Eu sou G

Ontem estive numa loja para uma troca. Peguei tudo M e sem experimentar, mas chegando em casa, ficou apertado.

Fiquei com vergonha.

Não mais do meu corpo – do meu preconceito.

Nem vou entrar no assunto das padronagens, da diminuição das numerações e bla bla bla, que isso é marmita requentada. Vou falar da minha dificuldade em ser grande. Em ocupar espaço. Em ser quem sou, fora da medida considerada – por quem? – ideal.

Então aceitei. Aceitei a música do tempo desenhada em mim, aceitei todas as ondas deixadas pelas gestações, pelos anseios, pelas gulas, pelos medos. Aceitei a medida do presente: não é o corpo do passado nem aquele que poderá ser estreitado por uma nova dieta: agora sou.

E sou G.

Saí da média.

Deixei pra trás a mediocridade.

Desencanei das maneiras.

E quero ocupar meus espaços. Com minhas medidas, com minhas palavras, com minha presença por inteiro.

Porque é revolucionário não pressionar a pele.

Então liberei a dança pintada no corpo: que vá para onde deseja. E leve, então, meu ser, sem a pressão da cabeça ou dos elásticos, para o tamanho que eu necessite.

E que 2014 seja de pura expansão: das palavras, do meu alcance, de minha consciência,

e da liberdade.

criando

não que me sinta obrigada a justificar silêncios…

mas para os que passam por aqui de vez em quando, quis deixar um recado: ando metida em outras criações.

na vida, meninos.

na tela, uma peça que há três anos desafia minhas certezas.

nessa casa do delírio, onde entro por saudade, deixo uma imagem da alegria do presente. pros mais chegados, é só chegar em casa e tomar café ao vivo. 😉

 

clau&chico

38 em vênus

olhos irradiam raios
apontando nas bordas
presentes da maturidade

 

vEnUs

 

 

a tempo: carxs canalhas da indústria-da-estética-padronizadora: meu rosto não é poleiro pra ter pé de galinha.

não me importam as marcas. o que me interessa é se elas vão registrar mais sorrisos (sinceros) que tristezas (escondidas).

Miguel

Daqui a alguns dias,

vão se somar dois anos.

Dois anos desde sua partida para as estrelas.

 

Fiz desse dia um marco. Desde que você se foi, levou com você uma trava, um espinho. Abriu um caminho vermelho entre minhas pernas.

 

Doeu.

 

Tentei fingir que era comum, tentei me agarrar às estatísticas, tentei voltar à rotina.

Tentei me fazer de forte, mas do nada, de uma hora pra outra, desfalecia.

derretia.

Fiquei com vergonha do fracasso. Fiquei com medo de ser punida por algo que nem sabia. Segurei sozinha sua mão, porque não deixei ninguém mais segurar, mesmo sabendo que não poderia nunca te segurar aqui. Porque a escolha foi sua.

Você chegou no tempo das folhas amarelas, e partiu como partem logo as suaves flores de inverno.

 

Mas ao romper o cordão, você rompeu muito mais.

 

Desligou, em mim, uma corda que me prendia. Desenrolou um outro cordão do meu pescoço. Desencadeou um longo processo de liberdade, de reconexão, de reencontro com o próprio amor.

 

Você, alma imortal, me reaproximou do Caminho

me trouxe de volta as estrelas

a ponte.

 

Você, filho querido

me trouxe de frente a humildade

me mostrou o tamanho da minha arrogância

me mostrou reverência e fé

mostrou que as marés que trazem a vida e a morte são idênticas,

que nascer e morrer é uma coisa só,

e coisa que não se controla: só se navega.

 

Seu luto foi minha liberdade

não pela sua partida

mas porque a partir dela

fui ao meu encontro

ao meu próprio parir

 

E nesses dias tão intensos

há quase dois anos de sua viagem,

e a poucos dias da chegada de seu irmão caçula,

você nos trouxe a família.

 

Percebi, entre dores no corpo e nervos pinçados,

entre dentes cerrados,

que eu ainda carregava nas ancas o seu pequeno peso

que nunca pude embalar.

 

E carregava sozinha.

 

Percebi que apartava você do restante de nossa família

percebi que ainda confundia sua trajetória de luz com meu próprio fracasso

e percebi o quanto temia

 

enquanto meu corpo tremia.

 

Então, querida alma,

soltei de vez o cordão

libertei sua memória da torre

e deixei que todos celebrassem sua existência

entre dores e alegrias, a própria essência da vida.

 

Aí, e só aí

no meu último suspiro,

respirei

você foi, eu fiquei,

e só então nos unimos.

 

E juntos,

seu pai, sua mãe

seus pequenos irmãos já em terra

e seu pequeno caçula entre mundos

contamos sua história

para que nunca ninguém te esqueça.

 

Seu pai, por te sentir menino,

te batizou Miguel

e eu, por ainda te sentir flor

te chamo também Sakura

 

Aqui, você é anjo de quartzo rosa,

no centro da nossa unidade

nas estrelas,

alma imortal

e parte (nunca apartada) de nossa vida.

