sim, já se passou um ano.

Quando você perguntou, não me surpreendi. Senti sua relutância em abordar o tema pelo telefone, como pegar em algo delicado com luvas de borracha. Senti sua hesitação, agradeci em silêncio o cuidado, e acabei me surpreendendo com a simplicidade de sentimento que veio: sim, já fez um ano. Há pouco tempo.

Não falei nada não sei por que. Talvez por receio de tingir de dramaticidade algo que já era, para mim, cotidiano. Não quis fazer disso uma data maior do que as outras, nem conferi exatamente o dia. Senti que estava perto. Assim como a primavera não começa exatamente no dia 22 desse mês (e as flores que estão surgindo por aí são provas), senti que essa precisão cirúrgica não era tão necessária.

Só sabia que ainda era inverno, e perto do tempo das flores.

Senti a data próxima, porque senti novamente os rios correndo em mim, pedindo choro sem razão aparente. Será que um ano é mesmo um circuito que traz de volta lembranças? Que nem o mar quando joga na areia, ao fim da tarde, o que nele sobra?

Hoje conferi: foi na madrugada do dia 29 de agosto.

E se não quis fazer dessa data nada tão diferente, não foi por fuga. É porque desde aquele dia tenho vivido essa morte todos os dias. Ela passou por mim, me deixou nua frente à possibilidade de minha própria finitude, me despiu de tantas certezas… me colocou de volta num caminho antes relegado às férias, ao final de semana, ao período que se reserva para viver – se for capaz – o que nos gera vida, o que nos nutre a alma.

A partir daquele dia, comecei um longo, longo reajuste. Quis despir de mim o que não servia. Percebi – com dor – que muitos desses excessos tem raiz em apegos profundos, em tesouros, na minha própria personalidade. Em medos. Percebi espantada que apesar de ter vivido uma experiência de despedida, repleta de sangue e de dor, ela tinha sido algo tão verdadeiro e vivo que me colocou em cheque. Colocou em evidência a palheta pastel dos meus medos cotidianos, e me fez perceber que, no fundo, junto com aquela dor havia um êxtase em estar plena e inteira em tudo o que a vida oferece.

Não que se possa viver diariamente naquela intensidade, mas deixar de viver por temer as cores vivas, por temer o vermelho vivo, era pior do que a morte.

Por isso, talvez, não senti falta desse luto com data marcada. Mas agradeço à vida por ter trazido a você, companheiro amado, uma experiência correlata para que você pudesse sentir um pouco daquela verdade, ainda que fosse na pele de outra pessoa – e bem-vinda seja ela que te mostrou o indizível desse momento. Benditas sejam suas mãos, para que possam conduzi-la, a cada massagem, a um lugar de alento, de desapego, de aceitação. E, talvez, longe de toda pressão de se fazer forte, de ser aquela mão que amparou o meu pranto, você possa ter liberdade de visitar esse lugar esquecido, e também, agora, dizer adeus.

 

 

como quem pica couve

Vou te falar… não se pode começar a escrever e logo já vem a criatura.

Ela disse que o nome dela é Loren, mas vai ficar igual à Lauren, então pra não confundir – e pra contrariar – vou chamar a persona de Hercília. Com H.

Ela tem todos os cacoetes da escritoura. Só falta morrer ao ver uma máquina de escrever antiga. cria playlists de personagens. escreve com musiquinha de frase puladinha. é engraçadinha (mas sem senso de humor), ou às vezes tão profuuuuunda que é tipo nescau com o triplo de açúcar, e com o tripo de palavras necessárias. Um saco. Mas nunca aprofunda: nem sangra, nem goza.

Resolvi apresentar a Hercília a mim mesma, apesar do medo de ser internada por esquizofrenia. Porque se o Fernando Pessoa pode, eu também posso.

Vai ter dia que talvez ela fale no meu lugar, mas paciência. Demora pra perceber que a bicha apareceu, porque ela é metida a sofisticada e sabe disfarçar. Isso ela faz bem, reconheço.

