Da relação mágica com o mundo ao mundo mágico do cinema

Escrevi esse texto há uns 3 anos, quando orientava um grupo de estudo e produção audiovisual, o Kinocélula. Hoje, como uma das orientadoras do Laboratório de Audiovisual da ESPM (com o mesmo tesão, mas com mais gente e estrutura), me deparei com um momento em que ele novamente se fez presente. Atualíssimo, como se fosse hoje. E, novamente, agradeço aos meus alunos atuais por serem motivo de tantas reflexões, por me fazer, continuamente, rever minhas posturas e certezas. Na festa e nos conflitos, na ordem e nas desordens.

Dedico essa reflexão ao Kinocélula, e ao que venho aprendendo com os alunos desde que começamos esses encontros na ESPM. Porque além de fazer cinema, uma das melhores escolas de cinema é dar aulas de cinema. Desculpe a redundância do termo, mas é assim. Aprende-se muito passando adiante o que se sabe.

De tantos aprendizados, reflito agora sobre um: o fazer do próprio artista. Aqui não falo do profissional, do técnico, do funcionário. Mas do artista.

Tudo parte, primeiro, de uma relação mágica com a arte. Ninguém que se aventura nesse campo sabe definir racionalmente porque o faz, simplesmente se sente movido por uma força da natureza, às vezes até contrária à razão dos tempos, à praticidade da vida e às crenças vigentes, especialmente as que prezam pela segurança. Não, a arte não é um lugar seguro. Pelo contrário, o lugar para onde vamos é assustador e solitário à primeira vista, e somente se tivermos a firmeza interna de continuar é que encontramos a matéria-prima da concepção genuína. Todo o resto é cópia, e por mais bem realizada que seja, não faz tanta diferença no passar do tempo.

Mas voltemos à relação mágica com a arte. A princípio, quem se aventura primeiramente foi raptado. Em algum momento, seja por um filme, música, uma frase, foi abduzido a esse mundo e voltou diferente. No meu caso, o simples ruído do projetor na sala de cinema já era o portal para alguma felicidade: algo me seria contado, uma história, eu seria magicamente transportada para algum universo. Durante aquele tempo do filme, eu não mais seria eu, mas alguém na tela, em outro lugar, em outro tempo. E essa suspensão dionisíaca me faria sonhar acordada e me levaria também a outros lugares de mim.

Eu poderia continuar assim. Uma amante.
Isso faria de mim uma cinéfila, não uma cineasta.

Mas por alguma razão inexplicável, algo me chamou para ser uma realizadora. E, apesar de toda a mística em torno disso, todo o prestígio criado pelo meio, esse não é um lugar confortável. Porque, para começar, tive que abrir mão da minha relação mágica com o próprio cinema, desvendar o mundo atrás das cortinas, atrás das câmeras. Perceber que as histórias não nascem prontas, que os filmes não se fazem como por encanto, mas às custas de muito suor, trabalho, frustrações, fracassos e, sobretudo, medos. Especialmente o medo de não ser compreendida.

Assim, para me forjar cineasta, tive que abandonar o éden da poltrona do cinema. Tive que me submeter aos ácidos nessa alquimia da transposição de amante a artista. Em vários momentos, precisei acreditar quando ninguém acreditava, nem mesmo uma parte de mim que buscava o caminho mais fácil. Em outros momentos, tive que, humildemente, reconhecer que ainda não havia chegado onde queria, me desapegar do feito e recomeçar. Em vários momentos desisti, e graças a essa correnteza inexplicável que acabei chamando destino, fui jogada de volta ao furioso rio de minhas criações.

Até que, nesse turbilhão, colhi alguns frutos. E ao contrário do que se pensa, eles não são os aplausos. São o silêncio de quem não consegue achar palavras rápidas para definir o que viu, ou melhor, sentiu, ao assistir o resultado de tanta batalha. Porque aplausos rápidos e palavras rápidas vêm de lugares confortáveis, mas quando o espectador é também raptado, volta como que entorpecido.

