14

 

 

 

 

Deslizando lentamente
Nessa superfície macia,
afago
essa rota antes preta, carvão.

A fricção, desfiada no tempo,
gera fogo,
forja,
nos anos a fio.

14

Para cada ano firmado,
A transmutação das veredas finas,
afago
agora rios vertendo prata.
Testemunhando a linda dança
das cores
da inevitável espiral dos dias.
na indomável espiral que te coroa.

14
longas voltas
línguas
novas inventadas, renomeando lugares repassados em outros estranhamentos
reinventando o que é fixo, para que entre ar nas estruturas prontas
rememorando o que é móvel, curando, curando, curando…

14.
E cá estamos.
Desde que, de lá, firmamos
Num rito mágico
Primeiro entre montanhas, depois entre linhagens,
O sentido dessa travessia compartilhada

14 voltas espiraladas
vendo passar, na ponta dos dedos que afagam
as cores cambiantes
alternando, na ponta do carbono-grafite
do lápis
o denso das contas mensais
vincando o traçado
(imaginário)
(nas pontas dos dedos que amam)
no seu corpo,
ligando pontinhos espalhados, ora pretos, ora vermelhos,
organizando constelações.

Preto carbono forja tempo
Amor em balão alquímico
(matrimônio)
transmutando a forma das estruturas
dançando
a busca incessante
do carbono-diamante.

quase um ano.

– O Dr Alfredo não vem mais aqui?
 
A gente nunca sabe que frase vai abrir a comporta.
De frente para a barraca da feira, aquela pergunta parou o tempo. Depois descongelou e eu respondi.
 
– Ele faleceu. Já vai fazer um ano.
(nossa, já vai fazer um ano em março…)
 
Sempre uma situação difícil: quem pergunta nunca espera uma resposta dessas. Mas ele apontou para o filho, que o ajudava na barraca.
 
– Uma vez ele tratou do meu menino. Ele ficou bom mesmo.
 
Era isso que meu pai fazia. Deixava as pessoas boas mesmo.
Agradeci àquele homem por lhe trazer a memória, e por me fazer perceber que o nó na garganta que venho sentindo não é só sobre o desgoverno, não é só sobre a enxurrada de lama que cobriu o país em 2018 que se fez matéria viva em 2019 (em mais um desastre), não é só sobre ameaças de morte atiradas sobre militâncias que lutam pelos direitos óbvios, ou pela extorsão de terras indígenas, ou por…
 
Não é só.
(Como se fosse pouco.)
 
É ausência. É ainda luto. E foi tanta coisa pra enlutar no último ano que não tive muito espaço para sentir que esse era um grande vazio.
 
Mas um vazio preenchido.
Porque a presença dele, no meio daquelas barracas, se fez forte. Quase ouvi sua risada, e um comentário seu com o sotaque mineiro que eu também carregava, mas agora nem tanto.
 
Feita a feira, pai, sentei numa mesinha de plástico para esperar a mãe comer o pastel inteiro, aquele de sempre que encerra as compras, aquele mesmo que vocês dividiam. Essa manhã estava fresca, um oásis nesses dias quentes, e enquanto lembrava de você sem resistir à comoção, a ventania era forte, arrepiava tudo. Desviei a cadeira para evitar o golpe nas costas, coisa que você sempre recomendava. Senti o vento de frente, batendo no peito.
 
Eu acho que te dei um abraço.

solutio

amigues, sinto que estou morrendo.
nada sério. vou ali dissolver e já volto.
porque nada nada nada que até então me sustentava existe mais.
aproveito esse momento entresonhos, em que minhas culpas ou meus pensamentos obsessivos deram uma trégua, para dizer: é quase um alívio.
 
abri mão do controle da narrativa.
(vejam só, para uma escritora isso é bem mais que morrer)
 
aceito, com tremor entre os dentes, que só me cabe cuidar. das pessoas próximas, de mim mesma, de quem conseguir.
e ser cuidada também. porque somos troca.
 
talvez o único que eu tente levar comigo nessa travessia (e terei que abrir mão na passagem final) seja um desejo de que tudo isso tenha um sentido, e que a humanidade caminhe para um outro patamar
(espero, não às custa de tanto do nosso sangue.)
(ofereço aquele que sai de mim todo mês pela causa, mas ainda é pouco)
 
só sei que cansei de sofrer.
mesmo com tanta dificuldade de confiar, sinto que não há outra saída: apenas morro.
desaguo, entrego, desfio minhas certezas.
e também minhas p a l a v r

Bem que me avisaram do inverno

Mas ainda era outono
E eu vivia cercada de ventos amarelos
Munida da certeza de resistir a tudo.
 
