Livrando a reta

Sou uma mulher de 48 anos.

Digo isso não só pra declarar idade, mas porque quero falar do que venho observando nas minhas companheiras de geração.

Que estamos cansadas, nem vou comentar. É quase como soltar um “ai que calor” na onda de sol escaldante. Que estamos confusas, sobrecarregadas, descabeladas (eu, pelo menos), também não. É chover no molhado, ainda que seja importantíssimo continuar falando sobre isso depois de séculos de silenciamento.

Mas hoje quero falar do foda-se.

Não daquele rebelde, dos vinte e poucos, que bota a língua pra fora e contesta as estruturas externas. É outro, um foda-se pra dentro. Pra todo lixo mental introjetado (só que glamourizado), gerador dos devaneios que nos prendem a uma realidade insustentável. O Reino das Águas Plácidas.

Quer alguns exemplos? Carreira em linha reta, felicidade inabalável, certeza absoluta de tudo, explicação pros mistérios, produtividade compulsória, lacração compulsiva, julgamento obsessivo, iluminação ilusória, relacionamento perfeito, corpo oprimido (por chantagens do tipo “barriga negativa” ou “peito que não segura lápis”).

Tchau pra tudo isso.

Estou na ponte entre o ser ou enlouquecer. E não estou falando daquela “loucura boa e disruptiva”, mas de estados mentais lastimáveis provocados por uma cisão interna já insustentável, que vem rasgando a gente por dentro.

Cresci em uma época em que poderíamos (portanto, deveríamos querer) “conquistar” tudo e mais um pouco. Não que isso tenha sido totalmente ruim, porque foi um grande motor. Apesar de todos os (coloque aqui todos os “ismos” que nos acorrentam), avançamos na direção de ideais grandiosos, e muitos frutos vieram daí.

O problema é que… esses frutos bastam para validar a vida?

Eles nos alimentam?

Só por um instante. Porque a colheita nunca é o suficiente. Nunca.

Atualmente, o prazo de validade de cada conquista é o tempo de uma postagem. As regras, sempre mutantes, nos pedem mais, e mais, um jogo cada vez mais volátil rodando em um universo cada vez mais instável, tão diferente daquele em que eu vivia na ocasião em que meus sonhos se formaram, lá pelos superfantásticos anos 80, voando no Balão Mágico.

Sonho cria raiz, sabia? Ele não muda tão rápido, na velocidade dos tempos. O que fazer com aqueles mais antigos, que não cabem mais ser sonhados, porque pertenciam a uma história tosca que nos contaram para fazer a máquina girar? Ainda mais em um momento de vida em que somos também cuidadoras de filhos, pais idosos, ou de tantas pessoas queridas que necessitam do nosso apoio?

Então… como conciliar o glamoroso desfile no tapete vermelho que prometemos às nossas Dyvas com o dia a dia demandante da vida em carne, osso e suor, quando simplesmente chegar ao pôr-do-sol sentindo-se minimamente bem é equivalente ao décimo terceiro trabalho de Hércules?

Eis a pergunta que venho lendo no olhar de muitas amigas, especialmente aquela que me dá bom-dia todos os dias, do lado de lá do espelho, espelho meu.

“Ah, então quer se libertar de mim?” – indaga, desafiante, o Mestre do Reflexo.

Ao ver minha cara de “foda-se”, ele completa:“Então está mesmo pronta para deixar aqui teus devaneios e ouvir, sem ressalvas, o canto da tua alma?”

Deliciando-se com meu silêncio ofegante, ele me aponta a linha acarpetada, reta e escarlate, que brilha sob os refletores.

Sim, ele acha que ganhará o jogo.

Sim?

CAPITALITE ou um sonho para chamar de seu.

– Tá tudo bem com você?

– Não.

– Mas o que você tem?

Esta tem sido a pergunta dos últimos meses.

A resposta mais imediata é: estou atravessando uma crise. Enorme, mas nada original. Nem preciso descrever em detalhes suas características porque, infelizmente, ela é bastante conhecida por ser o mal de muita gente. Os seus nomes são muitos: crises de ansiedade, síndrome de burnout, entre outras variantes que buscam definir uma atmosfera bastante particular: aquela neblina dilacerante que tinge a vida de cinza, fazendo com que a existência se pareça a um pesadelo sem previsão de término, porque não se está dormindo. Pelo menos, não aparentemente.

