das prioridades

é só agora.
só agora que vou trabalhar uma hora a mais.
só agora o chocolate.
depois, a bicicleta.
só agora a obrigação
depois, a diversão (não é essa a ordem certa?)
só agora o amor fica depois.
só agora divido matéria e espírito.
depois, o espírito
só agora, porque preciso de dinheiro
depois, o riso.
só agora, porque preciso ser aceita.
depois, o caminho.
só agora, porque é urgente.
depois a essência, porque dá tempo (a vida é longa)
só agora percebo: é sempre agora, mesmo depois.
percebo a tempo. Há tempo?
agora, viver o depois.

Tônica 2008

plantei, plantei, plantando, regando, plantando, regando, plantando, esqueci de regar ali, plantando, murchou, regando, levanta, plantando, plantando, plantando, eitagerúndio, plantando, plantando, olha o sol, plantando, olha a chuva, plantando, regando, plantando, cuidando, descanso?, plantando, anarriê, plantando, plantando, (suspiro) e plantando…adubo:esperança.

oração da noite

às vezes, a gente atravessa algumas noites.
O mundo tá difícil. as relações humanas, então…nossa!
Mais fácil, burocraticamente falando, seria não fazer nada. Ser funcionário, funcionar simplesmente. E tirar férias e fim de semana, como se não tivesse nada com isso.
Mas a alma da gente não sente as coisas assim.
Então é foda, mas o melhor é encarar as coisas.
Não quero ser específica, porque isso cabe, nesse exato momento, em muitas situações. E é difícil não julgar as pessoas, então prefiro calar e pedir humildade, porque orgulho a gente tem de sobra, mesmo que seja atraso de vida. Ah, se a gente vivesse na humildade, entenderia que só o ego se submete. O nosso eu superior pode ser humilde porque entende que humildade não é submissão, é plenitude e alegria.
Mas a gente quer realizar, precisa realizar, viemos para condensar matéria. E como realizar com desapego? Como querer sem querer?
Humildemente peço ajuda para entender esse falso paradoxo. Porque sei que em algum lugar nada disso é incompatível.
Peço ajuda para cruzar as noites sem pressa para ver o sol.
Peço ajuda para cruzar as noites sem escurecer minha vista ao passo do outro.
Peço silêncio para ouvir o melhor a fazer.
Ilumina, meu guia, essa noite, respeitando sua escuridão característica, mas que não é a escuridão dos abismos. Ajuda-me a realizar com passos firmes, na confiança de um destino maior.
Ainda tenho muito a aprender.

um ano de pedro


um ano de Pedro do lado de fora

um ano de vida fazendo memória

um ano de um dia que vale uma vida

chegada que nasce de uma partida

partida de si, parto, dor, desmedida

e alma que chega, do amor, acolhida

transforma a moça, já não mais donzela

trazendo o presente, depois de uma espera,

de ser-se bem mais do que se imaginava

ser mãe ser entrega paz luz porto estrada

nascer-se de si junto ao filho querido

virar, há um ano, o desconhecido.

obrigada, alma-luz, por essa história.

muitos anos de linda vida.

era ela, o abismo

lá estava ela, e o abismo
um texto que ainda vou escrever. estou com uma certa saudade de um delírio, a vida de repente aterrou demais.
são momentos e momentos. mas dá saudades de dioniso
essa foto foi tirada há mais de dez anos, numa expedição com um grupo de atores e de fotógrafos. Foi animada pelo renatinho chaui, um espírito lindo que hoje é só espírito.
um dia, foi ele e o abismo. e o abismo ganhou a batalha.
pra ele, naquela época, escrevi um texto. hoje, não sei por que, veio à tona:

Voa, meu amigo, voa
Ao encontro da sua paz (?) aqui nunca conquistada
Voa, meu amigo, voa,
Voa dentro de mim com o olhar edificante com que você enquadrava o mundo, e sua sede de vida nunca saciada
(talvez por procurar se adequar ao inadequável)

Não quero romantizar seu salto. Nem tentar entender suas razões, ou a falta delas.
Só espero, como um último desejo,
que sua alma tenha se refeito em algum ponto do infinito para onde você mirava.

