enquanto passo um café

– Dona Chaleira, por que a senhora usa uma cartola e essa bengala curva?

– Na verdade, mocinha, não sou uma chaleira, mas um ilustre cogumelo trajando uma casaca vermelha.

– Então por que te vejo com essa forma, soltando fogo pelas ventas?

– Porque, minha querida, você acaba de me lamber.

 

um voo para as estrelas

Já conto alguns meses desde que ele atravessou a ponte.

Desde então, com toda correria malabarística do dessassossego contemporâneo, tenho vivido esse luto às prestações.

Uma coisa é clara: esses seres queridos passam a viver dentro da gente, em algum espaço profundo. Sua voz se faz clara. Sua presença, constante.

No dia de sua partida, eis aqui a história:

 

Minha fala ainda está engasgada.
Minha escrita não dá conta.
Só consigo agradecer. Inclusive o último presente que você me deu: me enviar um recado que precisava conversar.
Fui pra varanda, aquele lugar entre intermediário: nem aqui nem lá.
Fumei o cachimbo que foi da vovó, depois seu, e que você me deu.

Conversamos longamente. Eu confiei que você estaria me escutando. No começo não sabia nem por onde começar, mas depois da primeira palavra, o resto escorreu como uma cachoeira:

“Não sei o que te falar, pai. Nunca passei por isso. Mas se for como nos partos, posso dizer: tem aquela hora que a gente se entrega pro nada, se joga e confia. Ali você não cai no vazio. É o colo da mãe que te recebe. Deve ser parecido na hora que a gente faz a passagem”.

Lembrei dos nossos grandes momentos. Do som do seu sapato batendo na pedra enquanto andávamos de mãos dadas, minha primeira memória de caminhar ao seu lado. Do dia em que você disse que queria conhecer as estrelas numa nave espacial, e eu chorei tanto, tanto, com medo que você fosse embora. Hoje digo àquela menina: “o dia em que isso acontecer, pequena, será tão bonito! Não haverá medo, só amor e conexão. Sim, ficará a saudade, uma grande saudade, mas misturada com a certeza de que não estamos sós nos infinitos mundos.”

Nessa conversa, narrei a história-síntese da nossa vida. Te falei que ficaríamos bem, e recordei a você todo o amor que você deixou plantado, seja como um médico maravilhoso, como um pai tão protetor que às vezes eu protestava, ou como um homem capaz de grandes atos de entrega pela minha mãe (o que vocês atravessaram é um imenso exemplo pra mim).

Te agradeci por ter vivido com intensidade e inteireza tudo, por ter sido tão humano, tão verdadeiro em todas as suas escolhas. Muitas delas só entendi agora, nesse último mês no hospital, que pareceu um século. Nesse campo, seu local de trabalho por tantos e tantos anos, onde você salvou tantas vidas, uma grande cura aconteceu: o tempo se dilatou para que nossa família inteira e amigos próximos tivéssemos um aprendizado profundo.

Bateu um vento na varanda, senti que você me escutava. Te vi embarcando radiante, acenei com um gesto de entrega. Depois fui jantar com o Djair e os meninos, ainda entre os mundos. Finalizada a refeição, o telefone tocou. Eu já sabia. A notícia apenas confirmou meu presente: saber que você partiu sincronicamente ao som da nossa conversa. Esse foi meu grande sacramento.

Você, pai, que foi o grande contador de histórias, para quem eu fingia que só comeria ao escutar uma delas (e com toda paciência do mundo, me contava). Histórias e medicina se misturavam na sua essência, e eu herdei esse segredo. Você me iniciou nessa vida, e encerrou sua existência terrena me dando um diploma, e mais um aprendizado. Depois disso tudo, impossível não acreditar em um destino maior, em uma vida que segue além do espaço e tempo, e nessas conexões profundas que nunca irão se deter quando o espírito deixa o corpo e segue seu destino luminoso.

Estaremos aqui, continuando seu legado de amor e integridade.
Obrigada, pai.
Um lindo voo para as estrelas, para a luz que seu espírito merece.
Te amo, hoje e sempre. 

aaaaaaaaa

– Mãe, o que é “AAAAAA”?

(Como não fechar uma definição para uma criança de 4 anos?)
(Ahá! Usei a velha estratégia de devolver a pergunta)

– O que é “A” pra você, Chico?

