adjetivos: um poder de traçar veredas

Ele estava impossível! a cada minuto, necessitava de uma intervenção.

a todo momento, eu o alertava sobre

não bater

ter cuidado

não ocupar o espaço do outro

não falar mentira

etc etc etc bla bla bla de mãe.

 

aí ontem ele me fez uma comparação incrível: o desenho do meu anel (cheio de nós celtas) com o desenho do caroço do abacate. (já viu um? sua casca parece um desenho de raízes entrelaçadas)

 

fiquei maravilhada. elogiei, espontaneamente: você foi muito inteligente, querido!

ele sorriu. seu olhar, instigado, pediu por mais.

você sabe o que é inteligência?

(ai, a responsabilidade das primeiras definições)

é quando a gente tem idéias boas pra todo mundo.

(foi o que veio no improviso)

 

ele ficou feliz.

os olhos brilharam.

seu coração ficou aliviado: havia sido solto de uma prisão contraditória.

concluiu: agora não vou mais fazer coisas chatas, mãe. sou inteligente.

 

então vi a dificuldade que eles tem entre diferenciar o estar e o ser.

se eu aponto só as coisas “chatas” que ele faz, isso o define e marca a tendência para um próximo ato igual.

e ele passa a achar que é assim.

 

mãe e pai têm que cuidar dos adjetivos. pai e mãe nomeiam.

melhor nem adjetivar. são as ações que contam. nada é permanente.

mas ontem eu apontei sua virtude, coisa que também ando fazendo há algum tempo, mas dessa vez  mostrou seu poder transformador,

e ele sentiu-se em casa nele mesmo.

 

e passou a noite em harmonia, tendo mais meia dúzia de idéias inteligentes.

 

gabriinteligente

todo mundo merece um creditozinho, né não?

crefisa-credito-facil-2

Não passe vontade. Compre agora. Pense depois. Pegue já o que é seu. Positive-se. Dedo em riste. Não espere. Aproveite! Últimas unidades.

vencedores não esperam. vencedores pegam a oportunidade.

vencedores não se frustram. pegam agora e pensam depois. o futuro não existe.

mercadorias abundam

bundas também.

mulheres tem bundas

(homens também. mas nenhum quer ser bundão)

ninguém merece esperar. pode pagar depois.

as mercadorias não merecem esperar. querem ser consumidas.

especialmente, se vestirem curtas embalagens

fáceis de rasgar.

 

algumas saem de graça

não precisa nem pôr na conta.

 

algumas já vem cortadas em fatias

(só o filezinho, sem osso)

e ainda embalando amortecedores de consciência.

 

cervejamulher

 

Vem, meu bem!

tá esperando o que?

corre, que vai acabar!

 

pinup

 

(reflexões e analogias trazidas pelo companheiro de vida Djair Guilherme, em nossas conversas estimulantes sobre o corpo, a atualidade e o SER.

Aqui tem a versão dele dessa mesma história)

vida em montanha russa

melhor aceitar viver a inevitável incerteza
(mas a vida sopra sinais)
melhor aceitar de vez a desconfortável aventura
(mas a vida presenteia com paz)
melhor acalentar de vez nossa horizontal orfandade
(sermos também mães e pais)
coração palpitante
caminho derrapante
frio nas tripas
vento no rosto
(vida é isso e nada mais)

a favor

caminhava por fricção.

então necessitava de um solo duro, árido, para me contrapor.

até a não-violência já me parecia oposição.

minha liberdade de movimentos dependia de uma luta diária contra meu chão,

corporação. patriarcado. verticalismo.bandos opostos. tanta mentira.contradição.

 

até que vi ser impossível fixar raízes em algo contra o qual se luta.

para acelerar o movimento, raspava os pés, touro desenfreado em direção a vermelhos aleatórios.

enquanto isso, a cabeça calculava movimentos. e o corpo arqueava, vazio de tanta pressão nos extremos.

 

um dia, meus pés já secos de tanta briga,

começaram a coçar,

depois ferir,

depois sangrar.

recusaram-se a caminhar.

pediam trégua, água.

deixaram de ouvir os comandos do general geral do alto comando central

 

o centro da voz interna escorregou pra pineal

o centro do movimento externo subiu pro planalto central.

 

revirou meu estômago

mexeu nos meus medos

instalou-se no coração

 

e o fogo que ardia meus pés acendeu a fogueira da alma.

 

e me vi assim: tocha acesa.

 

sem pressa. só presença

 

e a mente ordenando comandos vazios

 

.

(só espera)

 

até que meus pés, finalmente livres,

 

descobriram um caminhar para cima. movidos pela fogueira da alma, com a terra fofa acarinhando o percurso.

tempos de áries

constelação

 

muita mudança no céu: estrelas mutantes convocam ações.

sistemas solares despencam. sistemas de falsos sóis.

 

o tom da nota é: verdade.

outono pede só essência. fica só o que alimenta.

tirar cascas sérias,

sair das casas velhas,

voltar pro centro, morrer, e só depois florescer.

 

só peço a essas constelações verdadeiras que mandem de lá o sentido.

e a justa ajuda para o reajuste

na medida do meu merecimento

mas no tamanho da minha necessidade.

uma estrela me contou que

cada fracasso é uma ponte a se atravessar.
o destino do outro lado depende do lugar interno que move o primeiro passo.
na humildade, subimos uma escala na escada espiralada.
na humilhação, é trampolim pro ressentimento. e ladeira abaixo.