E sua imagem voando será a minha herança
Tão fiel como sua amizade
E sua imagem no ar será a minha certeza
De que esse mundo ainda não é feito para os humanos

E sempre que eu estiver prestes a sentar no conforto e acreditar no que me vendem
Seu vôo me fará levantar, seguir em frente e mudar alguma coisa.

tempo pedro tempo

cuido-te, filho
até que andes pelos teus pés
enquanto guardo e aguardo,
teu sorriso me empresta a lembrança do meu.
tua inocência me lava
e me devolve a minha.
tua confiança na bondade do mundo
me traz de volta a coragem:
braços abertos para o desconhecido e o incerto,
cambaleando ou não, sempre em frente,
tesão de viver.

quando grávida (dez luas)

O que isso tem a ver com todo o resto da matéria viva?
Tudo.


Mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que o medo era maior. Não me pergunte do que, porque quando se tem medo nem se sabe, é só um ar dilatado impedindo o ar de verdade. Teme-se tudo, porque no fundo a gente se sabe mudança constante. E o medo cria uma ilusão de pintura na parede. Sem perspectiva, cor ou forma. O medo cria as ameaças, o poder estabelecido, a fuga de si, a necessidade de quem manda (pra onde?). O medo é o capacho do desejo de permanecer. O medo tem nomes toscos e imperativos que mudam ao longo da história (Nero? Bush? Quantos…), mas também tem marcas individuais criando esses pequenos nomes dentro de cada vivo. Nos vivos que se sabem vivos, os humanos, ele cria história regressa.


O outro lado do medo é a coragem. Coragem, coração, peito aberto que pulsa e marca o ritmo do movimento, que nunca é quadro parado. Nada mais lindo e temível (para os que têm medo) que um coração pulsando. Talvez daí venha o medo das bombas de onde nascem as guerras, porque o coração é bomba de onde nascem luzes.


Mas antes da visão do coração pulsando, o saber-se recheada de vida. Não só o impulso vital de todos os dias, mas uma vida alheia, alma outra que quis vir nessa Terra-universo-espaço-tempo por meu intermédio. E antes da cena do coração pulsando no ultrassom, um banho infinito, talvez o maior da minha vida, o banho após a notícia de se saber agora outra, agora grávida, me disse mais do que a imagem cinza e enigmática do ultrassom. E uma voz doce desceu de algum lugar de onde vozes doces vivem e, no meu coração acelerado e feliz e de repente perdido e sem acreditar, encheu de matéria fé um corpo que jamais seria o mesmo, um espírito que, já em construção (o meu), jamais será o mesmo. A voz cantou um canto sem palavras prenunciando o retiro dos próximos nove meses. O que a voz cantou eu entendi a prestações, mês a mês, ao perceber que gravidez não é só espera, são encontros.


O começo é a novidade com terremoto do corpo. Tudo se reajusta, provando que sempre há espaço pro que se deve nascer na gente. As vísceras vão cedendo espaço, mas como são melindrosas (porque nós as carregamos desses sentimentos não resolvidos), dão gritinhos mal-humorados. Mas nessas horas a gente, com dois corações pulsando, acha coragem em dobro. Essa coragem escorre até os dedos dos pés, que se liquidificam e escorrem pela terra, por mais que se use sapatos. Vira um líquido que, em contato com a terra, por mais que se pise em cimento, assume formato raiz. E todos os cantos internos de todos os cantos não revelados sobem por ela como seiva, numa ação contrária à gravidade, alimentando o espírito. Esses cantos são os hinos entoados mês a mês, e apenas ouvidos se a coragem tiver silenciado o medo do novo. A gente cala o cotidiano, cala as conversas inúteis, acho que até o ouvido deve crescer um pouco, de tanto que talvez se escuta. Digo talvez porque não é óbvio, é tão sutil que escapa ao menor retrocesso à vida anterior. Mas os dois corações ajudam. Às vezes a gente até solta um rugido que escapa de alguma herança perdida, lembrando que só somos gente por ser de outra espécie e por escolha, mas que o impulso está lá, para quando se quiser tomar contato. Então é o canto da terra com o tambor duplicado no peito o que, durante esse tempo nos coloca em estado de graça, e também nos desestabiliza, enquanto nosso corpo vai se tornando lua. E os contatos também ficam sutis, com a alma de quem vem, com a alma do pai que assiste à revolução em tempo lunar mudando também o seu calendário. E assim como a terra muda as marés com a lua, o pai deixa-se tomar (caso queira também cair na correnteza da vida) por essas ondas gigantes, vivendo uma trindade ainda secreta entre dois mundos.