– Uma estrada.

logo cedo

– Estou com saudades da minha infância. – disse o Pedro.
– Mas filho, você ainda está nela!
– Quando eu era pequenininho.
– Ah, sim, isso já mudou.
– É que quanto mais eu mudo, mais fico espantado.

(acorde com essa.)

História pra casar gente linda

Tudo começou com São Jorge.

Não, eu não errei de santo. Foi em São Jorge mesmo, um vilarejo perto de Alto Paraiso. Um lugar assim, gostosim, sabe, bom pra dançar um forró…

Tava lá a moça, só observando a dança… De repente, uma mãozinha muito esperta, como quem não quer nada, encostou no seu ombro. Era de um moço que tinha vindo lá da Alemanha, apaixonado pela música e pelas belezas brasileiras…

De repente tudo o que ele sentia pelo Brasil tinha rosto. Era o dela. Mas ele não se contentou só em olhar não: o que os olhos estavam vendo os pés também queriam experimentar. E o Matthias, desinibido que só, a convidou pra dançar.

A moça aceitou, pra alegria do cupido. E eles não pararam numa dança não! Foram duas, três, quatro, até que, ao mesmo tempo… aconteceu.

Um beijo.

Aí pronto. Não deu mais vontade de desgrudar.

Mas a história tava só começando… e era uma noite toda pintada de estrelas, porque São Jorge não tinha luz artificial pra ofuscar o encanto. Então o moço, sabido que era, convidou a moça pra observar o céu. Até encomendou uma chuva de meteoros pra noite ficar mais bonita, e pra ele ficar exibindo seus conhecimentos pra ela.

É, ele entendia de estrelas sim.

(Esse aí tinha um monte de cartas na manga, viu?)

Papo vai, beijo vem, já tinha ficado tarde. E não é que o cupido aprontou de novo? A amiga da Thâmile, que dividia a barraca do camping com ela, sumiu no meio da madrugada levando a chave. Cadê que a moça tinha onde dormir?

Vejam que problema…

O Matthias, muito cavalheiro, lógico, ofereceu um lugarzinho lá na barraca dele. Ela não ia poder ficar no sereno, não ia fazer muito bem pra saúde.

Aí já viu.

Mas nem deu muito tempo de dormir não, sabe? Porque logo o dia já tava querendo aparecer, e lá foram eles ver o sol nascer. A Thâmile ficou meio reticente, inventou uma história de medo de onça, mas o Matthias (já falei que o moço é esperto) logo descobriu uma antena pra eles subirem. É isso mesmo, uma antena. Ficaram lá no alto, sentindo um ventinho gelado no rosto, outro arrepio gelado na espinha, a assim passou o nascer do sol, o café da manhã, e nada da vontade de se separar chegar.

Então eles marcaram outro encontro, pro final da tarde.

A Thâmile chegou lá, na hora certinha, cheia de planos e memórias boas, mas… nada dele aparecer.

(Olha, nessa hora passa o mundo na cabeça da gente, viu?)

Ela já tinha até desencanado, tava lá bebendo uma cachacinha, quando surgiu o Matthias, todo esbaforido. Sabe o que aconteceu? Dormiu. Perdeu a hora! E haja cupidinho com GPS soprando no ouvido dele onde essa moça aí estava! Ainda bem que deu certo!

No dia seguinte, acabou a festa… A Thâmile iria voltar pra Goiás, o Matthias pra São Paulo. Mas isso era distância pouca, porque eles trocaram telefones e depois iam ver como a história ia seguir.

Mas o Saci atacou de novo. Deu um nó no celular da moça, e foi um nó tão bem apertado que deu um pau geral. Ela teve até que trocar de número.

E aí? Já pensou? O moço ali, todo apaixonado, mandando mensagem e nada?

Ainda bem que ele era muito insistente! E ainda bem que tinha pegado também o contato da amiga da Thâmile, aquela mesma que perdeu a chave, aquela que tinha parte com o cupido, sabe?

Pronto, ela colocou os dois em contato de novo, daí já era.

Era ligação pra cá, Skype pra lá, era conversa comprida que ia até três da manhã… Era viagem de quinze em quinze dias pra ver o amor, era moça conhecendo a Monte Azul, era moço comendo pequi de monte, era moça cantando pra ele, era ele tocando pra ela… Era vontade danada de estar junto crescendo, e essa vontade virou mala, virou viagem, virou certeza, virou passagem só de vinda pra São Paulo.