Bem que eu soube que não seria dócil
Mas meu peito era forte
Deflorei fronteiras cercas muros correntes
Enquanto a retina se embranquecia
 
Não será tão fácil, bradavam inúteis vozes
Cega, ainda ouvia, mas ignorava,
Retendo no sangue meus cacos em luta
Passo a passo entregue ao escuro desvario
 
(Obscuro sonho:
Um coro entoando uma canção dissonante.)
.
.
.
 
Não, não é brinquedo
Conta-se do inverno
Que ele toma a fé de quem nele caminha
Mês a mês deixando
Pela travessia
Tecos de mil planos já esfarrapados
 
Não é nada claro
Disse, enfim, o guia,
Para o desespero de quem pede mapa
Deixe aqui na porta
Toda a esperança
Senha da guiança sem nenhum contrato
 
Sabe-se do inverno
que é uma temporada
longa noite inerte em tempo interrompido
horas congeladas
anunciam as perdas
minhas oferendas a um altar vazio
 
frente ao santuário
dura feito pedra
padecendo as penas de quem não se dobra
deixo, enfim, a paga
abro os dedos rotos
desço ao solo seco
largo a casca morta.
 
Nada vem em troca
(Não é esse o acordo)
.
.
.
 
Não resta palavra
fim de todo verso.
 
.
.
.
 
Des exista
.
.
.
até que não lhe sobre mais nenhum gesto
.
.
.
a casca que a serpente libera em nada conversa com a nova que se cria
.
.
.
Como pode o inexistente queimar tanto?
 
(libera)
mas os compromissos todos
(entrega)
mas as responsabilidades
(deixa)
mas a seda ínfima que sustenta a teia
(desfia)
 
Nada nada nada
Ao simples roçar de um controle solta
nada nada nada
desagua, evapora, desintegra, desatomiza.
 
Elétrons sem núcleo, sem próton, sem órbita.
Desmateria, liberta a luz.
E da potência errante, só dela, a vida reinicia o sonho-semente
até o próximo
.
dissolver

 

 

 

 

 

enquanto passo um café

– Dona Chaleira, por que a senhora usa uma cartola e essa bengala curva?

– Na verdade, mocinha, não sou uma chaleira, mas um ilustre cogumelo trajando uma casaca vermelha.

– Então por que te vejo com essa forma, soltando fogo pelas ventas?

– Porque, minha querida, você acaba de me lamber.

 

um voo para as estrelas

Já conto alguns meses desde que ele atravessou a ponte.

Desde então, com toda correria malabarística do dessassossego contemporâneo, tenho vivido esse luto às prestações.

Uma coisa é clara: esses seres queridos passam a viver dentro da gente, em algum espaço profundo. Sua voz se faz clara. Sua presença, constante.

No dia de sua partida, eis aqui a história:

 

Minha fala ainda está engasgada.
Minha escrita não dá conta.
Só consigo agradecer. Inclusive o último presente que você me deu: me enviar um recado que precisava conversar.
Fui pra varanda, aquele lugar entre intermediário: nem aqui nem lá.
Fumei o cachimbo que foi da vovó, depois seu, e que você me deu.

Conversamos longamente. Eu confiei que você estaria me escutando. No começo não sabia nem por onde começar, mas depois da primeira palavra, o resto escorreu como uma cachoeira:

“Não sei o que te falar, pai. Nunca passei por isso. Mas se for como nos partos, posso dizer: tem aquela hora que a gente se entrega pro nada, se joga e confia. Ali você não cai no vazio. É o colo da mãe que te recebe. Deve ser parecido na hora que a gente faz a passagem”.

