duelo

Anteontem fui ver o ensaio do Três Vezes Vênus. É sempre uma coisa de louco você ver um texto ganhando vida, ver as tantas leituras possíveis do que quando a gente escreve parece ser uma coisa só…

Adoro, amo. Preciso.

E não resisto. Vai aí um pedaço.

JOANA

Era uma mulher-sereia, que tinha nascido sem mãe…Quer dizer, nasceu do canto do vento, naqueles dias que o vento uiva quem nem lobo pra lua…

Era tão linda a mulher-sereia…Mas um dia, se encantou pelo mundo dos homens e pediu ao seu pai um par de pernas para pisar em terra firme. Ele concedeu seu pedido, com a condição de que seu pé pisasse como se a terra tivesse ouvidos, com a mesma delicadeza com que deslizava nas ondas.

E a moça foi…

Mas ela não sabia do que eram feitas as coisas no mundo dos homens, e do sopro que era canto, conheceu a tempestade. E como também não sabia que a mesma matéria que tece a virtude também molda a violência, depois de um tempo já não sabia se era feita de água ou de terra. Daí, virou barro e foi sendo tocada por todos, moldada e desmoldada, até que o que sobrou da água se foi, e ela tornou-se uma estátua. Porém, do seu último contato, ficou uma semente…Que crescia e crescia, desafiando o que já era deserto. E como a sua barriga já era de pedra, o ser cresceu inteiro dentro dela, tomando o lugar do corpo todo, e quando estava pronto para nascer… Teve que fazer tanta força que explodiu o lugar onde estava.Ficaram os dois, a cria nova vinda ao mundo e a moça em carne viva, sentindo outra vez o vento que agora na pele queimava.

MILENA

Ah, mas história pior que essa, é a da mulher-árvore. Nos seus galhos desciam as almas pro mundo dos vivos, escorregando até virar semente na barriga da fêmea que se encostasse nela…E na raiz viviam os mortos, soprando por dentro da seiva a direção certa dos ventos, que ela apontava pro céu soprar. Mas de tanto que olhava pra cima, não quis mais ficar na terra, e de tanto se esticar, porque queria virar estrela, se esqueceu de crescer pra baixo.

JOANA

E a outra olhava a criança que dela veio, mas não saía sorriso. Apenas segurou nos braços e a cria logo pediu leite, como é próprio de quem nasce. E no seu primeiro contato com a boca recém-nascida, de água que um dia fora, sua pele virou fogo, e com esse fogo queimou não só a criança, mas toda mata a perder de vista…

MILENA

E a mulher que era árvore, nem árvore nem mulher mais era. O vento parou, um a um galho secou, porque copa grande raiz nenhuma segura, sai do chão. Daí não tem como puxar a água da terra, nem ouvir vento, nem plantar semente, que alma nascente precisa de vida pra poder descer no planeta.

JOANA

E a outra, fugindo do incêndio, voltou pro mar, apagou com as águas o fogo, mas sua graça já tinha virado cinza. Não ouvia mais vento nem terra, então passou a andar pelo mundo, zumbi disfarçada de gente, procurando entender de que afinal são feitas as pessoas…

Cuidado…Ela pode estar aqui, no meio de vocês…Cruzando seus caminhos…

MILENA

E a outra também fica aí, com essa cara de morta-viva e chamando tempestade, porque é o único jeito de beber um pouco de água, e pedindo ao céu um raio que a parta, porque árvore vive muito tempo pro tempo que ela quer viver…

JOANA

Semente só vale a pena se cair em terra fértil, né não? Senão, nasce pra que?

MILENA

E terra fica fértil como? Deixando ao Deus-dará? Não, né? É deixando a água sair e fazendo o ar entrar, revirar o que tem dentro pra fora, senão vai virar o quê?

CECÍLIA

Saci-pererê!

palavrões da minha infância

didi mocó sonrisal colesterol novalgina mufumo (que o Renato Aragão se incumbiu de matar)

supercalifragilistiexpialegocious

leitemaltadocaramelizadocomflocoscrocanteseumdeliciosochocolatenestlé (cholocate com espinhas)

inconstitucionalissimamente

otorrinolaringologista (meu pai)

paralelepípedo (minha rua)

reflexões de uma mulher de 35

domingo chuvoso. nada na TV. um comercial fala de um creme que previne “marcas de expressão”.

quero ter marcas de expressão.

minha preocupação, na verdade, é:  qual expressão será marcada?

crepúsculo do claustro

Uma cria,

a outra, crica,

critica a cria chegada

não crê

não cresce,

crispa.

crua, teme o fogo e a chispa

sua cruz.

vem a crise: a outra, crente,

ressurge da criatura

abre espaço na crosta terrestre

ignora a cremação passada.

reprograma cristais

reprograma cromossomos

de cro-magnons aos caraíbas

escravos

unge a ferida dos cravos

parece crime

parece caos

vive, criança, a nova cria:

certeza.

equinócio!

