quarta gira com Clarice

Carta ao amigo

Peguei seu recado às duas horas da manhã de ontem, e tenho medo de saber o que nessas horas mudou no mundo. Será que você ainda está sendo?
A vida não estava fácil para você ? Não parecia…A gente constrói castelos na areia e se apaixona por eles, fica até menor para caber lá dentro, e se esquece de levantar a cabeça e olhar a linha azul entre mar e terra onde moram as curvas. E esquece de olhar para cima e ler nas estrelas a forma dos caminhos que se cruzam. É uma teia invisível para se ver com os olhos de hoje, olhos avulsos, é o único jeito de ver o futuro e respirar de novo.
Desculpe minha ausência no momento do seu silêncio, eu pensava que você queria o vazio. Pensava ouvir você dizendo: “Não precise de mim, por favor!” Mas era você quem precisava…
É duro escrever sem saber se essa carta chegará a você. Estou sem coragem para saber. Queria te dizer o quanto você é perigoso…você me dá impulsos de viver, porque você sempre me livrou da culpa de estar viva. É perigoso o que a gente pode fazer nesse estado de poder ser…
Estou sem coragem de ligar para você, com medo de que…mas se for esse o caso, se você cumpriu sua promessa desesperada da madrugada de ontem, perdoe eu ter sobrevivido. Estou muito cansada…

terceira gira com Clarice

AS ESTRELAS, A AREIA, AS VISCERAS E O MAR

Duas atrizes, deitadas numa cadeira de cabeça para baixo, cabeça voltada para a platéia, como se olhasse um céu estrelado.

Ao fundo, Homem e Mulher

ATRIZ 1
Estrelas morrem, né? Acabam!

ATRIZ 2
Elas já estão mortas, na verdade. Algumas.

ATRIZ 1
Mas se a gente vê, não estão vivas?

ATRIZ 2
Lá onde elas estavam, já morreram. É a luz que chegou aqui.

ATRIZ 1
Tem gente que pede coisas pras estrelas

ATRIZ 2
Pede pra quem? Pra Deus?

ATRIZ 1
Pra estrela mesmo…Acho que se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa parecida com uma estrela tremula dentro da gente.

ATRIZ 2
Então o pedido é pra gente…

ATRIZ 1
A gente pede por aqui (aponta para o coração), no momento em que o ar enche o peito.

ATRIZ 2
Como é que se pede? E o que se pede? Pede-se vida?

ATRIZ 1
Pede-se vida.

ATRIZ 2
Mas já não se está tendo vida?

ATRIZ 1
Existe uma mais real.

ATRIZ 2
E essa aqui é o que então? Faz de conta?

ATRIZ 1
Mais ou menos isso.

ATRIZ 2
Mas se é faz de conta a gente pode ser o que quiser

ATRIZ 1
Essa vida que a gente é o que é não é faz de conta, essa é a real

ATRIZ 2
Então por que não é todo mundo que vive?

ATRIZ 1
Porque é tão livre que aterroriza

ATRIZ 2
Você é livre?

ATRIZ 1
Eu faço de conta que sou.

ATRIZ 2
Ah…

Atriz 1 levanta se primeiro, antes do termino do movimento seguinte, atriz dois levanta depois, atriz 1 começa espalhar areia pelo espaço, atriz 2 entra no jogo e a acompanha. Aos poucos, vai se configurando uma espécie de praia.

ATRIZ 2
Então faz de conta que as estrelas do céu caíram na terra como grãos de areia

ATRIZ 1
E faz de conta que cada grão de areia é uma esperança que a gente ainda pode colher

ATRIZ 2
E faz de conta que o amor verdadeiro existe

ATRIZ 1
E faz de conta que ele é possível

ATRIZ 2
Então faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos

ATRIZ 1
Faz de conta que eu amava e que era amada

ATRIZ 2
Faz de conta que quando eu fechasse os olhos seres amados surgissem quando eu abrisse meus olhos úmidos de gratidão

ATRIZ 1
Faz de conta que tudo o que eu tenho não é faz de conta

ATRIZ 2
Faz de conta que chove lá fora e, faz de conta que eu consigo sentir plenamente a alegria e a dor de estar viva

ATRIZ 1
Faz de conta que meu peito se descontraía e uma luz douradíssima e leve me guiava por uma floresta de açudes mudos e tranqüilas mortalidades

ATRIZ 2
Faz de conta que, pelo menos uma vez, a história contada do amor não é o desencontro, mas apenas o medo de viver a beleza que existe

As duas atrizes olham para Homem e Mulher e vê a nova cena sendo configurada, e agora passam a narrá-los.

