perto dos 39 degraus

a minha geração nasceu na ditadura,

a minha geração subiu pro céu num balão mágico e desceu numa nave espacial xata,

a minha geração tinha mapa de sala na escola. lugar fixo. só vencia um.

 

a minha geração batalhou muito. corre atrás. ainda batalha. aliás, a vida é uma luta

(pra chegar na frente)

 

eu fui criancinha nos anos 70, menstruei nos anos 80 e virei self made woman nos 90.

eu queria um canivete. eu queria ser aventureira. eu queria ser Goonie. eu queria ser popular. eu queria passar pro outro lado da televisão.

eu cresci com barbie-querendo-ser-cinderela-precisando-ser-she-ra-temendo-ser-mulherzinha.

meu irmão cresceu com falcon-querendo-ser-thundercat-precisando-ser-superhomem-temendo-ser-mulherzinha.

eu sabia fazer tricô, mas esqueci.

eu aprendi a fazer bolo, mas eles não crescem mais no forno.

(mas tudo bem, no mercado tem bolo)

eu dediquei tudo à batalha da vida.

 

minha geração tem muitos rótulos

minha geração pode comprar muitos rótulos também

minha geração pode escolher entre muitas coisas parecidas,

(mas meu celular é o ÚNICO com elástico pra segurar a capinha)

 

minha geração gerou filhos depois dos 30, ou perto dos 40.

(todos subversivos, contrariando a ordem celibatária da carreira emergente)

dormimos ao lado do celular

levamos trabalho pra casa

(e fingimos levar casa pro trabalho)

 

minha geração venceu.

 

e o troféu virou peso de porta,

lastro de balão

atraso de vôo.

um dia a gente vai se dar conta de tudo isso, de todo tempo devotado a causas inúteis

de todo pensamento canalizado

a coisas fúteis

ouro de tolo,

sonhos rasgados

então nós, tão especialistas, inteligentes e workaholics

vamos trabalhar, incansáveis,

pra uma encontrar uma saída.

..

.

até que a gente se esgote

e enfim consiga

olhar

por dez

minutos

 

uma

 

flor

 

e ser. só ser.

 

das aprendizagens permaculturais

uma coisa é a lapidação dos talentos, outra é o estreitamento do ser.
a especialização emburrecedora
a redução da ação a um emprego, a um título, a um estado temporário e dependente
de promoção
de reconhecimentos alheios
pior: de um sistema de violência (insustentável) que o sustente

a monocultura
do ser e do pensamento
só tem um fim:
o deserto.

(a partir da ponte entre monocultura da terra e do pensamento de Djair Guilherme)

batatinha quando mama

Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão.
menininha quando dorme põe a mão no coração.

Francisquinho espalha a rama no meu corpo quando mama.

põe a mão na minha pele, sente o pulso do meu peito.

esparrama sua essência e se ancora em parte minha

e essa parte vira terra, pra nutrir sua raiz.

até que ele, feito árvore,

com suas ramas feitas ramos,

gere frutos pelo mundo

até que ele, feito gente,

ganhe pernas pra além-mar

 

mas estarei sempre entrelaçada

nessa parte minha terrena

da carne onde se geram sementes,

nessa parte vazia de mim,

onde se plantam os sonhos.

 

marte, macacos e macarrões

era um lindo domingo. sol e céu azul, disfarçando de serenidade a turbulência absurda desse momento: lá em cima, Marte bem perto da Terra, eclipses iminentes, alinhamentos tensos e um monte de previsões de rompantes.

cá embaixo, na nossa vidinha, um cuidado pra não comprar briga. mas é outono, é quaresma, é isso tudo, é hora de largar o que não serve mais, e essa energia é boa pra desapegar sem mimimi, porque as coisas que precisam sair da cola dão no saco mesmo, e de um jeito insuportável.

mas ainda assim, era um lindo domingo. por que não aproveitar e passear em família?

escolhemos o templo Zu Lai, que é aqui perto de casa, mas que a gente nunca tinha ido. apesar da paulistanice da chegada – carros e mais carros buscando seu lugar à sombra – o lugar vibra equilíbrio, e nossa mente serenou. Havia uma celebração no templo que ficava na parte alta do terreno, e lá debaixo, onde chegamos, à beira de um lago, ouvíamos os cânticos. conhecemos todo o lugar e por último voltamos à beira do lago, circundado por uma matinha fresca com grandes pedras para sentar. lá fizemos um piquenique.

esse foi o ponto alto. levamos vários tipos de frutas e, para a nossa surpresa, apareceram macaquinhos por todo lado. ficamos um tempão compartilhando com eles bananas, goiaba e maçãs, rindo de suas macaquices, de suas pequenas mesquinharias (claro que quem pegava a fruta saía correndo pra não dividir). os meninos riam, riam, e nós também. não sei quanto tempo cronológico passamos ali, mas foi a eternidade de quando se equilibra o profundo e o irreverente, o meditativo e o mundano risível. simples. secreto. sagrado. riso compartilhado.

