gabriel

veio galopando vento,

de matéria leve, inquieta, atenta.

difícil de captar o espírito, sempre em movimento. a densidade mora no cristalino, na enigmática mirada de quem chega e pergunta. sem parar, pergunta.

sorriso-deboche, pula do colo como se um anjo aparasse. cai. e no dia seguinte, pula de novo.

suspiro

Se há um momento de instabilidade, é esse.

Acho que nunca passei por tanta coisa junta.

Obra, Marcha Mundial, trabalhos de autoconhecimento, maternidade, gravidez, trabalho, e todas as tensões provenientes de tudo isso. Várias situações me colocando na berlinda, no limite, a maternidade me dando eixo para não sucumbir à auto-piedade. Sim, sempre se pode agüentar mais um pouco.

Tenho tomado contato com sentimentos raros. Muita raiva, por exemplo. Ou talvez ela nunca tenha mostrado seu rosto de forma tão clara. Muita luz também. Muitos presentes da vida, mas nada, nada, sendo fácil. Tudo mais difícil que esperávamos na visão romântica, presentes que jamais esperávamos aparecendo do nada. Um presente, um desafio, um presente, um desafio, uma crise de choro, um dia esplêndido de autoconsciência, outra crise de raiva, um dia de luz. Sinto, sinceramente, que estou perdendo algumas referências do que penso ser, não dá tempo de sentar. Nem de descansar. Nem de voltar a ser o que era. O cansaço é muito, mas as situações exigem atenção constante, intenção constante, cuidado constante, e não param.

Tem sido assim pra mim, pro Dja, pro Pedro (e talvez pro Gabriel)

Ou seja, a gente tem que se amparar, um não consegue se escorar no outro. Não dá pra ninguém ser tadinho.

Tenho me irritado com coisas simples, tenho me emocionado com coisas simples. Hoje, o Pedro tentava cantar a música que ouvia no carro. Foi uma cena tão singela, tão linda, e nada romântica, no meio de tanta fúria, de tanto tsunami, era ali, naquele carro sujo da obra, nesse dia tão peculiar de trânsito horrível, nesse dia em que o Dja matava mais um leão (ou enfrentava suas feras interiores), nesse dia em que eu só queria colo e era colo de três – nesse dia, ele cantando no carro com a língua meio presa, me fez descongelar e perceber a delicadeza que existe em todas as coisas. Estou em contato com sentimentos tão intensos, tão viscerais, que esse momento de pluma pairou no ar por um instante, encheu meu coração de alegria, e no segundo seguinte estava de novo no turbilhão ainda lidando com essa emoção.

Tudo ao mesmo tempo, tudo agora. Nada trágico. Muita consciência de tudo, inclusive das armadilhas, das próprias compulsões, do desejo de fugir desesperadamente pra longe de que nem eu sei. Fico, fico, fico, chacoalho, desreferencio, me permito ser outras, me permito ser raiva, ódio, perdão. Me permito descer, e assim acredito nas luzes. Não são luzes românticas, luzes do “querer-ver”, mas as luzes que brotam da escuridão. Descendo, se sobe de verdade.

As verdades. Viver as verdades, sem maquiagens, sem preconceitos, fazer disso a meta, o propósito. Sentir orgulho pra poder se arrepender. Sentir que se sente sentimentos condenáveis. Querer fazer um muro de fuzilamento e no momento seguinte perceber a criança ferida por trás da metralhadora. Sentir a tristeza da frustração e mesmo assim ter que dar o próximo passo, até saber que essa tristeza é passageira. Sentir, sentir, sentir, errar, pedir desculpas, ver o mecanismo, tentar acertar, ter que ganhar dinheiro, ver o dinheiro ir embora mais rápido que se pode ganhar, daí ganhar um presente da vida, agradecer o presente, perceber um novo desafio, cuidar do filho, esquecer de cortar as unhas dele, esquecer a água no fogo, estar com a casa encaixotada há três meses, amar e ser amada, saber que há alguém do lado dividindo as aflições, dividindo o pior e o melhor de cada um, podendo falar disso sem medo de que o outro vai me abandonar pelo feio que às vezes sou, nem que vou abandonar o outro pelo feio que às vezes vejo, saber que a vida real é essa, valente, profunda, às vezes desmedida, e quando se chega nessa corrente só se pode pedir mais um pouco de ar até que se chegue na margem. E se possa ficar só um pouco, só um pouco, no sol.

Acho que nunca senti uma corrente de vida passando tão intensamente por mim, por dentro de mim, crescendo em mim, transbordando, e com tanta auto-consciência. Nunca passei tanto tempo sem pedir colo de mãe, até porque nesse momento é ela quem também precisa. A cada passo, a cada “não agüento” (como não, se a gente segue?) a cada nova surpresa, novas perplexidades. Cuidando da casa, das crias, do mundo, tentando, nisso tudo, entender de onde venho, tentando, nisso tudo, desacorrentar os personagens internos e conviver com cada um. Perder o medo da escuridão, encarnar de vez. Existir. Estou deixando de ser, ou passando a ser.

Agradeço. E é só.

dos tais editais

Ontem foi meu aniversário. comemorei meus 34 anos pegando assinaturas pra mandar a GIRA prum edital, ProAC.
Meio puta de ser tão workahoolic, mas o lado bom foi ver amigos.
Isso foi bem significativo. Fazer a palavra circular é o que falta no ano que entra.
Universo, posso?

domingo de ouro e rosas

nesse último domingo, passei um dia com o Pedro. Só nós 2.

fomos ao teatro (a primeira pecinha dele), um trabalho muito bacana da Pia Fraus, Bichos do Mundo. Depois, como quem não quer nada e tem muito tempo livre – e nós tínhamos -entramos na Casa das Rosas.

