indo.

No silêncio dos dias, agradeço. No silêncio da noite, espero. No silêncio forçado dos meus pensamentos, descubro. De repente, eis que aparece outra ela, outra coisa, outra eu. Não sei se tem nome de eu, porque vem no silêncio do que achava ser pensamento, achava ser corpo, mas descobri ilusão. De surpresa, cavando espaço na fratura, surgindo de um tremor do corpo, brotando de um choro desmedido e inesperado, um ser que sinto ser. Quase me apresento a ela, tão estranha que me parece, apesar de tão familiar e antiga. Brotando de uma quase perda de consciência, brotando de uma terra devastada. Brotando de um hiato, de uma fenda na continuidade. Surgindo da instabilidade, de uma vida que parte de um corpo que fica, confundindo o que se sabia claro, o que se pensava fixo. Abalando certezas. Anunciando rupturas. Agora, em fricção, agora, em conflito, gerando faísca. Lado A, lado B, lado A, lado B, até que sejam de novo um só. Até que se rompa a ilusão de dualidade. Lado A, lado B. A respiração se confunde, servindo a dois seres. Lado A, lado B. Não sei mais de meus apoios. Percebo a mudança a galope, seguro o que penso inutilmente, sabendo que o melhor é ir, sabendo-me no medo do não-ser. Percebo a necessidade de ser humilde, pressinto a mã(e)o que me ampara, peço para que eu acredite num campo de fé estilhaçada. Nem vítima sou, só ser vivente, talvez espantada com o excesso de ar disfarçado de falta. Aceito o novo (a nova?), ainda que em luta. Entendo a extrema necessidade de outras mãos humanas, ainda que também dormentes, mas carregadas de compaixão. Percebo o orgulho que me ata ao que foi. Peço, porque percebo que só me resta pedir. E agir.

la vie en rose et rouge

Você chegou de repente. Coloriu de rosa claro nossa casa, sutil. Transbordou uma delicadeza doce, sem excessos, volátil. Encheu de esperança o inverno, chamou música de pássaros, chamou outras flores em volta. Você encheu meu coração de alegria, você alterou meu ritmo, você mexeu nos meus líquidos, conectou o meu ser à lua, você me deixou redonda, você também me fez flor. Abrandou meus movimentos, me fez rir. Você, flor de inverno, não pertence à primavera. Sua estação foi uma só. Sua missão foi, e é, colorir o cinza, esquentar o frio, anunciar tempos de outras flores em abundância. Você é minha eterna sakura, gerada no amor dos ventos gelados. Efêmera, partiu de mim, pintada em vermelho, para de novo ser todo, para um dia voltar em contorno. Não mais a mesma, mutante que é. Mas ainda flor.

na lida

Silenciei aqui, tô escrevendo lá. Ainda na toca. Tá meio difícil de sair, porque esse texto vem em formato novo, pra entender o idioma demora mais. 

Peça:  Jukebox, encomendada pela Alessandra Velho.

Mas tá saindo. Taqui uma fatia.

De desilusão em desilusão se segue. Mas numa hora, fofa, você chega lá. Porque entre uma entrega e uma queda, no vazio entre uma esperança e outra, a gente vive o estado mágico: encantamento.

xilema floema (poema dilema)

se a semente soubesse
que seria terra sua sina
que seria, depois, socada no escuro,
que seria, nunca mais, soprada nos ares,
brotaria?

fugiria?


se a semente só se soubesse semente
e não também raiz
e não também caule
e não também todo o resto, até as folhas,
até as flores,
(e suas partes feito asas, borboletas)
até o fruto.
(voltando a ser grão com desejo de terra).

se semente se soubesse só
nunca seria.
ainda bem que elas só são.

primeiros chamados

MICHAEL VINCENT MANALO 14

 

Lá estava ele, enorme, convidativo, inesperado, extra-cotidiano.

Lá estava ela, sentada, criança, com desejo no coração e frio na espinha. Um puxando pra frente, outro pra trás.

Alguns outros, mais ousados, foram imediatamente. Ela, pequena, hesitou.

O apresentador do circo fez a última chamada ao passeio. Ela, menina, raspou pé no chão, moveu o músculo certo que a faria levantar e se jogar, mas no último segundo colou na cadeira. Apresentador abaixou os braços. O tempo acabou.

