mãe, o que é guerra?

farpado

 

É sempre assim: essas perguntas surgem quando menos se espera. De onde veio, nem imagino. Provavelmente de algum papo na escola, já que estávamos no caminho de volta pra casa.

O que é guerra?, repeti, como quem tenta ganhar tempo.

É, guerra.

Não queria descrever com fatos, com cenas bélicas, como esses filmes que brotam como mato. Procurei uma definição essencial, aplicável em muitos contextos, e fui arriscando:

Guerra é quando muita gente briga ao mesmo tempo…

Guerra é quando dois bandos querem coisas diferentes, ou disputam a mesma coisa…

É…

Acho que guerra é quando a gente acha que só a gente tem razão.

(daquelas coisas que a gente fala pra gente mesmo)

Aparentemente, serviu. Mas uma pergunta puxa a outra:

E o que é sobreviver?

É conseguir se salvar de um perigo…

(pra mim):

É o estado de quem vive em guerra. Talvez seu único pensamento. 

Sobreviver é restringir a existência.

Como foi seu dia na escola?

pergunta que nunca cala

Mãe tenta vestir a calça no filho. Percebe que a perna está errada. Muda o lado, ainda não encaixa. Depois de um tempo, repara que o que tem nas mãos é uma blusa.
Quando saber o limite entre o cansaço e a insanidade?

As Crianças do Arco-íris

arco-íris

 

AS CRIANÇAS DO ARCO-ÍRIS

Eles eram inseparáveis: uma turminha de estrelas coloridas e brilhantes, que passava o dia todo brincando e se divertindo. Adoravam se jogar de um asteróide de mãos dadas, feito estrela cadente, formando um arco-íris por onde passavam. Eram pura alegria.

Lá do céu, sempre avistavam uma bola linda e azul que parecia sorrir para eles. Quando descobriram que se tratava de um planeta onde viviam pessoas muito diferentes entre si, decidiram que queriam ir para lá. Adoravam novidades. Então correram para a lua, onde as estrelas faziam seus planos para virarem crianças na Terra.

Chegando na base lunar, encontraram os anjos que ajudavam as estrelinhas na sua descida para o planeta: eles escolhiam onde queriam nascer, como gostariam de chegar, em que lugar, a mãe e o pai… E como aquele grupo era realmente inseparável, pediram para ser parte da mesma família, para ficarem juntos pela vida toda. E mais: queriam levar o arco-íris também para a Terra.

O anjo riu e falou:

– Olha, isso que vocês estão me pedindo é um pouco complicado…

– Ah, mas a gente quer continuar com cores diferentes – disse a Luiza

– Eu quero ter cabelo amarelo! – pediu o João

– Eu adoro pele cor-de-chocolate! – pediu Bia

O anjo coçou a cabeça cheia de cachos e pensou: Como fazer para que isso pudesse acontecer?

– Hummm… Para vocês ficarem coloridos lá também, vamos ter que misturar um pouco os pais e mães de vocês… Vamos fazer assim: Luiza e João vão nascer de um mesmo pai e mãe , mas cada um deles nascerá em um país diferente, e a Bia vai nascer de pais mais diferentes ainda. Dessa forma vocês vão conseguir formar o arco-íris de novo.

– Ah, mas se a Bia nascer num lugar distante, como a gente vai se encontrar e morar junto? – Perguntou Luiza

– Ué, é fácil! A gente pode nascer e depois sair procurando por ela – disse João

– Mas João, o anjo falou que lá na Terra tem muita gente, não é? Como é que a gente vai encontrar a Bia no meio daquele povaréu todo?

Luiza e João não conseguiam pensar em nenhuma solução para aquele problema. Mas Bia, que já era muito sabidinha desde sua época de estrela, inventou um plano maravilhoso.

– Já sei! E se eu chegar de barco até a casa onde vocês estão? Eu adoro brincar nas correntes das águas, elas são minhas amigas, tenho certeza que vão me levar direitinho!

O anjo, então, sorriu. Achou que esse plano da Bia, com uma ajuda dos seus amigos lá da Terra, poderia dar certo. Então as estrelinhas saíram, todas muito alegres, fazendo seus preparativos para nascerem no planeta azul.

E, de fato, assim aconteceu.

Na primavera, levada pelo cheiro de mil flores, Bia escorregou como uma sementinha pra Terra. Lá dentro da barriga, enquanto ela ia crescendo e virando bebê, cantava nos sonhos daquela linda mulher que escolheu para ser sua primeira mãe o seu plano secreto.

Assim, quando ela nasceu, tal qual uma pequena lanterna iluminando as primeiras noites do inverno, sua aliada já sabia o que fazer: colocou-a cuidadosamente no seu barco, feito com uma pequena caixinha de sapatos, onde ela poderia ficar acolhida, olhou bem nos olhos dela e disse:

– Minha linda criança, que seja feita sua vontade. Que esse barquinho te leve até sua família, o lugar onde você será feliz.

