a liberdade de ser livre

“Recentemente, um vídeo sobre a cobertura de uma festa universitária expôs o depoimento de um dos convidados que incitava explicitamente a cultura do estupro que, infelizmente, aparece enraizada em nossa sociedade. Muitas pessoas da própria faculdade enxergaram o depoimento como “apenas uma piada”. Além disso tudo, em discussão argumentativa no Facebook, as meninas que questionaram a postura condenável do vídeo e das pessoas que o aceitavam foram chamadas de “mal comidas” entre outros. Como resposta ao acontecido, um aluno da faculdade documentou “Um vídeo não é um vídeo, uma brincadeira não é só brincadeira… Pelo menos, nem sempre. Muitas vezes, é você contribuindo para piorar a cultura do país”. E é todo o contexto que motiva esse post. Chega de nos conformarmos com o que é considerado “okay”! Chega de alimentarmos esse discurso de violência maquiado de piada!”

 

Isso aconteceu na faculdade onde tenho o prazer de lecionar. O fato inspirou um debate virtual, que agora vai se materializar num auditório, mobilizado pelos próprios alunos e alunas e apoiado pela diretoria acadêmica. Coisa deliciosa de se ver, viver, degustar. Gosto dessa palavra, prazer. Não, não estou sendo irônica. Prazer é vida, e não é à toa que todas as funções que colaboram para a vida geram prazer.

Mas as palavras, por sua natureza, às vezes podem conter significados opostos, dependendo de quem fala. O prazer é assim, e também a graça. A experiência é individual, nossa visão de mundo é subjetiva, então sempre me pergunto: como é possível coexistir em harmonia no meio de tanta diversidade? Não apenas de formas, mas principalmente entre visões de realidades tão diferentes?

A dificuldade de uma harmonia natural gerou a necessidade da Lei. Um consenso pré-estabelecido entre o que pode e o que não pode. Muitas vezes, essa lei foi defendida na espada, no fio da guilhotina, e hoje há uma maquiagem civilizatória que não torna as coisas assim tão diferentes. Há quem defenda pena de morte. Mas onde não há consciência mútua tem que haver a regra, então por enquanto sim, as leis são necessárias (não a pena de morte!), e a ética é essencial. Mas eu me pergunto: quando é que isso vai passar de uma formalidade externa – muitas vezes até moralista – para um sentimento coletivo de bem comum, uma necessidade que cada um experimenta como parte da própria sobrevivência?

Nos últimos tempos, tenho convivido bastante com gerações mais novas que a minha. Já adianto que não gosto muito dessas divisões por idade, meu encontro é entre essências, mas também é impossível uma certa comparação. Há exatamente 20 anos, era eu quem estava nesse mesmo espaço onde hoje sou professora, então recém-chegada do interior, feliz da vida pelo novo momento que estava vivendo: passar na faculdade, vir para São Paulo, fazer novos amigos, viver meu sonho de arte e liberdade.

A ESPM era bem menor. Muitos grupos e entidades estudantis hoje já consagradas estavam embrionárias. Assim foi, também, com a TV interna, na época chamada TV Pixel. Inspirados pelo novo estúdio de video recém-inaugurado, um grupo de alunos começou essa empreitada. Éramos apaixonados por video e sem nenhuma experiência, mas muita vontade. Só tínhamos uma câmera Super VHS e uma ilha linear que sempre travava, mas foi o suficiente para começar uma série de programas que variavam entre um humor clownesco (o épico Shoroeder’s Time), revistas culturais e matérias sobre viagens e picos interessantes. E lógico, cobertura de festas, jogos e eventos internos. Não sei o que sobrou desses programas, mas o que ficou dentro da gente foi precioso: muitos de nós foram estudar cinema, outros foram direto para o mercado e se tornaram grandes profissionais internacionalmente reconhecidos, outros retornaram à casa como professores, e cada um de nós fazendo ainda crescer essa semente plantada nos anos 90.

No meu caso, acabei indo estudar cinema, fiz curta-metragens, depois me tornei documentarista e pulei para os palcos do teatro como dramaturga, descobri o mundo através da arte e do ativismo humanista e hoje ainda tenho a honra de compartilhar tudo isso no papel de professora. Quem me conhece bem sabe que essa palavra não cabe bem pra mim – prefiro ser uma provocadora.

