acordei emotiva com coisas que nem sei.
chorei.
despertei (emotiva) pra coisas que nunca vi
senti.
me virei na cadeira e então vi que nem sou
já fui.
será primavera de mim?
na tormenta, em vôo livre
e se o vicio só fosse daquilo que eu sem saber via como motor? e se o vicio só fosse daquilo que sempre salvava nas noites de dor? e se o vicio só fosse o vazio às avessas, o véu de esteio da minha ilusão? e se a vertigem que agora me zonza a cabeça é clareza de ver a verdade? em vão?
não.
e se agora tá tudo tão solto que nem as palavras dão conta de nada?
do nada?
além?
indo.
No silêncio dos dias, agradeço. No silêncio da noite, espero. No silêncio forçado dos meus pensamentos, descubro. De repente, eis que aparece outra ela, outra coisa, outra eu. Não sei se tem nome de eu, porque vem no silêncio do que achava ser pensamento, achava ser corpo, mas descobri ilusão. De surpresa, cavando espaço na fratura, surgindo de um tremor do corpo, brotando de um choro desmedido e inesperado, um ser que sinto ser. Quase me apresento a ela, tão estranha que me parece, apesar de tão familiar e antiga. Brotando de uma quase perda de consciência, brotando de uma terra devastada. Brotando de um hiato, de uma fenda na continuidade. Surgindo da instabilidade, de uma vida que parte de um corpo que fica, confundindo o que se sabia claro, o que se pensava fixo. Abalando certezas. Anunciando rupturas. Agora, em fricção, agora, em conflito, gerando faísca. Lado A, lado B, lado A, lado B, até que sejam de novo um só. Até que se rompa a ilusão de dualidade. Lado A, lado B. A respiração se confunde, servindo a dois seres. Lado A, lado B. Não sei mais de meus apoios. Percebo a mudança a galope, seguro o que penso inutilmente, sabendo que o melhor é ir, sabendo-me no medo do não-ser. Percebo a necessidade de ser humilde, pressinto a mã(e)o que me ampara, peço para que eu acredite num campo de fé estilhaçada. Nem vítima sou, só ser vivente, talvez espantada com o excesso de ar disfarçado de falta. Aceito o novo (a nova?), ainda que em luta. Entendo a extrema necessidade de outras mãos humanas, ainda que também dormentes, mas carregadas de compaixão. Percebo o orgulho que me ata ao que foi. Peço, porque percebo que só me resta pedir. E agir.
la vie en rose et rouge
Você chegou de repente. Coloriu de rosa claro nossa casa, sutil. Transbordou uma delicadeza doce, sem excessos, volátil. Encheu de esperança o inverno, chamou música de pássaros, chamou outras flores em volta. Você encheu meu coração de alegria, você alterou meu ritmo, você mexeu nos meus líquidos, conectou o meu ser à lua, você me deixou redonda, você também me fez flor. Abrandou meus movimentos, me fez rir. Você, flor de inverno, não pertence à primavera. Sua estação foi uma só. Sua missão foi, e é, colorir o cinza, esquentar o frio, anunciar tempos de outras flores em abundância. Você é minha eterna sakura, gerada no amor dos ventos gelados. Efêmera, partiu de mim, pintada em vermelho, para de novo ser todo, para um dia voltar em contorno. Não mais a mesma, mutante que é. Mas ainda flor.
c(asas)
o ego é aquele lugar pra onde a gente vai quando fica com medo de voar.
brotando do Arritmia (agora série)
Essa dor aí que você sente, sabe, não mais se saber, esse desassossego de viver? É a primeira chama da liberdade, menina. Quando você percebe que não segura mais nada, quando você percebe que tem as mãos livres…e voa.
…
…
respeitando o silêncio dos invernos
…
na lida
Silenciei aqui, tô escrevendo lá. Ainda na toca. Tá meio difícil de sair, porque esse texto vem em formato novo, pra entender o idioma demora mais.
Peça: Jukebox, encomendada pela Alessandra Velho.
Mas tá saindo. Taqui uma fatia.
De desilusão em desilusão se segue. Mas numa hora, fofa, você chega lá. Porque entre uma entrega e uma queda, no vazio entre uma esperança e outra, a gente vive o estado mágico: encantamento.
xilema floema (poema dilema)
se a semente soubesse
que seria terra sua sina
que seria, depois, socada no escuro,
que seria, nunca mais, soprada nos ares,
brotaria?
fugiria?
só
se a semente só se soubesse semente
e não também raiz
e não também caule
e não também todo o resto, até as folhas,
até as flores,
(e suas partes feito asas, borboletas)
até o fruto.
(voltando a ser grão com desejo de terra).
se semente se soubesse só
nunca seria.
ainda bem que elas só são.
coisas que a gente escuta andando pela esteira rolante da linha amarela do metrô
– Então vou te mandar uns e-mails com emprego, e também de umas agências que eu conheço.
– Tá.
– Você tem acesso à internet? (…) bom, dá pra ver em um ciber também.(…)
Um rapaz gordinho carregando uma bolsinha de alças pequena (dessas que homens adoram carregar, como para provar que carregam pouca coisa) e uma mocinha loira (tingida) com mochila (de penduricalhos) passaram por mim. Perdi parte da coisa. Só pesquei parte do fim, na voz dele:
– Hoje em dia náo dá pra ficar sem, né?
Sem emprego? Ou internet?


