sei lá.

ser várias,

sinhô,

ser vista,

sinhá

visita de mundo afora…

ser trinta

e seis

ser sem

saber mais

ser tantas

que a cuca crispa!

ser crise

de ser

criança

ainda é

ser dente de leite adeus

ser sim

quando o não

sai fácil,

sinhô,

é coisa de gente sã

(ou não?)

ser selva, selvagem,

silva,

saber-se

soma,

sorriso,

sol.

acordei sacim

se eu saci fosse

não sei o que seria

sassaricante sina

sapato sobraria

se eu um saci fosse

eu sim aprenderia

das folhas da floresta

salvar sabedoria

se eu saci fosse

feliz sapecaria

sambando sem censura

seguindo com alegria

passa tempo I

o número de estrelas pintadas na minha pele cresce. aumentam os traçados possíveis de constelações.

a raíz dos cabelos, no alto da cabeça, prateou.

e o rosto já aponta alguns vincos/vales de caminhos conhecidos

borboleta batendo cabeça

borboleta batia cabeça no vidro da janela

tive pena dela

“pena tem quem se sente superior”, pensei. problema dela. se de lagarta já voou, se vira!

borboleta batia cabeça insistentemente no vidro da janela.

será que a consciência de algumas espécies podem estar a serviço de outras? pensei, pensando também se ajudava ou não.

será que há uma função cósmica no ato de bater a cabeça no vidro?

será que devo eu intervir, tendo consciência que a pobre lagarta de asas pode passar o resto do dia tentando sair?

borboleta batia cabeça.

foi dando aflição de tanta inconsciência.

borboleta batia cabeça.

foda-se. empurrei a borboleta pra fora do vidro, no vão da janela.

borboleta bateu asas.

e eu continuei no chão, pensando como ela, que rastejava, hoje consegue voar.

“ensinar” ou a arte do pulso

Quando eu comecei a dar aulas, imaginava que o mais importante era reunir um repertório (o mais completo possível) de conhecimento, organizar tudo de forma “didática” e “transmitir” esse conteúdo aos alunos.

Depois descobri que essa é só a forma. Necessária, porque delimita, mas vazia, se parar por aí. Como um copo sem nada.

Forjei muitas taças. Sem elas, o líquido não se sustentaria. Mas atualmente tenho me dedicado a destilar sutilezas, forjar novos beberes. E perceber que esse ofício é sacerdócio: estar a serviço de algo maior, que a partir do meu próprio conhecimento, resvala. Para isso, é necessário o encontro. E preciso o outro. A troca só acontece entre dois pontos que pulsam, assim se desenham as constelações.

Agradeço aos meus mestres e mestras por terem despertado em mim essa vocação de troca. Recentemente descobri que o prazer de “dar aulas” é o mesmo do beijo: conhecer sabores. E tal qual uma pitonisa, deixar passar por mim o conhecimento acumulado, movido por um desejo de saber de ambas as partes. Mas há que se criar o ritual, as múltiplas intenções afinadas com esse saber. Senão é tudo só informação, e ela se mofa nos arquivos das palavras instantâneas.

Relembrando minhas mestras e mestres, reconheço uma virtude: a disposição ao dar. Ao sentir. Ao colocar seu melhor, síntese de anos acumulados, a serviço das novas gerações. Ao entusiasmo de estar ali, naquele momento vivo, e nada ser mais importante.

Neles me inspirei, e senti o pulso de passar a bola pra frente.

Agradeço a meus “alunos” por serem pontos de novas conexões, por onde esse conhecimento pode seguir fluindo, vivo, sem se empoçar nas curvas. Em cafés, bares ou salas de aula, levantamos nossas taças pedindo pelo néctar. Entendi o papel: reger o ritual, evocar da memória e do próprio tempo o Saber, e pedir para que algo maior aconteça e nos agracie. Hoje entendi: sem essa entrega, não há rito. Sem ele, o intangível não se manifesta. Só há uma boca que fala e olhos dispersos, ouvidos lá fora, dedos em notebooks, em outras conexões.

12.10.11

às madonas de mim, ave!

ave corpo sagrado

ave vulva

me entrego ao fogo

liberta da fogueira passada

pulo no gozo da primavera, do riso frouxo, dos braços abertos

das axilas livres voltadas pra lua

da língua solta, entrelaçada

à fera em mim, ave!

bem -vinda seja, força da terra

bem-vinda seja, padroeira nossa

bem-vinda seja, alegria recém brotada,

aparecida do fluxo, do rio, ao som de arrepios na nuca.

tem um retângulo com botões. antes era uma caixa, muitas até ainda existem por aí, mas aos poucos estão sendo amontoadas em algum canto mágico do planeta para onde vão as coisas sem utilidade, ainda que funcionem. (mas isso não vem ao caso)

nos retângulos se projetam imagens de um suposto cotidiano. soube que algumas são falsas (a que chamam histórias) e outras verdadeiras (a que chamam História). não entendi a diferença, mas isso não vem ao caso.

gritam muito nesse retângulo iluminado. entre uma coisa e outra, tentam fazer graça, tentam avisar sobre coisas terríveis que acontecem e estão por acontecer (sofrem muito por imaginação), mostram coisas extraordinárias que não fariam muita diferença no cotidiano, mas parecem imprescindíveis. no caso dessas últimas, custam dinheiros.

muito do tempo se passa ali, nos retângulos.

há também outros menores, que parecem pequenos livros abertos. nesse caso, o olhar é anda mais absorto, além de individual. também se carrega no bolso. imagino que em breve existirão na forma de óculos acoplados a fones de ouvido.

para eles, talvez seja melhor que não.

para eles, talvez esse relato seja óbvio, quase como dizer, como se fosse um espanto, que uma árvore tem galhos com folhas. realmente crêem estar fazendo algo útil com os retângulos. mas eu, que só vejo energia nos corpos em movimento, se pudesse sentir angústia, certamente me contaminaria por essa inércia inconsciente.

ainda.

na chama de um barco a vapor

e pedia amor

na sombra de um rio sem vento

e pedia tempo

na esfera de um plano sem hora

esperava aurora

num som que além-dor se traduz

e pedia luz.

cotidiano

Às vezes, sou braço que aninha cria

voz de acalanto

ainda que não saiba, oficialmente,

o canto.

Aí apresento aos meninos notas dissonantes,

rebeldias,

lugares fora da escala.