Mas o assunto aqui é outro. Devido aos fatos recentes, lembrei de uma história antiga: Naquela época da TV Pixel, nós nos preparamos para fazer a cobertura da famosa Festa do Lúcio que, na ocasião, foi dentro de um circo. Além de fazer a cobertura, ajudei na organização da festa, o que fez com que eu passasse o dia inteiro com apenas algumas bolachas de água e sal no estômago. A festa foi linda, divertida, e nós da TV fizemos nossa matéria: o video da festa registrou de tudo, o cara que desceu pelas cordas lá de cima da lona, a banda performática, gente dançando e se divertindo. No bundas, No peitos. E ninguém sentiu falta.

Depois, merecidamente, me joguei no bar. Mas ao final de duas caipirinhas, caí.

PT mesmo = Nada no estômago+sono atrasado+cansaço acumulado (+ provavelmente vodka ruim). Conhecem essa fórmula?

 

Perdi total a consciência.

 

Era meu primeiro ano em São Paulo. Família longe. Todos os amigos eram recentes.

 

Quer saber onde eu acordei?

 

Em que situação?

 

Num pronto-socorro de um hospital. E com um amigo do meu lado. Amigo, sexo masculino.

Depois ele me levou pra casa. E eu guardei dessa noite memórias lindas e alguma ressaca. E levei pra vida uma grande amizade. Ele talvez tenha ficado meio de saco cheio, mas também levou a memória de ter cuidado de alguém. Hoje ele mora em Brasília, a gente se fala pouco, mas sempre com o carinho dessa época.

Sim, é uma história com final feliz. Depois disso, já bebi muito, caí outras vezes, ajudei a curar amigos caídos, vivi plenamente uma época de muitas descobertas. Não precisava me preocupar com o que iriam pensar de mim. Nem com a altura da minha roupa. Juro, sei que parece mentira, mas a coisa não era assim. Naquele dia da festa, eu lembro, minha barriga estava de fora, e isso não foi um problema, nem sinal verde pra violência. E fui livre, porque ao meu redor havia cuidado.

Entranha essa natureza ambígua das palavras… liberdade é a uma das mais pronunciadas, e uma das mais invertidas. Assim como o amor. E não são esses os nossos maiores anseios?

“Liberdade é passar a mão na bunda do guarda”, era uma expressão conhecida. Agora é passar a mão na bunda da moça. É fotografar e filmar alguém passando a mão na bunda da moça e botar na rede. Isso, na menos pior das hipóteses. E por aí se reivindica a liberdade de achar graça no que se quer, e impor essa graça particular ao coletivo.

Não, não estou aqui pra cagar regra, nem quero ficar moralizando. Mas também não aceito ser vítima da cagação de regra travestida de liberdade de expressão, do autoritarismo do quarto poder: a mídia. E mídia não é só televisão, ou a internet. Tem uma mídia bem antiga e eficientíssima, a fofoca. O papo ao pé do ouvido com olho desviado para o lado, em geral pra vida alheia. A fofoca eletrônica virou compartilhamento, e cada um é responsável pelo que gera com o que faz reverberar por aí. Como nos mostrou mestre Shakespeare, os piores venenos entram pelos ouvidos. E matam, mesmo a longo prazo: entorpecem gerações inteiras, e também nossa sensibilidade e consciência.

Em uma conversa hoje com uma pessoa da TV, ela me disse com total sinceridade que a intenção de colocar o tal depoimento no video era a oposta do que foi interpretado. Era mostrar o quanto era “tosco” o que o menino dizia. Também falou do tratamento intolerante que estão recebendo. Num terreno minado, bombas explodem sem dicriminação. Infelizmente, toda polêmica tem o risco de resvalar para a violência, para a disputa de egos, para a intolerância, e isso de ambos os lados, independente de se ter ou não razão. Então ficam as perguntas: Se ninguém quer declaradamente ser violento, por que a violência é, às vezes, tão irresistível? Porque o “tosco” é sempre o outro e nunca a gente mesmo? Aposto que ninguém passou na fila da falta de noção antes de nascer, é algo que acontece por ignorância. Perceber a ignorância é um bem, e ficar nela é uma opção. E quantas e quantas vezes falamos atrocidades e depois nos arrependemos, e é bom poder se arrepender. É bom perceber quando somos eco de opiniões que nós mesmos, aparentemente, discordamos. E podemos, sim, corrigir. Mas quanto maior o alcance da mensagem, maior a extensão do equívoco, e maior o trabalho que dá, depois, pra reverter.

