só por hoje…

aproveita o feriado e se dê um presente. não, a gente não é mais criança, talvez até esteja ocupado em dar aos filhos, sobrinhos, garotada em geral, um dia especial.

mas hoje eu percebi que às vezes “trabalho de ser mãe”. trabalhar de brincar?

então pelo menos por hoje vou lembrar do que é brincar de verdade. perder a noção do tempo, da limpeza, de quem se é. porque, em sendo criança, quem se é ainda nem é com tanta força, só depois se fica apegado.

sentir a vida como presente, êxtase, dádiva.

sentir o dia passando sem perceber que o dia passou.

Plugins da infância no novo milênio

O Pedro agora deu pra uma coisa: antes de chorar, ele fala: “Chorar”. Ou, às vezes, ao invés de. Aí abraça a gente, já pedindo consolo para o que ele sente, seja lá o que for.

Será um plugin de autoconsciência? Céus!

como mãe é besta…

ah, a gente é.

Gabriel, que hoje faz 7 meses, tá gribadinho. Rouco. Imagine, um bebê rouco. Corleonito. Aí ontem, no ápice do dengo da gripe, ele fala: Babõe. E olha profundamente, fazendo beicinho.

Acho que desde que mundo é mundo, as babões babonas bobonas escutam alguma coisa que elas sabem que se referem a elas, ou ao peito, e sentem esse orgulho besta. Digo besta, porque as melhores coisas da vida são assim, comuns. Tãaaaao arquetípico, tão único. Tão meu, foi.

crônicas da pracinha

Olha, eu não sou daquelas mães exemplares que vão todos os dias, em horário de sol baixo, levar os filhos na pracinha. Aqui em casa é uma zona de horários e prioridades. Mas de vez em quando, vou. Ainda mais agora, que o Pedro resolveu se interessar por areia – na verdade, transportar areia de um lado a outro, e jogar para cima, fazendo nuvem de pó.

Antes de continuar, um aparte: a sociologia do tanque de areia. Devo dizer que nada melhor que esse microcosmos  para refletir sobre propriedade privada. O que fazer quando seu filho pega o brinquedinho do outro? No meu caso, observo o “dono”. Se ele for relax, não falo nada, as crianças se entendem melhor sem nós. Mas em alguns casos, os donos ficam bravos. Aí eu tento explicar: filho, é dele, e ele não quer que pegue. Mas por que o do outro pode? Porque o outro deixa. E o Pedro, que ainda se recusa a falar português, faz mímicas e olha. Só olha.

A gente costuma ir no Parque da Previdência, que é pertinho de casa e uma delícia, sossegado, e isso inclui as pessoas. Pois hoje, aproveitando a falta de trânsito, o Dja sugeriu da gente ir no Parque Volpi, pra conhecer. De cara, vimos o tal tanque de areia, cheio de crianças. E lá foi o Pedro, com seu pequeno kit zona. O parque é legal, com trilhas, mas já espelha aquela tensão social da zona sul. A gente sente ao entrar. Sim, tenho meus preconceitos, assumo, não gosto de tensões sociais, prontofalei. Me enche o saco. ainda mais num ambiente redondo e democrático, um tanque de areia.

Bom, lá fui eu pro tanque, ver o que passava. Aí chegam gêmeas fofas e rosas, desse rosa babaloo e chapéu babadinho, cada qual com sua mochilinha cheinha de pás, baldinhos e etc. O baldinho era igual ao do Pedro que, naturalmente, estava jogado no meio do tanque enquanto ele tocava um violino imaginário com dois gravetos. A menininha pegou o balde e começou a brincar. Não deu cinco minutos os pais perceberam: ela está com o brinquedo do outro menino! Tudo bem, eu disse, mas eles ficaram constrangidíssimos. E depois fiquei eu, tendo que ouvir um pai falando pra uma menina de 2 anos: você roubou o brinquedo do seu vizinho. Pede desculpas. Não, não, por favor, eu pensei. Não precisa, eu disse. E ela pediu desculpas! por ter roubado o balde do Pedro, igual ao dela, jogado na areia!

