véspera do feriadão

Enquanto milhares se matam no trânsito serra abaixo (ops, ato falho), estou quietinha na minha casa, com sensação de dever cumprido. Pecinha nova terminada. E apesar dos dois narizes escorrendo e muita tosse – os narizes são dos meninos – estou feliz. É como ter conseguido decifrar língua estrangeira, essa foi. Às veses a gente vira um outro de si.

Vou deixar descansar, sovar mais um pouco. Falta também a prova do fogo. Depois coloco ela aqui.

matéria dos sonhos

Essa peça curta foi apresentada no Satyrianas em 2008, dirigida pelo Sandro de Cássio Dutra, e interpretada por Maria Clara Spinelli. Não pude ver a montagem, estava viajando, uma pena.Mas a Maria Clara me mandou uma fotos lindas, deve ter sido bom.

Depois teve uma leitura no primeiro DCC, o evento de dramaturgia contemporânea realizado no Núcleo Bartolomeu. Aliás, maravilhoooooso, maravilhoooso espaço para a palavra nova. Linda idéia, todo mês tem. Só não vou com mais frequência porque o Gabriel é novinho, ainda mama e insiste em falar junto com os atores em cena…

Lembrei dela nesses dias, talvez o tema esteja ainda fresquinho.

Matéria dos sonhos

Mulher (ou homem) cercada (o) por comprimidos. Nas mãos, um pacote de presente.Olha para o pacote por um tempo, até que resolve abri-lo.Retira dele um cristal de rocha bruto e uma carta.

Deixa o cristal no chão e pega a carta com certo desânimo.

Ela/ele a lê

MULHER/HOMEM

Querida(o) amiga(o),

(por que todas as cartas começam assim? Que falta de imaginação…)

Querida(o) amiga(o),

Há tempos, por dolorosas experiências, aprendi que não há como transmitir registros ou sentimentos. Isso se dá por ressonância, e só o que podemos fazer é vibrar. Então vibro essa carta, esperando que ela reverbere no seu vácuo. Talvez ainda haja uma partícula de algo que possa conduzir o dentro de mim para dentro de ti.

São épocas difíceis, não? Talvez, por isso um cristal.

Homem/mulher olha em direção à pedra jogada no chão. A partir de agora, a carta não mais é “lida”, ele a cita como se já a soubesse.Sua postura varia entre o ceticismo e a fé.

MULHER/HOMEM

Desde pequena, pego pedras no chão. Um dia, na fazenda do meu avô, descobri algumas que brotavam da terra, várias eram transparentes. Encontrei meu tesouro, pode imaginar o que foi isso aos olhos de uma criança? Pedras coloridas e brilhantes brotando da terra, acessíveis às pequenas mãos que cavavam o solo. Não era só a beleza do feito, nem a beleza dos minerais. Era a concretude da magia.

Observe um cristal. Milhares de microformações, alguns têm pontas. São os senhores do tempo, banalizados nos relógios. A glândula pineal também tem cristais, pelo que descobri. Há quem diga que eles sejam guardiões de informações pelos séculos, há quem percorra neles infinitos caminhos. Há quem pendure no pescoço porque a pedra brilha e reflete a luz. Entranha essa natureza dos seres vivos e inanimados, em que uma mesma coisa pode ser uma pedra enterrada na terra ou um portal pra outros mundos. Nesse caso, essa que você segura nas mãos é um presente. É uma daquelas do meu tesouro de infância, daquelas que eu tirei das terras do meu avô, terras que antes eram de outro, até que, voltando mais, eram terras da Terra, e só. Esses cristais são do tempo sem ilusões das cercas de propriedade.

Eles foram, para mim, uma espécie de cura. Não o tipo de cura atribuída às pedras, mas a cura da fé no sagrado. Algo, em mim, foi tomado há um tempo que não consigo prever, nem ver. Lembro de uma discussão com um primo que me trouxe a revelação do engodo: Papai Noel não existe. Lembro da minha eficiência em defender minha crença, na raiva do herege que testava minha fé no mundo invisível, da fúria e da ânsia em segurar um tesouro que parecia escoar pelos dedos a cada palavra maldita, a simples verdade revelada. Verdade? Não sei se foi aí, ou antes, talvez, mas algo trincou. A magia do mundo escoou pelo buraco negro, portais foram fechados. Um objeto era só um objeto e o que não se vê não existe.

Eu vejo a pedra. Ela existe. Um belo pedaço de mineral.

É humilhante essa queda. É humilhante crer tanto, com tanta devoção e entrega, e se sentir lesado. Sabe qual é a vontade? Dormir para sempre, até que alguém te acorde desse pesadelo do real.