 

você que aqui entra, abandone toda a esperança

hoje era inevitável: a dor ou o torpor.

do torpor meu saco já tava cheio. faz tempo que não posso mais com minha mente enevoada. meus dentes querem morder os cantos da boca se eles se abrem num sorriso falso ou resignado. há tempos que a indignação já bate à porta, mando passar amanhã e ela me acampa com a mão na maçaneta. hoje, rompeu a chutes. nem campainha tocou.

a dor é aquela que fingimos desconhecer. é um tipo de desatino que faz perder a compostura, vem montada numa cela de raiva, pelo menos comigo é assim. e as tantas e tantas coisas que de tão cotidianas já parecem os minutos de que são feitos as horas, de repente viram coisa intolerável. desde aquelas mais mínimas e idiotas, como o gato do vizinho que vem cagar no meu jardim – e eu sou obrigada a limpar – até todos os que cagam diariamente na minha cabeça, aí por opção própria, porque estão realmente cagando e andando pro alheio.

e então me pego com raiva de mim, por ficar reclamando da vida que (não é?) deveria ser boa. e faço da reclamação meu travesseiro. porque reclamar é permitido.

e por um acaso alguém reclama com a nuvem por ter coberto as estrelas? reclama com a chuva por ter desmoronado um barranco? reclama com o mar porque a maré subiu ou desceu? de que adianta? frente a uma força real, só tem uma resposta: agir.  mas as nuvens, as marés e as tempestades tem sua lógica. as coisas humanas não. e se a ação que me resta é protestar, isso não faz de mim um ser vivo. porque o ser vivo age, e colhe as consequências da ação. um ser que só protesta, espera. espera uma solução. espera justiça. espera um sinal que o mande agir em nome de alguma coisa. espera por deus.

hoje acordei sem paciência para essa esperança toda. aí entendi que quando os sábios falam que a esperança é a última que morre, é porque quando a gente não aguenta mais esperar, a gente finalmente age. sai do inferno. e  aí existe.

 

curando criança.

à vingança se resiste. como quem resiste à violência. como quem resiste ao sentimento de vítima. ao impulso de aniquilar o outro por ser projeção de um mal passado.

como quem resiste à mentira de que o mal existe na essência.

a gente resiste a algo que sente adesão. como se aderir a algo tão destrutivo a si mesmo?

se um dia passei a acreditar nessa verdade nociva, de que me fizeram mal, e passei a me confortar na promessa de revanche, como reverter?

se arranco de mim a promessa de vingança, que compensação futura me resta?

só me resta desmontar o circo.

abandonar os bandos, os times, as partes,

desistir desse jogo.

abrir mão das migalhas.

reconciliar

conciliar

reconfiar

entregar

e mergulhar de volta no paraíso

(nunca perdido, mas esquecido)

 

rapto para oz

E de uma hora pra outra, me pego em terra devastada. Como se tivesse caminhado até lá sem saber, e de repente me percebo na paisagem aterradora.

Por fora, a vida segue igual. Só me dá vontade de correr, correr, correr. Fugir. Corro com os pés pregados no chão. Dói.

Demora pra perceber de verdade onde estou.

Só o Pedro, que vive entre os mundos, viu primeiro. E na sala de casa, ontem me disse: mãe, vamos voltar pra casa?

 

chute na bunda, peteleco na orelha

acabaram-se as desculpas. enterrar o tesouro recebido não vai fazer brotar planta alguma.

quem sabe mais tarde? em melhores condições…

mas não. talento enterrado não vira nem adubo. entristece.

terra vira areia; sonho, miragem.

aos meninos, primavera de 2012

hoje, num raro momento em que não precisava ser prática, navegando pelo blog do meu companheiro Djair, dei com esse post. uma carta que ele escreveu aos nossos filhos. fiquei emocionada. claro, é um retrato de um momento, provavelmente escrito num desses dias em que ele fica cuidando dos meninos (porque a gente reveza).

hoje sou eu que estou com eles. e enquanto tento escrever esse texto, Gabriel me chama 1000 vezes para fazer um desenho. situação típica e simbólica.

por que é mais importante escrever que atender a uma criança – sendo essa uma fase que durará tão pouco? não sei. é uma intensidade tão grande que talvez a gente peça um escape, imagino. nada é afirmativo quando se trata de filhos.

fiquei então pensando o que escreveria a eles, Pedro e Gabriel, hoje com cinco e dois anos (e meio). é provável que essa carta seja interrompida muitas vezes, para fazer um desenho ou cortar tomates, mas tentarei chegar ao fim.

(pausa para apontar lápis amarelo)

queridos,

(pausa para ensinar apontar lápis. pingar soro no nariz. parar choro por causa do remédio do nariz)

Nem sei como começar isso aqui. Talvez dizendo como me sinto aos trinta e sete anos, sendo mãe de vocês, além de tantas outras coisas… tentando entender (ainda) meu lugar no mundo. Vivendo nessa cidade louca e pensando se é o melhor pra gente, com tanto mato e cachoeira por aí.

Eu, que tinha tanta certeza… elas todas caem de vez em quando, sabe?