Um horror.

Eu já havia experimentado crises desse tipo em doses pontuais, mas nas últimas semanas elas se agarraram em mim como um náufrago, por dias a fio. Achei que ia enlouquecer. Tentei me livrar aos prantos, correndo de medo deste escuro, esperneando, também em naufrágio. Depois sucumbi, largando tudo o que achei que jamais poderia largar, contando com apoio de toda a minha rede de afetos. Pessoas maravilhosas que cuidaram de mim (e ainda cuidam), desde as mais próximas, amigos e familiares, àquelas desconhecidas que se dedicam a acolher a dor alheia.

Nada, nada, nada mesmo se compara à gratidão que eu senti ao perceber tantas mãos generosamente estendidas quando eu estava desabando em pleno abismo. Essa gente querida me fez chorar de alívio não só pelo apoio oferecido (entre reiki, johrei, rezas, massagens, acupunturas, canjinhas e escutas) mas também por ter me mostrado que a bondade ainda existe. À flor da pele (ou em carne viva), experimentar este calor humano teve um efeito em mim como água no deserto. Uma medicina poderosa, porque parte desta crise vinha justamente do terror à barbárie, e do medo de que nossa humanidade estivesse chegando ao seu colapso final.

Como se a História pudesse ter fim.

*

 Contudo, mesmo com tantas mãos dadas, havia um ponto de solidão nessa travessia, uma parte que caberia somente a mim resolver. O problema é que, justo neste momento, quem estava na torre de comando não era a mulher maravilha, mas aquela pessoa mais frágil, trêmula, inadequada, “inoperante”.

Como poderia uma criança superar o vácuo do abismo?

A criança treme. Esconde-se, grita, pede colo, sai em disparada com o monstro ao encalço. Em um desses desesperos, tentando me livrar de todo o mal do mundo que se expressava como uma “nuvem de nada” dentro do peito, morrendo de medo de não voltar mais ao que era antes, à minha lucidez, à solidez de minhas células, ouvi do meu companheiro: “Não adianta você fugir. Tem que conversar com essa coisa”.

Essa coisa.

Aquilo fez um estranho sentido, mesmo em um estado onde nenhuma palavra soava clara. Sim, era isso mesmo. Enquanto eu estivesse buscando uma “cura”, um exorcismo, uma “limpeza”, como se tivesse sendo possuída por qualquer entidade maligna, a coisa piorava. E se fosse algo a ser escutado? E se aquilo estivesse se apresentando daquele jeito dramático porque estava sendo ignorado há tempos?

Quem sabe?

Algo dentro de mim ressoou, penetrou em alguma camada secreta chamando coragem, e então olhei pra “coisa” como quem olha pra um bicho. Nem iria correr, nem ser pega ou devorada. Esse era meu novo plano.

Seria possível travar alguma espécie de diálogo?

O bicho teria voz?

Tinha. E era uma fala doída.

Escutei seu lamento entre meus próprios dentes, com meu esqueleto desestruturado em total terremoto, entre um choro e outro. Um choro sentido, um choro de mil vozes. Vi também que o bicho tinha uma forma de onda, e que ela era bem parecida às contrações prévias ao nascimento. Eu, que pari sem anestesia, lembrava bem dessa dor. Uma dor que vinha fazendo o chão tremer devagar, mas logo subia em pico, e já me arrebatava. Mas, no parto, eu já sabia que aquela era uma dor de nascer, que era assim desde que mundo é mundo, não por ser um castigo imposto às filhas de Eva (como nos enfiaram goela abaixo), mas porque, por uma razão inexplicável, a vida também dói.

Contrações. Era assim que a onda se apresentava. Reconheci o padrão. As mesmas curvas, a mesma intensidade. A diferença era que, ao invés de se manifestarem ao pé da coluna, as contrações eram no peito.

Por quê? O que está me batendo à porta? O que é que nasce pelo cardíaco? Quanto tempo o parto dura?

(perguntas ainda sem respostas)

*

Só o tempo dedicado a refletir sobre essas questões me traria alguma paz, foi o que eu entendi. Longe de querer buscar respostas simplistas, mas também sem sucumbir à impotência, me dediquei àquela conversa como quem se entrega a um último recurso.

