o dilema da flor

Como ser flor

Em tempos obscuros

Sem ofender, com a cor,

A nuvem cinza que se pensa apenas pesada?

Que pensa carregar penas,

Mas leva as águas,

Destemperadas

Que, uma vez desabadas,

Soltas na terra, como gozo de claro destino,

Vertem dores, desatino

num singelo e pequenino

(broto)

indicio de novas floradas

Mulher:

Eu tenho frio.
Um corpo arrepio.
É um corpo sem pontas, arredondado,
pedindo por presença como um vaso,
cheio de vazio, de futuro.
 
Quem sou eu?
 
Silêncio.
 
Um canto que vibra depois da última nota. Espreitando, esperando, o dia em que puder ser.
Ou talvez ser agora, no auge da dureza do mundo.
Porque eu broto do contrário.
 
Quantas vezes vou ter que nascer e renascer, ainda nascendo mulher, ainda tentando
entender de corpo inteiro como é se jogar assim, sem o mínimo de resposta, no escuro?
 
Sem vela?
 
Na hora mais escura da noite, aquele segundo em que todas as estrelas piscam?
Quem sou eu? A pausa no respirar nas estrelas?
 
Confesso.
 
Confesso sentir o amor como uma flor escancarada no peito. Confesso medo quase insuportável de queimar nesse calor.
Nessa ida até onde nem sei, confesso.
 
Eu confesso, mas não me orgulho.
 
Confesso não ter seguido meu pulso.
 
Confesso ter desdenhado a dor de tantas outras, confesso ter tentado fugir,
confesso ter nascido no fluxo, confesso ter memória pequena, confesso ter deixado de ouvir o canto,
confesso ter me resignado às migalhas do pouco desse tempo, confesso ter cortado os pulsos e deixado esvair meu ser inutilmente, confesso ter destilado veneno por pura inveja de quem nada teme, confesso ter submetido o meu pranto ao martírio de causas levianas, confesso ter julgado as tantas outras formas de vida,
 
confesso ter me perdido da vida. Confesso ter me deixado na sombra.
 
Confesso ter congelado um sorriso cordial e covarde, confesso a dor da memória de um tempo que eu tenho o medo do acesso, confesso a dor desmedida de quem não esconde ferida exposta,
confesso ter incendiado a minha casa antiga e velha e mofada,
confesso ter me atirado na longa jornada sem pão e sem rumo,

 
confesso soberba danada de quem não confia na ajuda dos homens,
confesso soluço jogado a esmo sem ter uma voz que acalante,

confesso a procura de um tempo onde o ser volta à tona parindo sorrisos,
confesso o peso das coisas que hei de largar mas ainda carrego,

confesso a esperança de ter vislumbrado a saída num longo caminho,
confesso a fé que se escora nos olhos vendados e mãos estendidas,
confesso difícil a entrega pra quem foi julgada, traída e perdida,

confesso uma chance presente de rever história com olhos crianças,
confesso desejo de ser plenamente o que sonho com ar de lembrança,
confesso desejo de dar nova chance a essa vida que é nova e que chama.
 
Confesso que não quero mais confessar.
 
Pelos lados, quero só respirar.
 
Conspirar.
 
Ligar traços,
 
desenhar constelações.
 
 
(trecho da peça teatral Jukebox, publicada no livro Campo de Transe, Editora Presságio.
Arte da Milá Bottura Dias da Silva)

MATRIX E A PÍLULA ROXA

 

Era uma tarde como outra qualquer, em que eu me movia entre consultorias literárias e refletia sobre o roubo das narrativas. Esperava o ônibus para ir ao próximo encontro literário, enquanto pastoreava pensamentos. O foco da minha revolta era o final da série Game of Thrones, um sequestro da história original – que também seguia rumos originais – que fora completamente distorcida pela indústria. Especialmente as personagens femininas.
 
Era essa minha briga da semana. Eu, escritora, revoltada com a manipulação da saga, das personagens, de toda a audiência. Eu bem sei o quanto custa escutar e pescar uma história verdadeira de dentro de si, daquelas que te obrigam a romper os próprios preconceitos. Ver todo um trabalho sério ser conduzido a um filme Disney da pior qualidade foi sofrido.
 
Com esse discurso debaixo do braço, aguardava o ônibus. Estava cansada, o dia havia começado cedo e já estava há doze horas na ativa. Por isso, quando o vulto aproximou-se de mim com clara intenção de contato, nem olhei. Só disse, cortante, para que me deixasse em paz:
 
– Não tenho dinheiro.
 