Todo mundo sabe dos riscos de ser um cirurgião, ter a vida humana entre as mãos. Mas poucos falam da responsabilidade de ser um comunicador. Do poder das imagens dentro do nosso psiquismo. De como uma imagem pode colaborar para a vida ou para sua destruição. E gerar cultura.

A famosa imagem, por exemplo, do homem das cavernas puxando a mulher pelos cabelos, quase um atestado de nossas “origens”. Riane Eisler, conhecida pesquisadora e historiadora, mostra no seu livro “O Prazer Sagrado” que existiam sociedades neolíticas baseadas na cooperação mútua, e que essa “piada histórica” não só é uma mentira, mas colabora para justificativas recentes de brutalidade. Ela define bem a oposição em que vivemos: relações de dominação ou relações de parceria. Não fala de homens ou mulheres, feminino ou masculino. Vai na essência, da base do que se aspira em cada relação, seja individual ou coletiva. Fala das feridas antigas geradas pelo desequilíbrio histórico em que a era do cálice, do graal, deu lugar à espada. À cultura de dominação.

A cultura do estupro é ferida antiga na humanidade. E esse sangue histórico, vindo das guerras européias, também se misturou ao vermelho do nosso pau-brasil. As “grandes navegações” foram também grandes invasões, não apenas de terras, mas de corpos nus de índias, e também de crenças e sutilezas. A origem do nosso povo é fundada nessa fenda. E talvez por isso haja um embasamento tão aparentemente “natural” para tais aberrações.

Mas não cabe a mim julgar. Pra falar a verdade, acho ótimo quando as coisas vem à tona, porque é assim que a gente cura feridas – e eu acredito que elas podem ser curadas. Porque quem – seja homem ou mulher – prefere a liberdade de usar sua “graça” para humilhar o outro não percebe, na sua ilusão de ser livre, o quanto está enredado a essa visão de mundo em que você tem que ficar esperto se não quiser ser fodido por quem está do lado. Isso não acontece só sob efeito do álcool, acontece no trabalho, nas relações, e a vida se torna uma perpétua prisão, uma fuga desse estado em que o outro nada mais é do que uma ave de rapina. Acho triste. Prefiro acreditar em outra coisa, e já me dei a liberdade de não crer numa realidade única.

No meu mundo, liberdade é cuidado, e homens e mulheres podem viver sua natureza em harmonia, sabendo-se protegidos uns pelos outros. Felizmente, esse mundo é também de muitas mulheres e homens que acreditam no amor como forma máxima de expressão da vida. Nesse mundo honra-se nossa origem, o poder do masculino e do feminino, a força do céu e da terra, da sabedoria do útero e do conhecimento da alturas.  E nele há também espaço pra sombra de todos nós, mas ela não vem para justificar barbaridades, mas para nos dar a medida da nossa evolução.

Não, não somos perfeitos, ainda bem. Senão a vida seria tediosa, sem nada mais que fazer que falar da roupa alheia…

Termino agradecendo profundamente esse momento histórico, com todas essas grandes discussões. Isso sim é estar viva. E viva a graça, viva o corpo, viva o prazer mútuo, viva a alegria, viva essa polêmica! Espero que ela não colabore para gerar novas cabeças pra guilhotina, independente de que lado seja. Chega de lados partidos. Chega de fragmentação. Chega de culpa. Vamos gerar consciência.