E a moça chegou.

E o moço ficou muito feliz.

E ele, cavalheiro, de novo ofereceu um pedacinho do chão dele pra ela ficar.

(Só enquanto ela não achava um outro canto.)

Ah, mas o canto dele era tão bom!

E o cantar dela era tão bonito!

Não quiseram mais se separar não! Então fizeram casa nova no Butantã, casaram pra além do mar, nas terras onde ele nasceu, casaram de novo no Brasil, num dia de sol e cor, e querem correr esse mundo todo no amor, na dança, na música e na poesia, que foi a primeira casa onde eles se conheceram.

Bendita seja essa gente estranha, com alma de passarinho, que insiste em fazer festa nos tempos de palavra dura.

 

 

 

(Quando a Thâmile me pediu para escrever a história de como ela e o Matthias se conheceram, fiquei honrada. Quem me conhece sabe que eu não resisto a um causo de amô, ainda mais tão verdadeiro! Escrevi a partir dessa atmosfera que eles transmitem, e o texto fluiu tão rápido que parecia estar ouvindo uma contadora de histórias aqui, no pé do ouvido. Só emprestei os dedos.)

 

para quem não esperava o impossível

Eis que em pleno outono
num fim de um dia,
o inesperado aconteceu:

O menino voou.

Furou a melancolia da tarde com seus dois pés apontados ao alto, com seu grito de êxtase, de quem consegue o impossível. Ria, ria muito, celebrando consigo aquele desatino, aquele vento contrário, o pendular em festa, animado pelo próprio impulso.

Furou minha tristeza dos tempos duros, das tantas injustiças, dos gestos áridos, da fala navalha, do luto carente de espaço, do tempo seco, da vã esperança, do peito vazio.

Atravessou esse vácuo preenchendo o oco,
o grito do menino.

Voou por meia hora, incansável.
Depois desceu, orgulhoso da conquista, e pediu abraço.
Então quem decolou fui eu,
plena de ar novo,
para a terra das infâncias destrancadas.

 

(para Chico)

vela

Nesse dia de finados, enterro a carne exposta dos meus fracassos.

Velo aqui o meu orgulho.
(dolorido ouro)

E sinto que, atrás dele, desse corpo-armadura do self-made insano,
nos aguarda a civilização de mãos dadas,
não mais de vencedores,
tops,
mas de horizontes compartilhados. 
Almas amigas.

Do topo, me restará a vista das montanhas,
lembrando que a vida é plena, e também cheia de vales.

Neles, vivem os rios
que ouvem minha canção dedicada os mortos,
eles, que entendem de fluxo, de quedas,
para depois desaguarem em potência de ondas, ou cachoeiras.

hackeando a distopia

– Mãe, você já reparou que antes todo mundo andava com um spinner e agora ninguém mais brinca? – comecei a manhã com essa indagação.

– Pois é, né? E pra onde você acha que foram todos eles?

– Pro lixo? – o Gabri pergunta, já meio chateado, girando o seu entre os dedos.

– Ou pra um canto da casa, pra depois virar lixo – respondi, já me perguntando se estava ou não pegando pesado.

Gabriel ficou pensativo. Logo mandou essa:

– Isso é triste. Imagina, cada spinner desse, feito com tanto carinho e amor, e as crianças não querendo mais brincar…

Ele foi sincero. Para ele, fabricar brinquedos é coisa séria. É o que o ele vê o pai fazendo todos os dias: vai para sua oficina, fica lá, dedicado, quebrando a cabeça para pensar numa coisa legal, e sai com um brinquedo feito por ele, com carinho e amor.

Para o Gabri, os fabricantes de spinner também são homens como o pai, Djair-Nicolau, que dedicam suas vidas a fazer coisas bacanas – e duráveis – para as infâncias.

Preferi ficar quieta dessa vez. Realismo tem limite. Ele só tem 7 anos, ainda pode imaginar que os brinquedos do mundo sejam todos feitos assim. Não seria eu a pessoa, nesse momento, a desmontar essa linda imagem.

Até porque o futuro ainda não chegou, e nunca se sabe o que pode acontecer.

sobremesa

mãe, será que as estrelas cadentes

são as crianças que estão nascendo?

 

Gabri, num almoço.