resposta pra Lu

Lucienne Guedes, dramaturga, puta atriz e diretora, pessoa incrível, num projeto com o Teatro de Narradores, pergunta, assim como quem não quer nada, lá no facebook: “VOCÊ QUERIA ESTAR ONDE ESTÁ?”

Difícil responder a essa pergunta hoje, agoniada e feliz que estou, simultaneamente. Hoje estréia Arritmia, hoje estréia a mostra na ESPM, o filme tá lindo mas não tá pronto, e estou sentindo taquicardia. Talvez esteja indo para lugares certos por caminhos equivocados, porque o corpo anda sofrendo, e isso não é legal.

Mas sem querer me estender demais, respondi isso ai. Paradoxo.

Eu estou a caminho do lugar onde quero estar.
Coloco todo meu ser nessa busca, mas de uma hora pra outra, a energia se esvai. De repente, descubro a ilusão, e o querer revela-se desvio. Viro escrava dos desejos ilusórios, e descubro que onde queria estar era só uma lua, inalcançável, atrás da próxima montanha.
humildemente, me realinho,pedindo silêncio à mente autoritária, pedindo socorro ao corpo que sabe, lá dentro, as respostas.
Volto pra busca verdadeira, e descubro que onde quero estar é, simplesmente, no caminho sincero. Ai o lugar a se alcançar não é futuro, vira presente, presença.
Estou onde quero estar.

um numerozinho redondo…

Há mais ou menos uns 6 meses, coloquei um contador de visitas no blog. Sei lá se movida por ego, curiosidade, ou até vontade  de saber se o dito aqui tem serventia. Pra minha surpresa (mesmo), vi que tem gente que lê, que continua lendo, mesmo num mês que nem esse, que eu tô louquita da silva, sem tempo pra muita palavra, por conta do retorno às imagens.

Nesses dias, reparei que a contagem bateu em 10 mil. Aí me veio um agradecimento grande, grande, mesmo sem saber quais são esses rostos leitores. Quem se mete com coisas do tipo deve entender, é gostoso, muito, saber que a escrita circula… e que tem gente por aí me escutando com os olhos.

Obrigada, então. Café?

respingos antes de um último dia de set

Ano de mercúrio, tudo muitorápidoagorajanesseminuto. Peguei no ar o momento de voltar a dirigir cinema, apesar de parecer impossível, dadas as condições do momento. Não ia fazer, era apertado demais, pepino demais, loucura demais, os meninos, pequenos, buraco na conta, e sei lá tudo aquilo que vem quando a gente tem medo. Mas aí, não sei o que acontece, as coisas vão dando certo, pessoas foram chegando, ajudando, a equipe foi se formando, e todo esse gerúndio acontecendo, de repente o impossível, o improvável foi perdendo força e a história resolveu que queria existir fora do texto. Entreguei-me ao sacerdócio, às doze horas diárias de set, às doze horas restantes do dia pesando no dia seguinte (inclusive nos sonhos), às conversas no carro de um lado pro outro, à correria das decisões imediatas, à espera da nuvem pra tapar o sol, à busca da veracidade cênica, à sauna dos refletores e janelas fechadas, à gratidão pelo muito que cada um oferece, à alegria do convívio intenso e coletivo, ao espanto de ver, através da janela, a vida acontecer de verdade, ainda que fosse mentira.

pré-produção

relembrando todo o cultivo de borboletas no estômago,

conhecendo gente nova e especial,

locações,

sonhando acordada enquanto trabalho e sonhando com trabalho enquanto durmo,

os cheiros novos de possibilidades,

imaginação coagulando em matéria.

eis uma época intensa, às vezes tensa, mas feliz.

Diário de ET: o mais difícil de entender até agora

Terráqueos emprestam seus bens – chamados dinheiros – a um grupo privado chamado banco. Emprestam pra eles guardarem, porque as casas não são seguras. Para guardar dinheiros em bancos, pessoas deixam parte dos dinheiros como pagamento.

O banco pega o dinheiro que a criatura deixa lá e empresta pra outros, até pra esse próprio. Por emprestar, as criaturas pagam mais dinheiros ao banco. É uma lógica estranha, pois se não tem nem pra eles – por isso pegaram emprestado – como darão mais ao banco?

Os dinheiros podem ser na forma de papéis impressos, papéis preenchidos a caneta (esses ninguém gosta) ou um cartão de plástico. O cartão é o que o banco mais recomenda. É tudo mais rápido, e o banco pode intermediar tudo com muita facilidade, porque os dinheiros estão deixando de ser uma coisa concreta e estão virando informação.

Os bancos manejam bem a informação. uma outra coisa chamada mídia também, mas essa é outra coisa difícil de entender.

