer de rigidez.
Tem um lampejo de consciência rasgando uma pele frágil, movendo o corpo de dentro pra fora, com gestos tão estranhos que ele, sem querer, se corta. A cicatriz não deixa de ser tatoo de batalha. Mesmo batalha na tangente, atiçada pelo desejo só lá de dentro, daquela pessoa estranha e nova pressionando a romper a casca. Se a gente trocasse de pele assim, que nem a cobra, ou mudasse de forma do jeito da borboleta, pelo menos a coisa seria visível. Mas ela só descama, suave. Só vê quem tem olhos microscópicos.
(inspirado pelo caderninho vermelho da Renata, em pleno som de roteiro, em ritmo de Arritmia)
desculpem a demora… os verões tem uma intensidade incompatível com os computadores…
Era tanta coisa pra ainda fazer,
que ela foi ver o céu azul virar alaranjado. Pra sua surpresa, viu foi rosa e violeta.
Era tanta cor no céu,
que ela largou as tantas coisas pra fazer pra virar violeta ou rosa.
e fincou os pés na terra, sujou tudo, a casa até, nem ligando pra mais nada.
tenho?
mundo passa
serve à pressa
ao passo,
tempo
caio lento, narmadilha,
ri-te, passa
ao largo alento
tempipassa
quem que guia?
quem?
ao que arma o dia
sou?
mês bis passa
de estação em solilóquio
de equinócio a solstício
na procura
nautopia
nau veleja
capitânia
nau que segue nalma guia
que navega
enverga o traço
mapa, engano
gps
passa o ano,
ARRITMIA.
Terráqueos emprestam seus bens – chamados dinheiros – a um grupo privado chamado banco. Emprestam pra eles guardarem, porque as casas não são seguras. Para guardar dinheiros em bancos, pessoas deixam parte dos dinheiros como pagamento.
O banco pega o dinheiro que a criatura deixa lá e empresta pra outros, até pra esse próprio. Por emprestar, as criaturas pagam mais dinheiros ao banco. É uma lógica estranha, pois se não tem nem pra eles – por isso pegaram emprestado – como darão mais ao banco?
Os dinheiros podem ser na forma de papéis impressos, papéis preenchidos a caneta (esses ninguém gosta) ou um cartão de plástico. O cartão é o que o banco mais recomenda. É tudo mais rápido, e o banco pode intermediar tudo com muita facilidade, porque os dinheiros estão deixando de ser uma coisa concreta e estão virando informação.
Os bancos manejam bem a informação. uma outra coisa chamada mídia também, mas essa é outra coisa difícil de entender.
Recaptulando:
1) A criatura coloca dinheiros nos bancos, porque são lugares muito seguros, onde ninguém vai ser roubado.
2) Os bancos pegam emprestado esses dinheiros e os emprestam a outras criaturas, cobrando delas dinheiros (juros). mas não repassam esses dinheiros que sobraram (lucro) aos donos originais. Ao contrário, também recebem destes mais dinheiros para hospedar o deles em seus “cofres”.
3) Esses dinheiros, em breve, serão só de plástico. Ou nem isso. Essa mudança (dizem os bancos) tornará o fluxo mais ágil. Só não entendi, se esse for o caso, como o dono original dos dinheiros poderá guardá-lo consigo, se um dia quiser, se ele não fala a língua dos bancos.
Tentaram me explicar, mas não entendi. Me parece que as criaturas saem perdendo, mas se fosse esse o caso, por que continuariam colocando seus dinheiros em bancos?
O bacana (eles adoram essa palavra) é que eles tem uma ótima relação. Nessa época do ano, bem festiva, o banco retribui todo afeto, confiança e dinheiros recebidos de todos com um grande show na avenida mais famosa da maior cidade do país chamado Brasil. Muitas, muitas luzes, bonecos gigantes (alguns com criaturas dentro – não sei como respiram) e muita neve, que cai em intervalos controlados. O que também não entendi, porque hoje praticamente derreti de calor, e me parece que está longe de nevar, se for observar o mecanismo climático do planeta. Mas todos parecem felizes, registram as imagens em máquinas portáteis, aparentam normalidade. Devo estar em curto-circuito…
Hoje passei o dia na USP filmando. Como há dez anos, só que hoje do outro lado. “Orientando”.
Deu muita alegria – passar o dia em frente ao monolito-2001-kubrick-praça-do-relógio, lembrar do aprender sem limites e ainda querer mais, gravar o mesmo campo de flores roxas onde, em 2000, atores gritaram EU TE AMO saindo do meio delas (na cena pinabausheana criada por Ana Roxo e por mim),
passar no bosquezinho de árvores do lado do CAC, onde eu pensava na vida e no que seria dela.
Refletia, re-fletia. Pelo reverso.
Terminamos o dia tomando café, alunos e eu, + Dja e meninos, juntando ESPM, USP e casa. Unificando pontas, papéis, décadas, juntando tudo num mesmo espaço-tempo. Tão estranho que deu barato, até agora estou meio em transe.
Tenho aprendido muito com as águas.
Não se muda um curso de rio, aprende-se a navegar nele.
A natureza das coisas nasce com a sua essência.
acho que não falei por aqui, mas estou orientando um documentário sobre o Itamar – orientando, leia-se metendo a mão na cumbuca, porque não dá pra ficar só no palpite com um assunto desses.
tenho aprendido muito. me deliciado muito. isso vale um post exclusivo, inclusive.
agora estamos afinando o olhar para a cidade, buscando Itamar em São Paulo, hoje.
dei de frente com uma cena dessas.