Mentira.
Qualquer outro dia seria verdade. Não carrego mais notas. Mas nesse dia eu tinha, e bastante, tudo com endereço certo, boleto específico, mas o fato é que eu tinha. E não estava disposta a dar.
 
Já estava esperando a réplica óbvia, mas não foi o que eu recebi.
 
– Você não está me escutando, moça. Eu não estou te pedindo nada. Por favor, não coloque palavras na minha boca.
 
Se é uma coisa que me deixa feliz é uma linha de diálogo que foge do óbvio. Seja quem fosse aquela pessoa, me conquistou pela dramaturgia. Pelo menos a cena seria outra.
 
Olhei, finalmente, para o vulto.
Era um homem velho. Velho e musculoso, portando uma bengala em uma das mãos e uma caixa de balas na outra. Falava meio enrolado, com dificuldades motoras (teria sofrido um derrame?), o que tornava tudo mais lento. Pedi desculpas pela grosseria, ainda disposta a acabar logo com aquilo e pegar meu ônibus. Mas algo me deteu.
 
Não sei ainda o que foi. Talvez o fato dele ter me olhado nos olhos, e ter qualquer coisa de vivo ali. Mais vivo do que qualquer outra pessoa navegando em black mirror. Ao cruzar meu olhar semi vivo e cansado, ele se encorajou a contar sua história. Lentamente. Com um ônibus atrás do outro passando, com meu horário encurtando, e com algo me fazendo ficar ali, com os pés no chão, ouvindo.
 
Mostrou suas marcas, de quando era morador de rua. Mostrou os músculos que ganhou quando superou a rua. Falou da filha, de onze anos e onze meses, que era o motivo pelo qual ele estava ali. Trabalhando. Nessa hora, voltou a me repreender:
 
– Você colocou palavras na minha boca. Você me diminuiu. Me desculpe, mas eu não podia deixar você fazer isso.
 
É claro que não. O quanto lhe custou construir essa dignidade do nada absoluto?
 
“Não coloque palavras na minha boca”.
 
Como fiz isso? Através do diálogo. Minha linha dedicada a ele foi a história óbvia: você é um impertinente que quer algo de mim, e eu não tenho nada para te dar. Caso ele entrasse nesse drama pobre e requentado que eu estava lhe propondo, a ele só caberia duas falas: Se desculpar ou insistir. Ao se recusar a viver essa história, ele me liberou desse martírio social.
 
“Não coloque palavras na minha boca. Não me diminua”.
 
(Não faça comigo o que você odiou que os roteiristas de GOT fizeram com sua seriezinha de estimação, moça.)
 
O mais louco é que ele falava tudo isso sem violência. Sem ressentimento. Era quase paternal. Inclusive me disse:
 
– Você foi malcriada comigo, mas depois me escutou e eu vi que você é uma pessoa boa.
E pediu desculpas.
 
Pelo que ele se desculpava? – me perguntei. Por ter me atravessado a ponto de ver minha maior fraqueza e me jogar na cara – me respondi.
 
Eu, roteirista, dramaturga, escritora. Sempre colocando palavras na boca dos outros. Sempre no controle da narrativa. E agora, o que faço com essa sombra? Meu ofício é também meu tormento. É possível abrir mão de estar todo o tempo escrevendo, com a pretensão de saber o que irá acontecer, linha por linha? Com a pressão de escrever todos os diálogos, moldar todas as personagens, dar nomes, falas, ações???
 
Na vida?
Nem no papel.
Caí no chão. Fui pega na minha maior mentira. E com uma frase:
“Não me diminua”
 
Mas havia a conexão. Havia uma estranha gratidão no ar. Ele me deu um drops. Eu quase recusei, esse é seu trabalho, tem certeza?, mas ele quis me dar mesmo assim. Isso me fez pensar que também devo ter dado algo a ele. Talvez minha vulnerabilidade. Porque, ao contar sua própria história, ainda que fosse tão mentirosa quanto minha falta de dinheiro, ele chorou. E eu também. Não por pena. Mas por compartilhar com ele esse cansaço de uma vida fadada a viver papéis tão pequenos. Nós, expressões da divindade, que podemos ser o que quisermos ser, condicionados à mediocridade. Essa conversa nos libertava disso. Ali, naquela pequena zona autônoma temporária, instauramos o tempo da poesia. Ainda que fingida, forjada. É necessário esforço para sucumbir à grande narrativa imposta.
Ali, cocriamos algo novo. Quase perguntei a ele o nome da sua filha, só para ver se era invenção. Mas algo em mim que não se importava com nada daquilo tomou a frente da minha fala. O nome que perguntei foi o dele.
 