Nada disso se faz facilmente. Como por encanto. A mágica está na tela, mas realizá-la nos coloca em situação de perder a relação mágica com o mundo. E não estou falando da relação lúdica com o mundo, mas de uma falsa crença de que as coisas serão feitas por si mesmas – um resquício do mundo infantil que ainda carregamos. Olho com esse impulso! É ele quem nos leva aos lugares fáceis, quem nos faz desistir na primeira dificuldade, e, principalmente, quem nos faz distorcer um primeiro impulso inovador, em geral ainda estranho, pelo receio de não ser aceito.

Sinceramente, acho melhor errar feio buscando algo inovador do que acertar fazendo o mesmo com roupagens novas. Porque para cada “acerto”, há muitos fracassos. E só quando perdemos o medo do fracasso, superamos esse medo infantil de não agradar, é que ganhamos a firmeza e a maturidade que um artista verdadeiro necessita.

Por isso, sempre me pergunto se quero continuar nesse caminho. Dá trabalho entrar na noite de si. Dá trabalho lidar com esses medos, angústias. Dá trabalho resistir às crenças de sucesso, dá trabalho recomeçar sempre. Às vezes, em trégua, volto à sala de cinema e me permito mergulhar na magia. E a cada novo rapto, saio cada vez mais inspirada em novamente me meter em novas enrascadas, em um novo projeto.

Muitas vezes me perco, é verdade. Mas em preciosos momentos, percebo um encontro. Esse lugar novo que encontrei em mim reverbera em um lugar novo dentro do outro. Nesse momento, a mágica não é ilusória, é real. Vai além do entorpecimento da sala escura, é um momento que transforma.

É graças a esses momentos que eu continuo. E posso encarar mil fracassos, por mais duros que sejam, para sentir novamente esses instantes de encontro.

quem poderá me salvar?

– O que você faz?

– Eu escrevo.

– E você também trabalha?

(…)

– Dou aulas.

– Ah, tá. E trabalha em que?

(…)

– Teatro.

– Só?

(…)

– Cinema. Às vezes.

– Ah…

(…)

prazer secreto

quer saber? parte de mim vai ficar no mistério, peixe fora da armada.

livre de todas as redes, teias, conexões.

tão, tão bom dormir nesse amparo de não se saber por inteiro!

para quem só poderia ser

Quando eu aprendi a sonhar, não sabia pra que mar esse rio correria. Tinha vontade de ser, e era só.

Sonhava com amor eterno. Sonhava com causas nobres. Sonhava com mil bocas me beijando, uma para cada um que meu olhar percorria em desejo adolescente, inconstante, mas intenso e fiel no momento em que manifesta. Eu sonhava com um amor gentil, esculpia um homem quase irrealizável com um coração maior, um pouco maior que o normal.

Um dia , você me apareceu, ou eu que apareci, sei lá. Fui eu que saltei sobre você, como fazia na época, cansada de ser presa de espera na torre dourada. Há muito tinha perdido os sonhos de princesa. Sonhava só com alguém com o coração além da conta, exaurida que  estava de tantas batalhas perdidas. Ou ganhas. Toda batalha, em si, já era uma perda, pelo menos nesse campo amarelo. Que nele brotassem flores, sem respingos de tinta vermelha.

Desse sonho chegou você, também vagando entre devaneios parecidos. Chegou e plantou bandeira no meu sonho, rasgou a terra com uma frase já quase banal: eu te amo. E seria mais uma das tantas proclamadas, jazidas no deserto das palavras vazias, se não fosse dita com tom de sentença, com a coragem de quem encerra a frase num ponto. Não era declaração disfarçando carência,esperando retorno. O ponto final concluía, delimitava, seu sentido, seu significado absoluto e completo de servir apenas ao seu significado: amar, e só.

Rasga, meu amor, agora, a pele, como quem já me feriu a terra. Penetra novamente nesse mundo das palavras mudas, dos toques umedecidos pelo sal da gente, pelo gosto de gente fora de si. Chegue novamente com a delicadeza de quem sopra chama nova, colhida do fogo em plena ventania. Protege, com as mãos, essa alma nova, com promessa de fogo eterno, mas sempre delicado, e sempre sujeito às cinzas. Revela sua alma desvairada, febril, liberta o seu ser dessa febre vivendo a paixão do seu desejo. Aceita a vida com toda sua força e fluxo, jogue-se de costas na corrente. Beija a vida que te abençoa, reconhece esse pulso no outro, na boca ao lado, sempre ao lado, esperando velada entre os véus da rotina. Desnuda, revela, desvela, torna essa força novamente sua, toma cada lábio separado e junto, bebe dessa vontade que também é minha.

promessa de outono

Outra eu vaza pelas grades

sutil, espreita

gotícula, quase ainda umidade,

passa pelas frestas, quase ainda invisíveis

das invivíveis represas:  fortes, firmes, fiéis (ao reter);

frágeis, falíveis, fumaça cortinando (ser)

aprendendo a separar

o que eu quero

o que eu acho que quero

o que eu aprendi a querer,

o que eu acho que deveria querer.

