Às vezes, a magia se apresenta pra gente.
Assim, como se não fosse nada.
Procurando respostas,
Encontramos cometas…

de Claudia Pucci Abrahão
Te vejo
Muito
Além
Do crepúsculo dos dias,
Da demanda (abençoada) das crias,
Da insônia (árida) em noites frias,
Do caos e o extremo oposto, apatia.
Te vejo além
Na valsinha que dançamos um dia
No passo quente que suporta a alegria
Nas mãos que se contentam, apenas
Na escuta do teu peito, impulso
No toque que transcende,
Transmuta,
Transporta,
Pro tempo que nos lembre
Sussurre
As curas
Pro som que nos ampare
E leve,
Seguros
Pra casa que nos cabe.
Te sinto
(na pele, nos poros)
Além do sol poente
(de um mundo doente)
Além dos sete outonos, invernos, tumultos
Além do próprio medo.
(um mundo-segredo)
Te vejo
No espaço do ensejo,
Com tom de quem te ama
(E cuida, e espera)
E canta todo dia
(em quase silêncio)
canção de primavera.
Deslizando lentamente
Nessa superfície macia,
afago
essa rota antes preta, carvão.
A fricção, desfiada no tempo,
gera fogo,
forja,
nos anos a fio.
14
Para cada ano firmado,
A transmutação das veredas finas,
afago
agora rios vertendo prata.
Testemunhando a linda dança
das cores
da inevitável espiral dos dias.
na indomável espiral que te coroa.
14
longas voltas
línguas
novas inventadas, renomeando lugares repassados em outros estranhamentos
reinventando o que é fixo, para que entre ar nas estruturas prontas
rememorando o que é móvel, curando, curando, curando…
14.
E cá estamos.
Desde que, de lá, firmamos
Num rito mágico
Primeiro entre montanhas, depois entre linhagens,
O sentido dessa travessia compartilhada
14 voltas espiraladas
vendo passar, na ponta dos dedos que afagam
as cores cambiantes
alternando, na ponta do carbono-grafite
do lápis
o denso das contas mensais
vincando o traçado
(imaginário)
(nas pontas dos dedos que amam)
no seu corpo,
ligando pontinhos espalhados, ora pretos, ora vermelhos,
organizando constelações.
Preto carbono forja tempo
Amor em balão alquímico
(matrimônio)
transmutando a forma das estruturas
dançando
a busca incessante
do carbono-diamante.
Já conto alguns meses desde que ele atravessou a ponte.
Desde então, com toda correria malabarística do dessassossego contemporâneo, tenho vivido esse luto às prestações.
Uma coisa é clara: esses seres queridos passam a viver dentro da gente, em algum espaço profundo. Sua voz se faz clara. Sua presença, constante.
No dia de sua partida, eis aqui a história:
Minha fala ainda está engasgada.
Minha escrita não dá conta.
Só consigo agradecer. Inclusive o último presente que você me deu: me enviar um recado que precisava conversar.
Fui pra varanda, aquele lugar entre intermediário: nem aqui nem lá.
Fumei o cachimbo que foi da vovó, depois seu, e que você me deu.
Conversamos longamente. Eu confiei que você estaria me escutando. No começo não sabia nem por onde começar, mas depois da primeira palavra, o resto escorreu como uma cachoeira:
“Não sei o que te falar, pai. Nunca passei por isso. Mas se for como nos partos, posso dizer: tem aquela hora que a gente se entrega pro nada, se joga e confia. Ali você não cai no vazio. É o colo da mãe que te recebe. Deve ser parecido na hora que a gente faz a passagem”.
Lembrei dos nossos grandes momentos. Do som do seu sapato batendo na pedra enquanto andávamos de mãos dadas, minha primeira memória de caminhar ao seu lado. Do dia em que você disse que queria conhecer as estrelas numa nave espacial, e eu chorei tanto, tanto, com medo que você fosse embora. Hoje digo àquela menina: “o dia em que isso acontecer, pequena, será tão bonito! Não haverá medo, só amor e conexão. Sim, ficará a saudade, uma grande saudade, mas misturada com a certeza de que não estamos sós nos infinitos mundos.”
Nessa conversa, narrei a história-síntese da nossa vida. Te falei que ficaríamos bem, e recordei a você todo o amor que você deixou plantado, seja como um médico maravilhoso, como um pai tão protetor que às vezes eu protestava, ou como um homem capaz de grandes atos de entrega pela minha mãe (o que vocês atravessaram é um imenso exemplo pra mim).
Te agradeci por ter vivido com intensidade e inteireza tudo, por ter sido tão humano, tão verdadeiro em todas as suas escolhas. Muitas delas só entendi agora, nesse último mês no hospital, que pareceu um século. Nesse campo, seu local de trabalho por tantos e tantos anos, onde você salvou tantas vidas, uma grande cura aconteceu: o tempo se dilatou para que nossa família inteira e amigos próximos tivéssemos um aprendizado profundo.
Bateu um vento na varanda, senti que você me escutava. Te vi embarcando radiante, acenei com um gesto de entrega. Depois fui jantar com o Djair e os meninos, ainda entre os mundos. Finalizada a refeição, o telefone tocou. Eu já sabia. A notícia apenas confirmou meu presente: saber que você partiu sincronicamente ao som da nossa conversa. Esse foi meu grande sacramento.