E o elefante deu cinco voltas pelo picadeiro, e crianças cheias de coragem, lá em cima, pularam no seu cangote.

E ela apenas assistiu à aventura.

E o tempo passou.

E novos elefantes vieram.

 

(ilustração de Michael Vincent Manalo, coletada em Infinitos Mundos)

ontem, num busão lotado…

ouvi um ciúme de uma namorada cujo namorado estava grudado em mim

ouvi um tsc tsc bem perto da minha orelha (pessoa limpando dentes)

ouvi muitas músicas de fones alheios, que para mim eram chiados ritmados

ouvi meu coração pedindo socorro e mais transporte público

ouvi o espírito selvagem da vida enlatada

ouvi resignações, e a minha própria

ouvi zumbido na cabeça, horas depois.

numsegundosó, não ouvi nada

éramoscorposjuntosbalangandosemrumo.

teco de peça que vem vindo

… e não era

plenamente nada

repartida

era e nesse fragmento se

ancorava no que

dava

e dava certo porque

o mundo em que ela estava

tava

desse

jeito tava assim o mundo que ela estava

então a parte

parecia todo

e era

frag

mento

canção (esperando música) de esperar a si

tira, tira, tira,

tira a sobra,

o que é que fica?

sobra?

tira, tira, tira,

a sobra e fica

com o que tem na alma

tira, zica, tira,

a fantasia

deixa a casca

larga máscara

e segue, segue, segue,

ouve o canto,

deixa a flor brotar do

pranto, ferve, esfria,

muda,

transfigura

e transmuta

escuta,

a guia, congelada,

dá espaço

deixa entrar a venta

nia pelas ventas

ria, inventa,

deixa entrar

amor

no verso

tira o véu que cobre

à noite

espera o sol.

Espera o dia.

prazer secreto

quer saber? parte de mim vai ficar no mistério, peixe fora da armada.

livre de todas as redes, teias, conexões.

tão, tão bom dormir nesse amparo de não se saber por inteiro!

para quem só poderia ser

Quando eu aprendi a sonhar, não sabia pra que mar esse rio correria. Tinha vontade de ser, e era só.

Sonhava com amor eterno. Sonhava com causas nobres. Sonhava com mil bocas me beijando, uma para cada um que meu olhar percorria em desejo adolescente, inconstante, mas intenso e fiel no momento em que manifesta. Eu sonhava com um amor gentil, esculpia um homem quase irrealizável com um coração maior, um pouco maior que o normal.

Um dia , você me apareceu, ou eu que apareci, sei lá. Fui eu que saltei sobre você, como fazia na época, cansada de ser presa de espera na torre dourada. Há muito tinha perdido os sonhos de princesa. Sonhava só com alguém com o coração além da conta, exaurida que  estava de tantas batalhas perdidas. Ou ganhas. Toda batalha, em si, já era uma perda, pelo menos nesse campo amarelo. Que nele brotassem flores, sem respingos de tinta vermelha.

Desse sonho chegou você, também vagando entre devaneios parecidos. Chegou e plantou bandeira no meu sonho, rasgou a terra com uma frase já quase banal: eu te amo. E seria mais uma das tantas proclamadas, jazidas no deserto das palavras vazias, se não fosse dita com tom de sentença, com a coragem de quem encerra a frase num ponto. Não era declaração disfarçando carência,esperando retorno. O ponto final concluía, delimitava, seu sentido, seu significado absoluto e completo de servir apenas ao seu significado: amar, e só.

Rasga, meu amor, agora, a pele, como quem já me feriu a terra. Penetra novamente nesse mundo das palavras mudas, dos toques umedecidos pelo sal da gente, pelo gosto de gente fora de si. Chegue novamente com a delicadeza de quem sopra chama nova, colhida do fogo em plena ventania. Protege, com as mãos, essa alma nova, com promessa de fogo eterno, mas sempre delicado, e sempre sujeito às cinzas. Revela sua alma desvairada, febril, liberta o seu ser dessa febre vivendo a paixão do seu desejo. Aceita a vida com toda sua força e fluxo, jogue-se de costas na corrente. Beija a vida que te abençoa, reconhece esse pulso no outro, na boca ao lado, sempre ao lado, esperando velada entre os véus da rotina. Desnuda, revela, desvela, torna essa força novamente sua, toma cada lábio separado e junto, bebe dessa vontade que também é minha.