Aí um amigo uma vez me disse: quer escrever? então escreve como quem pica couve. A Hercília odiou a falta de glamour, mas eu adoro ficar com a mão com cheiro de tempero.

 

lição na escola

– Por que ele fala assim?

Em um ano e meio na escola, foi a primeira vez que uma criança me perguntou, assim, diretamente. Me pegou meio de susto, e na frente do Pedro. Pausa para pensar. Tempo congelado. Pergunta de criança é coisa séria. “Não sei, também estou procurando a resposta” seria algo sincero, mas sabia que para uma criança jamais seria satisfatório. Talvez porque, no fundo, a gente até sabe. Mas o tempo corria, os dois olhos e ouvidos aguardavam com expectativa, e sem que eu me desse conta, saiu:

– Porque antes ele falava com música, e agora tá aprendendo a falar com palavra.

Ouvi o que eu disse sem saber por que tinha dito. Me pareceu verdade, e só. O sorriso da criança confirmou:

– Queria ouvir ele falar com música!

(obrigada, Gustavo, por me lembrar que a aceitação é parte nossa. A diversidade não é estrangeira a uma criança. Aliás, é palavra só existe porque depois se desaprende o que já se viveu.)

 

pra nascer a borboleta.

no jardim de casa tem uma pequena cerejeira.

no galho da cerejeira tem um pequeno casulo.

as folhas iam sumindo, e eu pensava ser pelo outono

depois percebi que a lagarta ainda comia folhas

mesmo estando no casulo. saía, comia, voltava.

ontem só sobrava uma.

temi pela vida da lagarta.

(como se fosse ela indefesa,

apesar de até ter sua casa)

ela comeu a última.

como faria depois?

aí, à noite, choveu.

foi chuva de vento, raio e tempestade.

logo cedo, corri pra ver se o casulo aguentou.

naturalmente, alheio às dúvidas, ele se segurou.

e um galho de bambu, plantado ao lado, envergou.

cheio de folhas novas

envolvendo o esqueleto da cerejeira

cercando o pequeno casulo.

pintou de verde o quadro seco:

a vida protege as asas nascentes.

ainda sobre formigas

hoje, no café. um ponto preto que andava sobre a toalha da mesa. com a mesma naturalidade de quem tira o resto de pó do pão, parei o ponto. assim, espontaneamente.

matei no piloto automático. é muito fácil interromper uma vida.

chuva, torradas e hummmms

Fazendo uma revisão do que imagino querer na vida nos próximos anos, percebi que praticamente tudo está relacionado com a seguinte questão: quem sou eu?

Antes, respondia esse pergunta com alguns adjetivos e atributos. “Uma pessoa assim assada”. Depois, percebi que a gente se define pelo que faz. Então respondia pelas coisas que fazia, ou que ainda pensava em fazer.

Nos últimos meses, estou numa profunda transformação. Há muitas bases, antes muito sólidas, caindo. Tenho aprendido a me ouvir mais, e me surpreendendo com o que escuto: muitas vezes, é uma voz muito distante do que pensava ser a minha própria. No começo é muito estranho, porque gera uma dissonância. A parte de mim que arduamente foi construída se recusa a dar passagem a essa nova, tão amena, com objetivos ainda vagos. Ela parece não querer realizar muito. Ela assusta com sua entrega ao inominável. Ela pode me levar para caminhos tão distantes que então recuo: o que fazer com meu castelo?

Levei as duas, lado a lado, por um tempo. Uma conduzindo o desejo, me mantendo na ilusão da segurança. Se apoiando nas pequenas ilusões de felicidade. A outra – essa sim fonte de felicidade – eu alimentava nos momentos de rebeldia, de forma enviesada, quando aquela dormia, ou me permitia um descanso – afinal, era final de semana. Então já éramos três: a que mandava, a que cedia, e uma outra que, paciente, esperava.