De tudo, só é necessário querer o que é vivo e humano. Em si e nos outros.
São três momentos. Gestação, parto, maternidade. Cada um com canto próprio. Agora o que experimento é o final do primeiro ato. As últimas notas, as últimas viradas da lua.


Não é um mês. São semanas


Não, não são semanas. São dias. Dias não!
Horas…
(Oras)
Horas perdem os contornos. Nada mais se conta em unidades de tempo.
….
É um longo tempo…
Talvez não pela ansiedade ou pela demora…mas por, talvez, se esperar que a cada momento a vida irrompa a realidade cotidiana, e é preciso estar atento, é preciso estar desperta, preparada, em prontidão de pássaro antes do tiro, vive-se o último mês como se deveria viver sempre, atenta e grata pela morte iminente, pelo nascimento iminente, pela vida, o presente, enfim.

aceitação

Ser do rodapé. Ser da ralé. Ser do foda-se, do foda-me, do cais. Ser mais.
Ser da falta. Ser da não precisar. Será? A liberdade dos que parecem livres, do que padecem livres, mas que afrouxaram o passo por falta de RG.

Ser a banda que ressoa no coreto da cidade para ver os velhos dançarem sem importar o cachê. Ser a mola do realejo ao entregar o bilhete certo a quem ansiava boa sorte. Ser a valsa na noite de lua. ser o acalanto da lua após uma dor desconsolada, ser a voz do desespero que alivia o risco do suicídio. ser a luz na névoa fria. feito brisa. que torna-se tormenta;

Ser a volta da fortuna na vida. ser a permissão pra sorrir, ser a planta da casa, renovar o O2 esquecido, ser o porto dos amores esquecidos Ser. Não importa quando, nem onde, mas fazer orbitar os elétrons ao redor dos núcleos, pelo simples motivo de manter a vida em movimento.

Recriar não a vida, nas a razão dela. e deitar-se na íntima certeza de ter nascido para fluir seiva fresca ao mundo, seja ele qual te deram.

Ode ao câncer contemporâneo

Ela vende.
Ela mostra
ela tem que agradar.
Ela carrega a alegria do sonho realizado
ela espanta tristezas
abomina tristezas
tem que ser digerível

Ela evita o confronto
Mas não se esquiva do confronto com o outro
que possa lhe roubar a posição

Ela evita a dúvida
a dívida
o fracasso
auto-suficiente, auto-centrada, autonomatizada.

Ela sorri para todos
Ela é linda
ela não erra
Ela tem que vender
Ela não silencia
Ela não descansa
ela fala, fala
mas não troca

Ela patina na solidão de si mesma
para ela, silencio é anonimato
e anonimato é morte certa
vida é fama
ser de todos, menos de si.

os outros são apenas aplausos
palcos
degraus
amigos a favor do pêlo
amigos-platéia-aplausos

Silêncio

Silêncio

Silêncio

De repente, uma fratura
vazou um silêncio
vazou outra possibilidade
vazou o desespero de novos caminhos

o desespero da libertação

vazou um outro pensamento
vazou um desejo até então estranho
de não ser ninguém
além da vontade daquele momento

Vazou um desejo de implodir estruturas
de jogar para o alto o pódium de tantos espetáculos
de tantas vitórias

Vazou, e logo foi tapado
com um novo show
que nunca mais foi o mesmo

a partir daquele dia,
a felicidade gerava dúvidas
o espetáculo gerava dívidas

anos de dívidas de alma.