– Miguel – ele disse.
– O meu é Claudia.
 
Finalizamos aquela cena com um abraço. Como uma celebração daquelas verdades encobertas por mentiras. A verdade que compartilhamos: estamos fartos das mesmas histórias. Só queremos contato, ouvir, sermos ouvidos. E que ninguém nos roube nosso nome, nossas falas, nossa dignidade, impondo sobre o grandioso que somos uma história pobre e fadada ao sofrimento.
 
Depois me despedi, carregando em meu corpo seu perfume barato. Seu nome reverberando, logo esse, no ano de São Miguel. E seu andar claudicante, como meu próprio nome.

Marielle presente em verde rosa e purpurina

Esse é só o começo.

Não se detém, de forma alguma, o que está no cerne de uma nação.
Em 2018, no auge do meu desalento, eu pensei: “Como as forças dessa terra permitiram isso? Tanto ódio, tanta injustiça?”

Difícil lidar com tanto, partindo da ignorância de quem vive a vida em tempo linear, segundo após segundo, ao rés do chão. Mas em suave perspectiva histórica, poucos meses depois, a despeito de gritos despeitados, a semente não apenas brotou. Rompeu o solo com tudo e desabrochou na maior ópera a céu aberto do planeta.

Eis nossa resistência: o grito forjado na festa. No passo do corpo livre, ao som de tambores, mexendo com tudo, deixando de lado todo moralismo que nunca foi nosso: veio importado em pele extrativista.

Pois bem, bem-vida seja a nossa cura. Pois se as sombras todas também saíram em desfile, é tempo de cuidar. E harmonia, como uma escola de samba bem sabe, não um exército marchando uníssono no medo e na violência covarde. É diversidade que dança junto, cada qual a seu passo, movida pelo sentido de alegria e beleza.

Valeu, Mangueira, por ter me lavado a alma!

 

Performers hold flags with an image of slain councilwoman Marielle Franco during the perform of the Mangueira samba school during Carnival celebrations at the Sambadrome in Rio de Janeiro, Brazil, Tuesday, March 5, 2019. (AP Photo/Silvia Izquierdo)

 

 

 

14

 

 

 

 

Deslizando lentamente
Nessa superfície macia,
afago
essa rota antes preta, carvão.

A fricção, desfiada no tempo,
gera fogo,
forja,
nos anos a fio.

14

Para cada ano firmado,
A transmutação das veredas finas,
afago
agora rios vertendo prata.
Testemunhando a linda dança
das cores
da inevitável espiral dos dias.
na indomável espiral que te coroa.

14
longas voltas
línguas
novas inventadas, renomeando lugares repassados em outros estranhamentos
reinventando o que é fixo, para que entre ar nas estruturas prontas
rememorando o que é móvel, curando, curando, curando…

14.
E cá estamos.
Desde que, de lá, firmamos
Num rito mágico
Primeiro entre montanhas, depois entre linhagens,
O sentido dessa travessia compartilhada

14 voltas espiraladas
vendo passar, na ponta dos dedos que afagam
as cores cambiantes
alternando, na ponta do carbono-grafite
do lápis
o denso das contas mensais
vincando o traçado
(imaginário)
(nas pontas dos dedos que amam)
no seu corpo,
ligando pontinhos espalhados, ora pretos, ora vermelhos,
organizando constelações.

Preto carbono forja tempo
Amor em balão alquímico
(matrimônio)
transmutando a forma das estruturas
dançando
a busca incessante
do carbono-diamante.

quase um ano.

– O Dr Alfredo não vem mais aqui?
 
A gente nunca sabe que frase vai abrir a comporta.
De frente para a barraca da feira, aquela pergunta parou o tempo. Depois descongelou e eu respondi.
 
– Ele faleceu. Já vai fazer um ano.
(nossa, já vai fazer um ano em março…)
 
Sempre uma situação difícil: quem pergunta nunca espera uma resposta dessas. Mas ele apontou para o filho, que o ajudava na barraca.
 
– Uma vez ele tratou do meu menino. Ele ficou bom mesmo.
 