Lembrei dos nossos grandes momentos. Do som do seu sapato batendo na pedra enquanto andávamos de mãos dadas, minha primeira memória de caminhar ao seu lado. Do dia em que você disse que queria conhecer as estrelas numa nave espacial, e eu chorei tanto, tanto, com medo que você fosse embora. Hoje digo àquela menina: “o dia em que isso acontecer, pequena, será tão bonito! Não haverá medo, só amor e conexão. Sim, ficará a saudade, uma grande saudade, mas misturada com a certeza de que não estamos sós nos infinitos mundos.”

Nessa conversa, narrei a história-síntese da nossa vida. Te falei que ficaríamos bem, e recordei a você todo o amor que você deixou plantado, seja como um médico maravilhoso, como um pai tão protetor que às vezes eu protestava, ou como um homem capaz de grandes atos de entrega pela minha mãe (o que vocês atravessaram é um imenso exemplo pra mim).

Te agradeci por ter vivido com intensidade e inteireza tudo, por ter sido tão humano, tão verdadeiro em todas as suas escolhas. Muitas delas só entendi agora, nesse último mês no hospital, que pareceu um século. Nesse campo, seu local de trabalho por tantos e tantos anos, onde você salvou tantas vidas, uma grande cura aconteceu: o tempo se dilatou para que nossa família inteira e amigos próximos tivéssemos um aprendizado profundo.

Bateu um vento na varanda, senti que você me escutava. Te vi embarcando radiante, acenei com um gesto de entrega. Depois fui jantar com o Djair e os meninos, ainda entre os mundos. Finalizada a refeição, o telefone tocou. Eu já sabia. A notícia apenas confirmou meu presente: saber que você partiu sincronicamente ao som da nossa conversa. Esse foi meu grande sacramento.

Você, pai, que foi o grande contador de histórias, para quem eu fingia que só comeria ao escutar uma delas (e com toda paciência do mundo, me contava). Histórias e medicina se misturavam na sua essência, e eu herdei esse segredo. Você me iniciou nessa vida, e encerrou sua existência terrena me dando um diploma, e mais um aprendizado. Depois disso tudo, impossível não acreditar em um destino maior, em uma vida que segue além do espaço e tempo, e nessas conexões profundas que nunca irão se deter quando o espírito deixa o corpo e segue seu destino luminoso.

Estaremos aqui, continuando seu legado de amor e integridade.
Obrigada, pai.
Um lindo voo para as estrelas, para a luz que seu espírito merece.
Te amo, hoje e sempre. 

aaaaaaaaa

– Mãe, o que é “AAAAAA”?

(Como não fechar uma definição para uma criança de 4 anos?)
(Ahá! Usei a velha estratégia de devolver a pergunta)

– O que é “A” pra você, Chico?

– Uma estrada.

logo cedo

– Estou com saudades da minha infância. – disse o Pedro.
– Mas filho, você ainda está nela!
– Quando eu era pequenininho.
– Ah, sim, isso já mudou.
– É que quanto mais eu mudo, mais fico espantado.

(acorde com essa.)

História pra casar gente linda

Tudo começou com São Jorge.

Não, eu não errei de santo. Foi em São Jorge mesmo, um vilarejo perto de Alto Paraiso. Um lugar assim, gostosim, sabe, bom pra dançar um forró…

Tava lá a moça, só observando a dança… De repente, uma mãozinha muito esperta, como quem não quer nada, encostou no seu ombro. Era de um moço que tinha vindo lá da Alemanha, apaixonado pela música e pelas belezas brasileiras…

De repente tudo o que ele sentia pelo Brasil tinha rosto. Era o dela. Mas ele não se contentou só em olhar não: o que os olhos estavam vendo os pés também queriam experimentar. E o Matthias, desinibido que só, a convidou pra dançar.

A moça aceitou, pra alegria do cupido. E eles não pararam numa dança não! Foram duas, três, quatro, até que, ao mesmo tempo… aconteceu.

Um beijo.

Aí pronto. Não deu mais vontade de desgrudar.