Quem não tem inverno, não sabe que dia é hoje.

Aqui não tem neve pra degelar. Só entendi o que significava o final do inverno vendo um filme iraniano que não me lembro o nome (infelizmente), em que um povoado vive as 4 estações. No início da primavera, entendi profundamente, pelos olhos alheios, a celebração do fim de um tempo de recolhimento e privações. O início do amor que florece, fresco, intenso, cor de sangue e vida.

Desde então, celebro, sempre. Com  flor da casa de mãe.

Plugins da infância no novo milênio

O Pedro agora deu pra uma coisa: antes de chorar, ele fala: “Chorar”. Ou, às vezes, ao invés de. Aí abraça a gente, já pedindo consolo para o que ele sente, seja lá o que for.

Será um plugin de autoconsciência? Céus!

a vida sem hora marcada

Gente se ilude, chega a ser engraçado. Carrega relógio, agenda, GPS, calendário, acha que por medir o espaço-tempo (ou uma interpretação dele) controla tudo.

Aí a vida acontece, e desbanca gente.

Tive essa surpresa no nascimento do Gabriel. Ele não “esperou”a reforma da minha casa acabar, não esperou que eu tomasse banho de rosas, resolveu chegar no dia em que a vida estava um caos. E tudo se reorganizou para a vida.

Há dois dias, uma grande pessoa que eu conheci se foi desse plano: SILO, Mendoncino, fundador do Movimento Humanista e de uma Escola de expansão da consciência e acesso ao profundo. Uma forte referência para muitas pessoas (e para mim), que tive o prazer e honra de conhecer nesse tempo. O cara mais coerente que já conheci, tanto que fez da própria morte um exemplo: não quis ir a um hospital, fazer transplante, ficar entubado, essas coisas. Já sabia que chegava a hora – Preparou as pessoas, e sempre rindo, avisava: Eu já estou indo. E quando largou o manto, estava entre seres queridos.

Uns morrem, outros fazem passagem. E alguns fazem da própria seu discurso:

AMA A REALIDADE QUE CONSTRÓI E NEM MESMO A MORTE DETERÁ TEU VÔO.

Obrigada, Silo, por sua existência nesse planeta. Continue sua jornada para a luz, leva seu sorriso reconfortante e aquela certeza que você vibrava, de que a humanidade é boa, e tudo sairá bem. Sem dramas, você dizia. Paz, força e alegria sempre.

Abaixo, uma pitadinha de Silo, parte da mensagem que ele deixa de herança. Quem quiser mais, acha tudo aqui.

O CAMINHO

Se acreditas que tua vida termina com a morte, o que pensas, sentes e fazes não tem sentido. Tudo termina na incoerência, na desintegração.

Se acreditas que tua vida não termina com a morte, deve coincidir o que pensas e o que sentes com o que fazes. Tudo deve avançar para a coerência, para a unidade.

Se és indiferente à dor e ao sofrimento dos demais, toda ajuda que peças não encontrará justificativa.

Se não és indiferente à dor e ao sofrimento dos demais, deves fazer que coincida o que sentes com o que penses e faças para ajudar a outros.

Aprende a tratar os demais do modo em que queres ser tratado.

Aprende a superar a dor e o sofrimento em ti, em teu próximo e na sociedade humana.

Aprende a resistir à violência que há em ti e fora de ti.

Aprende a reconhecer os signos do sagrado em ti e fora de ti.

Não deixes passar tua vida sem perguntar-te: “Quem sou?”.

Não deixes passar tua vida sem perguntar-te: “Para onde vou?”.

Não deixes passar um dia sem responder-te quem és.

Não deixes passar um dia sem responder-te para onde vais.

Não deixes passar uma grande alegria sem agradecer em teu interior.

Não deixes passar uma grande tristeza sem reclamar em teu interior aquela alegria que ficou guardada.

Não imagines que estás só em teu povo, em tua cidade, na Terra e nos infinitos mundos.

Não imagines que estás acorrentado a este tempo e a este espaço.