e tudo tinha sido tão bom que resolvemos esticar o passeio e almoçar lá perto.

saímos procurando um lugar sem conhecer muito os arredores. ao ver um restaurante que nos pareceu bacaninha, resolvemos parar. não vou falar o nome porque o fato objetivo pouco importa agora. meu relato é puramente subjetivo e pode não ter nada a ver com o restaurante em si.

porque sim, marte despencou na minha cabeça. aproveitou meu estado de abertura e falou: quer ver uma coisa que vc precisa cortar de vez da sua vida? vou te fazer um desenho, tá? (e assim me empurrou restaurante adentro).

era um lugar bonitinho, feito pra agradar. muitos, muitos garçons e garçonetes descoladamente uniformizados. já foram nos mimando. já foram nos acomodando. sorriam muito. nos ofereceram uma mesa maior do que éramos. já trouxeram comidinhas. literalmente, iscas. iscas de frango.

mordi a isca.

fiquei refém.

olhei o cardápio, já era tarde. rodízio de massas e risotos.

não gosto de rodízios, lugares onde se paga caro pra comer até morrer. atualmente o extremo contrário do que acredito.

os meninos não gostam de massas, nem de risotos.

a gente não tinha nada pra fazer ali, na verdade.

mas as pessoas alegres do lugar não paravam de falar comigo. crianças pequenas não pagam, grandes pagam meia. ofereceram até papinha para o bebê, mas não obrigada, eu tinha levado a que eu mesma fiz, não obrigada, sim, obrigada, eu fiquei ocupada em me defender de tantas solicitações e quando dei por mim, já estava sentada com pratos na frente, bebidas, entradinhas e o escambau.

agora já era, pensei. mas não consegui relaxar. fui ficando cada vez com mais raiva. e de três em três minutos – juro, deve ter sido isso mesmo – aparecia um garçom com um determinado prato oferecendo de uma forma muito, muito animada, overanimada, até competindo entre eles para dizer que “o meu é mais gostoso”, e eu me vi tendo que parar de falar, de comer e até de ser a cada três minutos para dizer um “não, obrigada” e me defender daquele assédio.

mas, minha querida, era um rodízio! não é assim que um rodízio funciona?

não, não é. eles estavam me empanturrando de comida pra conseguirem me expulsar dali o mais rápido possível pra liberar a mesa pros próximos “clientes” cheios de bananas e maçãs.

pelo menos os macacos eram sinceros.

os meninos, é claro, estavam com cara de bunda. eles sentem a falsidade como ninguém. não queriam comer nada, e isso virou quase uma ofensa pessoal pros garçons competidores, que não se conformavam em não terem seu espetáculo aplaudido. aí um deles teve uma idéia genial: perguntou se eles gostavam de batata frita, eles disseram que sim, e disse que iria trazer uma quase batata frita: inhoque.

claro, inhoque e batata frita são praticamente a mesma coisa.

não, não se pode enganar uma criança. isso é crime.

não, não posso mais enganar a minha criança. não dá pra comer uma coisa pela outra, e dizer que tudo bem, tudo é feito de batata.

minha criança não aguenta mais tanta mentira. não aguenta mais ter que fazer cara de paisagem e deixar pra depois o que gostaria de fazer, ou comer, ou viver, naquele instante. não aguenta mais se submeter à demanda alheia, que traz uma porcaria de bandeja de forma tão animada que você fica constrangido em dizer “não, não quero comer essa coisa. isso não me alimenta.”

e eu, sentindo aquela violência toda, doida praquela tortura acabar e poder ir embora, mas aguentando até o fim, e tudo por que?

porque, ao morder a isca, não consegui simplesmente ir embora.

fiquei me sentindo responsável. uma responsabilidade CDF cretina. um exemplo de bom comportamento de merda nenhuma.

e a porra do inhoque também não descia pela minha garganta.

não sei se por piedade divina ou se pelo horror da minha cara, uma garçonete “conseguiu” nos trazer, depois, uma batata frita de fato. um prêmio de consolação, liberdade condicional, medalhinha de honra ao mérito, bônus pra quem tirou nota 10 e estava suportando bravamente o sacrifício de apoiar a mentira coletiva.

e no fim, claro, pagamos o preço. um preço bem alto por não conseguir chutar o pau da barraca, por ceder aos mimos e às iscas e às demandas de outros, da sociedade de consumo, do espetáculo e bla bla bla. zzzzzzzzz.

