hoje poderia brindar com água.
nota outonal
37.
data abstrata.
nasci 1975. 10.05.1975. Há quase 37.
não sei o que significa. Já sou tantas desde então, que não sei quantas fui em tantos anos, que nem parecem tantos, que nem se parecem anos.
nunca tudo esteve tão louco.
tanto que nem sei mais se sopro a vela ou se espero que outra, em mim, a sopre. Outra que espreita um pouco atrás. que espera. que talvez, em pouco tempo, aniversariará. nascerá. bebezinha.
Enquanto isso, comemoro-me, enquanto morro mais um pouco. até que Ela, eu-viva, viva plenamente, e então será eterna.
e então aniversários só serão datas pra comer brigadeiros.
prece para tempos urgentes
não me venha falar de amor
que o tempo urge
navalhadas, tiroteios, gente vil, desabrigados,
não me venha falar de amor em tempos de dor urgente.
gente caindo das
casas gente sem casa
meninos sem pais
país com governo S.A., delinquente,
dinheiro na mão de quem é indiferente,
que toca fogo,
o puteiro,
que esquece que é gente.
não me gaste palavras com isso. faça o favor de fazer protesto.
não faça de conta, faça diferença!
(esqueça os slogans)
mas não me venha falar de amor se o direito entorta,
a direita endurece,
pesa a mão e chama a polícia,
se as chamas invadem casas, invadem corpos, incendeiam vistas.
não vista uma pele leviana. que o leão ruge.
que o cerco aperta
que o tempo fecha
que a fala some
não me venha falar de amor se o tema é guerra.
não me venha com papo manso, com som macio de voz cantada.
não.
se vier falar, sinta o urgente. desconfie, denuncie, sentencie.
(esqueça os imperativos)
sinta o enxofre
mercúrio medindo febre
pau a pau, enfrentamento, montecchio, capuleto, em pleno incêndio.
não me venha falar de amor diante das cinzas.
(esqueça as sentenças)
só sinta
o luto do fracasso.
dispa a pele das palavras, libere o ar viciado
vire-se pro sol,
feche os olhos,
escute.
sinta sair dos cantos um pingo novo,
segredo,
embale em água, e chore, e
amoleça e
lave, lave, lave, lave, limpe, e lembre
que na sacada do sonho há cheiro de matéria nova, chamando, chamando, chamando,
ouça, desarme, sinta o frescor da urgência:
tire a pele da palavra amada, entorne o caldo, beba a poção.
morra.
rebrote.
então ame.
sei lá.
ser várias,
sinhô,
ser vista,
sinhá
visita de mundo afora…
ser trinta
e seis
ser sem
saber mais
ser tantas
que a cuca crispa!
ser crise
de ser
criança
ainda é
ser dente de leite adeus
ser sim
quando o não
sai fácil,
sinhô,
é coisa de gente sã
(ou não?)
ser selva, selvagem,
silva,
saber-se
sorriso,
sol.
12.10.11
às madonas de mim, ave!
ave corpo sagrado
ave vulva
me entrego ao fogo
liberta da fogueira passada
pulo no gozo da primavera, do riso frouxo, dos braços abertos
das axilas livres voltadas pra lua
da língua solta, entrelaçada
à fera em mim, ave!
bem -vinda seja, força da terra
bem-vinda seja, padroeira nossa
bem-vinda seja, alegria recém brotada,
aparecida do fluxo, do rio, ao som de arrepios na nuca.
ainda.
na chama de um barco a vapor
e pedia amor
na sombra de um rio sem vento
e pedia tempo
na esfera de um plano sem hora
esperava aurora
num som que além-dor se traduz
e pedia luz.
cotidiano
Às vezes, sou braço que aninha cria
voz de acalanto
ainda que não saiba, oficialmente,
o canto.
Aí apresento aos meninos notas dissonantes,
rebeldias,
lugares fora da escala.
des iludida
acordei emotiva com coisas que nem sei.
chorei.
despertei (emotiva) pra coisas que nunca vi
senti.
me virei na cadeira e então vi que nem sou
já fui.
será primavera de mim?
na tormenta, em vôo livre
e se o vicio só fosse daquilo que eu sem saber via como motor? e se o vicio só fosse daquilo que sempre salvava nas noites de dor? e se o vicio só fosse o vazio às avessas, o véu de esteio da minha ilusão? e se a vertigem que agora me zonza a cabeça é clareza de ver a verdade? em vão?
não.
e se agora tá tudo tão solto que nem as palavras dão conta de nada?
do nada?
além?