Até que, num momento, a linha que traçávamos, lado a lado, converteu-se num triângulo. Eu estava no vértice, fazendo força para continuar caminhando, e as duas outras, querendo direções opostas, geravam um estranho efeito de estagnação. Então éramos um triângulo imóvel, mas num crescente interno de movimento. Eu, querendo avançar puxando as duas, e cada uma delas querendo ir para um lado. Toda a energia vital estagnada no centro: Bloqueando as pernas. Bloqueando o fogo.

Tornou-se insuportável. Para aliviar a tensão, a cabeça desconectou-se do corpo, e então delirava que caminhava, ainda que os pés estivessem parados, lá atrás. Não sei por quanto tempo permaneci nesse lugar. Só sei que, pela graça da vida, levei um choque no corpo que trouxe de volta a cabeça, e trouxe à tona toda a dor de uma vida fingida. E como era muita carga acumulada, e como era evidente o fracasso, um lado cedeu, desestruturando o tripé. E aquela outra, que estava à margem, ganhou força para dar um passo, movendo toda a estrutura: depois de longo tempo, novamente caminhei.

Então percebi que o que movia cada lado eram forças diferentes. Se uma extraía a força na fumaça das ilusões, a outra era a própria força, porque pertencia ao presente. Não dependia de um feito futuro para ter sentido: era, em si, o sentido. Então só bastaria ser.

Mas o que, então, eu deveria fazer? Como ia me definir, se não fosse pelos meus atos? Como planejar, se não há meta? Como executar, se não há plano? Como ser, se não faço, se não construo, se não executo? O que fazer com um corpo tão acostumado a ouvir ordens, um escravo obediente (ou quase sempre) do eterno faça-se?

Quem sou eu, então? Só sou? E basta?

Eis que aí estou. Sem mais querer obedecer a uma voz metálica, mas sem saber o que fazer com essa liberdade recém-conquistada. O que devo pedir? Que eu ME LEMBRE, então. Que rompa de vez os meus preconceitos, que sirva, sem fronteiras, a um propósito maior que espero descobrir. Que eu nunca mais seja uma serva, mas que esteja a serviço. Com a coragem para que passe por mim a certeza verdadeira do que sou.

E que venham os ajustes necessários a essa nova pele, a esse novo rosto. Rosto que ainda não reconheço, mas que já sinto mais familiar do que o que agora tenho. Voltar pra casa, pro ser.

dia das mães

tava aqui pensando no que é “mãe”. definições, sabe?

então o Gabriel pediu colo e colocou, num suspiro, o dedinho na boca. Encostou o pequeno corpinho um pouco pra trás, relaxou a cabeça… entregou. Na certeza absoluta de que teria amparo, de que teria amor.

né isso?

 

37.

data abstrata.

nasci 1975. 10.05.1975. Há quase 37.

não sei o que significa. Já sou tantas desde então, que não sei quantas fui em tantos anos, que nem parecem tantos, que nem se parecem anos.

nunca tudo esteve tão louco.

tanto que nem sei mais se sopro a vela ou se espero que outra, em mim, a sopre. Outra que espreita um pouco atrás. que espera. que talvez, em pouco tempo, aniversariará. nascerá. bebezinha.

Enquanto isso, comemoro-me, enquanto morro mais um pouco. até que Ela, eu-viva, viva plenamente, e então será eterna.

e então aniversários só serão datas pra comer brigadeiros.

jaca

acho jaca uma palavra que parece jaca. engraçada que nem a fruta, só que menor que ela.

passei no sacolão e cheirei uma, sem coragem pra encarar o combate de desmembrar a bicha. para minha surpresa, ganhei um pouquinho da fruta já domesticada, presente da minha sogra, senhora dona Socorro.

desde então tenho lembrado de Araçoiaba, cidade pernambucana onde uma vez estive.

onde conheci gentes incríveis. e por onde a gente passava fazendo documentário, ganhava uma jaquinha de presente. com o maior carinho. carinho da terra do maracatu, mas isso eu só descobri quando cheguei lá.

vai um teco? tem bastante. e cheiro bom.