promessa de outono

Outra eu vaza pelas grades

sutil, espreita

gotícula, quase ainda umidade,

passa pelas frestas, quase ainda invisíveis

das invivíveis represas:  fortes, firmes, fiéis (ao reter);

frágeis, falíveis, fumaça cortinando (ser)

aprendendo a separar

o que eu quero

o que eu acho que quero

o que eu aprendi a querer,

o que eu acho que deveria querer.

(…)

e que separar não é tão fácil quanto parece,

e que essas opções não são tão claras como poderiam,

e que a mente trai o corpo, às vezes,

que os moralismos traem a gente, sempre.

através

eu filtro o mundo de fora por lentes: câmeras, óculos, crenças e outros enquadramentos.

o de dentro, por personagens.

será que a realidade me queimaria os dedos, os olhos, a língua, se não houvesse intermediários?

ou tem coisa que a gente só capta assim, pelas bordas, pelas voltas, no tempo fora das horas?

.

logo atrás dos cabelos, perto da nuca, chama. mora próximo à região do ouvido. um ponto delicado. se regido, faz circular o choque costa abaixo e costa acima, fazendo cócegas na espinha e perto da axila. há um som que dispara o ato, dito de determinada forma, naquele exato ponto. o choque desce ventre abaixo, conectando sexo ao ser, o ser a tudo. sangue corre mais forte, de repente mais intenso, cachoeirando artérias e dando calor. suor sai pela pele, mostrando a saída do dentro pra fora. é lá que saio de mim cotidiana. é lá que sou, natureza. logo atrás dos cabelos, lá na raiz, perto da escuta.

do outro lado do mundo aqui

preciso desabar, mas estou a caminho.

,num coletivo, com minha dor somada a tantas outras. tantas mais graves.

o que será que acontece com o choro não chorado? coagula em cólera? empedrece em mágoa? engelece-indiferença?

e se a água de mim é salgada, posso fingir, então, que vislumbro mar distante. de tão perto que de repente fica, vaza um pouco pelos cantos. pelas bordas ciliares.

assim justifico lágrimas caídas em público, sem a menor explicação. desculpe, é a natureza, pelo descuido, em tsunami.

estudando o amor IV

Sempre há um terror infantil da segunda expulsão do paraíso. Como se já não bastasse nascer.

O terrorismo da bronca: serei eu ainda amado pelos poucos que me rodeiam?

O terrorismo da aula de genética: de onde vem minha pele escura, meu olho claro? E se venho de outro lugar desconhecido de mim?

Qual minha origem?

Se posto na filosofia – de onde viemos? – fica tudo tão distante que se perde a natureza da coisa.

Se posto na biologia – de onde vem os bebês? – fica tão científico que se perde a poesia.

Realmente, não há respostas para a nossa entrada.

Só saídas: abraços.

,

, pelo desequilíbrio, agradecida, pela instabilidade, agradecida, pelo passo em falso tomado pelo medo, agradecida, pelo reequilíbrio, pela inércia superada, pelo confronto com a queda, calor, ansiedade enfrentada, pela impossibilidade de se impor pensamento, pela urgência das respostas por segundo, pelo corpo desfeito estátua, pelo fato de ver-se no espaço, pedente, caída, pendente, pra frente, sem tempo de regredir, sem tempo de arrepender, sem tempo de julgar, sem tempo de congelar, sem tempo de não-ser, sem tempo de angustiar, por tudo que vai nascer, por tudo que pede amparo, por tudo que pede entrega, que pede queda, devoção, cuidado, pelo vetor para frente, cima e dentro, pelo profundo que brota da ação, pela ruptura do velho, pelo espanto – de quem anda, de quem segue, e percebe que nem o atomo pára no tempo,

,agradecida, movimento,.

lendo Mia Couto

nossa!

é ficar com promessa de choro viva entre o peito e a garganta, quase escapulindo olho afora. dá pra ler de tacada não, pede tempo de pedir socorro, de pedir abraço, de dar abraço, até. Na aridez descalça, agradecer pela água.

Eu agradeço as palavras dadas. “A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado”. Vixe, que coisa boa de ler!