Você, pai, que foi o grande contador de histórias, para quem eu fingia que só comeria ao escutar uma delas (e com toda paciência do mundo, me contava). Histórias e medicina se misturavam na sua essência, e eu herdei esse segredo. Você me iniciou nessa vida, e encerrou sua existência terrena me dando um diploma, e mais um aprendizado. Depois disso tudo, impossível não acreditar em um destino maior, em uma vida que segue além do espaço e tempo, e nessas conexões profundas que nunca irão se deter quando o espírito deixa o corpo e segue seu destino luminoso.
Estaremos aqui, continuando seu legado de amor e integridade.
Obrigada, pai.
Um lindo voo para as estrelas, para a luz que seu espírito merece.
Te amo, hoje e sempre. ![]()
Nos poucos silêncios que nossa vida louca nos oferece,
às vezes contemplo a chuva de prata que se derrama calmamente sobre seus fios escuros.
Como se o tempo não fosse acelerado
Como se a rotina não fosse intensa
Escorre o pra(n)teado pelos anos a fio, lembrando cada uma das tantas travessias.
Desafios mortais, ora em desertos de acidez,
ora em pântanos de desalento.
Eis o conto de fadas da vida adulta: o heroísmo nos mínimos atos cotidianos,
enquanto a aventura grita dentro.
Combatemos feiticeiras, barba-azuis, manipuladoras, assassinos, descrentes da vida, errantes desafortunados,
Combatemos a inconsciência que nos faz refém das vilanias, aquelas que tomam o corpo do ser amoroso.
Mas essas são as provas.
Esses são os percursos que fortalecem, em corrosão, a força do elo.
Por isso sei que te amo. Porque a cada dia, isso é testado. Pelas paisagens interiores, pelo caos do macroambiente, pelas eternas dúvidas que nos chegam da louca década dos nossos 40.
Hoje, meu amor por você é revolucionário.
Porque ele me faz tentar entender sempre, curar padrões, ir além do simplificado e irreal,
além da primeira estampagem que nos finge o romantismo.
Ele nos brinda, espantados,
Como se Romeu e Julieta tivessem renascido após sua primeira morte.
Talvez sim. ![]()
Às vésperas dos meus 42, acabo me permitindo uma pausa para o momento presente fora das telas. Surpresa com a terceira (ou quarta?) dimensão, observando a espiral que acompanha o aroma da manhã, agradeço.
Apesar de tantas provações, (tantas mesmo, entre paredes, entre bairros, cidades, fronteiras), vou construindo o espírito nessa forja insana dessa época. Tentando manter o peito aberto, a escrita fluida, buscando a arte acima de tudo (em peças, em livros, em imagens), subvertendo a ordem que aponta o dedo para a distopia, subvertendo a vergonha de ser um fracasso nesse sistema, sobrevivendo à tendência de odiar, dividir, pregar o fim dos tempos.
Essa sou eu, aos meus quase 42, início do sétimo setênio. Essa sou eu, mesclada a tantos e tantas que aprendi a reverenciar. Pois se esses tempos me tiram parte do chão (tudo é líquido, ou até vapor), também me levam ao essencial.
Luto, como sempre lutarei, frente às atrocidades dessa época. Mas não deixo de ver que, com a queda de tantas coisas, também sobe o espírito de comunidade. As tantas redes solidárias que se formam na necessidade, e nunca mais se dissolverão.
Nunca precisei de tanta ajuda, e nunca fui tão ajudada.
A começar pelos meus pais, Alfredo e Dadora, que me apoiam desde sempre, e a quem eu tanto amo e admiro. Meus segundos pais, Socorro e Djair, Minhas hermanas Adriana, Denise, Dayse, Flavia, meu querido bro Alfredo (em seu silencioso cuidar), Cecilia e Amanda, acolhendo Chico em seu novo castelo no Espaço Bem Viver, nossa querida comunidade da Escola Waldorf Guayi, terra do coração-semente, Priscilla e Sabine, pelo sonho engendrado nos infinitos mundos, em imagens da Milá. Alessandra, Isabella, Daniela , Cristiano, Daniela, Marco e nossa esperança (ainda) no teatro. Lizandra, primeira parteira dos meus filhos de papel, abrindo uma nova fase da minha vida. Ivana, Roberta, Adriana, pela irmandade compartilhada, e Maria Esther por manter sempre acesa a chama da nossa amizade nas dimensões do espírito. Laura Belo, Felipe Amato, por provarem que o alimento do futuro é possível e acessível, e compartilharem essas informações pro mundo todo.
Não cabe todo mundo aqui. Tantas e tantas mais pessoas ao redor, tanto a agradecer. Filhos, árvores, livros, a casa, agora uma escola sendo contruída tijolo a tijolo, literalmente. O amor sempre renovado com Djair Guilherme. Nossas difíceis e diárias decisões, tantas depois daquela primeira, em que decidimos expandir nossa egrégora de enamorados em uma família. (Vocês vão ter mesmo 3 filhos? Que coragem, hein?!) Nem em sonho poderíamos saber o que nos esperava, e faria tudo de novo, sempre.
Assim como lá fora da janela os dias alternam entre a chuva e o sol, dentro choro e reanimo. As águas amolecem a terra dura da minha taurinice, me mostram a reverência. Levantam meu olhar para além da terra que aro sem parar, me direcionam o foco para um novo horizonte. Sim, há esperança, sempre houve, se ainda existir o afeto.
E o afeto, ainda bem, só cresce. Assim como os primeiros fios brancos, assim como os fios invisíveis que tecem os anjos ao nosso redor.
Gracias a la vida, hoje e sempre. ![]()
(escrito em 08/05/17)