lugares sagrados

às vezes, no mundo espiritual, a gente visita espaços únicos, indescritíveis.

às vezes, no mundo visível, esses espaços se materializam. Aí viram ponte para outras dimensões.

pariquera-açu. sítio toque natural

entre matas e estrelas cadentes, em águas reveladoras, no meio do fogo da oca sagrada, guarda-se um sonho.

guardiã do segredo: amiga-irmã Maria Esther.

morra, eletropaulo!

Ontem cortaram minha luz.

No meio do dia, sem mais nem menos. Chegou um técnico aos berros e simplesmente desligou um botão. Ou virou uma chave, não entendo dessas coisas.

O fato é que no meio da tarde me vi sem luz.

Preferi chamar de indignação, por ser tratada como criminosa por uma porcaria de prestadora de serviços. Monopólica. Mas não era, era mais. Indignação leva, por oposição, a uma postura digna. Mas não foi. Foi uma raiva gigante, das entranhas, como se alguém tivesse, sem aviso prévio (como de fato, foi), me atirado à escuridão. Indefesa, com dois filhos pequenos. Ontem visitei se não o ódio profundo, pelo menos a leoa que protege a cria.

Mundo cão. E lá eu estava, sem luz.

Querendo matar de tanta raiva.

Esbravejando no deserto das reclamações telemarketicas.

Esquecendo o silêncio gerador de novas luzes. Lá era, sobretudo, um grande e sedutor vazio de forjado protesto. Ontem odiei, só isso é certo. Ainda que não socialmente.

pra quem tem tempo, um papim.

Num sei pur que, duns tempracá, eu tenho lembrado de Min’s.

Juiz d’fora. Lá dionde eu vim.

De viver num outro tempo, sabe? Do cafezim. De bater um papim. Sei lá, boba, faz um tempão que eu tô aqui, em São Paulo, mas nossa senhora! Acho que é saudade.

Trudia, pedi prum amigo o endereço dele pra mandar uma carta. Faz tanto tempo que eu não escrevo carta que vai doer a mão de escrever. Porque é uma coisa de doido isso, depois do e-mail só chega conta debaixo da porta, e às vezes uma encomenda. E também depois do facebook só chegam mensagens coletivas, dessas de listas, na minha caixa de e-mail. Faz tempo que não recebo e-mail pessoal, nem quando mando pra alguém, respondem. Pra falar a verdade, não me importo. Assim como não me importo de me assustar quando toca o telefone fixo. Em muitos casos, é telemarketing. Hoje é tudo network.

Então não vou fazer aquela reclamação ranheta da tecnologia, apesar de ter saudades de receber as tais das cartas. Menos papel impresso, penso, pra compensar. Eu mesma me surpreendo comigo: antes ligava pras pessoas e dizia: “Que saudade! Liguei pra conversar”. Agora pergunto: “Tá podendo falar?”Supõe-se que sim, já que a pessoa atendeu. Mas a verdade é que é todo mundo tão escravo do telefone que a gente atende mesmo sem poder, xingando quem ligou.

Aí eu lembro de uma aula de cinema que eu dava dentro dum estúdio preto em que imagens eram projetadas num telão. Passei uma semana de sol  vendo projetadas imagens de montanhas e cachoeiras. Nunca estive tão próxima da caverna, e desesperada para viver. E lembrei das montanhas de Ibitipoca.

Mas dá saudade mais das pessoas, sabe? Das portas abertas. Trudia, eu cismei de levar o pedro, filhim de 3 anos, numa loja de instrumentos musicais pra ver se ele ia curtir o presente que a vó queria dar: um violino (ele é meio que fissurado nisso). Sabe aquelas coisas que a gente faz meio abilolado? Porque, obviamente, ele surtou ao ver o violino ao vivo e a cores, e surtou ainda mais quando o vendedor tirou, sabiamente, a peça de mostruário das mãos dele. Até o segurança da loja chegou pra ver o que tinha de errado com o pequeno ser que se debatia, protegendo seu sonho recém-concretizado dos adultos do mal que o ameaçavam. É, a gente educa. Faz de tudo. Nessas horas, faz o que pode. Compramos o tal violino num desespero de final dos tempos, sem afinar nem nada, com a certeza derradeira de que ele tinha gostado, e ao chegar em casa, a coisa não tocava. Voltei na loja (sozinha), sendo reconhecida rapidamente por todos, e pedi com ar de desespero que alguém pelamordedeus fizesse aquilo tocar.