ATRIZ 2
Faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro.

ATRIZ 1
Faz de conta que ele a esperaria com flores por toda a vida. E enquanto ela não viesse, ele trocaria as rosas murchas por frescas até a sua chegada

ATRIZ 2
E faz de conta que, para experimentar uma fração que seja desse amor, ela precisaria atravessar a noite de alma

HOMEM-
Seu amor que agora era impossível – era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E “eu te amo” era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça.

HOMEM
(para Mulher)
Vai doer

MULHER
Eu sei

HOMEM
Você não tem medo?

MULHER
Tenho

HOMEM
Quer mesmo assim?

MULHER
Eu tenho mais medo de outra coisa do que da dor

Mulher emociona-se, como se lembrasse de algo que não queria

HOMEM
Você pode confiar em mim

Homem aproxima-se dela. Ela, imóvel, observa-o, desconfiada. Ele, calmamente, traz uma cadeira para que ela se sente.

ATRIZ 1
Em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que empurrava, e cair.

A mulher senta-se na cadeira. Ele, calmamente, começa a tirar um dos seus sapatos

ATRIZ 2
Ela tinha uma espécie de receio de ir longe demais. Sempre se retinha um pouco como se retivesse as rédeas de um cavalo que poderia galopar e levá-la Deus sabe onde. Ela se guardava. Por que e para que? Para o que estava ela se poupando? Talvez se contivesse por medo de não saber os limites de uma pessoa

HOMEM
Eu beijaria teus pés, se você quisesse

MULHER
O amor te pede essa submissão?

HOMEM
Você só se submete se vê o mundo com olhos de orgulho. Essa é a minha devoção ao mistério maior.

Homem, calmamente, acaricia os pés dela. Ela, em um calafrio, levanta-se bruscamente, mancando

ATRIZ 1
Deus…se eu quiser escolher finalmente me entregar sem orgulho à doçura do mundo, então chamarei minha ira de amor. Tudo, tudo por medo de me prostrar aos Teus pés e aos pés anônimos do “outro”. Que rei sou eu, que não se curva?

MULHER
O amor te pede essa submissão?

HOMEM
Não me curvo a você, mas à vida que mora em você.

MULHER
Eu tenho medo

HOMEM
Eu também tenho

MULHER
Como é que o medo acaba?

Homem vai até a mulher e pega a sua mão

HOMEM
A gente vai apesar dele.

MULHER
Então eu aceito.

Ela senta-se novamente. Como se tivesse perdido uma batalha.

ATRIZ 1
Eu tinha nascido simplesmente e também simplesmente quis ir tomando para mim o que queria. E a cada vez que não podia, a cada vez que era proibido, a cada vez que me negavam, eu sorria e pensava que era um manso sorriso de resignação. Mas era a dor que se mascarava em bondade.

HOMEM
Aceitar não é se resignar. É a coragem de estar vivo.

MULHER
Eu não sei como estar viva.

ATRIZ 2
E ela amava o outro ser com a luxúria de quem quer salvar e ser salvo pela alegria. Porque a mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.

O homem tira uma farpa dos pés da Mulher. Ela grita de dor, o saco com o peixe cai no chão, arrebenta e deixa escapar a água.
A mulher chora, finalmente.

MULHER
Eu só fingi…Eu fingi por orgulho que não doía, eu pensava que fingir força era o caminho nobre de um homem e o caminho da própria força. Eu pensava que a força é o material de que o mundo é feito, e era com o mesmo material que eu iria a ele. O mundo se queria comível, sim, mas para isso exigia que eu fosse comê-lo com a humildade com que ele se dava, mas mundo só se dá para os simples…

ATRIZ 2
Ah, se você entendesse que a fúria é contra os teus erros e não contra os dos outros, então esta cólera se transformará nas tuas mãos em flores, em flores, em coisas leves, em amor.

A mulher pega o peixe no chão, com carinho. Ergue-se, devagar

HOMEM
Eu te amo

MULHER
O que eu faço com isso?

O homem a abraça.

