o número de estrelas pintadas na minha pele cresce. aumentam os traçados possíveis de constelações.
a raíz dos cabelos, no alto da cabeça, prateou.
e o rosto já aponta alguns vincos/vales de caminhos conhecidos

de Claudia Pucci Abrahão
o número de estrelas pintadas na minha pele cresce. aumentam os traçados possíveis de constelações.
a raíz dos cabelos, no alto da cabeça, prateou.
e o rosto já aponta alguns vincos/vales de caminhos conhecidos
Quando eu comecei a dar aulas, imaginava que o mais importante era reunir um repertório (o mais completo possível) de conhecimento, organizar tudo de forma “didática” e “transmitir” esse conteúdo aos alunos.
Depois descobri que essa é só a forma. Necessária, porque delimita, mas vazia, se parar por aí. Como um copo sem nada.
Forjei muitas taças. Sem elas, o líquido não se sustentaria. Mas atualmente tenho me dedicado a destilar sutilezas, forjar novos beberes. E perceber que esse ofício é sacerdócio: estar a serviço de algo maior, que a partir do meu próprio conhecimento, resvala. Para isso, é necessário o encontro. E preciso o outro. A troca só acontece entre dois pontos que pulsam, assim se desenham as constelações.
Agradeço aos meus mestres e mestras por terem despertado em mim essa vocação de troca. Recentemente descobri que o prazer de “dar aulas” é o mesmo do beijo: conhecer sabores. E tal qual uma pitonisa, deixar passar por mim o conhecimento acumulado, movido por um desejo de saber de ambas as partes. Mas há que se criar o ritual, as múltiplas intenções afinadas com esse saber. Senão é tudo só informação, e ela se mofa nos arquivos das palavras instantâneas.
Relembrando minhas mestras e mestres, reconheço uma virtude: a disposição ao dar. Ao sentir. Ao colocar seu melhor, síntese de anos acumulados, a serviço das novas gerações. Ao entusiasmo de estar ali, naquele momento vivo, e nada ser mais importante.
Neles me inspirei, e senti o pulso de passar a bola pra frente.
Agradeço a meus “alunos” por serem pontos de novas conexões, por onde esse conhecimento pode seguir fluindo, vivo, sem se empoçar nas curvas. Em cafés, bares ou salas de aula, levantamos nossas taças pedindo pelo néctar. Entendi o papel: reger o ritual, evocar da memória e do próprio tempo o Saber, e pedir para que algo maior aconteça e nos agracie. Hoje entendi: sem essa entrega, não há rito. Sem ele, o intangível não se manifesta. Só há uma boca que fala e olhos dispersos, ouvidos lá fora, dedos em notebooks, em outras conexões.
tem um retângulo com botões. antes era uma caixa, muitas até ainda existem por aí, mas aos poucos estão sendo amontoadas em algum canto mágico do planeta para onde vão as coisas sem utilidade, ainda que funcionem. (mas isso não vem ao caso)
nos retângulos se projetam imagens de um suposto cotidiano. soube que algumas são falsas (a que chamam histórias) e outras verdadeiras (a que chamam História). não entendi a diferença, mas isso não vem ao caso.
gritam muito nesse retângulo iluminado. entre uma coisa e outra, tentam fazer graça, tentam avisar sobre coisas terríveis que acontecem e estão por acontecer (sofrem muito por imaginação), mostram coisas extraordinárias que não fariam muita diferença no cotidiano, mas parecem imprescindíveis. no caso dessas últimas, custam dinheiros.
muito do tempo se passa ali, nos retângulos.
há também outros menores, que parecem pequenos livros abertos. nesse caso, o olhar é anda mais absorto, além de individual. também se carrega no bolso. imagino que em breve existirão na forma de óculos acoplados a fones de ouvido.
para eles, talvez seja melhor que não.
para eles, talvez esse relato seja óbvio, quase como dizer, como se fosse um espanto, que uma árvore tem galhos com folhas. realmente crêem estar fazendo algo útil com os retângulos. mas eu, que só vejo energia nos corpos em movimento, se pudesse sentir angústia, certamente me contaminaria por essa inércia inconsciente.
e se o vicio só fosse daquilo que eu sem saber via como motor? e se o vicio só fosse daquilo que sempre salvava nas noites de dor? e se o vicio só fosse o vazio às avessas, o véu de esteio da minha ilusão? e se a vertigem que agora me zonza a cabeça é clareza de ver a verdade? em vão?
não.
e se agora tá tudo tão solto que nem as palavras dão conta de nada?
do nada?
além?