Aí apareceu um minerim.

Recém-chegado de lá, recém-chegado na loja. Recém-casado. Com portas abertas.

Pegou o violino como se fosse uma obra de arte, ainda que fosse desses made in china. Ouviu, ouviu. Foi para um canto quieto da loja. Sorriu. Pediu calma. Eu ainda me desculpando pelo ataque de fúria do filho, ele só disse: “Criança é assim mesmo.” E disse isso com um amor tão grande que me fez perceber que minha rigidez vinha mais de um medo de não estar sendoeficientenaeducaçãodomeufilhoquenãopodedarchiliqueporquequercoisas do que de um desejo concreto de ajudar. E ele, ali, ajudando. E ainda repetiu, num outro contexto: Criança é assim mesmo.

Eu pedi, naquela hora, dentro daquele templo que ele construiu à nossa volta sem perceber, para que ele conseguisse manter aquele lugar sagrado vivendo aqui, nessa terra de tempo doido. E ele, em silêncio, afinando, com suas portas abertas balançando com sua respiração, convidando a entrar, tomar café, desacelerar. Entrei paulista, saí mineira. Ele afinou o violino, e a mim também.

Amo São Paulo, viu? Apesar de tudo. Mas às vezes é muuuuuuuuito, muito bom voltar pra terra, aquela, aninhada pelas montanhas.

coisas que a gente escuta por aí II

(…)

– Mas você não vai dar dinheiro pra ela?

– Não.

– Vai virar corno.

– Dar dinheiro pra que? Pra ela bancar o cara?

– É?

– Prefiro ser só corno.

(…)

De: 2 carecas vestidos com ternos baratos nas imediações do Shopping Iguatemi

tempo

nessa semana, tomei um ar das vias digitais.

li, li, li.

experimentei o lúdico do vazio.

lá lá lá

estou.

pequena ode à real democracia

As eleições estão aí. E como ficar à parte é uma escolha que determina sua parte, decidi entrar no jogo das opiniões e tornar público meu ponto de vista.

Nesse domingo encerra-se mais um espetáculo democrático. Ainda vai ter dedo no olho, certamente, no último round em rede nacional. Luta de gladiadores, numa arena em que nos permitem brincar de Cesar e apontar polegares: cada um, um dedo: voto.

Sim, essa democracia é um avanço, se formos comparar com monarquias absolutistas, ditaduras e outras pérolas de nosso lento engatinhar. E hoje, tecnicamente, qualquer um de sangue vermelho pode se candidatar. Contanto que legalize um partido, tarefa que alguns deixaram bastante árdua. Ou arranje um que te acolha, e se for eleito, reze pela sua vida na corte.

Ainda assim, é uma democracia.

Democracia representativa. Democracia de avatares. Não de fato, real, horizontal, com o poder na mão de todos. De todos?

Em outras épocas, eu usaria o termo “poder popular”, mas a palavra popular é agora pronunciada por quem não se sente popular, o que não é meu caso. Faço parte dessa grande massa-classe-média que trabalha e sonha com dias melhores, na mais torpe das hipóteses, ou faz coisas para que esses dias melhores realmente aconteçam, numa versão mais lúcida. Mas também reconheço que tive certos privilégios fundamentais: um pouco de estima acima da média da classe, por ter tido a sorte de ser amada e ter tido acesso a alguns bens. Nem falo de geladeiras, carros e televisores, mas um bem maior: educação e senso crítico.

