orgânica

Se por um acaso trocassem o estômago pelo coração, que passaria com o ar que o sangue carrega? Tragado, triturado em ácidos, digerido sem fluxo. Haveria, talvez, refluxos de oxigênio.

Que seria do amor na acidez da digestão? Seria ansiar pelo mundo, as pessoas do mundo, como um grande alimento? Um caldeirão centrífugo, tragando o que se necessita para aplacar a fome.

Só sairiam os restos, desnecessários e inúteis. A outros.

E o coração, todo aberto, não reteria alimento, só o deixaria passar, bombeando em desapego, como é próprio de sua natureza.

O ser, então, morreria de inanição devorando o mundo, achando que ânsia era amor.

senhora do tempo

Chegando a hora sem hora do tempo sem curso,

aos filhos da terra nova, coragem!

Coragem a quem ainda ousa reverberar alegria.

Não são tempos negros ou brancos, as cores não mais os descrevem.

Então venha a nós, divina lembrança, do destino sagrado que lá…

nos reserva.

Que as águas de nós, turbulentas,

não traduzam a tempestade como o rosto do espanto,

mas com águas de broto,

divina terra.

toda vez que me pergunto pra que ando servindo, o que ando produzindo,

me pergunto também a que serve essas perguntas

a quem serve?

servidão.

e de repente dá um impulso incontrolável de ser absolutamente inútil, além de só existir.

ventania de final da tarde

estou vulnerável.
as tantas e tantos em mim disputam espaços. já nem sei mais. cada qual com sua própria bússola, seu tão seu norte.

sou vaso pronto pra ser fincado na terra, se escolho viver entre os homens. busco um propósito-raiz que valha. mas se ainda envergo com o vento, sabe-se lá o dia em que poderei remover as estacas. dói de vergonha ainda estar atada a um pau inerte, por medo de me afundar demais, e morrer de rigidez.

doovo

Tem um lampejo de consciência rasgando uma pele frágil, movendo o corpo de dentro pra fora, com gestos tão estranhos que ele, sem querer, se corta. A cicatriz não deixa de ser tatoo de batalha. Mesmo batalha na tangente, atiçada pelo desejo só lá de dentro, daquela pessoa estranha e nova pressionando a romper a casca. Se a gente trocasse de pele assim, que nem a cobra, ou mudasse de forma do jeito da borboleta, pelo menos a coisa seria visível. Mas ela só descama, suave. Só vê quem tem olhos microscópicos.

(inspirado pelo caderninho vermelho da Renata, em pleno som de roteiro, em ritmo de Arritmia)

fim de tarde de um fim de ano

Era tanta coisa pra ainda fazer,

que ela foi ver o céu azul virar alaranjado. Pra sua surpresa, viu foi rosa e violeta.

Era tanta cor no céu,

que ela largou as tantas coisas pra fazer pra virar violeta ou rosa.

e fincou os pés na terra, sujou tudo, a casa até, nem ligando pra mais nada.

poema-título

tenho?

mundo passa

serve à pressa

ao passo,

tempo

caio lento, narmadilha,

ri-te, passa

ao largo alento

tempipassa

quem que guia?

quem?

ao que arma o dia

sou?

mês bis passa

de estação em solilóquio

de equinócio a solstício

na procura

nautopia

nau veleja

capitânia

nau que segue nalma guia

que navega

enverga o traço

mapa, engano

gps

passa o ano,

ARRITMIA.

líquidas

Tenho aprendido muito com as águas.

Não se muda um curso de rio, aprende-se a navegar nele.

A natureza das coisas nasce com a sua essência.

hummm… parte II

acordei com sol e vontade de dar ao mundo

de trepar, de escrever, de saltar de paraquedas, só pra tingir a atmosfera de adrenalina da primeira vez. nunca fui.

adoro primeiras vezes de coisas.

amo ventos. especialmente aqueles antes de tempestades. trazem com eles presente: delícia da descoberta, maior que o medo das águas.