Mas…

Diálogo demanda escuta.

Escuta demanda pausa.

Pausa demanda tempo.

A vida artificial do calendário meritocrático respeita o nosso pulso?

É claro que não.

“Trabalhe enquanto eles morrem”, é o que a cartilha diz.

Como fazer, então, para conversar com aquele bicho-onda em meio às infinitas demandas esperando pela minha devoção?

Tive que abrir mão de várias delas, me expor, falar a verdade. “Não estou dando conta, gente”. Negociei prazos, pedi apoio, deitei por terra o orgulho. Pessoas queridas dividiram o fardo. Ao menos por uma semana (pensei), que se tornaram duas (na marra), depois mais. “Vou ter que trocar o pneu com o carro em movimento”, eu dizia. Movimento? Pra onde?

Busquei outros diálogos. Conversando com uma amiga que também já havia passado por isso, ela foi certeira:

– Amiga, a gente tá sofrendo é de capitalismo.

*

Aquilo também fez sentido, “sofrer de capitalismo”.

Ou, como preferi chamar, capitalite. Tinha que ser algo assim, nome de doença que dá geral, tipo amigdalite, conjuntivite, faringite, hepatite. Porque esse não é um problema só meu, é um surto coletivo, mas que se disfarça de fracasso individual, escondido na vergonha meritocrática de não se “autorealizar” num mundo onde termos a suprema liberdade cocriar tantas possibilidades.

Capitalite. Adentrei aí, para ver o que tinha nesse balaio. Encontrei tanta coisa, tanta coisa juntaemisturada, um emaranhado tão grande, meu Deus, que respirei fundo para não me perder.

*

A primeira coisa que vi: essa pandemia é democrática. Evidentemente, é fatal para as grandes maiorias chamadas de minorias, mas não deixa de fora nenhuma das outras castas. No pé da pirâmide, materializou-se como uma furiosa arena pela sobrevivência, alimentada por aliados como o racismo, machismo, desigualdade social, homofobia, xenofobia, capacitismo, e tantos outros desequilíbrios que atacam o nosso campo de necessidades básicas. Literalmente, conspiram contra a vida, exterminando o ser na sua existência mais elementar, material.

Contudo os sintomas da capitalite não se resumem “apenas” aos infinitos boletos do “pacote básico de subsistência” postos à mesa todo mês, pontualmente, tendo você condições de pagá-los ou não. Conforme vai subindo pela escalada social, onde supostamente a arena atinge menos pessoas, vemos que essa doença ataca também o humano no seu aspecto mais subjetivo, eliminando nossa capacidade de respirar no presente e de vislumbrar um futuro.

Esse segundo sintoma da capitalite não é tão evidente, mas é tão atuante quanto o que está explicito. No meio da minha crise, quando toda a realidade perdeu nitidez, entendi que, da mesma forma que passei boa parte da minha vida espremendo a barriga para caber no Mito da Beleza, também espremi meu precioso tempo, meu ânimo e minha força criativa para caber no Mito da… autorrealização?

Que palavra define?

Como nomear essa fantasia generalizada que faz com que acreditemos que, se nos destacarmos do corpo da humanidade, se nos desnaturalizarmos, seremos mais visíveis, logo felizes?

*

A individuação é inerente ao ser, e ela acontece independentemente de alguém nos “aprovar” como um ser existente. Mas, como nos desconectamos dessa percepção, agora acreditamos que, para sermos relevantes, precisamos delegar poder a uma entidade externa chamada “outros”. Nessa distorção, a busca por qualquer individualidade gera angústia.

Angústia dói.

Como remédio, então, além da arena da sobrevivência (que é uma dinâmica compulsória), também nos é proposto viver um jogo paradoxal: uma “gincana de felicidade”, que tem como meta a conquista da plenitude, mas cujo caminho traçado, pelas vias tortas que segue, a impossibilita. Sim, mesmo quando se alcança o objetivo traçado, o sucesso é transitório, configurando, assim, um moto-perpétuo na busca e, consequentemente, no jogo. Obviamente, nada disso é dito, caso contrário a gincana não daria certo. É necessário haver uma esperança de êxito, mas apenas para os mais puros ou esforçados. Os merecedores.