Mas voltando à vaca fria: Nossa ilusória sensação de poder. Poder escolher, como se estivéssemos livres de uma ditadura velada. Ou, para usar um termo menos datado: como se estivéssemos livres da dominação. Porque apesar de reconhecer a evolução histórica, apesar de preferir ver um assalariado a um escravo ou a alguém pendurado numa fogueira pra ser assado e comido, juro que às vezes me pergunto se minha casa não é uma caverna estilizada. A casa-planeta, digo. Desculpe, alguém já disse isso. Platão?

Mas sou otimista. Apesar.

Sou otimista com bases realistas. Porque já experimentei o poder HORIZONTAL. Já vivi momentos em que um grupo circular, sem reis ou vassalos, conseguiu tomar decisões coletivas preservando individualidades. Preservando a diversidade. Um equilíbrio sutil, suave, que só é possível vindo de um lugar: o além-mim.

O além-mim é um lugar de transcendência. Diferente do não-eu que caracterizou muitos coletivos em que indivíduos sentiam-se massacrados, e depois vieram cobrar essa dívida num individualismo crônico. O além-mim é a integral preservação do eu e suas particularidades, mas com um salto além, com uma nota acima, uma frequência mais alta. Uma nota em uníssono com diferentes vozes. Um consenso que não vem da cabeça, de um cálculo, de um raciocínio, mas se uma necessidade profunda de unidade interna.

O além-mim, feito de tantos, nunca é estático. A respiração de um faz o conjunto se mover e novamente, instavelmente, se reequilibrar na ponta de um só pé. Impossível parar, estagnar. O consenso é uma dança infinita, não para nem na menor unidade de tempo.

Já vivi momentos assim, de além-mim. E já os vivi em grupo, num maravilhoso além-nós.

Depois o eu cobra sua parte desse latifúndio, faz cálculos, como é típico de sua natureza. Totalmente compreensível, sem ele estaríamos mortos. Ele é o que nos resta de nossa porção cro-magnon, que garantiu nossa sobrevivência por séculos. Não, não atiro pedras ao eu. Ele, o eu, me trouxe até aqui. Mas aqui não é o fim, e os lugares por onde tenho que entrar – os lugares por inaugurar – me pedem uma nova consciência.

Nesses lugares, a democracia é, de fato, real. Não faz sentido algum escolher representantes. Assim como não faz sentido, hoje, eleger alguém para dar um beijo no ser amado. Eleger alguém para mergulhar na cachoeira, ou para as questões mais simples, como dormir e acordar. Ou morrer.

Mas hoje, época em que avatares vivem a vida em second life, não é de se estranhar. Não é de se estranhar que não se ache estranho um modelo em que alguns decidem o destino de milhares. Impossível abarcar todas as necessidades, ainda que a intenção seja a melhor. Ainda que assim fosse. Ainda que um eleito fosse o eleito de Deus, ainda que Deus fosse.

E olhe que não estou contando as más intenções. Ou, para ser mais realista, as intenções fracionadas. Porque só os vilões da Disney reconhecem a si próprios como “maus”. Mas sim, há grandes equívocos movidos pela cegueira, pelo descaso. Pimenta nos olhos de outros nem mais é refresco: não se conhece. Notícias chegam filtradas na corte. Mas isso não é ignorância inocente, é opção.

Não creio da democracia representativa, assim como não acredito em chefes, mandantes, reis, ou qualquer coisa que seja uma representação externa de uma real divindade que só existe no mundo interno. Aqui fora, estamos ainda atemorizados pelos raios que desconhecemos, na desolação de quem ainda se busca. Criamos Olimpos, é verdade, na ilusão de trazer próximos os deuses, na ilusão de não nos sentirmos mais o desamparo da pergunta: Quem somos? Para onde ir? Ou, simplesmente: ter alguém a quem erguer os braços e pedir a bênção. Nós, nação sem pai. Nós, nação de mães trabalhadoras, nós criados por avós, carentes de referência. Como nos tirar o que resta, a esperança de um salvador? Ou o prazer sadomasoquista de ser pisoteado por déspotas para depois poder atirar-lhe pedras? Os bodes expiatórios são tão antigos quanto as prostitutas.