Fazia um final de tarde lindo. Dividimos um pedaço de bolo, e logo ele se meteu na aventura de correr pelos jardins. Descobriu a fonte de água, quis se jogar lá dentro, depois se contentou com os respingos de água na palma da mão. Ignorava as flores e cheirava as folhas, com uma expressão de quem decifrava um odor já oculto para maiores de dois anos. Sorria como nunca, enquanto corria pelo espaço livre, e só atrasava os passinhos para olhar para trás e conferir se eu o estava seguindo – pelo puro prazer de dividir seu prazer de estar ali. Era tanto êxtase que sobrou um pouco para mim. Tomei carona nessa alegria e senti, eu mesma, a força daquele jardim, a sensação mágica e maravilhosa de estar vivendo simplesmente aquele momento: eu e Pedro correndo por baixo das trapadeiras, cercados pelas rosas. Eu, cuidando para que nada sério acontecesse; ele, sem saber, cuidando para que a seriedade saísse de minha alma. Ficamos ali, momentos eternos, o sol dourando as paredes, até que ele mesmo encerrou o passeio indo insistentemente para a calçada, para além daqueles limites. Porque o mundo é muito grande pra ficar só ali, cheirando folhas.

No estacionamento, me beijava e abraçava, transbordando o encantamento do passeio.

E naquela casa, que já abrigou tantas horas de minha vida, que viu nascer e morrer a Cia dos Dramaturgos, que é testemunha dos meus devaneios e cúmplice dos meus íntimos anseios, vivi uma vontade louca de rir e chorar, e mais ainda, de viver.

e aí, dá tempo?

segunda-feira. só a semana que começa, mas o prazo pra muita coisa tá acabando. pra pagar contas, pra fazer projetos, pra resolver pendências chatas que eu adio até o último minuto, entre outras milhares. prazo pra muita coisa se acabando…Isso inclui o mundo, por causa das guerras e da ameaça nuclear, isso inclui as calotas polares, por causa do que todo mundo já sabe, isso inclui minha paciência pra tudo isso, isso inclui…
posso tomar um ar, por favor?

às vezes, dá vontade de fazer que nem o Hero Nakamura, congelar o tempo. Dá vontade de congelar só as ações filhas da puta e poder gozar um pouco e sem pressa as coisas boas – e são tantas! – desse mundo.
isso é culpa? é.
prepotência? é.
criancice? é.
mas eu sinto assim. tem conserto?

fazer, fazer, fazer

muita coisa anda acontecendo.
sempre tenho a sensação estranha que faço muito mais coisas do que aguento e menos do que deveria. Isso é um aforismo muito cansativo, me tira a energia pra fazer outras coisas.
fazer com prazer.

(são 5:52. eu deveria estar dormindo. deveria?)

20.01.2009

Hoje acordei de insônia. O Pedro mamou e não dormi. Um bicho, que não o pernilongo, zumbia em minhas orelhas.
No ouvido, na verdade.
Levantei, atizicada. era quase claro, coisa que na roça é bonito de ver, coisa que aqui tanto faz. Mas ainda há silêncio.
Hoje amanheceu com espírito de dia profético. Algo bom.
Hoje tem a posse do Obama, mas não tinha a ver com isso (espero que também tenha, no fim das contas)
É algum gosto de destino descoberto. Uma porta que se abriu na alma (espero que também na matéria, no fim das contas)
No fim das contas
No começo de alguma coisa.

novo blog

Eu tô sumida por aqui, apareci acolá.
Entre as coisas que me tiram o tempo e me dão prazer, está a construção da nossa casa.
Pra não ficar monotemática aqui, fizemos um blog exclusivo:

http://obraprospero.blogspot.com/

Se você se interessa pelo passo a passo de uma obra que quer ser linda-barata-descolada-moderna-sustentável, e ainda quer ler as reflexões que fazemos durante este percurso, xereta lá.

daqui a pouco eu volto com outros temas…

era uma casa muito engraçada…

capítulo X da vida: a Própria Casa Própria
a gente zoa com isso, faz piada, mas uma coisa é verdade. Aliás, duas:
1) Todo mundo merece ter seu canto
2) Ninguém merece pagar aluguel.
Movidos por essas certezas, procuramos há mais de um ano.
Em São Paulo é assim: tem que conseguir uma combinação mais que perfeita entre tamanho, localização, transporte, horas de trânsito, coeficiente de barulho e poluição e quartos em que se pode, ao menos, dormir na horizontal. Porque vamos combinar que nem no Japão deve ter quartos dos tamanhos que andam vendendo…
Agora somos vítimas das incorporadoras. Os prédios tipinho neoclássico que têm derrubado as casas de todas as vovós do bairro aumentaram o metro quadrado a preço de solo sagrado, e uma casinha capenga tá valendo ouro por aqui.
Mas eu insisti, vazendo valer os chifres da teimosia taurina, e achei, aqui perto, ainda numa ilha longe do som das britadeiras (ou talvez eu já esteja surda demais pra ouvir, porque nem tão longe é)
casa véia, muita reforma, mas de repente rola.
fizemos uma proposta estilo truco, bem menos do que pediam, bem mais do que temos, e talvez mais do que vale, se não fosse a especulação. Trucamos semana passada, a corretora pediu seis, a gente pediu nove e estamos até agora suspensos no ar. O Dja é um ótimo jogador (ele gosta da coisa), mas eu que gosto da casa tô roendo até canto de unha.
amanhã a mulher disse que liga com a resposta. Nessas horas só na fé.
a gente tem visto apartamentos também, mas não dá pra fazer fogueira, plantar árvore e criar cachorro.
e até amanhã, minha barriga = tobogã