Café com anjos

café com anjos

 

Às vésperas dos meus 42, acabo me permitindo uma pausa para o momento presente fora das telas. Surpresa com a terceira (ou quarta?) dimensão, observando a espiral que acompanha o aroma da manhã, agradeço.

Apesar de tantas provações, (tantas mesmo, entre paredes, entre bairros, cidades, fronteiras), vou construindo o espírito nessa forja insana dessa época. Tentando manter o peito aberto, a escrita fluida, buscando a arte acima de tudo (em peças, em livros, em imagens), subvertendo a ordem que aponta o dedo para a distopia, subvertendo a vergonha de ser um fracasso nesse sistema, sobrevivendo à tendência de odiar, dividir, pregar o fim dos tempos.

Essa sou eu, aos meus quase 42, início do sétimo setênio. Essa sou eu, mesclada a tantos e tantas que aprendi a reverenciar. Pois se esses tempos me tiram parte do chão (tudo é líquido, ou até vapor), também me levam ao essencial.

Luto, como sempre lutarei, frente às atrocidades dessa época. Mas não deixo de ver que, com a queda de tantas coisas, também sobe o espírito de comunidade. As tantas redes solidárias que se formam na necessidade, e nunca mais se dissolverão.

Nunca precisei de tanta ajuda, e nunca fui tão ajudada.

A começar pelos meus pais, Alfredo e Dadora, que me apoiam desde sempre, e a quem eu tanto amo e admiro. Meus segundos pais, Socorro e Djair, Minhas hermanas Adriana, Denise, Dayse, Flavia, meu querido bro Alfredo (em seu silencioso cuidar), Cecilia e Amanda, acolhendo Chico em seu novo castelo no Espaço Bem Viver, nossa querida comunidade da Escola Waldorf Guayi, terra do coração-semente, Priscilla e Sabine, pelo sonho engendrado nos infinitos mundos, em imagens da Milá. Alessandra, Isabella, Daniela , Cristiano, Daniela, Marco e nossa esperança (ainda) no teatro. Lizandra, primeira parteira dos meus filhos de papel, abrindo uma nova fase da minha vida. Ivana, Roberta, Adriana, pela irmandade compartilhada, e Maria Esther por manter sempre acesa a chama da nossa amizade nas dimensões do espírito. Laura Belo, Felipe Amato, por provarem que o alimento do futuro é possível e acessível, e compartilharem essas informações pro mundo todo.

Não cabe todo mundo aqui. Tantas e tantas mais pessoas ao redor, tanto a agradecer. Filhos, árvores, livros, a casa, agora uma escola sendo contruída tijolo a tijolo, literalmente. O amor sempre renovado com Djair Guilherme. Nossas difíceis e diárias decisões, tantas depois daquela primeira, em que decidimos expandir nossa egrégora de enamorados em uma família. (Vocês vão ter mesmo 3 filhos? Que coragem, hein?!) Nem em sonho poderíamos saber o que nos esperava, e faria tudo de novo, sempre.

Assim como lá fora da janela os dias alternam entre a chuva e o sol, dentro choro e reanimo. As águas amolecem a terra dura da minha taurinice, me mostram a reverência. Levantam meu olhar para além da terra que aro sem parar, me direcionam o foco para um novo horizonte. Sim, há esperança, sempre houve, se ainda existir o afeto.

E o afeto, ainda bem, só cresce. Assim como os primeiros fios brancos, assim como os fios invisíveis que tecem os anjos ao nosso redor.

Gracias a la vida, hoje e sempre.

(escrito em 08/05/17)

 

epifanias

– A música Construção é sobre um pedreiro que subiu paredes flácidas, almoçou, bebeu e tropeçou depois caiu na contramão atrapalhando o tráfego, o trânsito e o sábado, né mãe?
– É isso mesmo, Pedro.
– É triste.
– (Gabri) Mas é bonita, né?
– Mãe, tem música que conta história?
– É, Pedro, tem músicas assim.
(epifania)
– UAU! Como nunca pensei nisso antes?
(suspense)
Vou fazer um livro de história-música!

 

(maio de 2016)

a mãe que consigo ser

Na velha Raposo (Tavares) de sempre. Gabriel, no carro, narrando um pesadelo.

– A gente estava na escola, brincando. Daí chegou um homem, roubou o brinquedo do Chico (o irmão caçula). Depois, mãe, você ofereceu carona pra ele. Aí quando entramos no carro, e ele jogou a gente pra fora. Roubou a gente.
– E você viu que ele tinha feito tudo isso? Por que não me avisou que o homem era assim?
– Porque eu fiquei sem voz.

E eu, abismada.
Foi um sonho muito forte.
Refleti sobre seu sentimento, essa sensação declarada de que o adulto responsável (no caso, eu), não conseguia identificar o perigo iminente.