E eu, que tanto quero o direito, a escolha, e quantas vezes agradeci pela escolha ser alheia? Poder delegar a representantes o fardo da decisão. Um fardo regado com a calda doce do poder, mas ainda assim, pesado. Se não o fosse, não esgotaria tanto quem o carrega. É possível, então, a horizontalidade dos círculos?

Sim, eu já experimentei. Ainda que por tempo limitado, em que um desejo de algo maior se faz presente, compensando e sobrepassando, em importância, nossa carência vertical. O sentido de comunhão é tão verdadeiro quanto as pedras, mas parece efêmero por sua leveza no tempo. Porém existe. E a real democracia virá justamente daí. Por enquanto, em pequenos grupos. Por enquanto, em espaços sagrados onde se suporta a elevada vibração do além-eu, do além-nós.

Enquanto isso, voto, elejo, delego. Enquanto isso.

A tempo: nunca, jamais em toda a vida, votaria no Serra. Votarei no PT com muitas ressalvas, pois apesar de reconhecer as boas reformas vindas de sua história, ainda não é a revolução que espero. Sua raiz sindicalista negocia bons acordos para a massa assalariada, mas não questiona o modelo: por que precisamos de patrões?

Então, entre ressalvas, continuo construindo a anarquia imaginada. E torcendo para que a lucidez e o amor caiam como um raio no coração de quem, agora, disputa a coroa.

aprendendo

(o) Eu

que na sua (minha?) porção rainha

já pisou sobre tapetes estendidos

escarlates

Hoje, elevando, vendo

pisei sobre tapetes púrpuras e amarelos

das ruas em primavera

estendidos não para, mas com.(igo).

Juntas, as cores caídas e eu, agradecemos, horizontalmente, ao tempo de flores.

dos cantos

Minha mãe disse que quando… Antes de eu nascer, durante sete meses, eu chorava na barriga dela todos os dias, às 3 horas da tarde. Mas minha mãe não contou isso para mim. Só depois que eu fiquei sabendo. E eu nascia numa sexta-feira, às 3 horas da tarde.

Até que um dia, eu comecei a ouvir um canto. Você ouve?

Eu ouvia sempre, sempre, chamando. A água era pouca, tinha que ir buscar no rio, todo dia, ainda criança. Punha o pote na cabeça e ia, doida pra ouvir o barulho da água batendo aqui em cima na volta. Nem ouvia mais meu pai gritando quando saía, porque já estava escutando era a água…

Aperta o passo, minina, que a chuva ainda tá longe. Aperta o passo, minina. E pega a trilha mais curta, sem essa de pará pra ver bicho ou frô seca no pasto. Se apresse, ô minina, e vem com pão e a cachaça, que o tempo não passa sem essa reza pra se esquecê do que se é.

Mas eu parava, parava que só, só pra ver passarinho. E pegava uma pedra e atirava era no galho, não por falta de mira certa, mas por querer ver o bicho voando. E ele voava, crente que fugia da mira, e eu mirava c´os olhos tão longe que nessa hora lembrava: Tô indo, pai! E voava também, c´oa água na cabeça e a cachaça na mão pesando doído, que sabia que dali a uns gole ele virava o capeta, e depois chorava fundo até dormir pro dia seguinte.

Depois de muito tempo eu entendi a sede que meu pai tinha. E aquela água bateu tanto no barro da cabeça que virou um canto comprido, e eu voei por cima do mato seco com promessa de ver o mar.

Ver o mar… Um monte de água salgada que nem pra beber serve… O que é que move a gente? A mágica? A ilusão? O sonho? Ou a mentira?