Ainda que se oculte a falácia, a prática dessa gincana tem gerado exaustão, e algo em nós acusa que “algo de errado não está certo aí.”. Então, por que ainda optamos por seguir as regras?

Arrisco dizer que é por desespero, porque elas nos prometem entregar um caminho certeiro para o fim do sofrimento. Ainda que, para nos encaixarmos no jogo, precisemos nos desumanizar e aprender a chamar de meta o que é apenas desejo. E desejo não é necessidade ou vontade, é pura ânsia, um buraco sem fim.

Os povos antigos já deram um nome para isso, Samsara, e há tempos nos ensinaram como superar a ilusão gerada por este ciclo fechado. O problema é que não temos mais tempo para ouvir a sabedoria ancestral, porque a arena da sobrevivência, aliada à gincana da felicidade, exigem toda nossa atenção. Ainda que essas dinâmicas apresentem tantas falhas, como já não temos energia para vislumbrar outra realidade possível, sucumbimos ao que está dado, com mais ou menos consciência. E acabamos preferindo ignorar o fato (cada vez mais impossível de ocultar) de que tais jogos jamais serão vencidos, porque propõem como única saída a conquista individual.

Eis a grande meta.  

Ou propósito, chame do que quiser. A causa pode até ser nobre, mas se o motor que te anima a jogar é a fuga de uma vida medíocre (que nunca foi) ou a busca pelo pódium de “pessoa especial”, a gincana irá te aprisionar mais do que a busca pela sobrevivência. Não porque ter uma causa ou se autorealizar seja algo ruim, mas porque os efeitos colaterais da capitalite no nosso cérebro transformam o ideal humano, aquele chamado “sonho”, no maior gerador de boletos que existe.

Então, além de todas as contas postas à mesa, aquelas básicas, encontrei, debaixo da toalha, outra imensa dívida: aquela contraída pelo simples fato de desejar ser, nessa existência, alguém relevante.

*

Solidão.

Ainda no meu casulo, entre um diálogo e outro com o “bicho-onda”, chorando em posição fetal, também testemunhei o desfile de dores causadas nas nossas relações, tanto as interpessoais quanto a que temos com a gente mesmo.

Puro abuso, abuso constante. Abuso estrutural, já existe essa expressão?

Percebi o quanto me oprimia em nome da minha realização: “Aguente só mais um pouquinho”, é o que eu disse a mim mesma por anos a fio. “Tá quase lá”.

Quase lá.

Abuso que gera esgotamento, e nos impede de colher da vida suas verdadeiras dádivas, todas gratuitas, todas disponíveis hoje, em abundância, como o ar a se respirar. Tão bonito falar isso, mas tão difícil de ver. Porque o que aprendemos a chamar de sonho ofusca essa simples realidade. E nos torna menos gente.

Ao nos desumanizar, desumanizamos quem está conosco. O outro torna-se apenas o recurso para atingir a próxima fase, ou alimento pra compensar a falta. Enfraquecemos as relações, condicionados que estamos a julgar precocemente as pessoas nos tribunais midiáticos por não termos mais paciência para uma percepção mais generosa. A multiplicidade de quereres impede a profundidade, nos mobiliza a trocar de lugar constantemente, nos induz a colecionar experiências não porque a vida nos convida verdadeiramente a elas, mas pelo simples “medo de não aproveitar ao máximo todas as ofertas”. Colecionamos vínculos na dispensa da nossa “rede”, para uso descartável, presente ou futuro. E tudo isso encontra brecha, justificativa, porque nos tornamos escravos dos nossos próprios desejos, que aprendemos a cultuar como deuses.

Perdidos na ânsia de sermos servos fiéis deste panteão, nos esquecemos de nossa integridade. Da nossa dignidade. Do nosso respeito.  

Respeito. Palavra quase desaparecida, entre tantas urgências. Substituída por outra, tão em moda: cansaço.

*

Também estou cansada.

Cansada de diagnósticos sem cura, cansada de previsões fatalistas, da acidez sem medida, e até das palavras, antes minhas amigas.

Percebi o quanto necessitava de silêncio.

Se agora desatei a falar é porque passei dias na muda, trocando de pele calada na noite. Doída. Tentando discernir o que é uma crise genuína, própria do processo humano, aquela dor ancestral que precede o nascer, e o que é uma crise circunstancial, invasora de mentes, doença de época, forjada por um sistema estúpido que nos é artificialmente imposto a todo momento. A todos nós, e por todos nós.