“Será que é assim que ele me vê?”- pensei. “Tão distraída, no mundo da lua, a ponto de não conseguir protegê-lo?”

Culpa é um bicho alinhavado à revelia na barra da saia da mãe, né? Jurei em segredo que ia ficar mais atenta, presente, e bla bla bla.

Mas o pesadelo já tinha sido.
(Será que se muda passado?)

Como o conflito é minha matéria prima, propus a ele um jogo: Voltar lá e mudar essa narrativa. Fui fazendo perguntas, e ele foi recontando a história com um “novo final”.

Na primeira sua primeira versão, ele conseguia me avisar do perigo e eu dava uma bronca danada no homem, que saía assustado da escola.
Mas aquilo não me convenceu.

– Acho bom falarmos com esse homem. Você não acha?
– Tá.
– Pergunte por que ele roubou o brinquedo do Chico, pra começar.
(O Gabri ficou quieto, ouvindo de fato a resposta lá de longe, no seu interior.)
– Ele disse que roubou porque ele é ladrão.
– Bom, pergunte por que então. (pausa)
– Porque ele quer.
(Vixi. Como saio dessa?)
– Então pergunte por que ele quer esse brinquedo
(silêncio maior)
– Porque a mãe dele morreu. Ele quer roubar a minha mãe porque ele não tem.
(chegamos a um ponto importante)
– Agora pergunte o nome dele.
(silêncio)
– O que ele disse? – insisti.
– Ele disse que ele não se lembra. Faz tanto tempo que ninguém chama ele pelo nome…
(…)
– Peça para ele tentar se lembrar.
(pausa)
– Ele é xará de um de nós aqui. – respondeu, com suspense.
– Então diga, filho.
– Francisco.
– Ótimo. Agora pergunta pro Francisco se ele quer um abraço.
– Ele disse que quer muito.
– E você? Quer abraçar ele?
– Quero sim.
(pausa para o abraço)
– Tá tudo bem agora? – perguntei.
– Tá sim, mãe. Tá tudo bem.

A essas alturas, já estávamos perto da casa dos pais do Dja, para onde estávamos indo. Mas eu fiquei tão mexida com aquilo tudo que quando me dei conta, tinha entrado em uma rua X, virado numa y, e já não sabia onde estava. Pedi ajuda pro Waze, enquanto ouvia risadas dos meninos. Eles não se conformavam: Como alguém pode se perder num caminho tão cotidiano?

Sim, filhos, essa sou eu. Eu me distraio e me perco muitas vezes, porque vivo no mundo das histórias.
E elas vivem nos sonhos.

o que tem pra hoje

Foi o pulmão que cresceu pra deixar entrar mais ar
ou o coração que aumentou pra dar conta de tanto?
(difícil é caber tudo sem doer.)

o fim

Eram apenas dois olhos vertendo, vertendo, vertendo…

Sentiu seus braços se erguendo em prece,

e todos os seus espinhos saindo, lentamente,  do centro do peito em direção à superfície.

Sua pele, enfim, enrijeceu,

a antiga ardência nas plantas dos pés deu passagem a pequenas raízes,

e a água que era antes jorrava agora também provinha da terra.

 

Olhou adiante e não mais viu o deserto,

apenas uma enorme pradaria sedenta por novo saber.

 

Olhou além do horizonte e perdeu-se, enfim, de seu próprio mirar

 

Ergueu-se entre nuvens frescas

e viu, lá de cima, pela última vez,

um único cacto remanescente sombreando a aridez,

futuro remanso para outros errantes fatigados.

 

Despediu-se do antigo invólucro,

sorriu em gratidão,

engendrou novas promessas,

teceu uma outra trama.

 

Então partiu para um próximo sonho onde, enfim, tornaria-se rosa.

 

 

 

(obrigada, Lauren.

Enfim, livre.)

 

 

 

 

 

um fim

Num dia de mais caminhar errante

deixando, ao sul, um rastro de fio sangrado dos pés,

um vento bateu no já sempre ar cáustico.

 

Que era esse sopro? – sussurou-lhe à morada,

depois deslocou com leveza o eixo do mapa de suas miragens

livrou-lhe a areia dos olhos,

arranhou-lhe a fina casca das tantas feridas,

revelou a represa.

 

Então Lauren ficou ali, lavrando um vasto mundo de infinitas perdas.

Lavando a poeira de tantos desertos caminhados

banhando-se de água salgada,

ai, doce acalanto que brota dos cantos de si.

 

Passou ali algumas eras

era muitas, e tantas dela levavam às costas flores vincadas na carne.

Da miragem, nada restava.

Da promessa, apenas a seca visão de mais pesadelos de sangue e torpor.

 

Então decidiu: enterrou ali sua esperança.

