bem-vinda primavera!

… e se aos vinte e poucos anos acontece a maturidade da adolescência…

… (frio)…

… aos trinta e poucos começa a adolescência da maturidade…

… (seco)…

… e daí eu acho que não acaba nunca…

… (flores)…

ainda não me contaram que já é primavera.

hoje, febril,

busco a fé de que falam os sábios.

mas só queimo na ansiedade dos dias, apesar da primavera que trouxe a chuva, limpando o deserto do lado de fora.

ainda não achei a medida da paixão pela vida sem desapego: quero, e quero muito, ou não quero e não faço,

um destempero.

e às vezes, sinto vontade de chutar quem está no caminho, seja pedra ou gente.

não, não me orgulho. respiro fundo, não faço. mas reconheço.

 

 

semente de pé

pimenta fora do pé
quem olha sente
já arde as vista.
(insista)
tem fuga no pé que coça
sumir da coça
coçar uma sarna
sair num corre
(resista)
mira pra frente, enxerga,
tem coisa à vista
(procura a pista)
espera,
enquanto não vem,
degusta o ardor.
(persista)

conseguindo parar para ver

que o olhar meio estrábico de alguém que vejo sempre desperta em mim a beleza da assimetria; que no ar, entre o céu e a terra, cruzam pequenos pontos brancos, leves, inconstantes, às vezes penas, às vezes painas, às vezes nem sei; a ternura de testemunhar pequenas conquistas, como a própria mão escovando feliz um dente de leite; que alguns fios brancos somados na fronte de quem se ama torna presente o tempo do tempo, a dor da passagem, a alegria de vivercom; que um resfriado não é o fracasso do corpo, mas inverno que entra na pele pro corpo virar mais abrigo;

estou conseguindo parar para ver

a impaciência do ser enclausurado na casca do deve ser; que uma semente pode ser barco, fluir pelo rio, mas logo depois virar chocalho;

que no meio do vazio de uma mata uma folha cai, silenciando o silêncio,

enquanto, dentro de mim, todos os ruídos se arranjam em caos iminente.

É quase grosseiro dizer assim, o que se sente: submeter o éter à dura casca da palavra. mas as cascas das sementes também são duras, gerando um oco. E não é da semente que a vida brota, mas da caverna do vazio que nela vive.

ainda inverno

seco.

em silêncio

sincero;

(choro para aguar)

sintetizo.

cinestésicos sins,

som das sombras,

(choro para aguar)

sementes.

para entender os invernos

é fácil acolher um abraço

algo concreto entre os braços

difícil é afrouxar o traço,

desfazer o laço,

abrir as mãos em água corrente

sem segurar, só dissolver, sentir-se sair, sentir-se não ser.

dói, inverno.

bem-vindo seja, frio.

bem-vindo seja, amargo do sal nos olhos

e o deixar fluir a água corrente dos olhos

esperar, paciente

esperar, aceitando,

esperar, agradecendo,

esperar, primavera.

Pedro.5

há cinco anos, aconteceu.

na madrugada, a luta estava no ápice. depois de mais de 30 horas de dor, dentre as quais 7 eram de muita dor, ela ainda resistia.

apesar do torpor, da quase perda de consciência, ela firmava sua existência. peitava. esbravejava. se contorcia.

(em segredo, se vitimizava)

tremia.

temia.

não cedia.

o dar-se era inevitável, mas, no momento, impossível.

ela retraía.

quase perdeu os sentidos. num último momento, só sobrou-lhe um: a criança que viria.

só então se deu conta que essa era, ainda, uma informação distante.

então percebeu que não havia, ainda, o amor.

então alguém além dela mesma (ou que pensava ser) o evocou.

então percebeu que amor é também a dor de ir além dos próprios limites: perder-se para expandir-se. abrangência.

ela cedeu.

jogou-se de costas no abismo, sem esperar amparo.

amanheceu.

ela morreu.

um pouco depois das seis, Pedro nasceu.

outra viveu. (que agora, sou eu.)

 

obrigada, filho, pelo presente de saber-se além.

(muitos e muitos anos trazendo a luz com você!)

 

in.

é inexplicável

indizível

indecifrável

mas nem por isso, inatingível.

(e por isso, obrigada corpo.)