(…)

e que separar não é tão fácil quanto parece,

e que essas opções não são tão claras como poderiam,

e que a mente trai o corpo, às vezes,

que os moralismos traem a gente, sempre.

crônicas de kung fu II – A gente morre (ou vive) pelo coração.

Havia uma brecha, sei lá quando ou onde. Talvez eu já tivesse dormido assim, ou sonhado com alguma coisa estranha. Nada que eu tenha conseguido pensar, ou aprofundar, ou ouvir de mim. Acordei como todos os dias, talvez mais preocupada que o habitual pelo (já quase habitual) excesso de coisas, talvez estivesse pendendo pra fora do eixo, sem guarda. Se nessas horas entra palavra estranha, que soa brusca demais pro cedo das horas, evidencia a fissura. Não sei. Mas se até vento batendo nas costas de surpresa pode dar em resfriado, torcicolo ou coisa pior, assim é a palavra dura dita de relance, ainda acordando, ainda sem estar inteira.

Assim cheguei na aula, mesmo sem saber, ou sabendo sem dar importância às coisas pequenas de sempre. O corpo acolhe tudo, a mente disfarça, finge que não. Não é nada, sempre nada, até que um dia acorda espantada com coisa antiga que queria não ver. Assim cheguei, meio quebrada no peito, por coisa pouca, pequena, cotidiana. Cansaço de coisas somadas, de excessos pendentes, de cuidados não ditos.

No meio do aquecimento, a coisa cresce. Socando o ar, em exercício, lá fui eu para o meu deserto árido das impotências. Um deserto. Tudo bem que havia o cansaço físico e a cabeça já estava atrapalhada, mas não é nessa justa hora que se abrem as portas para os invisíveis? E ainda há quem pense que viagem no espaço/tempo é coisa de máquinas. Lá fui eu, sei lá pra onde, de corpo quebrado, equilíbrio cruzado, socando inimigo impalpável e só querendo me jogar no chão, curvar o corpo em meia-lua e semente. Precisando de abraço alheio, com vergonha daquele lugar, e como é possível sentir vergonha de um desejo de amor? De acolhida? Que dureza é essa que não permite o amparo?

Até que chegou num ponto impossível de coordenar, não havia mais braços, pernas, quadris, era uma massa incontrolável querendo desaguar. O peito, coração vazio. Aí percebi que do quadril vem o movimento, e a força vem do coração. Não é frase solta, emotiva, feita, é fato real, concreto. Coração é o centro do centro, e não à toa, fica no meio de tudo, e é de onde a gente começa a existir. Um ponto que pulsa, em big bang, daí viemos. De lá somos. Sem lá, tudo se desmorona.

através

eu filtro o mundo de fora por lentes: câmeras, óculos, crenças e outros enquadramentos.

o de dentro, por personagens.

será que a realidade me queimaria os dedos, os olhos, a língua, se não houvesse intermediários?

ou tem coisa que a gente só capta assim, pelas bordas, pelas voltas, no tempo fora das horas?

.

logo atrás dos cabelos, perto da nuca, chama. mora próximo à região do ouvido. um ponto delicado. se regido, faz circular o choque costa abaixo e costa acima, fazendo cócegas na espinha e perto da axila. há um som que dispara o ato, dito de determinada forma, naquele exato ponto. o choque desce ventre abaixo, conectando sexo ao ser, o ser a tudo. sangue corre mais forte, de repente mais intenso, cachoeirando artérias e dando calor. suor sai pela pele, mostrando a saída do dentro pra fora. é lá que saio de mim cotidiana. é lá que sou, natureza. logo atrás dos cabelos, lá na raiz, perto da escuta.