e nasce Béatrice Perrier

de uma garrafinha Perrier sem rótulo, levada numa mochila velha. sem pretensão.

só estava ali, desfilando na mala, por dois motivos:

1) era de vidro – portanto, lavável

2) era verde e bonita – sim, e daí?

ouvi de pessoas: “Ui! Perrier?”

virou !: “Ui! Perrier!”

daí veio Béatrice: pra me salvar da chatice.

nasceu da garrafa sem rótulo, tal gênia-mariposa da lâmpida.

dependência

greve dos transportadores de combustíveis

até então ignorava a categoria (me admirei)

postos sem combustível

até então nem pensava em ficar sem (me admirei)

achei um posto ainda vivo (aliviei)

com fila de quase uma hora (admirei)

40 minutos de espera (resignei)

ao pagar, esqueci a carteira (espantei)

descubro que tinha um cheque (aliviei)

o posto não aceitava cheque (…)

o gerente aceitou o meu cheque (aliviei)

pude então buscar meu filho na escola

que é quase no meio do mato

onde eu não chegaria sem carro, sem gasolina ou cartão.

percebi a dependência (assustei)

mas lá, voando no mato,

vi uma borboleta azul.

movida a vento e farfalhar

sem tanque ou máquina de crédito

de verdade, então, respirei.

de carro, sem cartão, de tanque cheio, voltei.

oi?

como assim? Há um minuto era 09:00, e agora é 09:46?

quanto tempo tem um minuto mesmo?

para tentar entender

Meu pai tem aquela típica fadiga de quem passou a vida achando que tinha que remendar tudo.

Mas a rede de buracos na teia era enorme. Mesmo para alguém formado em medicina.

Agora, cansado, ele se dedica a descosturar cicatrizes. Vive na anti-cirurgia de si.

de onde vivem as histórias

se tenho que contar, calo.

engaguejo. mato pausas. esqueço fatos.

contando pra mim, escrevo, escuto.

e então percebo que ainda é a voz do meu pai, trazendo vida a uma nova aventura.

era todo dia assim, no almoço: eu devorava histórias com arroz e feijão.

às vezes eu lançava ao meu pai temas indecifráveis.

e ele, malandro das palavras, tangenciava o pedido. mas trazia sempre a colheita do dia.

borboleta batendo cabeça

borboleta batia cabeça no vidro da janela

tive pena dela

“pena tem quem se sente superior”, pensei. problema dela. se de lagarta já voou, se vira!

borboleta batia cabeça insistentemente no vidro da janela.

será que a consciência de algumas espécies podem estar a serviço de outras? pensei, pensando também se ajudava ou não.

será que há uma função cósmica no ato de bater a cabeça no vidro?

será que devo eu intervir, tendo consciência que a pobre lagarta de asas pode passar o resto do dia tentando sair?

borboleta batia cabeça.

foi dando aflição de tanta inconsciência.

borboleta batia cabeça.

foda-se. empurrei a borboleta pra fora do vidro, no vão da janela.

borboleta bateu asas.

e eu continuei no chão, pensando como ela, que rastejava, hoje consegue voar.

lugares sagrados

às vezes, no mundo espiritual, a gente visita espaços únicos, indescritíveis.

às vezes, no mundo visível, esses espaços se materializam. Aí viram ponte para outras dimensões.

pariquera-açu. sítio toque natural

entre matas e estrelas cadentes, em águas reveladoras, no meio do fogo da oca sagrada, guarda-se um sonho.

guardiã do segredo: amiga-irmã Maria Esther.

Amnésia

Acordei como se a partir daquele dia eu já não fosse mais, contaminada de uma amnésia de tudo o que antes era considerado objetivo. Havia dormido bem? Não sei. Talvez fora abduzida no ato do sono, levada a terras distantes, doutrinada, destrinchada e mandada de volta também com amnésia disso tudo. O fato é que eu flutuava.

Tomar um copo d´água passou a ter mais sentido que me lançar ao doce cotidiano – ao menos era um dos poucos atos para gerar vida, ainda que fosse a minha própria. Assim, tomei cinco copos como quem procura uma resposta ou quer de volta a ignorância – mas a água não perdoa, ela flui, impassível, indiferente às crises humanas, às suas obras e barreiras, para onde tem que ir.

Então fiquei ali, no sol, esperando ter sede novamente.