eu, corpo,
verdade.
ela, mente.
isolada,
mente.

de Claudia Pucci Abrahão
eu, corpo,
verdade.
ela, mente.
isolada,
mente.
… e se aos vinte e poucos anos acontece a maturidade da adolescência…
… (frio)…
… aos trinta e poucos começa a adolescência da maturidade…
… (seco)…
… e daí eu acho que não acaba nunca…
… (flores)…
hoje, febril,
busco a fé de que falam os sábios.
mas só queimo na ansiedade dos dias, apesar da primavera que trouxe a chuva, limpando o deserto do lado de fora.
ainda não achei a medida da paixão pela vida sem desapego: quero, e quero muito, ou não quero e não faço,
um destempero.
e às vezes, sinto vontade de chutar quem está no caminho, seja pedra ou gente.
não, não me orgulho. respiro fundo, não faço. mas reconheço.
não acredito em partidos.
só em todos.
multifacetados, multicoloridos, polidimensionais,
amorosos
integrais
e felizes
inteiros.
que o olhar meio estrábico de alguém que vejo sempre desperta em mim a beleza da assimetria; que no ar, entre o céu e a terra, cruzam pequenos pontos brancos, leves, inconstantes, às vezes penas, às vezes painas, às vezes nem sei; a ternura de testemunhar pequenas conquistas, como a própria mão escovando feliz um dente de leite; que alguns fios brancos somados na fronte de quem se ama torna presente o tempo do tempo, a dor da passagem, a alegria de vivercom; que um resfriado não é o fracasso do corpo, mas inverno que entra na pele pro corpo virar mais abrigo;
estou conseguindo parar para ver
a impaciência do ser enclausurado na casca do deve ser; que uma semente pode ser barco, fluir pelo rio, mas logo depois virar chocalho;
que no meio do vazio de uma mata uma folha cai, silenciando o silêncio,
enquanto, dentro de mim, todos os ruídos se arranjam em caos iminente.
É quase grosseiro dizer assim, o que se sente: submeter o éter à dura casca da palavra. mas as cascas das sementes também são duras, gerando um oco. E não é da semente que a vida brota, mas da caverna do vazio que nela vive.
seco.
em silêncio
sincero;
(choro para aguar)
sintetizo.
cinestésicos sins,
som das sombras,
(choro para aguar)
sementes.
é fácil acolher um abraço
algo concreto entre os braços
difícil é afrouxar o traço,
desfazer o laço,
abrir as mãos em água corrente
sem segurar, só dissolver, sentir-se sair, sentir-se não ser.
dói, inverno.
bem-vindo seja, frio.
bem-vindo seja, amargo do sal nos olhos
e o deixar fluir a água corrente dos olhos
esperar, paciente
esperar, aceitando,
esperar, agradecendo,
esperar, primavera.
há cinco anos, aconteceu.
na madrugada, a luta estava no ápice. depois de mais de 30 horas de dor, dentre as quais 7 eram de muita dor, ela ainda resistia.
apesar do torpor, da quase perda de consciência, ela firmava sua existência. peitava. esbravejava. se contorcia.
(em segredo, se vitimizava)
tremia.
temia.
não cedia.
o dar-se era inevitável, mas, no momento, impossível.
ela retraía.
quase perdeu os sentidos. num último momento, só sobrou-lhe um: a criança que viria.
só então se deu conta que essa era, ainda, uma informação distante.
então percebeu que não havia, ainda, o amor.
então alguém além dela mesma (ou que pensava ser) o evocou.
então percebeu que amor é também a dor de ir além dos próprios limites: perder-se para expandir-se. abrangência.
ela cedeu.
jogou-se de costas no abismo, sem esperar amparo.
amanheceu.
ela morreu.
um pouco depois das seis, Pedro nasceu.
outra viveu. (que agora, sou eu.)
obrigada, filho, pelo presente de saber-se além.
(muitos e muitos anos trazendo a luz com você!)
é inexplicável
indizível
indecifrável
mas nem por isso, inatingível.
(e por isso, obrigada corpo.)