ATRIZ 1
Quando ela pudesse sentir plenamente o outro estaria salva e pensaria: eis meu ponto de chegada. Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar no mundo.

ATRIZ 2
Ela contara por alto que um dia, ao escurecer, começara numa esquina a chorar de manso. Não havia ninguém por perto, e então ela começara a falar sozinha. “Deus, me ajude nessas trevas geladas que são as minhas!”

As duas atrizes começam uma oração, como uma ladainha. Esse texto pode ser intercalado com o da Mulher ou simultâneo a ele

ATRIZ 1
Deus, alivia a minha alma, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade,

ATRIZ 2
Faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária,

ATRIZ 1 e ATRIZ 2
Faze com que eu não Te indague demais,

ATRIZ 1
Porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,

ATRIZ 2
Faze com que eu me lembre porque também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível

ATRIZ 1
Abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que eu durmo,

ATRIZ 2
Faze com que eu tenha caridade de mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou,

ATRIZ 1
Faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

MULHER
Cobre minha fúria com o Teu amor, já que também eu sei que a minha ira é apenas não amar, minha ira é arcar com a intolerável responsabilidade de não ser uma erva. Sou uma erva que se sente onipotente e se assusta.
Tira de mim a falsa onipotência destruidora, não deixa que a ferida que abriram em mim signifique ferida aberta por Ti, faz com que neste instante de escolha eu entenda que aquele que fere está no mesmo pecado que eu: no orgulho que leva à ira, e portanto ele fere assim como estou querendo ferir só porque não acredita, só porque não confia, só porque se sente um rei espoliado; ajuda aos que sofrem de ira porque eles estão apenas precisando se entregar a Ti. Mas como Tua grandeza me é incompreensível, faz com que Tu te apresentes a mim sob uma forma que eu entenda: sob a forma do pai, da mãe, do amigo, do irmão, da amante, do filho.

A ladainha se cala.

MULHER
Ira, transforma-te em mim em perdão, já que és o sofrimento de não amar.

segunda gira com Clarice

RELATO COM O MENDIGO

Mulher I
Vou contar pra vocês um segredo, vocês são as únicas pessoas que saberão dessa história. Eu não saio contando coisas assim por aí, entende?

Era um dia comum, e meu lar era longe de casa. Na verdade, eu estava sem o endereço de mim mesma. Bússola na mão apontava pro norte, mas eu não sabia o que o norte dizia. A agulha rodava em torno do eixo, e eu, sem eixo, girava de pergunta em pergunta.
Trabalho? Ofício? Religião? Qual é o lugar no mundo reservado a quem não crê naturalmente mas quer, para não morrer em vida, acreditar sem ingenuidade?
Nunca me veio resposta…

Ah, sim…o segredo que eu ia contar….

Todos os dias, no caminho do meu quase lar, eu via um mendigo… um mendigo que tocava gaita… Nesse dia, eu estava muito amargurada, mais perturbada que qualquer outra coisa, e no meio do trajeto, vi novamente aquele homem – o mendigo que tocava gaita – como fazia sempre, gente, todos os dias! E riu para mim. Então eu ri para ele. Não sei o que me aconteceu, fui tomada por uma legião de sentimentos inoportunos que não saberia bem descrever, que não sei bem o que era no momento, comecei a me movimentar junto dele, dançamos sem parar… ele tocava a gaita e dançava, eu dançava com ele… Dancei descompassada, eu e o mendigo, como se algo me tomasse pelo meio, como se um vulcão de respostas estivessem próximas a mim, dancei ao vento, apressada, quisesse ou não quisesse o corpo sacudia inteiro como o corpo de quem ri, aquela sensação de morte a gargalhadas. Eu e ele, dançado, aquilo durou cerca de uns quinze, vinte minutos, tão depressa como o tempo da dança, comecei a andar, ainda meio tonta, mais depressa, agora sem pudor, tentando recolher, do meio fio, os andaimes da minha vida, parecia que eu tinha encontrado um súbito destino. Aí eu ria, e chorava.

De que rimos nós? Do nosso encontro que era de alegria. Não perguntei o nome dele, porque esqueci que mendigo tem nome, porque esqueci o nome de todas as coisas. Saí dali tomada por um desespero, mudei meu rumo, fui ter com uma amiga, a única que eu achava que podia me entender. Quando cheguei na casa dela, não contei o que tinha me acontecido.