Era isso que meu pai fazia. Deixava as pessoas boas mesmo.
Agradeci àquele homem por lhe trazer a memória, e por me fazer perceber que o nó na garganta que venho sentindo não é só sobre o desgoverno, não é só sobre a enxurrada de lama que cobriu o país em 2018 que se fez matéria viva em 2019 (em mais um desastre), não é só sobre ameaças de morte atiradas sobre militâncias que lutam pelos direitos óbvios, ou pela extorsão de terras indígenas, ou por…
 
Não é só.
(Como se fosse pouco.)
 
É ausência. É ainda luto. E foi tanta coisa pra enlutar no último ano que não tive muito espaço para sentir que esse era um grande vazio.
 
Mas um vazio preenchido.
Porque a presença dele, no meio daquelas barracas, se fez forte. Quase ouvi sua risada, e um comentário seu com o sotaque mineiro que eu também carregava, mas agora nem tanto.
 
Feita a feira, pai, sentei numa mesinha de plástico para esperar a mãe comer o pastel inteiro, aquele de sempre que encerra as compras, aquele mesmo que vocês dividiam. Essa manhã estava fresca, um oásis nesses dias quentes, e enquanto lembrava de você sem resistir à comoção, a ventania era forte, arrepiava tudo. Desviei a cadeira para evitar o golpe nas costas, coisa que você sempre recomendava. Senti o vento de frente, batendo no peito.
 
Eu acho que te dei um abraço.

solutio

amigues, sinto que estou morrendo.
nada sério. vou ali dissolver e já volto.
porque nada nada nada que até então me sustentava existe mais.
aproveito esse momento entresonhos, em que minhas culpas ou meus pensamentos obsessivos deram uma trégua, para dizer: é quase um alívio.
 
abri mão do controle da narrativa.
(vejam só, para uma escritora isso é bem mais que morrer)
 
aceito, com tremor entre os dentes, que só me cabe cuidar. das pessoas próximas, de mim mesma, de quem conseguir.
e ser cuidada também. porque somos troca.
 
talvez o único que eu tente levar comigo nessa travessia (e terei que abrir mão na passagem final) seja um desejo de que tudo isso tenha um sentido, e que a humanidade caminhe para um outro patamar
(espero, não às custa de tanto do nosso sangue.)
(ofereço aquele que sai de mim todo mês pela causa, mas ainda é pouco)
 
só sei que cansei de sofrer.
mesmo com tanta dificuldade de confiar, sinto que não há outra saída: apenas morro.
desaguo, entrego, desfio minhas certezas.
e também minhas p a l a v r

Bem que me avisaram do inverno

Mas ainda era outono
E eu vivia cercada de ventos amarelos
Munida da certeza de resistir a tudo.
 
Bem que eu soube que não seria dócil
Mas meu peito era forte
Deflorei fronteiras cercas muros correntes
Enquanto a retina se embranquecia
 
Não será tão fácil, bradavam inúteis vozes
Cega, ainda ouvia, mas ignorava,
Retendo no sangue meus cacos em luta
Passo a passo entregue ao escuro desvario
 
(Obscuro sonho:
Um coro entoando uma canção dissonante.)
.
.
.
 
Não, não é brinquedo
Conta-se do inverno
Que ele toma a fé de quem nele caminha
Mês a mês deixando
Pela travessia
Tecos de mil planos já esfarrapados
 
Não é nada claro
Disse, enfim, o guia,
Para o desespero de quem pede mapa
Deixe aqui na porta
Toda a esperança
Senha da guiança sem nenhum contrato
 
Sabe-se do inverno
que é uma temporada
longa noite inerte em tempo interrompido
horas congeladas
anunciam as perdas
minhas oferendas a um altar vazio
 
frente ao santuário
dura feito pedra
padecendo as penas de quem não se dobra
deixo, enfim, a paga
abro os dedos rotos
desço ao solo seco
largo a casca morta.
 
Nada vem em troca
(Não é esse o acordo)
.
.
.
 
Não resta palavra
fim de todo verso.
 
.
.
.
 
Des exista
.
.
.
até que não lhe sobre mais nenhum gesto
.
.
.
a casca que a serpente libera em nada conversa com a nova que se cria
.
.
.
Como pode o inexistente queimar tanto?
 
(libera)
mas os compromissos todos
(entrega)
mas as responsabilidades
(deixa)
mas a seda ínfima que sustenta a teia
(desfia)
 
Nada nada nada
Ao simples roçar de um controle solta
nada nada nada
desagua, evapora, desintegra, desatomiza.
 
Elétrons sem núcleo, sem próton, sem órbita.
Desmateria, liberta a luz.
E da potência errante, só dela, a vida reinicia o sonho-semente
até o próximo
.
dissolver