Sim, somos todos responsáveis. Este é um pacto coletivo.

O que fazer?

Ainda recolhida no ninho das pequenas escutas, só posso dizer: não tenho respostas, nem a pretensão de que as terei.

Apenas senti que precisava entregar, um a um, o que aprendi a chamar de sonhos. Com eles, ofereço também a vã esperança colada no fundo da minha caixa de Pandora, com a intenção de arrancar das minhas crenças o “agora vai”, buscando viver o “agora é”.

O que tem me mantido de pé é a bondade que eu sinto vir da nossa gente, essa força que ainda resiste a toda desumanização. Sim, ela existe. Muito além de palavras ou ideologias, foram os olhares sinceros, as mãos dadas no silêncio e os abraços carinhosos que me ajudaram a restaurar um pouco da minha fé no porvir.

Só acreditando que há um futuro possível eu consigo libertar o novo ser que pede para nascer.

Talvez sonhos mais verdadeiros brotem deste parto.

Talvez.

Sinceramente, não quero ter nem mais essa expectativa. Minha cura, atualmente, é não mais querer, para não mais dever. Ou, se o querer for inevitável, que ele se contente em dividir comigo meu vazio.

Quem sabe,

neste silêncio de desejo,

eu encontre novamente

Espaço

E tempo

De ser.

E, junto a toda gente,

Conspirar.

Sobre a Filha Perdida

Sobre A Filha Perdida

O livro já foi um susto, e o filme o materializou de forma primorosa para mim.

Acendeu-se o debate.

Acordei sobressaltada com sonhos relacionados.

Eu, que sou mãe por escolha, ainda assim estremeci. Não pelo impacto das emoções da personagem (sombra intimamente conhecida), mas pela coragem de Elena Ferrante (e de Maggie Gyllenhaal, que escreve e dirige o a adaptação cinematográfica) de expurgarem o indizível.

Reflito: qual o impacto da nossa época no que hoje chamamos de maternidade?

Essa imensa, intensa carga mental a que as mães são submetidas não é algo natural, não é resultado da maternidade em si, mas da forma insana como nossas relações estão configuradas, de como nos organizamos socialmente. Performar maternidade perfeita é uma pressão a mais, mais um item a ser ticado na lista de metas diárias. Nesse caso, além de corrermos atrás da estrelinha, ainda fugimos do monstro da culpa. Entre o esgotamento e o banimento da Mamaland, ficamos com o primeiro. E ainda tomamos para nós o mérito de conseguirmos, sozinhas, a proeza de criar a prole.

(importamos a meritocracia proletária, e ainda não remunerada)

Até que a gente abra mão.

Não da maternidade em si, caso seja importante. Mas do modelo.

Uma coisa, para mim, é atravessar a fileira de renúncias que a maternidade exige. Veja bem, estou falando de escolhas, não de sacrifícios. Certa vez, um grande amigo e mestre querido definiu essa palavra, renúncia, como um “investimento naquilo que é realmente importante”. Achei maravilhosa essa definição, porque ela me ajuda a discernir quando me deparo com aquelas decisões em encruzilhadas. Decisões em ir ou ficar. Quando é importante maternar, quando e essencial me dedicar a outras atividades. Nem falo de passar três anos longe, mas curtos períodos de solitude em que precisei entender quem eu era depois de tudo. Depois de me tornar uma, duas, três, mil.

Não, a gente não deveria se dividir. É isso o que quebra a gente.

Não, eu não sou mil em uma. Sou uma. E gostaria de ser cada vez mais inteira.

Renunciar ao que me afasta de mim, o essencial que me nutre.

Qual a diferença, então, entre uma renúncia e um sacrifício?

Renunciar é abrir mão do que, no momento, é menos importante do que é essencial. No caso, estar presente. E também ter a sinceridade de revelar as nossas emoções, o cansaço e nossa necessidade de estarmos a sós para os próprios filhos. Exigir que eles tenham essa noção é uma inversão absurda. É a gente que ensina esse limite quando conseguimos viver essa verdade sem culpa.

Sacrifício é abrir mão do que não poderia ser renunciado, não sem cortar um pedaço de quem se é.