Porque o mago tornou-se o mágico. Sabe, aqueles que enganam a gente, na televisão ou ao vivo? Mesmo que ele não revele seu truque, sabemos ser um truque. Fingimos nos deliciar com esse truque com a esperança daquele ser um mago disfarçado. Um Merlin escondido nessa época de descrença, esperando para se revelar ao mundo. Esperei por um truque não revelado pela ciência, pelos que sabem da verdade das coisas, pelos que se ocupam em tirar véus.

Era mais fácil viver desse jeito? E o que eu podia fazer com a crença sem dono que ficou em algum lugar aqui dentro? Um ímã buscando algo a se conectar, buscando um complemento, um novo eixo central. Nunca mais, um buraco negro dizia. Nunca mais com os dois pés, com o peito aberto. A ferida ainda sangra, e não só no peito, mas nas costas. As asas dos anjos foram arrancadas de súbito, e voar virou coisa de fantasia. Coisa de só um sonho.

Só um sonho.

Mas eu voava em um avião. Foi, realmente, uma infância engraçada. Voava em um teco-teco, um fusca de asas decolado do aeroclube da minha antiga cidade. O amigo de meu pai precisava cumprir horas de vôo para ser piloto, e esse era o programa de alguns domingos. Eu ia sentada no banco de trás olhando as nuvens. Lembro – e lembro mesmo, porque ninguém viu – de dar adeus aos anões da Branca de Neve que via nas nuvens. Lembro de já não acreditar na existência deles. Não era um adeus, era um chamado, um pedido por algo que se apresentasse e provasse que minha falta de fé não tinha fundamento. Mas eram apenas nuvens, e seguiram sendo.

A pedra é uma pedra, bem palpável. Eu podia olhar entre elas e ver cores. Será que essa que eu te dei tem arco-íris?

O mais engraçado é que o mundo invisível não existia mais para as minhas fantasias, mas era muito real para os meus medos. Por que ele só existia para as coisas ruins? Uma guerra nuclear era tão impalpável quanto uma fada, mas a guerra nuclear eu sentia, como um animal à espreita. Como se pode sentir algo que não existe? O sentimento não é concreto?

Depois, mais tarde, eu senti o amor. O amor também não era palpável, nem ruim, e eu senti. Será que eu sentia porque ele se vestia de alguém? Alguém sentível?

O cristal eu sinto na pele. Apertando contra a mão, ele até machuca. Por que a gente precisa se machucar ao sentir?, nem precisaria, se a gente conseguisse ficar só no sutil. Mas a densidade das coisas prova a sua existência no mundo concreto.

A delicadeza é concreta, e é sutil. Ela existe?

A pedra é delicada, apesar da natureza bruta das pedras. Nela, guardei um pedido, um pedido de transformação, de que se largue o velho, de que se abra espaço para um novo ser que suporte a felicidade como estado constante de espírito.

Os cristais vibram, não é? A felicidade é invisível, mas pode transparecer em sons. Escuta.

FIM

primeiro ensaio de coisa nova

Ontem aconteceu uma coisa. Dessas coisas que podem passar batido se a gente não coloca tento. Ontem foi o primeiro ensaio do Três Vezes Vênus, um texto muito querido que escrevi há um tempo. Conta a história de três mulheres que fazem um show mambembe para sobreviver.

No caminho, não registrei um aperto no estômago que achei que teria. Estranho.

Lá, não fiquei nervosa como achei que ficaria. Estranho.

Durante a leitura do texto, não me defendi: ouvi. E, juro, fiquei emocionada, e não tensa. Estranho.

Saí do ensaio tranquila, feliz, sem a sensação alienígena que costumava ter, como quem estava em terras estrangeiras pedindo licença para estar. Então percebi o que eu sempre soube, que vinha dessa terra mesmo, do tal teatro. E era casa, e era a mesma sensação deliciosa e todo-dia de tomar café quentinho de manhã.

do três vezes vênus, que o Paulinho vai montaaaar!

Coçar os olhos

Abrir os olhos

Olhar o longe embaçado

Saber-se sem horizonte

Mas marretar a parede

Porque tijolo é de barro, não de pedra

E barro, assim como coisa de terra

teima em ceder,

fazer curvas.

Aí eu rasgo uma fenda na parede

E mesmo sem ver, amparo.

E enlaço o horizonte com o fundo dos olhos

Lugar onde formam imagens

do tempo da espera,

esperança

novas intervenções na cidade

Eles sorriem para mim. São muitos rostos impressos em grandes placas. Colocados estrategicamente nos lugares onde a gente mais passa, onde o carro pára por causa do trânsito. Achei muito simpática essa ação do município, lembrar a todos nós a simplicidade de um rosto querendo ser amigo. Só não entendo ainda as letras e números colocadas como código sobre os rostos, talvez sejam formas de se obter contatos imediatos. Tentei usar o aparelho designado a esse fim teclando os números, mas não registrei sucesso. Alguns deles também são alegremente puxados por pessoas com um meio de transporte bastante saudável denominado bicicleta. Pessoas vestidas de joaninhas também distribuem pepéis, mas esses são fotos de prédios. É muito interessante ver como essa espécie busca calor humano em pequenas coisas.

papo meio besta antes de dormir

E você dormia vendo o teatrinho dos bichos de pelúcia na estante.