 

você que aqui entra, abandone toda a esperança

hoje era inevitável: a dor ou o torpor.

do torpor meu saco já tava cheio. faz tempo que não posso mais com minha mente enevoada. meus dentes querem morder os cantos da boca se eles se abrem num sorriso falso ou resignado. há tempos que a indignação já bate à porta, mando passar amanhã e ela me acampa com a mão na maçaneta. hoje, rompeu a chutes. nem campainha tocou.

a dor é aquela que fingimos desconhecer. é um tipo de desatino que faz perder a compostura, vem montada numa cela de raiva, pelo menos comigo é assim. e as tantas e tantas coisas que de tão cotidianas já parecem os minutos de que são feitos as horas, de repente viram coisa intolerável. desde aquelas mais mínimas e idiotas, como o gato do vizinho que vem cagar no meu jardim – e eu sou obrigada a limpar – até todos os que cagam diariamente na minha cabeça, aí por opção própria, porque estão realmente cagando e andando pro alheio.

e então me pego com raiva de mim, por ficar reclamando da vida que (não é?) deveria ser boa. e faço da reclamação meu travesseiro. porque reclamar é permitido.

e por um acaso alguém reclama com a nuvem por ter coberto as estrelas? reclama com a chuva por ter desmoronado um barranco? reclama com o mar porque a maré subiu ou desceu? de que adianta? frente a uma força real, só tem uma resposta: agir.  mas as nuvens, as marés e as tempestades tem sua lógica. as coisas humanas não. e se a ação que me resta é protestar, isso não faz de mim um ser vivo. porque o ser vivo age, e colhe as consequências da ação. um ser que só protesta, espera. espera uma solução. espera justiça. espera um sinal que o mande agir em nome de alguma coisa. espera por deus.

hoje acordei sem paciência para essa esperança toda. aí entendi que quando os sábios falam que a esperança é a última que morre, é porque quando a gente não aguenta mais esperar, a gente finalmente age. sai do inferno. e  aí existe.

 

curando criança.

à vingança se resiste. como quem resiste à violência. como quem resiste ao sentimento de vítima. ao impulso de aniquilar o outro por ser projeção de um mal passado.

como quem resiste à mentira de que o mal existe na essência.

a gente resiste a algo que sente adesão. como se aderir a algo tão destrutivo a si mesmo?

se um dia passei a acreditar nessa verdade nociva, de que me fizeram mal, e passei a me confortar na promessa de revanche, como reverter?

se arranco de mim a promessa de vingança, que compensação futura me resta?

só me resta desmontar o circo.

abandonar os bandos, os times, as partes,

desistir desse jogo.

abrir mão das migalhas.

reconciliar

conciliar

reconfiar

entregar

e mergulhar de volta no paraíso

(nunca perdido, mas esquecido)

 

rapto para oz

E de uma hora pra outra, me pego em terra devastada. Como se tivesse caminhado até lá sem saber, e de repente me percebo na paisagem aterradora.

Por fora, a vida segue igual. Só me dá vontade de correr, correr, correr. Fugir. Corro com os pés pregados no chão. Dói.

Demora pra perceber de verdade onde estou.

Só o Pedro, que vive entre os mundos, viu primeiro. E na sala de casa, ontem me disse: mãe, vamos voltar pra casa?

 

chute na bunda, peteleco na orelha

acabaram-se as desculpas. enterrar o tesouro recebido não vai fazer brotar planta alguma.

quem sabe mais tarde? em melhores condições…

mas não. talento enterrado não vira nem adubo. entristece.

terra vira areia; sonho, miragem.

divagues de um dedo após apertar o botão verde

Quando coloquei meu dedo naquele botão, não deixei de sentir um certo orgulho. Talvez seja uma ilusão de poder, talvez eu tenha sentido, naquele toque, a luta de tantas pessoas que batalharam para que esse momento fosse possível. Mas nunca, para mim, foi tão difícil decidir. Nunca ficou tão evidente a contradição desse gesto.

Sempre pensei que a realidade era complexa. Qualquer tentativa de definir, explicar, reduzir, acaba nos colocando em um fragmento, facção, partido. Um ponto de vista único. Mas bem, também temos que decidir, não ficar em cima do muro. Mas decidir de verdade é diferente de decidir entre o que já foi decidido.

Então percebi que não é que vivemos numa realidade complexa, mas num sistema complexo de polirealidades. Ah, é a mesma coisa, pode-se dizer. Mas não. Porque experimento, em mim, cada uma dessas realidades, como vertentes, vetores, direções que podem se configurar como verdade, dependendo de para onde eu ajuste o passo.