Vocês entendem por que? Ela não entenderia! Ninguém entenderia! Seria folclórico! Exótico! Eu não queria que o asfalto ficasse cinza de novo, porque naquele dia ele era de diamantes…E eu, que não acredito em milagres e achava que tinha vivenciado um, tinha medo de ver meu ceticismo espelhado no outro no exato momento em que eu contasse essa história…

(Coloca as mãos na boca, assustada com a idéia da perda do sagrado. Faz como se tirasse algo de dentro dela, e fecha as mãos em concha, como se protegesse algo raro. Respira, aliviada)
Ainda está aqui…

Será que quando a gente conta um segredo ele se perde no tempo? Porque segredo contado deixa de ser segredo, mas que sentido tem guardar uma imagem que se não revelada pode virar areia na memória? Vou contar, então, posso? Posso confiar que vocês não vão me julgar pelo que fiz, ou pelo que senti?…

Naquela dança, eu tive um desejo…Um prazer sem tamanho, que só cabia nos limites da minha pele porque eu sentia o suor escorrendo, e eu quis beijar aquele homem, e eu quis experimentar um pouco mais daquele contato na pele da boca. Porque eu queria experimentar um pouco do que se pode ser quando não se tem função definida, nome definido, RG, utilidade. Eu sentia o desejo dele todo, de comer num beijo uma fração daquela possibilidade de simplesmente estar sendo sem nenhum sentido que não fosse apenas ser-se.

(pausa)

Eu só queria dar um beijo na liberdade para saber o gosto doce e inteiro do que se perde em míseros pedaços todos os dias…

Mulher 2
Qual seria o nome dele? José? João? Jonas? John!

Mulher 3
John, eu nunca esquecerei você. Porque nós fomos eternos naquele instante. Meu irmão. Você me deixou plena e útil.

Mulher 2
John, onde é que você dorme? Eu ainda não sou livre: preciso de uma casa e de uma cama para dormir. Eu não sei dormir na casa dos outros.

Mulher 3
John, num momento de muito desespero eu pedi a Deus que me arranjasse uma ajuda. E a ajuda veio: um homem me telefonou. Aí eu chorei ao telefone. Ele disse: não chore porque chorar enfraquece. Eu disse: mas às vezes é como a chuva que se precisa quando tem estiagem demais e tudo fica muito seco. Eu lhe pedi para me telefonar de novo às seis da tarde. Ele disse que não podia. Mas às seis em ponto me telefonou.

Mulher 1
John, o que a gente faz quando o que a gente mais quer acontece? Quando a gente pede pelo milagre, e ele chega? A gente fura os olhos? Recebe a luz que cega? Foi o que aconteceu com você, por isso mendigo, por isso na rua?
(ela abre as mãos, como se deixasse escapar o que continha ali)

Mulher 2
John, por que eu me surpreendi com nosso contato? Por que a gente se surpreende em conviver só por não saber o nome? Por que contando parece loucura se foi tão simples, tão simples, sorrir e dançar com você, John? Por que contando para eles agora parece pouco, parece bobagem, se na hora era só o que se podia fazer da vida?

Mulher 3
John, eu li que a angústia é a vertigem da liberdade. No entanto eu estou tendo essa vertigem, mas sem angústia, como é que se explica?

Mulher 1
(para a platéia)
Era segredo. Não contei antes porque tinha vergonha…vergonha porque depois disso, continuei vendo mendigos sem nome, e se não fosse agora ter contado a vocês, tudo me pareceria absurdo. A vida é absurda quando ela acontece de verdade.

primeira gira com Clarice

(trechos da peça teatral “No Gosto Doce e Amargo das coisas de que somos Feitos”, sobre obra de Clarice Lispector. Direção de Nill Amaral)

ATRIZ 1
Deixe ver…seu futuro…(faz um suspense)…Olha, você tem dois caminhos possíveis…Um é por ali (aponta para a direita)…Não tem muitas pedras. Tem uma cachoeira linda, linda, uma vez que você chegue lá não vai querer sair mais. Muitos recursos materiais também. Não tem muita gente, você não corre o risco de cruzar com pessoas desagradáveis. Nenhum grande amor, mas tem aqui um casamento bem sólido. Nenhum grande sofrimento, nenhum grande risco, é um caminho bastante seguro. Vida longa.
(pausa. Olha a reação da pessoa)
Agora esse outro (aponta para a outra direção)… Olha, não dá pra ver direito… Tem muito vento, é um caminho de muito vento. E muita chuva seguida de sol. Mas esse vento…não dá pra ver muito. Você é que sabe, se quer arriscar…