Como o papai falou: estamos tentando reinventar o que é ser adulto, o que é ser gente, sem adulterar tudo. Na verdade, estamos tendo é que desaprender um montão de coisas.

Eu, por exemplo, estou tendo que desaprender que a vida de gente grande é chata. Porque sempre pensei que fosse. Porque sentia essa dor de ter que abandonar os sonhos, ou chamar os sonhos de imaginação, ou faz-de-conta, como se fazer de conta fosse fazer de mentira, ou seja, não fazer. Lembro do meu pai nessa mesma correria que a mamãe tem hoje: saindo de um lugar pra outro. Ia para casa almoçar em cinco minutos, e ainda me contava histórias para comer. (Acho que isso não era nesses cinco minutos, talvez fosse no final de semana, mas as histórias e a nutrição sempre me acompanharam. Crescemos juntas.)

Nas histórias eu via meu pai de verdade, assim como adorava ver minha mãe fazendo coisas cotidianas. Não gostava de ir ao supermercado com ela (não sei como vocês gostam de ir comigo), mas gostava dos lanches que ela preparava. E das espadinhas feitas de jornal, e dos arcos e flechas, e pensando bem minha mãe nunca brincou de bonecas com a gente. Ela era bem moleca, pra falar a verdade.

Então eu vejo vocês mergulhados nessa fantasia linda de ser, e fico aqui fazendo força para reaprender o caminho para esse lugar. Vejo você, Pedro, que agora está com mania de cavernas, cercado de bichos de pelúcia e livros. Isso é só o que eu vejo, mas sei que você vê bem mais. Assim como você, Gabriel, no seu cantinho do desmonte, reduzindo cada brinquedo ao seu mínimo. Nesse olhar de curiosidade sem fim, nesse afã de aproveitar tudo o que a vida te oferece, ainda sem medida, mas sei que ela chegará. Porque você tem olhos felizes.

Estamos, papai e eu, tentando viver uma vida coerente, num mundo em constante transição, e com extremos de bondade e falta de noção. Estamos tentando atrelar nosso sustento (ou dinheiro, ou energia que entra) a trabalhos que colaboram para a vida. Todo o resto, queridos, por mais que se diga o contrário, é coisa inútil a se fazer. Eu acredito que a gente esteja caminhando para uma mudança radical, um salto de consciência mundial, em que todos os padrões de hoje não servirão mais. Hierarquias, por exemplo. Por isso pedimos para que vocês resolvam os conflitos entre vocês: para aprender a trabalhar com a horizontalidade, para deixar de acreditar em ídolos, para aprender a acreditar nessa música linda que toca no peito de cada um. Nosso manual de instruções tem ritmo, e ritmo de tambor.

A mamãe está fazendo uma força enorme para decifrar essas notas agora. Passou muito tempo procurando as partituras aí fora, e agora tá numa confusão impressionante. Só vocês, meus queridos, para me ancorar à terra. Ninguém consegue derreter e trocar fraldas ao mesmo tempo, ou desembestar e dar risada de uma nova palavra que surge.

Então, filhos amados, vocês são a nossa força diária pra conseguir fazer esse ajuste, desaprender o que não serve, destampar novamente os ouvidos às dimensões invisíveis. Ouvir o próprio sonho, entender o plano, entender o que é nascer, o que é viver, o para que disso tudo, e isso lidando com contas vermelhas, lidando com a tendência diária à descrença e ao desespero. Lutando contra aquela voz velha e decrépita: vocês estão loucos, tem filhos pra criar e ficam aí, viajando…

Graças a vocês, meninos, nossa viagem agora tem mapa, tem bússola. Mas as intempéries ainda existem, porque são parte da coisa. Tentamos acertar sempre, mas tem hora que não é fácil, e é importante não esconder isso.

(pausa. Gabriel me interrompe para desenhar a mamãe chorando lá em cima)

Porque a mamãe chora, às vezes, lá em cima, crente que tá escondida.

Mas o que a mamãe chora, meus queridos, é o luto das partes que estão indo embora para que ela seja livre. Às vezes a mamãe também chora para entender. Porque ela tem um cabeção que não ajuda muito, e a água ajuda a dissolver as ferrugens.

Às vezes ela chora porque está triste.

Mas muitas vezes, chora porque está aprendendo.

E então volta desse choro olhando para vocês com a mente limpa. Aí conseguimos pular de verdade na cama, brincar de verdade, sem faz-de-conta, ou melhor, sem faz-de-mentira.

Porque a mamãe ainda está aprendendo que fazer de conta não é mentir, mas fazer acontecer em outras realidades, até que se materialize nessa. A visível.

 

rogância

…então no quintal da minha arrogância

dou incumbências às divindades: façam acontecer isso ou aquilo!

(por favor)

só assim darei minha vida!

a mãe, bondosa, acolhe e ri.

o pai, então, me joga no contrário: para que eu conquiste com minhas mãos meu pedido,

ou caia no chão, abrace a terra,

(e só então entenda)

que sou eu quem devo abrir os ouvidos ao que fazer.

 

silenciar, ouvir e fluir

 

e com o livre-arbítrio de abraçar ou não o caminho.