Cada uma dessas realidades tem um sistema próprio, uma lógica própria. Uma frequência específica.

Agora, aplicado ao meu dedo no botão: numa delas, o voto tem validade. Penso que estou escolhendo alguém que melhor representa meus interesses – porque por mais que sejam interesses também coletivos, ainda são meus. Então me lanço a uma busca: quem consegue pular nesse mar de lama e estar limpo? Sim, ainda deve existir heróis de rabo solto e fígado de aço, no meio daquele monte.

Então voto. E acho que minha parte está feita. Porque escolhi um representante para fazer o que é tão difícil: tomar decisões em uma coletividade. O representante teoricamente me representa. Eu aceito essa meia-verdade porque não quero lidar com a educação, o saneamento básico, o trânsito, a saúde, a ecologia, a economia, a cultura. Talvez nessa última posso opinar um pouco. Só um pouco. Porque não me sobra tempo nem pra lembrar do que fiz no final de semana.

Então escolho um representante profissional que vai receber um salário profissional para pensar por mim nessas coisas. E posso seguir a vida sem pensar em decisões coletivas, porque o coletivo cansa, e muito. Já experimentou tomar uma decisão em dois? Em três? Em um grupo maior? Já experimentou tentar o consenso – note bem, não disse NEGOCIAÇÃO, mas CONSENSO. Já experimentou o longo, longo processo horizontal de mediação de conflitos?

Eu já, e te falo: em muitas e muitas vezes, depois de horas – ou dias – tentando conciliar algum assunto, em momentos de descrença e fadiga, pensei nas vantagens do verticalismo. Se tivesse um diretor, um chefe, um representante, essa discussão já estaria encerrada e eu poderia voltar pras minhas coisas. Então é na realidade desse pensamento que a realidade do voto cria seus alicerces. Porque tem gente que nasceu pra coisa, ouve, pondera, analisa, tira o denominador comum, tem liderança, dizem, poderia ser candidato. Eu votaria em você.

Numa outra realidade, que obviamente exige um estado de consciência raro, isso se torna um completo absurdo. Como se eu fosse escolher alguém que fosse decidir com quem eu ia trepar, por exemplo. Porque no fim é tudo a mesma coisa: alguém que escolhe onde minha energia está sendo direcionada. E por que? Porque eu elegi. E por que? Por preguiça, ou impotência, ou intolerância, ou total incapacidade de trabalhar em grupo. Em TOLERAR O CONFLITO DAS DIFERENÇAS.

Aí vem a questão fundamental: como eu conseguiria me colocar de acordo com uma pessoa que, por exemplo, elegeu tipos como Russomano, Serra, Coronel Telhada, Andrea Matarazzo, e tantos outros, e tantos de seus seguidores? Como fazer com que meus argumentos cruzem sua reta em algum ponto que seja, em uma trajetória tão divergente? E se estivéssemos em um círculo tentando decidir alguma coisa: Haveria consenso? Chegaria algum momento em que teríamos que dizer: bom, nada feito, então vamos votar?

Não, não tenho resposta. Só perguntas.

Sim, elas me inquietam. Bastante.

Porque já experimentei o consenso, e sei que ele pode existir. E já sei de muitos grupos, comunidades, agrupamentos – todos horizontais – que tem plasmado no mundo essa nova realidade. Não sou nenhuma niilista incrédula, militante da ditadura de realidade única. Participo há anos do Movimento Humanista (onde vivi grandes experiências), vi nascer movimentos como os recentes coletivos de ocupação, incontáveis manifestações artísticas, muitas e muitas iniciativas. Mas como seria isso em grande escala? Estamos prontos para a horizontalidade? Para o círculo? E os tantos outros que pensam tão diferente? – teimo em pensar.

Então num gesto meio impensado, tentando entender quem eu pensei que nunca entenderia, correndo um risco ilusório, num terreno seguro que só a web e suas múltiplas caixas e janelas permitem, ousei entrar no facebook do tal herói da ROTA, o Telhada. Um pouco para entender o que li recentemente no artigo de Eliane Brum, e num outro no jornal Brasil de Fato (sobre o jornalista André Caramanti que estava sendo ameaçado de morte por denunciar abusos da polícia); e um pouco num espírito de aventura de entrar em território minado e buscar o incompreensível.