Atriz pega de volta a xícara. Olha para longe

ATRIZ 1
Um vento…Igual a esse. É raro ver um vento assim, suave e intenso. Dá vontade de sorrir. Já repararam que sorrimos em público do que não sorriríamos se ficássemos sozinhos? Eu, por exemplo, não gosto de rir de piadas, o que dificulta muito sentar numa roda com pessoas a certa hora da noite. Mas gosto de rir com o vento, coisa que ninguém entende.

ATRIZ 2
Eu gosto de rir quando eu chupo manga e fica aquele fiapo no meio dos dentes

ATRIZ 1
Eu gosto de rir quando eu vejo um cachorro chupando manga. Você já viu um? É uma coisa horrível!

ATRIZ 3
Eu gosto de rir quando eu vejo alguém com a roupa do lado avesso sem perceber

ATRIZ 2
Eu gosto de rir quando eu canto

ATRIZ 1
Eu gosto de rir no cinema vendo filme que todo mundo chora

ATRIZ 3
Eu gosto de rir no elevador

ATRIZ 2
Eu gosto de rir escovando os dentes

(podem ficar um tempo nesse jogo)

ATRIZ 1
Eu gosto de rir no vento

As três começam a brincar de pega-pega. O texto vai sendo dito nessa brincadeira, revezando entre elas. A cena vai num crescente.

ATRIZ 1(PARADA)
Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é.
É um cavalo preto e lustroso, inteiramente selvagem : nunca morou antes em ninguém ou nunca lhe puseram rédeas nem sela .

OUTRA ATRIZ (NO JOGO)
Eu gosto de rir em enterros.

ATRIZ 3 (PARADA)
Apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho.
Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito.

OUTRA ATRIZ (NO JOGO)
Eu gosto de rir soluçando.

ATRIZ 2 (PARADA)
A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aquilo que não tem nome: é só chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas, uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai.

OUTRA ATRIZ (NO JOGO)
Eu gosto de rir na frente do espelho

ATRIZ 1 (PARADA)
Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesma que está relinchando de prazer ou de cólera, a gente se assusta com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.

Atriz 3 toma o lugar parado de Atriz 1, mas interrompe a brincadeira.

ATRIZ 3
Eu preciso confessar um segredo a vocês…

As outras duas continuam o jogo, alheias

ATRIZ 3
Eu preciso confessar um segredo a vocês!

As outras duas seguem o jogo.

ATRIZ 3
Eu não sei como rir.

As duas param de correr

ATRIZ 2
(constrangida)
Eu também não.

ATRIZ 1
(constrangida)
Eu também não.

Tempo

ATRIZ 2
Mas a gente não estava rindo?

ATRIZ 1
A gente estava rindo?

ATRIZ 3
Não há tanto problema nisso. Pelo menos, no fim do dia, não corro o risco de me arrepender de ter sido idiota. Eu durmo bem assim, mesmo com a luz apagada.

Para Araci Cortes 4

(trechos da peça teatral “Pra você que me esqueceu”, sobre a vida da atriz do teatro de revista Araci Cortes. Direção de Dagoberto feliz, com Gisela Milás, Evelyn Klein e Ivan Kraut)

ARACI

A minha alma, a minha vontade desagua doente
enferma enferma grita e desdiz a morte
Vem! Sente!
Esse vapor gelado pelos dentes
sente…
a urgência de não esperar permissão
Vem! Ó frágil reprimido
vem e afasta o perverso da submissão
Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso
recusa o que é pudico, mesmo que pareça sensato
me deixa assim entregue a deus
me deixa assim como deus me fez
me deixa ser seu lavapés
me deixa ser seu louva-deus
despe-se em meia-noite de lua
no meio da noite do medo
antes do amor me pegar pelos dentes
me cuspir no infinito
E gozar na minha cara.
Te amo tanto, meu amado!
Te amo!
ME AMA!
ME DÁ, DESESPERADAMENTE, ME DÁ AMOR!
Em que momento, me diz, me esqueci lá atrás,
como uma mártir acorrentada num labirinto sem volta?
Sinto que estou secando
Em calmas ondas cristalinas…

