– Estou com saudades da minha infância. – disse o Pedro.
– Mas filho, você ainda está nela!
– Quando eu era pequenininho.
– Ah, sim, isso já mudou.
– É que quanto mais eu mudo, mais fico espantado.
(acorde com essa.)

de Claudia Pucci Abrahão
– Estou com saudades da minha infância. – disse o Pedro.
– Mas filho, você ainda está nela!
– Quando eu era pequenininho.
– Ah, sim, isso já mudou.
– É que quanto mais eu mudo, mais fico espantado.
(acorde com essa.)
Tudo começou com São Jorge.
Não, eu não errei de santo. Foi em São Jorge mesmo, um vilarejo perto de Alto Paraiso. Um lugar assim, gostosim, sabe, bom pra dançar um forró…
Tava lá a moça, só observando a dança… De repente, uma mãozinha muito esperta, como quem não quer nada, encostou no seu ombro. Era de um moço que tinha vindo lá da Alemanha, apaixonado pela música e pelas belezas brasileiras…
De repente tudo o que ele sentia pelo Brasil tinha rosto. Era o dela. Mas ele não se contentou só em olhar não: o que os olhos estavam vendo os pés também queriam experimentar. E o Matthias, desinibido que só, a convidou pra dançar.
A moça aceitou, pra alegria do cupido. E eles não pararam numa dança não! Foram duas, três, quatro, até que, ao mesmo tempo… aconteceu.
Um beijo.
Aí pronto. Não deu mais vontade de desgrudar.
Mas a história tava só começando… e era uma noite toda pintada de estrelas, porque São Jorge não tinha luz artificial pra ofuscar o encanto. Então o moço, sabido que era, convidou a moça pra observar o céu. Até encomendou uma chuva de meteoros pra noite ficar mais bonita, e pra ele ficar exibindo seus conhecimentos pra ela.
É, ele entendia de estrelas sim.
(Esse aí tinha um monte de cartas na manga, viu?)
Papo vai, beijo vem, já tinha ficado tarde. E não é que o cupido aprontou de novo? A amiga da Thâmile, que dividia a barraca do camping com ela, sumiu no meio da madrugada levando a chave. Cadê que a moça tinha onde dormir?
Vejam que problema…
O Matthias, muito cavalheiro, lógico, ofereceu um lugarzinho lá na barraca dele. Ela não ia poder ficar no sereno, não ia fazer muito bem pra saúde.
Aí já viu.
Mas nem deu muito tempo de dormir não, sabe? Porque logo o dia já tava querendo aparecer, e lá foram eles ver o sol nascer. A Thâmile ficou meio reticente, inventou uma história de medo de onça, mas o Matthias (já falei que o moço é esperto) logo descobriu uma antena pra eles subirem. É isso mesmo, uma antena. Ficaram lá no alto, sentindo um ventinho gelado no rosto, outro arrepio gelado na espinha, a assim passou o nascer do sol, o café da manhã, e nada da vontade de se separar chegar.
Então eles marcaram outro encontro, pro final da tarde.
A Thâmile chegou lá, na hora certinha, cheia de planos e memórias boas, mas… nada dele aparecer.
(Olha, nessa hora passa o mundo na cabeça da gente, viu?)
Ela já tinha até desencanado, tava lá bebendo uma cachacinha, quando surgiu o Matthias, todo esbaforido. Sabe o que aconteceu? Dormiu. Perdeu a hora! E haja cupidinho com GPS soprando no ouvido dele onde essa moça aí estava! Ainda bem que deu certo!
No dia seguinte, acabou a festa… A Thâmile iria voltar pra Goiás, o Matthias pra São Paulo. Mas isso era distância pouca, porque eles trocaram telefones e depois iam ver como a história ia seguir.
Mas o Saci atacou de novo. Deu um nó no celular da moça, e foi um nó tão bem apertado que deu um pau geral. Ela teve até que trocar de número.
E aí? Já pensou? O moço ali, todo apaixonado, mandando mensagem e nada?
Ainda bem que ele era muito insistente! E ainda bem que tinha pegado também o contato da amiga da Thâmile, aquela mesma que perdeu a chave, aquela que tinha parte com o cupido, sabe?
Pronto, ela colocou os dois em contato de novo, daí já era.
Era ligação pra cá, Skype pra lá, era conversa comprida que ia até três da manhã… Era viagem de quinze em quinze dias pra ver o amor, era moça conhecendo a Monte Azul, era moço comendo pequi de monte, era moça cantando pra ele, era ele tocando pra ela… Era vontade danada de estar junto crescendo, e essa vontade virou mala, virou viagem, virou certeza, virou passagem só de vinda pra São Paulo.
E a moça chegou.
E o moço ficou muito feliz.
E ele, cavalheiro, de novo ofereceu um pedacinho do chão dele pra ela ficar.
(Só enquanto ela não achava um outro canto.)
Ah, mas o canto dele era tão bom!
E o cantar dela era tão bonito!