Ali achei várias postagens do próprio agradecendo sua cascata de votos para vereador.

Mas no meio de tantos posts e comentários óbvios, não entendi: com finalidades de agradecimento, pousava ali um poema de Mário Quitana, com uma foto angelical do mesmo, apoiado em sua bengala:

“A amizade é uma espécie de amor que nunca morre”.

Claro, foi uma apropriação. Talvez hipócrita, talvez até sincera (não conheço o sujeito pra saber). Mas ver a poesia do Mário Quitana misturada àquele liquidificador da ROTA me deu um curto-circuito tão grande que por um momento todas essas realidades se embaralharam.

Levei um choque alquímico.

Não consigo pensar em mais nada.

 

aos meninos, primavera de 2012

hoje, num raro momento em que não precisava ser prática, navegando pelo blog do meu companheiro Djair, dei com esse post. uma carta que ele escreveu aos nossos filhos. fiquei emocionada. claro, é um retrato de um momento, provavelmente escrito num desses dias em que ele fica cuidando dos meninos (porque a gente reveza).

hoje sou eu que estou com eles. e enquanto tento escrever esse texto, Gabriel me chama 1000 vezes para fazer um desenho. situação típica e simbólica.

por que é mais importante escrever que atender a uma criança – sendo essa uma fase que durará tão pouco? não sei. é uma intensidade tão grande que talvez a gente peça um escape, imagino. nada é afirmativo quando se trata de filhos.

fiquei então pensando o que escreveria a eles, Pedro e Gabriel, hoje com cinco e dois anos (e meio). é provável que essa carta seja interrompida muitas vezes, para fazer um desenho ou cortar tomates, mas tentarei chegar ao fim.

(pausa para apontar lápis amarelo)

queridos,

(pausa para ensinar apontar lápis. pingar soro no nariz. parar choro por causa do remédio do nariz)

Nem sei como começar isso aqui. Talvez dizendo como me sinto aos trinta e sete anos, sendo mãe de vocês, além de tantas outras coisas… tentando entender (ainda) meu lugar no mundo. Vivendo nessa cidade louca e pensando se é o melhor pra gente, com tanto mato e cachoeira por aí.

Eu, que tinha tanta certeza… elas todas caem de vez em quando, sabe?

Como o papai falou: estamos tentando reinventar o que é ser adulto, o que é ser gente, sem adulterar tudo. Na verdade, estamos tendo é que desaprender um montão de coisas.

Eu, por exemplo, estou tendo que desaprender que a vida de gente grande é chata. Porque sempre pensei que fosse. Porque sentia essa dor de ter que abandonar os sonhos, ou chamar os sonhos de imaginação, ou faz-de-conta, como se fazer de conta fosse fazer de mentira, ou seja, não fazer. Lembro do meu pai nessa mesma correria que a mamãe tem hoje: saindo de um lugar pra outro. Ia para casa almoçar em cinco minutos, e ainda me contava histórias para comer. (Acho que isso não era nesses cinco minutos, talvez fosse no final de semana, mas as histórias e a nutrição sempre me acompanharam. Crescemos juntas.)

Nas histórias eu via meu pai de verdade, assim como adorava ver minha mãe fazendo coisas cotidianas. Não gostava de ir ao supermercado com ela (não sei como vocês gostam de ir comigo), mas gostava dos lanches que ela preparava. E das espadinhas feitas de jornal, e dos arcos e flechas, e pensando bem minha mãe nunca brincou de bonecas com a gente. Ela era bem moleca, pra falar a verdade.

Então eu vejo vocês mergulhados nessa fantasia linda de ser, e fico aqui fazendo força para reaprender o caminho para esse lugar. Vejo você, Pedro, que agora está com mania de cavernas, cercado de bichos de pelúcia e livros. Isso é só o que eu vejo, mas sei que você vê bem mais. Assim como você, Gabriel, no seu cantinho do desmonte, reduzindo cada brinquedo ao seu mínimo. Nesse olhar de curiosidade sem fim, nesse afã de aproveitar tudo o que a vida te oferece, ainda sem medida, mas sei que ela chegará. Porque você tem olhos felizes.