Sim, eu tenho preconceitos.

a noite do dia

Seja qual for a idade, anos ou meses, volta e meia nos deparamos com uma verdade incontestável: crescer dói. Mais fácil quando a dor é física, como aquela que dá na perna, uma coisa esquisita que parece que repuxa, e ao reclamar a mãe profetizava: quando crescer, passa. Não. Tem dores que são mais pra dentro. Sem ter nem pra que, o corpo fica inconveniente, inadequado, parece que tudo remexe, como se a gente não coubesse mais em si. E estando do lado de lá, de quem assiste e desesperadamente busca o que fazer: o que fazer? Buscar remédios, decifrar sintomas, buscar sinais de onde vem o foco, buscar o diagnóstico perfeito? E de repente, no meio disso tudo, a intuição de um abraço. Um aconchego. Desses em que se respira junto. De mansinho, os gritos vão dando lugar a soluços, daí pra suspiros, como quem acha, nas primeiras escuridões de tantas que a vida reserva, alguém para compartilhar a solidão. E do lado de cá, de quem aflita assistia à cria, ver que muitas vezes o fazer é só estar. E pedir junto para que a tempestade passe.

gabriel

veio galopando vento,

de matéria leve, inquieta, atenta.

difícil de captar o espírito, sempre em movimento. a densidade mora no cristalino, na enigmática mirada de quem chega e pergunta. sem parar, pergunta.

sorriso-deboche, pula do colo como se um anjo aparasse. cai. e no dia seguinte, pula de novo.

domingo de ouro e rosas

nesse último domingo, passei um dia com o Pedro. Só nós 2.

fomos ao teatro (a primeira pecinha dele), um trabalho muito bacana da Pia Fraus, Bichos do Mundo. Depois, como quem não quer nada e tem muito tempo livre – e nós tínhamos -entramos na Casa das Rosas.

Fazia um final de tarde lindo. Dividimos um pedaço de bolo, e logo ele se meteu na aventura de correr pelos jardins. Descobriu a fonte de água, quis se jogar lá dentro, depois se contentou com os respingos de água na palma da mão. Ignorava as flores e cheirava as folhas, com uma expressão de quem decifrava um odor já oculto para maiores de dois anos. Sorria como nunca, enquanto corria pelo espaço livre, e só atrasava os passinhos para olhar para trás e conferir se eu o estava seguindo – pelo puro prazer de dividir seu prazer de estar ali. Era tanto êxtase que sobrou um pouco para mim. Tomei carona nessa alegria e senti, eu mesma, a força daquele jardim, a sensação mágica e maravilhosa de estar vivendo simplesmente aquele momento: eu e Pedro correndo por baixo das trapadeiras, cercados pelas rosas. Eu, cuidando para que nada sério acontecesse; ele, sem saber, cuidando para que a seriedade saísse de minha alma. Ficamos ali, momentos eternos, o sol dourando as paredes, até que ele mesmo encerrou o passeio indo insistentemente para a calçada, para além daqueles limites. Porque o mundo é muito grande pra ficar só ali, cheirando folhas.

No estacionamento, me beijava e abraçava, transbordando o encantamento do passeio.

E naquela casa, que já abrigou tantas horas de minha vida, que viu nascer e morrer a Cia dos Dramaturgos, que é testemunha dos meus devaneios e cúmplice dos meus íntimos anseios, vivi uma vontade louca de rir e chorar, e mais ainda, de viver.

proibidus


a gente disse pro Pedro que ele não pode pegar o telefone sem fio daqui de casa (ele deixa ligado, baba, joga no chão…não, né?)
lógico que o telefone virou um obscuro objeto de desejo.
um prazer incontrolável que só perde a força se a gente deixa mexer.

agora ele tá com o telefone falando na sua nova linguagem élfica ou ewok. algo como butibutiguti

eu queria fotografar, mas a câmera quebrou. virou “não pode”. claro, aí que me deu uma vontade imensa de fotografar, filmar, ligar a câmera, porque ficou proibido.

aí, podendo pegar o telefone, o telefone perdeu a graça e ele quis pegar o inalcançável: o teclado do meu computador. lkmnçlkjn~ljk~kjõklj