Mas a história tava só começando… e era uma noite toda pintada de estrelas, porque São Jorge não tinha luz artificial pra ofuscar o encanto. Então o moço, sabido que era, convidou a moça pra observar o céu. Até encomendou uma chuva de meteoros pra noite ficar mais bonita, e pra ele ficar exibindo seus conhecimentos pra ela.

É, ele entendia de estrelas sim.

(Esse aí tinha um monte de cartas na manga, viu?)

Papo vai, beijo vem, já tinha ficado tarde. E não é que o cupido aprontou de novo? A amiga da Thâmile, que dividia a barraca do camping com ela, sumiu no meio da madrugada levando a chave. Cadê que a moça tinha onde dormir?

Vejam que problema…

O Matthias, muito cavalheiro, lógico, ofereceu um lugarzinho lá na barraca dele. Ela não ia poder ficar no sereno, não ia fazer muito bem pra saúde.

Aí já viu.

Mas nem deu muito tempo de dormir não, sabe? Porque logo o dia já tava querendo aparecer, e lá foram eles ver o sol nascer. A Thâmile ficou meio reticente, inventou uma história de medo de onça, mas o Matthias (já falei que o moço é esperto) logo descobriu uma antena pra eles subirem. É isso mesmo, uma antena. Ficaram lá no alto, sentindo um ventinho gelado no rosto, outro arrepio gelado na espinha, a assim passou o nascer do sol, o café da manhã, e nada da vontade de se separar chegar.

Então eles marcaram outro encontro, pro final da tarde.

A Thâmile chegou lá, na hora certinha, cheia de planos e memórias boas, mas… nada dele aparecer.

(Olha, nessa hora passa o mundo na cabeça da gente, viu?)

Ela já tinha até desencanado, tava lá bebendo uma cachacinha, quando surgiu o Matthias, todo esbaforido. Sabe o que aconteceu? Dormiu. Perdeu a hora! E haja cupidinho com GPS soprando no ouvido dele onde essa moça aí estava! Ainda bem que deu certo!

No dia seguinte, acabou a festa… A Thâmile iria voltar pra Goiás, o Matthias pra São Paulo. Mas isso era distância pouca, porque eles trocaram telefones e depois iam ver como a história ia seguir.

Mas o Saci atacou de novo. Deu um nó no celular da moça, e foi um nó tão bem apertado que deu um pau geral. Ela teve até que trocar de número.

E aí? Já pensou? O moço ali, todo apaixonado, mandando mensagem e nada?

Ainda bem que ele era muito insistente! E ainda bem que tinha pegado também o contato da amiga da Thâmile, aquela mesma que perdeu a chave, aquela que tinha parte com o cupido, sabe?

Pronto, ela colocou os dois em contato de novo, daí já era.

Era ligação pra cá, Skype pra lá, era conversa comprida que ia até três da manhã… Era viagem de quinze em quinze dias pra ver o amor, era moça conhecendo a Monte Azul, era moço comendo pequi de monte, era moça cantando pra ele, era ele tocando pra ela… Era vontade danada de estar junto crescendo, e essa vontade virou mala, virou viagem, virou certeza, virou passagem só de vinda pra São Paulo.

E a moça chegou.

E o moço ficou muito feliz.

E ele, cavalheiro, de novo ofereceu um pedacinho do chão dele pra ela ficar.

(Só enquanto ela não achava um outro canto.)

Ah, mas o canto dele era tão bom!

E o cantar dela era tão bonito!

Não quiseram mais se separar não! Então fizeram casa nova no Butantã, casaram pra além do mar, nas terras onde ele nasceu, casaram de novo no Brasil, num dia de sol e cor, e querem correr esse mundo todo no amor, na dança, na música e na poesia, que foi a primeira casa onde eles se conheceram.

Bendita seja essa gente estranha, com alma de passarinho, que insiste em fazer festa nos tempos de palavra dura.

 

 

 

(Quando a Thâmile me pediu para escrever a história de como ela e o Matthias se conheceram, fiquei honrada. Quem me conhece sabe que eu não resisto a um causo de amô, ainda mais tão verdadeiro! Escrevi a partir dessa atmosfera que eles transmitem, e o texto fluiu tão rápido que parecia estar ouvindo uma contadora de histórias aqui, no pé do ouvido. Só emprestei os dedos.)