Estamos, papai e eu, tentando viver uma vida coerente, num mundo em constante transição, e com extremos de bondade e falta de noção. Estamos tentando atrelar nosso sustento (ou dinheiro, ou energia que entra) a trabalhos que colaboram para a vida. Todo o resto, queridos, por mais que se diga o contrário, é coisa inútil a se fazer. Eu acredito que a gente esteja caminhando para uma mudança radical, um salto de consciência mundial, em que todos os padrões de hoje não servirão mais. Hierarquias, por exemplo. Por isso pedimos para que vocês resolvam os conflitos entre vocês: para aprender a trabalhar com a horizontalidade, para deixar de acreditar em ídolos, para aprender a acreditar nessa música linda que toca no peito de cada um. Nosso manual de instruções tem ritmo, e ritmo de tambor.

A mamãe está fazendo uma força enorme para decifrar essas notas agora. Passou muito tempo procurando as partituras aí fora, e agora tá numa confusão impressionante. Só vocês, meus queridos, para me ancorar à terra. Ninguém consegue derreter e trocar fraldas ao mesmo tempo, ou desembestar e dar risada de uma nova palavra que surge.

Então, filhos amados, vocês são a nossa força diária pra conseguir fazer esse ajuste, desaprender o que não serve, destampar novamente os ouvidos às dimensões invisíveis. Ouvir o próprio sonho, entender o plano, entender o que é nascer, o que é viver, o para que disso tudo, e isso lidando com contas vermelhas, lidando com a tendência diária à descrença e ao desespero. Lutando contra aquela voz velha e decrépita: vocês estão loucos, tem filhos pra criar e ficam aí, viajando…

Graças a vocês, meninos, nossa viagem agora tem mapa, tem bússola. Mas as intempéries ainda existem, porque são parte da coisa. Tentamos acertar sempre, mas tem hora que não é fácil, e é importante não esconder isso.

(pausa. Gabriel me interrompe para desenhar a mamãe chorando lá em cima)

Porque a mamãe chora, às vezes, lá em cima, crente que tá escondida.

Mas o que a mamãe chora, meus queridos, é o luto das partes que estão indo embora para que ela seja livre. Às vezes a mamãe também chora para entender. Porque ela tem um cabeção que não ajuda muito, e a água ajuda a dissolver as ferrugens.

Às vezes ela chora porque está triste.

Mas muitas vezes, chora porque está aprendendo.

E então volta desse choro olhando para vocês com a mente limpa. Aí conseguimos pular de verdade na cama, brincar de verdade, sem faz-de-conta, ou melhor, sem faz-de-mentira.

Porque a mamãe ainda está aprendendo que fazer de conta não é mentir, mas fazer acontecer em outras realidades, até que se materialize nessa. A visível.

 

rogância

…então no quintal da minha arrogância

dou incumbências às divindades: façam acontecer isso ou aquilo!

(por favor)

só assim darei minha vida!

a mãe, bondosa, acolhe e ri.

o pai, então, me joga no contrário: para que eu conquiste com minhas mãos meu pedido,

ou caia no chão, abrace a terra,

(e só então entenda)

que sou eu quem devo abrir os ouvidos ao que fazer.

 

silenciar, ouvir e fluir

 

e com o livre-arbítrio de abraçar ou não o caminho.

 

rastros de sonhos acordados

sempre atenta a tudo,

vigilante,

às vezes caio no sono. caio do cavalo. caio no rio.

ainda viva, levanto a cabeça pra fora das águas. agarro num tronco em plena correnteza.

sou salva pelo pedaço de madeira.

valente, coloco-me de pé na margem. busco fuga da emboscada.

mão no coldre, sempre alerta. aviso aos companheiros que a situação é crítica.

durmo mais.

por detrás,

vem a bala. cedo ao tiro, praguejando: Então o velho Marshall me pegou!

então, morrendo (e só assim), percebo, lúcida:

sou eu, mulher,

mas era eu, caubói.

Malditos filmes americanos!