Com ela, a coleira,

aquela que arrancou do pescoço, antes atada às mãos do diabo.

 

Enlutou, por três dias, o Cão e a Rosa.

Depois partiu sem partir.

 

Não buscou novos caminhos.  

Não aceitou seu destino inexorável.

Pairou em um não-lugar, paradoxo.

 

Mas esse não era o rascunho de nova miragem desenhada,

era um profundo desejo de alma gritada.

Ficou ali mergulhada nesse novo sentimento,

nessa nova fonte que jorrava do mais profundo desespero.

Nada mais importava: nem caminhar, nem morrer.

 

Plantou-se, imóvel, abaixo de sol e estrelas em incansável alternância.

Parou ali. 

vereda da promessa

A flor da pele

é feita por fios brotados de fendas

conta casos de dessassossego

desmedidas deseducadas

vermelhas pétalas desamparadas em terra seca e bruta 

surgidas em pés de quem caminha em desertos

(crendo, ainda, nos oásis gramados

mesmo que em outras eras)

Arremedo de flor cheirosa,

caminho traçado por espinhos arando aridez

Esperança de rosa

de terra fofa e cuidada,

única promessa de quem escala tantas pontas.

a sombra de todos os medos

– Mãe, tô com medo.

– Do que, Chico?

– Da folha!

 

Foram dias assim.

Não adiantava perguntar que folha era aquela. Muito menos dizer que folha não mete medo, não se faz isso com o imaginário de uma criança. Eu, que tinha medo até do triângulo das bermudas, medo de que meu pai fosse sequestrado por extraterrestres, medo de areia movediça, medo de trocar de dentes, medo de Gremlin, medo do Nada (da História sem Fim), de cão raivoso no mês de agosto, de todas as doenças que o Fantástico anunciava, medo de tanta coisa absurda que não caberia aqui dizer, era a última pessoa com direitos a pedir por um mínino de explicação do por que o Francisco tinha medo de algo tão insignificante como uma folha.

Mas e aí, o que fazer?

Comecei a perceber que isso acontecia mais no crepúsculo. Achei que seria sono. Ele sempre chorava na hora mágica, ficava querendo colo quando estava prestes a dormir, não sei se lida muito bem com esses umbrais. Será que a folha é esse quase-escuro?

Aos poucos, foi virando uma folha em branco, tela onde eu projetei primeiro os medos dele, depois os meus. Porque é tanta coisa absurda que ainda segue me aterrorizando, tanto medo infundado, medo de conta bancária, medo de polícia, medo de político, medo de ficar sem água, e fora o medo de areia movediça e rio que vira lama, que ainda tenho. E mesmo que uma voz cálida e cheia de abraço me acolhesse, seria essa a solução para um futuro aterrorizante? Dizer que aquilo não existe?

Não, isso não funciona.
 
O jeito era enfrentar aquela coisa indefinida. Mas como, se eu nem sabia onde encontrar a diaba?
 
Até que um dia, sentado no vaso sanitário, o Chico me apontou pra janela e disse: Olha lá, mãe, a folha! Tô com medo.
 
Sim, lá estavam elas. As folhas das árvores da rua, através do vitrô do banheiro. Formas escuras e malemolentes, mutantes, movendo-se ao ruído sibilante do vento, através de uma luz amarelada e quase morta. Assustador. Nada daquela beleza da árvore à luz do sol. Pura fantasmagoria.
Era o momento de agir. Aquilo não tinha mais direito de nos atormentar. Conspirando, decidimos enfrentar aquela coisa. Gritamos para a janela juntos: Eu não tenho medo de você, folha! Sai pra lá!
 
Depois a gente riu, porque não há fantasma que resista a isso.
 
Então a folha ficou lá,
 
sendo sombra, e só.

 

a-folha

 

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto

pra que a vida nos dê flor

e

fruto.

Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos.

Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”.

Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo da qual sentou Buda. Campo para transformação, ou até transmutação.

Começa com o corpo. Mas além do parto, o que ainda nos espera? A longa estrada da criança: criar além da chegança. Burilar palmo a palmo da pequena alma que eu era, nesse reflexo renovado que, dia a dia, me abraça e mira com todo amor que um dia sonhei sentir.

Cuidar do broto, a cada dia. Entender que espírito é esse que me brindou com sua presença. Ouvir nossa história juntos. Conduzir carinhosamente essa plantinha até a elevação máxima dos seus potenciais, ser também solo, terra. E quando sentir as raízes profundas no corpo do meu ser, confiar que o sol fará sua parte.  Celebrar cada flor que desabrocha, exalando um perfume ímpar: saber-se testemunha do propósito, então do filho, alcançado, vertendo em novos frutos pro mundo.

A co-criação com a vida: é isso, mãe?