Recaptulando:

1) A criatura coloca dinheiros nos bancos, porque são lugares muito seguros, onde ninguém vai ser roubado.

2) Os bancos pegam emprestado esses dinheiros e os emprestam a outras criaturas, cobrando delas dinheiros (juros). mas não repassam esses dinheiros que sobraram (lucro) aos donos originais. Ao contrário, também recebem destes mais dinheiros para hospedar o deles em seus “cofres”.

3) Esses dinheiros, em breve, serão só de plástico. Ou nem isso. Essa mudança (dizem os bancos) tornará o fluxo mais ágil. Só não entendi, se esse for o caso, como o dono original dos dinheiros poderá guardá-lo consigo, se um dia quiser, se ele não fala a língua dos bancos.

Tentaram me explicar, mas não entendi. Me parece que as criaturas saem perdendo, mas se fosse esse o caso, por que continuariam colocando seus dinheiros em bancos?

O bacana (eles adoram essa palavra) é que eles tem uma ótima relação.  Nessa época do ano, bem festiva, o banco retribui todo afeto, confiança e dinheiros recebidos de todos com um grande show na avenida mais famosa da maior cidade do país chamado Brasil. Muitas, muitas luzes, bonecos gigantes (alguns com criaturas dentro – não sei como respiram) e muita neve, que cai em intervalos controlados. O que também não entendi, porque hoje praticamente derreti de calor, e me parece que está longe de nevar, se for observar o mecanismo climático do planeta. Mas todos parecem felizes, registram as imagens em máquinas portáteis, aparentam normalidade. Devo estar em curto-circuito…

lugares sagrados III

Hoje passei o dia na USP filmando. Como há dez anos, só que hoje do outro lado. “Orientando”.

Deu muita alegria – passar o dia em frente ao monolito-2001-kubrick-praça-do-relógio, lembrar do aprender sem limites e ainda querer mais, gravar o mesmo campo de flores roxas onde, em 2000, atores gritaram EU TE AMO saindo do meio delas (na cena pinabausheana criada por Ana Roxo e por mim),

passar no bosquezinho de árvores do lado do CAC, onde eu pensava na vida e no que seria dela.

Refletia, re-fletia. Pelo reverso.

Terminamos o dia tomando café, alunos e eu, + Dja e meninos, juntando ESPM, USP e casa. Unificando pontas, papéis, décadas, juntando tudo num mesmo espaço-tempo. Tão estranho que deu barato, até agora estou meio em transe.

pequena ode a Itamar Assumpção

acho que não falei por aqui, mas estou orientando um documentário sobre o Itamar – orientando, leia-se metendo a mão na cumbuca, porque não dá pra ficar só no palpite com um assunto desses.

tenho aprendido muito. me deliciado muito. isso vale um post exclusivo, inclusive.

agora estamos afinando o olhar para a cidade, buscando Itamar em São Paulo, hoje.

dei de frente com uma cena dessas.

pele de pêssego

Todo mês ela subverte. Em seguida, cede. Não por falta de coragem, mas por já ter introjetado a crueldade do padrão. Triste: ao terminar, sente-se melhor, ainda que o antes seja um sempre martírio. Sempre adiado. Às vezes, um mês escapa, em trégua. Ela finge não perceber, finge não perceber-se.

Uma vez entregue ao ritual, tem que ir até o fim. Parte por parte, sacrificando a carne. Há quem o faça entre outras, entre revistas e fofocas. Mas só de pensar na possibilidade dos olhos cúmplices, das mãos cúmplices, ela gela: não. Terá que fazer com as próprias mãos. Dizem que ela o faz da forma mais dolorosa, hoje há tecnologia para menos – pra que? Não. Ela resgata, a cada vez, a dor da primeira. Como se mil agulhas entrassem pelos poros, e todo o sofrimento tivesse como recompensa uma única verdade: está mais bonita.

Mais tarde, crescida, percebeu o engodo. Já era tarde, já estava contaminada da necessidade de se livrar deles. Sem perceber, usava como metáfora o verbo desmatar. E só há pouco percebeu a natureza velada dessa coincidência: colocar-se a serviço da prestação de serviços. Ser permeável, nunca selvagem, dificultada. Ser lisa, macia, suave.

Hoje, a pele acostumada nem chia tanto. Chio eu, alma ferida, domada, submetida. E com vergonha, muita vergonha, pela brecha aberta no ser, coloco a cera fria no papel transparente.

pensamentos aleatórios I

hoje percebi: cortar a unha com os dentes deixa as pontas mais retas que usando a tesoura. Fica meio serrilhado, mas isso logo sai, mantendo o formato desejado.

isso me deu um estranho poder sobre as máquinas, mesmo as mecânicas. é sempre bom poder contar com poucos recursos para as necessidades cotidianas.