Não imagines que em tua morte se eterniza a solidão.


o desmonte da cidade

Vivo numa cidade que não é natal mas é a eleita para viver. Uma metrópole que decidi amar, porque achei uma cidade dentro dela.

Vivo as alegrias de tudo que Sampa tem, já tão cantada. Vivo a intensidade dos dias.

Também vivo revoltada com o que fazem dela. Uma câmara dos vereadores vendida a empreiteiras, CRIMINOSAMENTE, fazendo da cidade gato e sapato. Recentemente, o PARQUE DA ÁGUA BRANCA é a bola da vez. Olhos atentos, hoje e sempre.

Há três anos, escrevi uma peça para a Cia de Domínio Público que tinha como tema a transformação radical da cidade. Era uma história meio absurda, que para meu terror vai se tornando cada vez mais real. Lá, a prefeitura contratou uma grande empreiteira para “reformar” toda a cidade. Em pouco tempo, as pessoas já não achavam suas casas. As obras também abriam grandes crateras no chão e o problema é remanejado como solução: pouco a pouco a periferia ia sendo alojada nos buracos, tornando-se uma nova categoria de cidadão: Os buráquios. E por aí vai.

Quem se interessou pode ler na íntegra, é divertida e cômica, apesar de tudo. Coloco aqui um pedacinho…

CENA 10 – CIGANA E O ARQUITETO

Entra uma figura estranha, uma espécie de cigana. Ela fala uma linguagem cifrada

ARQUITETO

Boa tarde…boa noite…eu vim pra…

CIGANA

O senhor tem dúvidas?

CIGANA

Quer saber o que?

ARQUITETO

É… bem… estamos empreendendo um projeto bastante grandioso

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que tem tudo para dar certo!

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que vai mudar completamente a nossa concepção de uma organização social, política, econômica…

CIGANA

O senhor veio me consultar ou fazer propaganda?

ARQUITETO

Quem nunca sonhou com um lugar limpo, em paz, finalmente, onde nós poderíamos simplesmente viver?! Não foi para isso que nascemos, para viver bem? E por que, meu Deus, nunca tínhamos conseguido isso? Finalmente, eu entendi! Era falta de organização! Então idealizamos nosso sonho! E agora ele está aqui, acontecendo! Os planos estão corretos. O projeto anda bem… A população anda colaborando… O poder executivo está executando muito bem as etapas… Esse é um projeto perfeito, entende? Uma obra de arte! É a realização de tudo aquilo que sonhávamos quando ficávamos presos em um congestionamento… Quando, na rua, víamos a pobreza brotando das calçadas…

CIGANA

E qual é o problema, então? O senhor quer que eu preveja o que o senhor acha que esqueceu de prever?

ARQUITETO

Isso! A senhora adivinhou meus pensamentos!

CIGANA

Eu não adivinho, eu vejo.

Pausa.

Ela olha profundamente para ele, que fica incomodado.

Ela faz um gesto para que ele se sente na sua frente. Começa a ler a cabeça do arquiteto, como uma bola de cristal

CIGANA

Eu vejo…

Ela começa a fazer uns sons meio cantados, meio palavras balbuciadas, até que se entende alguma coisa

CIGANA

Gavião, gavião, gavião, gavião…

Abre-se a terra em terremoto provocado

É pior que tsunami

É buraco com cimento

Todo mundo foi jogado…

Submersa, submerso…

a vontade soterrada

fluxo retornado

socado pra dentro do ventre,

postura contrária ao que reza a vida,

a vida, ferida, no fototropismo,

que tenta saída por cima de novo,

o cima, concreto, não deixa saída,

a vida, ferida, irrompe o concreto…

A massa, tremenda, contida na terra

não pede, mas toma, o espaço perdido

tal qual como rio que fora aterrado

um dia irrompe a casca do ovo

e ri dos que tinham outrora vencido…

A cigana volta do transe, meio assustada com o que viu.

O homem espera uma resposta. Ela recobra a calma

CIGANA

São duzentos reais.

ARQUITETO

Como assim? Você não me disse nada! Só um monte de palavras sem sentido!

CIGANA

O seu entendimento do que eu vi não é parte do meu trabalho. É seu.

ARQUITETO

Então me fala claramente! Eu esqueci de alguma coisa?

CIGANA

O senhor está se esquecendo de escutar!

ARQUITETO

Pois eu não vou pagar por isso!

CIGANA

O senhor vai pagar sim! Pode ter certeza!