Isso cobra seu preço.

Como diferenciar uma coisa da outra?

Eis a questão.

Lembrando que a possibilidade de escolher não abrir mão de um tempo nosso só é possível com uma rede de apoio. Para mim, nunca se fez tão obviamente necessária essa rede como depois de ter me tornado mãe. Nunca a falácia do individualismo se mostrou tão claramente. Somos seres gregários, e aquela história de que é necessária uma aldeia inteira para se criar um ser humano, para mim, é bem real.

Sem essa rede, eu não seria nada.

Sem essa rede, meus filhos teriam apenas meu cansaço e meu sacrifício, que seriam cobrados com juros futuros.

E olha que nem mencionei nada sobre o machismo estrutural, que é parte essencial desse drama, porque senão esse texto seria um livro.

Só comento: pai não é apoio, é corresponsável.

Não, eu não me basto.

Não, sozinha eu não dou conta.

Nem preciso dar.

só hoje.

Foco no abacaxi, que ele tá quase estragando, coloca a roupa da máquina, tira a batata do forno, concentra também no job que já tá atrasado e aproveita e foca no corpo que anda meio parado que que custa andar um pouco e também fazer yoga cadê horário ainda bem que a minha mãe recém operada tá bem e tenho uma irmã e um irmão e toda família ajudando foca agora no sorteio dos boletos pendura uns mas não esquece de tirar do prego sem sonhar com livro no prelo porque agora não da tempo nem pra sentar e nem pra acento pontuação é privilégio reticências nem se fala mas ponto final tem que colocar minha filha entrega logo esse job pra pegar os próximos graças a Deus que tem trabalho não posso reclamar de nada mas reclamo sim dessa familicia e sua corja de seguidores passando motosserra em tudo cagando por onde passam uberizando geral e deixando corpos empilhados e um país inteiro pra gente arrumar lembra do abacaxi senão vai desperdiçar bora virar esse jogo esse ano tem eleição chega desse martírio não fica parada que nem fruta na fruteira esperando alguém tomar uma providência senão você vira banana tipo exportação dada quase de graça com propina em paraíso.

Ou tipo essa aí, que perdeu o ponto.

.

(Vai lá. Descasca logo esse abacaxi.)

Mulher:

Eu tenho frio.
Um corpo arrepio.
É um corpo sem pontas, arredondado,
pedindo por presença como um vaso,
cheio de vazio, de futuro.
 
Quem sou eu?
 
Silêncio.
 
Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, esperando, o dia em que puder ser.
Ou talvez ser agora, no auge da dureza do mundo.
Porque eu broto do contrário.
 
Quantas vezes vou ter que nascer e renascer, ainda nascendo mulher, ainda tentando
entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro?
 
Sem vela?
 
Na hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam?
Quem sou eu? A pausa no respirar nas estrelas?
 
Confesso.
 
Confesso sentir o amor como uma flor escancarada no peito. Confesso medo quase insuportável de queimar nesse calor.
Nessa ida até onde nem sei, confesso.
 
Eu confesso, mas não me orgulho.
 
Confesso não ter seguido meu pulso.
 
Confesso ter desdenhado a dor de tantas outras, confesso ter tentado fugir,
confesso ter nascido no fluxo, confesso ter memória pequena, confesso ter deixado de ouvir o canto,
confesso ter me resignado às migalhas do pouco desse tempo, confesso ter cortado os pulsos e deixado esvair meu ser inutilmente, confesso ter destilado veneno por pura inveja de quem nada teme, confesso ter submetido o meu pranto ao martírio de causas levianas, confesso ter julgado as tantas outras formas de vida,
 
confesso ter me perdido da vida. Confesso ter me deixado na sombra.
 
Confesso ter congelado um sorriso cordial e covarde, confesso a dor da memória de um tempo que eu tenho o medo do acesso, confesso a dor desmedida de quem não esconde ferida exposta,
confesso ter incendiado a minha casa antiga e velha e mofada,
confesso ter me atirado na longa jornada sem pão e sem rumo,

 
confesso soberba danada de quem não confia na ajuda dos homens,
confesso soluço jogado a esmo sem ter uma voz que acalante,

confesso a procura de um tempo onde o ser volta à tona parindo sorrisos,
confesso o peso das coisas que hei de largar mas ainda carrego,

confesso a esperança de ter vislumbrado a saída num longo caminho,
confesso a fé que se escora nos olhos vendados e mãos estendidas,
confesso difícil a entrega pra quem foi julgada, traída e perdida,

confesso uma chance presente de rever história com olhos crianças,
confesso desejo de ser plenamente o que sonho com ar de lembrança,
confesso desejo de dar nova chance a essa vida que é nova e que chama.
 