Não quiseram mais se separar não! Então fizeram casa nova no Butantã, casaram pra além do mar, nas terras onde ele nasceu, casaram de novo no Brasil, num dia de sol e cor, e querem correr esse mundo todo no amor, na dança, na música e na poesia, que foi a primeira casa onde eles se conheceram.
Bendita seja essa gente estranha, com alma de passarinho, que insiste em fazer festa nos tempos de palavra dura.
❤
(Quando a Thâmile me pediu para escrever a história de como ela e o Matthias se conheceram, fiquei honrada. Quem me conhece sabe que eu não resisto a um causo de amô, ainda mais tão verdadeiro! Escrevi a partir dessa atmosfera que eles transmitem, e o texto fluiu tão rápido que parecia estar ouvindo uma contadora de histórias aqui, no pé do ouvido. Só emprestei os dedos.)
Eis que em pleno outono
num fim de um dia,
o inesperado aconteceu:
O menino voou.
Furou a melancolia da tarde com seus dois pés apontados ao alto, com seu grito de êxtase, de quem consegue o impossível. Ria, ria muito, celebrando consigo aquele desatino, aquele vento contrário, o pendular em festa, animado pelo próprio impulso.
Furou minha tristeza dos tempos duros, das tantas injustiças, dos gestos áridos, da fala navalha, do luto carente de espaço, do tempo seco, da vã esperança, do peito vazio.
Atravessou esse vácuo preenchendo o oco,
o grito do menino.
Voou por meia hora, incansável.
Depois desceu, orgulhoso da conquista, e pediu abraço.
Então quem decolou fui eu,
plena de ar novo,
para a terra das infâncias destrancadas.
(para Chico)
Nesse dia de finados, enterro a carne exposta dos meus fracassos.
Velo aqui o meu orgulho.
(dolorido ouro)
E sinto que, atrás dele, desse corpo-armadura do self-made insano,
nos aguarda a civilização de mãos dadas,
não mais de vencedores,
tops,
mas de horizontes compartilhados.
Almas amigas.
Do topo, me restará a vista das montanhas,
lembrando que a vida é plena, e também cheia de vales.
Neles, vivem os rios
que ouvem minha canção dedicada os mortos,
eles, que entendem de fluxo, de quedas,
para depois desaguarem em potência de ondas, ou cachoeiras.
– Mãe, você já reparou que antes todo mundo andava com um spinner e agora ninguém mais brinca? – comecei a manhã com essa indagação.
– Pois é, né? E pra onde você acha que foram todos eles?
– Pro lixo? – o Gabri pergunta, já meio chateado, girando o seu entre os dedos.
– Ou pra um canto da casa, pra depois virar lixo – respondi, já me perguntando se estava ou não pegando pesado.
Gabriel ficou pensativo. Logo mandou essa:
– Isso é triste. Imagina, cada spinner desse, feito com tanto carinho e amor, e as crianças não querendo mais brincar…
Ele foi sincero. Para ele, fabricar brinquedos é coisa séria. É o que o ele vê o pai fazendo todos os dias: vai para sua oficina, fica lá, dedicado, quebrando a cabeça para pensar numa coisa legal, e sai com um brinquedo feito por ele, com carinho e amor.
Para o Gabri, os fabricantes de spinner também são homens como o pai, Djair-Nicolau, que dedicam suas vidas a fazer coisas bacanas – e duráveis – para as infâncias.
Preferi ficar quieta dessa vez. Realismo tem limite. Ele só tem 7 anos, ainda pode imaginar que os brinquedos do mundo sejam todos feitos assim. Não seria eu a pessoa, nesse momento, a desmontar essa linda imagem.
Até porque o futuro ainda não chegou, e nunca se sabe o que pode acontecer.
mãe, será que as estrelas cadentes
são as crianças que estão nascendo?
Gabri, num almoço.
Nos poucos silêncios que nossa vida louca nos oferece,
às vezes contemplo a chuva de prata que se derrama calmamente sobre seus fios escuros.
Como se o tempo não fosse acelerado
Como se a rotina não fosse intensa
Escorre o pra(n)teado pelos anos a fio, lembrando cada uma das tantas travessias.
Desafios mortais, ora em desertos de acidez,
ora em pântanos de desalento.
Eis o conto de fadas da vida adulta: o heroísmo nos mínimos atos cotidianos,
enquanto a aventura grita dentro.
Combatemos feiticeiras, barba-azuis, manipuladoras, assassinos, descrentes da vida, errantes desafortunados,
Combatemos a inconsciência que nos faz refém das vilanias, aquelas que tomam o corpo do ser amoroso.
Mas essas são as provas.
Esses são os percursos que fortalecem, em corrosão, a força do elo.
Por isso sei que te amo. Porque a cada dia, isso é testado. Pelas paisagens interiores, pelo caos do macroambiente, pelas eternas dúvidas que nos chegam da louca década dos nossos 40.
Hoje, meu amor por você é revolucionário.
Porque ele me faz tentar entender sempre, curar padrões, ir além do simplificado e irreal,
além da primeira estampagem que nos finge o romantismo.
Ele nos brinda, espantados,
Como se Romeu e Julieta tivessem renascido após sua primeira morte.
Talvez sim. ![]()