No silêncio dos dias, agradeço. No silêncio da noite, espero. No silêncio forçado dos meus pensamentos, descubro. De repente, eis que aparece outra ela, outra coisa, outra eu. Não sei se tem nome de eu, porque vem no silêncio do que achava ser pensamento, achava ser corpo, mas descobri ilusão. De surpresa, cavando espaço na fratura, surgindo de um tremor do corpo, brotando de um choro desmedido e inesperado, um ser que sinto ser. Quase me apresento a ela, tão estranha que me parece, apesar de tão familiar e antiga. Brotando de uma quase perda de consciência, brotando de uma terra devastada. Brotando de um hiato, de uma fenda na continuidade. Surgindo da instabilidade, de uma vida que parte de um corpo que fica, confundindo o que se sabia claro, o que se pensava fixo. Abalando certezas. Anunciando rupturas. Agora, em fricção, agora, em conflito, gerando faísca. Lado A, lado B, lado A, lado B, até que sejam de novo um só. Até que se rompa a ilusão de dualidade. Lado A, lado B. A respiração se confunde, servindo a dois seres. Lado A, lado B. Não sei mais de meus apoios. Percebo a mudança a galope, seguro o que penso inutilmente, sabendo que o melhor é ir, sabendo-me no medo do não-ser. Percebo a necessidade de ser humilde, pressinto a mã(e)o que me ampara, peço para que eu acredite num campo de fé estilhaçada. Nem vítima sou, só ser vivente, talvez espantada com o excesso de ar disfarçado de falta. Aceito o novo (a nova?), ainda que em luta. Entendo a extrema necessidade de outras mãos humanas, ainda que também dormentes, mas carregadas de compaixão. Percebo o orgulho que me ata ao que foi. Peço, porque percebo que só me resta pedir. E agir.
Você chegou de repente. Coloriu de rosa claro nossa casa, sutil. Transbordou uma delicadeza doce, sem excessos, volátil. Encheu de esperança o inverno, chamou música de pássaros, chamou outras flores em volta. Você encheu meu coração de alegria, você alterou meu ritmo, você mexeu nos meus líquidos, conectou o meu ser à lua, você me deixou redonda, você também me fez flor. Abrandou meus movimentos, me fez rir. Você, flor de inverno, não pertence à primavera. Sua estação foi uma só. Sua missão foi, e é, colorir o cinza, esquentar o frio, anunciar tempos de outras flores em abundância. Você é minha eterna sakura, gerada no amor dos ventos gelados. Efêmera, partiu de mim, pintada em vermelho, para de novo ser todo, para um dia voltar em contorno. Não mais a mesma, mutante que é. Mas ainda flor.
…
respeitando o silêncio dos invernos
…
Silenciei aqui, tô escrevendo lá. Ainda na toca. Tá meio difícil de sair, porque esse texto vem em formato novo, pra entender o idioma demora mais.
Peça: Jukebox, encomendada pela Alessandra Velho.
Mas tá saindo. Taqui uma fatia.
De desilusão em desilusão se segue. Mas numa hora, fofa, você chega lá. Porque entre uma entrega e uma queda, no vazio entre uma esperança e outra, a gente vive o estado mágico: encantamento.
– Então vou te mandar uns e-mails com emprego, e também de umas agências que eu conheço.
– Tá.
– Você tem acesso à internet? (…) bom, dá pra ver em um ciber também.(…)
Um rapaz gordinho carregando uma bolsinha de alças pequena (dessas que homens adoram carregar, como para provar que carregam pouca coisa) e uma mocinha loira (tingida) com mochila (de penduricalhos) passaram por mim. Perdi parte da coisa. Só pesquei parte do fim, na voz dele:
– Hoje em dia náo dá pra ficar sem, né?
Sem emprego? Ou internet?
ouvi um ciúme de uma namorada cujo namorado estava grudado em mim
ouvi um tsc tsc bem perto da minha orelha (pessoa limpando dentes)
ouvi muitas músicas de fones alheios, que para mim eram chiados ritmados
ouvi meu coração pedindo socorro e mais transporte público
ouvi o espírito selvagem da vida enlatada
ouvi resignações, e a minha própria
ouvi zumbido na cabeça, horas depois.
numsegundosó, não ouvi nada
éramoscorposjuntosbalangandosemrumo.