Confesso que não quero mais confessar.
 
Pelos lados, quero só respirar.
 
Conspirar.
 
Ligar traços,
 
desenhar constelações.
 
 
(trecho da peça teatral Jukebox, publicada no livro Campo de Transe, Editora Presságio.
Arte da Milá Bottura Dias da Silva)

Marielle presente em verde rosa e purpurina

Esse é só o começo.

Não se detém, de forma alguma, o que está no cerne de uma nação.
Em 2018, no auge do meu desalento, eu pensei: “Como as forças dessa terra permitiram isso? Tanto ódio, tanta injustiça?”

Difícil lidar com tanto, partindo da ignorância de quem vive a vida em tempo linear, segundo após segundo, ao rés do chão. Mas em suave perspectiva histórica, poucos meses depois, a despeito de gritos despeitados, a semente não apenas brotou. Rompeu o solo com tudo e desabrochou na maior ópera a céu aberto do planeta.

Eis nossa resistência: o grito forjado na festa. No passo do corpo livre, ao som de tambores, mexendo com tudo, deixando de lado todo moralismo que nunca foi nosso: veio importado em pele extrativista.

Pois bem, bem-vida seja a nossa cura. Pois se as sombras todas também saíram em desfile, é tempo de cuidar. E harmonia, como uma escola de samba bem sabe, não um exército marchando uníssono no medo e na violência covarde. É diversidade que dança junto, cada qual a seu passo, movida pelo sentido de alegria e beleza.

Valeu, Mangueira, por ter me lavado a alma!

 

Performers hold flags with an image of slain councilwoman Marielle Franco during the perform of the Mangueira samba school during Carnival celebrations at the Sambadrome in Rio de Janeiro, Brazil, Tuesday, March 5, 2019. (AP Photo/Silvia Izquierdo)

 

 

 

Meu inverno é fluxo. Minha paz é vermelha.

 
30 dias já. Nada dela chegar.
Isso é terrível. Essa suspensão, sob um céu cinza, trovejante.
Tempestade que ameaça, mas nada de água.
 
Às portas da tenda, aguardo a autorização para o repouso. Tenho me dado esse suspiro: pelo menos, um certo recolhimento. Aquele, para a refazenda.
(ai, abacate do Gil, fruta-fêmea que se escuta e respeita).
 
Mas nada.
Não é gravidez, fiz até o teste. Nada excepcional.
Apenas espera.
 
O fluxo, antes, era reduzido. De 28 pra 25. Três dias apenas na conta da diferença, até passei em consulta pra ver se tudo bem ficar assim, “desregulada” e tal – contudo, em segredo, gostava dessa estação adiantada. O resguardo virou luxo em tempos de tanto barulho. Essa era minha pequena subversão: adiantar-me à lua. Experimentava o fluxo ora na cheia, ora minguante, nova ou crescente, esse pequeno delay me fazia caminhante pelas fases, vivendo o descanso em cada uma delas.
 
Agora, tudo parou.
Aguardo, estática, a chegada da quarta estação. Anseio por ela, que para mim não é fria.
É silêncio.
 
Mas nada.
 
Quem me avisa?
“Não farei mais por você, ó mente inquieta, a tarefa de apaziguar tremores.”
Avisa a mim ou o que penso ser, identificada com o pensamento que já voa além do calendário gregoriano?
 
Corpo, taurino que é por essência, empacou.
A cabeça do touro, forma-útero, então me falou por dentro, por baixo, do centro:
 
“Se eu sou você, então venha aqui me escutar. Venha e seja, desidentifique-se com a palavra corpo, como algo que se vê sem estar. Corpo é só ser, coisa una. Seja corpo, e deixe a mente ser o outro – até estranho – a que você se refere como coisa fora de si.”
 
Muito confuso – pensou o ser-mente, coisa que penso ser.
 