almoço indigerível, graças aos céus. graças à ira de Marte, que coloca um basta no que tem que morrer. ou no que já está morto, e ainda carrego por apego, por culpa nem sei do que.

ainda bem que Marte chegou.

ainda bem que os macacos são sinceros

ainda bem que posso fazer macarrão em casa.

ainda bem que aprendi, finalmente, a lição: foda-se.

prova de cavalheiro: o embate com o gigante

ele era puro suor e febre. olhar vidrado. ele estava alucinando

era ele contra o gigante. e o bicho tinha uma faca.

ele sentia os olhos doendo, e a dor da faca do gigante em seu corpo.

eu estava preparando o banho do Francisco, seu irmão menor, e ele surge assim no banheiro, já acordado mas ainda imerso no pesadelo, apavorado, em plena iniciação.

por ação da grande mãe, Francisco estava em paz no bercinho. eu estava sozinha em casa com os 3, mas pude acolher um só na sua urgência.

entramos no banho. aninhei-o pelas costas, para que ele sentisse o manto da proteção. coloquei a mão no seu pequeno coração que batia às marteladas no seu ritmo de beija-flor.

eu não sabia ainda o que fazer, mas tinha uma só certeza: não poderia dizer “não foi nada, foi só um sonho, vai passar”. isso seria um desperdício, uma mentira, uma desonra. porque  eu sabia que aquilo era MUITO forte. era uma tremenda aventura, e era o mais importante a viver naquela hora. seu mundo interno pulsava, vívido, e eu era testemunha daquele embate.

a única coisa que poderia fazer era ajudá-lo na travessia.

então, naquele abraço, coloquei-o de frente para o gigante. eu estava na retaguarda, mas ele é quem enfrentaria o perigo. Juntos, respiramos. soprei em seu ouvido o que senti que ele precisava ouvir: que eu estava com ele, que seu guia protetor estava em seu coração, e ele estava protegido para ter esse ato de coragem.

e ele falou com o gigante. encarou-o de frente, apesar do seu medo.

depois soltou-se de mim e ficou debaixo da água, deitou seu corpo em uma posição-semente. era lindo ver sua coragem nascente. era uma honra presenciar essa prova, essa forja em pleno fogo. deu um orgulho gigante ver a dignidade de sua atitude, seu enfrentamento, sua disposição.

Gabriel, o honrado cavalheiro que hoje, aos seus 4 anos de vida, teve sua iniciação. dura iniciação.

mas ele atravessou.

deixei-o a sós por um instante, com a certeza que agora ele estaria bem. Francisco já chorava pedindo colo, e fui buscá-lo no berço. entramos novamente juntos no banho, e sua alegria de bebê trouxe o bálsamo que faltava para finalizar a história.

e eu só agradecia. agradeci a oportunidade de estar ali, naquele instante, disponível para testemunhar e ajudar nessa aventura. e soube, como só as mães sabem, que esses momentos irão se repetir muitas vezes.

mas a primeira vez marca. e é inesquecível.

depois, com a ajuda do pai (que o presenteou com novas interpretações do sonho), Gabriel voltou lá.

reconciliou-se com Marte, sua potência avassaladora, cortante, mas curativa.

e ficou amigo do gigante.

 

 

 

Senhor Rosa

ele já tinha sido assaltado mais de 20 vezes.

ele tinha uma rosa de plástico no painel do seu taxi.

ele me mostrou uma marca de bala na porta do carro.

ele dirigia à noite, mas agora anda só de dia.

ele disse que piorou muito de dois anos pra cá.

ele era muito simpático.

ele me disso tudo isso em cinco minutos de rota.

fazer o que?

– o sr. já pensou em mudar de profissão?

– eu não sei fazer outra coisa, né? e ninguém me dá oportunidade…

– esse táxi é seu?

– ainda não, tô pagando. o que era meu me roubaram.

– ah…

assim falou cedefina

Cedefina é uma menina não tão fininha, apesar da dieta. Mas também não é gordinha, porque faz dieta. É tipo na média.

Cedefina adorava CDs.

mas gostava mesmo era da caixinha quadrada, porque ela segurava o disco.

as formas redondos davam muitas voltas na sua cabeça…

tremores de abril

em caso de desespero

arrepie os pêlos. sinta, mas não ressinta

não desvie o olhar pra trás do ombro

não desvie os pés pra falsos lados

respire, apenas

suporte as penas

o tremor da mudança apavora

o abraço do nascer

desespera

 

não sucumba: aguenta a espera

que na noite, outro tempo se engendra.

 

não podendo parar, então dance.

não podendo falar, siga a reza

que o que está doutro lado, já era

e o porvir ainda é sentimento.

mas resista, não perca o momento

pra nascer

rompe o chão a quimera

 

e a serpente, enfim livre do pranto

unirá de uma vez céu e terra