Para Araci Cortes 3

Entra Araci– cantarola Os Rouxinóis
No palco, a figura de um compositor

COMPOSITOR

Boneca de Piche, Os Rouxinóis, cabocla cheirosa, chora, violão, chora que passa, é no toco da goiaba, esse mulato vai ser meu, gemer no violão, Lamartine babo, minha favela, minha pátria, Ary Barroso, Custódio Mesquita, Morena querida, Francisco Alves, Mulato bamba, Noel Rosa, mulata revoltosa, mulato bamba, pernas, pra que te quero, Luis Peixoto, João de Barro, Palhaço não chora, Na pavuna, Benedito Lacerda, Racho Fundo, que antes era na Grota funda, cruz-credo, quindins de yayá, salada portuguesa, salve-se quem puder, flor do lodo, sinhô, Henrique Vogeler, não convém, não quero mais saber de amor, Assis valente, alma da rua, no alto da serra, chora que passa, Ismael Silva, Luiz Iglesias, vai cumprir o teu destino, Arthur costa, quero sossego, cada macaco no seu galho, velha baiana, Pixinguinha!

ARACI
(começa a falar simultaneamente na metade do texto anterior)

Eles, meninos, nomes que antes eram apenas palavras desconhecidas escrevendo palavras-semente. E eu era a alma daquelas palavras para que elas viessem ao mundo. Alguém conhecia? Não! A boca santa cantava, paria cada letra daquelas, e elas povoavam os ouvidos daquela platéia maravilhosa…e os meninos viravam homens, compositores. E as palavras, juntas, viravam história.

pausa

Hoje a boca é outra. rádio, TV, nem é de carne nem osso, sem suspiro. E deixa a memória doente.

Para Araci Cortes 2

ARACI

A minha alma, a minha vontade desagua doente
enferma enferma grita e desdiz a morte
Vem! Sente!
Esse vapor gelado pelos dentes
sente…
a urgência de não esperar permissão
Vem! Ó frágil reprimido
vem e afasta o perverso da submissão
Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso
recusa o que é pudico, mesmo que pareça sensato
me deixa assim entregue a deus
me deixa assim como deus me fez
me deixa ser seu lavapés
me deixa ser seu louva-deus
despe-se em meia-noite de lua
no meio da noite do medo
antes do amor me pegar pelos dentes
me cuspir no infinito
E gozar na minha cara.
Te amo tanto, meu amado!
Te amo!
ME AMA!
ME DÁ, DESESPERADAMENTE, ME DÁ AMOR!
Em que momento, me diz, me esqueci lá atrás,
como uma mártir acorrentada num labirinto sem volta?
Sinto que estou secando
Em calmas ondas cristalinas…

Para Araci Cortes 1

(trechos da peça teatral “Pra você que me esqueceu”, sobre a vida da atriz do teatro de revista Araci Cortes. Direção de Dagoberto feliz, com Gisela Milás, Evelyn Klein e Ivan Kraut)


FIGURA

Araci, por que você não foi pros Estados Unidos igual à Carmem Miranda?

Araci, enfurecida, aproxima-se dele

ARACI

Porque ela deu o cu!

FIGURA

Nossa! Você não foi a maior de todas?

ARACI

Ah, quer saber? Bota no tijolo o que quiser, que eu sou de chita. Fiz meu nome com vestido de chita e rosa no cabelo, como é que eu vou me incomodar? E tem muita, muita gente que gosta!

FIGURA
(saindo do teatro)

Ô dona mestiça! Você está é com saudades de um tempo que já não é mais! Eu vou é embora que isso aqui tá com cheiro de mofo!

ARACI

Vai mesmo, vai embora, leva daqui esse despeito, ô seu merda! Dizem por aí que saudade é coisa bonita, tristeza é parte do samba. Pra que? Me diz aí, pra que tudo isso? Eu não! Carregar uma mala dessa? Daí eu chuto, chuto mesmo, a porta, a mala, essa maldita tristeza que parece que já nasceu agarrada no samba feito erva daninha, deixando tudo igualzinho enquanto o país se escangalha. Es-can-ga-lha!

pausa

Samba é a flor dessa terra, semente cravada no solo pisado que brota de teimosia. É muita petulância maquiada de malemolência, insubmissível! (pausa) Saudade…saudade, meu filho, é que nem fome. Só passa se a gente come a presença.