Era mesmo

Dizia que todos mexiam

Era mesmo

E eu ficava olhando pro vão debaixo da escrivaninha pensando que lá poderia abrir uma porta mágica

Tipo Alice

É, tipo Alice. Imaginava coisas que poderiam ter atrás da porta

Mas não era legal?

Não. Porque eu não acreditava que aquilo existia

Se você me falasse, eu ia acreditar

Lembra quando você queria me convencer que veio de outro planeta?

Você quase acreditou

Eu nunca acreditei.

Mas você acreditava que eu via os bichinhos mexerem

Ué, mas isso eu sei que você via

Sabe como, se só eu via?

Sei lá, mas nisso eu acreditava

E era por causa do revenil.

Era por causa do revenil…

(pausa)

Será que o papai sabia que o remédio te dava alucinação?

Acho que ele preferia a gente alucinada que doente.

Ele ficava bem louco com a gente doente, né?

É, ficava bem louco.

(pausa)

Lembra que você só dormia depois de fechar todas as portas dos armários e conferir todas as chaves das portas?

Era pra não sair nada de lá.

Ué, mas nisso você acreditava?

Nisso eu tinha dúvidas.

Aí, pelas dúvidas…

É.

(pausa)

Eu morria de medo. Aí eu fiz um acordo: se eu dormisse pra cá, eles poderiam aparecer. Mas se eu dormisse pra lá, eles não teriam o direito de me atrapalhar.

Funcionava?

Funcionava.

E por que esse era o lado bom?

Porque nesse eu conseguia te ver.

Você tinha muito medo, né?

Muito.

O papai tinha muito medo, e a mamãe também.

A mamãe tinha medo de raio e trovão. Mas o papai tinha medo que a gente morresse doente.

Por isso o revenil.

É. O redoxon e o revenil.

pausa

Você ainda tem medo?

Muito.

a noite do dia

Seja qual for a idade, anos ou meses, volta e meia nos deparamos com uma verdade incontestável: crescer dói. Mais fácil quando a dor é física, como aquela que dá na perna, uma coisa esquisita que parece que repuxa, e ao reclamar a mãe profetizava: quando crescer, passa. Não. Tem dores que são mais pra dentro. Sem ter nem pra que, o corpo fica inconveniente, inadequado, parece que tudo remexe, como se a gente não coubesse mais em si. E estando do lado de lá, de quem assiste e desesperadamente busca o que fazer: o que fazer? Buscar remédios, decifrar sintomas, buscar sinais de onde vem o foco, buscar o diagnóstico perfeito? E de repente, no meio disso tudo, a intuição de um abraço. Um aconchego. Desses em que se respira junto. De mansinho, os gritos vão dando lugar a soluços, daí pra suspiros, como quem acha, nas primeiras escuridões de tantas que a vida reserva, alguém para compartilhar a solidão. E do lado de cá, de quem aflita assistia à cria, ver que muitas vezes o fazer é só estar. E pedir junto para que a tempestade passe.

três vezes vênus (fatia)

Risca um fósforo. Acende um cigarro.

JOANA

Foi assim que tudo começou…

Assim que fizeram os perfumes

E as bombas

A razão do homo sapiens

Homem sapiens, mulher sapiens

H-o-m-o s-a-p-i-e-n-s

E agora é assim, portátil

A gente carrega no bolso

Fogo pro rabo, pro cigarro, pra cabeça

A gente risca e psssssssssssssssssss

Faz a mágica

Logo apaga

E joga fora.

mais um tequinho da peça

Uma vez eu fui com minha mãe no cemitério. Foi a única vez, pro enterro de uma tia. Era um lugar muito lindo, um dia ensolarado. Eu era pequena, mas já entendia o que era a tristeza, então queria saber por que num lugar tão bonito as pessoas choravam em vez de fazer pic nic. E também perguntava por que tanto espaço sem gente brincando, e por que tanta flor se nem gente tinha pra ver, e antes de outro por que minha mãe explicou:

– Porque quando a gente morre, que nem a tia Mena, vira flor.

– Mas e quando a flor morre, vira o que?

– Semente. E espalha na terra toda.

E eu, que era gente com nome de flor, ia virar o que? Outra flor ou semente? Como eu ia me esparramar na terra sem deixar de ser uma coisa só? Eu ia perguntar pra mamãe, mas nessa hora ela tava chorando. Deixei pra perguntar depois, muito tempo depois. Mas eu já tinha esquecido aquela pergunta, então quis saber por que meu nome era aquele.

– Porque você nasceu com um sol dentro na cabeça, um sol amarelo que nem miolo de margarida.