“Seja, ou não sentirás mais o giro do fuso” – Sentenciou.
 
Sede de vermelho. Sede de fluxo, do descanso do ciclo. Quero noite, quero escuro, quero a caverna que me refaz e acalenta. Quero o colo da mãe, aquele que me embala nesses três/quatro dias de júbilo. Quero sangue.
 
Em mim, o inverno ainda aguarda.
Céus em tempestade.
Nunca senti que seria tão desesperadora a imortalidade.

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto

pra que a vida nos dê flor

e

fruto.

Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos.

Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”.

Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo da qual sentou Buda. Campo para transformação, ou até transmutação.

Começa com o corpo. Mas além do parto, o que ainda nos espera? A longa estrada da criança: criar além da chegança. Burilar palmo a palmo da pequena alma que eu era, nesse reflexo renovado que, dia a dia, me abraça e mira com todo amor que um dia sonhei sentir.

Cuidar do broto, a cada dia. Entender que espírito é esse que me brindou com sua presença. Ouvir nossa história juntos. Conduzir carinhosamente essa plantinha até a elevação máxima dos seus potenciais, ser também solo, terra. E quando sentir as raízes profundas no corpo do meu ser, confiar que o sol fará sua parte.  Celebrar cada flor que desabrocha, exalando um perfume ímpar: saber-se testemunha do propósito, então do filho, alcançado, vertendo em novos frutos pro mundo.

A co-criação com a vida: é isso, mãe?

todo mundo merece um creditozinho, né não?

crefisa-credito-facil-2

Não passe vontade. Compre agora. Pense depois. Pegue já o que é seu. Positive-se. Dedo em riste. Não espere. Aproveite! Últimas unidades.

vencedores não esperam. vencedores pegam a oportunidade.

vencedores não se frustram. pegam agora e pensam depois. o futuro não existe.

mercadorias abundam

bundas também.

mulheres tem bundas

(homens também. mas nenhum quer ser bundão)

ninguém merece esperar. pode pagar depois.

as mercadorias não merecem esperar. querem ser consumidas.

especialmente, se vestirem curtas embalagens

fáceis de rasgar.

 

algumas saem de graça

não precisa nem pôr na conta.

 

algumas já vem cortadas em fatias

(só o filezinho, sem osso)

e ainda embalando amortecedores de consciência.

 

cervejamulher

 

Vem, meu bem!

tá esperando o que?

corre, que vai acabar!

 

pinup

 

(reflexões e analogias trazidas pelo companheiro de vida Djair Guilherme, em nossas conversas estimulantes sobre o corpo, a atualidade e o SER.

Aqui tem a versão dele dessa mesma história)

frases do cão (de se ouvir e acreditar) sobre vida com filhos

normalmente, parecem grandes elogios, ou pequenas piadas.

mas são a porta pro fundo do poço.

sobre pais:

“que sorte que ele te ajuda em casa”

“quer dizer que você tem dois meninos na sua casa?” (um é o pai)

“que bom que ele é um pai carinhoso!” (oi? não era pra ser?)

“nossa, ele trabalha e também ajuda a cuidar dos filhos” (variação das anteriores, mas sintetizando o espanto)

(história termina com um moleque-mimado-mimimi  – mas ainda pai – posando de herói e secretamente arrependido de ter se metido nessa “roubada” . Ainda achando que merece uma medalha cada vez que pega o filho no colo)

 

sobre mães:

“como ela é forte!” (como uma mula de carga)

“impressionante como ela dá conta!”

“e ela faz tudo sozinha!”

“tem coisas que só a mãe pode fazer” (isso só vale pra aleitamento. o que nos primeiros 6 meses, significa pelo menos 5 horas do dia dedicadas a isso, no mínimo.)

(história termina com uma mãe-chuck-norris com síndrome de mulher-maravilha completamente esgotada, cheia de medalhas por ter dado conta de tudo melhor que qualquer um.)

 

no futuro:

O pai nunca deixa de ser filho, e passa a ser filho de seus filhos, mala eterno.

A mãe, depois de anos de raiva acumulada, manda a conta de tudo o que deu conta pros filhos, virando vítima eterna do fardo maternal.

 

(gente, a Medéia já passou por isso, virou mito, peça grega, até sambinha do Chico. tá na hora de aprender e largar essa carroça, né não?)