Dito isso, a mamãe-chocolate deu-lhe um beijo profundo e demorado, cantou a música que chama os anjos, e dos seus olhos deixou correr o rio que levaria Bia até seus novos irmãos. E ela, feliz, sabia que tudo daria certo.

Mas só ali, enquanto navegava, percebeu que havia esquecido de um pequeno detalhe… Não sabia onde era a casa onde estavam as outras estrelas-irmãs! Estava ali, viajando pelas correntes daquele rio, sem saber seu destino.

Ficou desolada… Aquele plano era lindo demais para deixar de acontecer. Bia pensou nas suas alminhas amigas, pensou no anjo, pensou na mulher que primeiro a acolheu, e decidiu: Vou confiar. E entregou-se de vez à correnteza.

O barquinho correu, navegou, até chegar na porta de um homem que conhecia todo mundo naquela região. Esse homem, ao ver aquele lindo bebê recém-nascido num barco-caixinha, pegou-a com todo o cuidado. Nesse momento, o anjo soprou-lhe no ouvido a casa onde morava sua futura família. E ele, com muito carinho, levou Bia ao seu destino.

E assim a turma das crianças do arco-íris se encontrou novamente. Adoram viver em bando com primos, amigos e muitas outras estrelinhas que resolveram também se encontrar no planeta Terra. E hoje continuam correndo, pulando, caindo, levantando, enchendo o ar de graça e cores por onde passam.

E quando alguém pergunta porque essa família é feita de pessoas tão diferentes, eles respondem: porque a gente escolheu ser assim!

😉

(Essa história me foi pedida para uma presentar uma criança -e seus irmãos* – com um conto sobre sua adoção. Quem ganhou um presente fui eu: foi uma honra tão grande que essa chuva de estrelinhas coloridas inudou meu coração de alegria)

*os nomes foram substituídos por fictícios.

o menino de olhos brilhantes

Sem voz há dois dias, com choro enrustido parecendo pecado se saísse em tempos de tanta demanda na fortaleza. No carro, na via travada de sempre, com tanta coisa à frente impedindo a passagem, com tanto excesso, ruído. Secretamente, eu adicionava mais uma memória à minha coleção de fracassos, cansada demais pra ter raiva, ou com raiva demais pra entender alguma coisa. Um mar ao fundo. Água salgada à espreita, muita água. Quem disse que é tempo de seca? Um anúncio hipócrita da Sabesp no rádio, que desliguei num ímpeto de quem dá em alguém um tapa na cara. Se eu me desaguasse inteira ia dar inundação.

Um par de olhos me enxerga. Um par de olhinhos puxados de quase dois anos me observa no banco de trás. Puxa meu foco. Ti foi, mamãe? Como ele sabe? Como pode saber? Me estende a mão, dando conforto, aquele tiquinho que não entende tanta coisa e sabe tanto. Sorriu, lembrando a mim mesma numa foto de infância: quem me sorriu afinal? O sal chega à boca. Não chola mamãe. Uma presença tão evidente que quase se materializa, ainda que invisível. Alguém a mais dentro do carro-presença. A mão gordinha ainda estendida, devolvendo tanto colo já recebido. A certeza de que tudo vale a pena. As águas não mais controladas, certificadas, poluídas pela poeira da aridez. O mesmo sorriso da minha lembrança continuado no seu rostinho, a inocência, a entrega, uma ternura indescritível, a urgência de reencontrar esse espaço em mim para que eu te libere, meu filho, para que eu te libere para crescer.

Esse lugar é seu agora. Você, como eu, atravessará muitos abismos.

Que coisa linda foi ver, uma vez mais, o milagre dos primeiros tempos, lugar onde tudo é possível de tanto que se sente, de tanto que não se pensa, de tanto que se confia.

uma fera por dia

Outro dia, tava assistindo com os meninos As Crônicas de Nárnia. Era a primeira vez deles, e por incrível que pareça (porque eu amo esse tipo de história) para mim também. Para quem não é iniciado nesse universo, essa é uma série de livros (que viraram filmes) sobre quatro irmãos que descobrem a passagem para um reino fantástico, repleto de aventuras. (quem quer saber mais siga o link)

Como em todo filme de aventuras que se preze, ele é repleto de muitos desafios. No primeiro da série, num dado momento, cada um dos irmãos recebe um “presente”, um instrumento que possa utilizar para enfrentar os perigos. Pois bem, o mais velho deles, chamado Pedro, ganha uma espada. E só sobre ele o assunto.

Pra que serve uma espada? Pra se defender, claro.

E para matar.

Matar?

Pois é.

Tenho pensado muito nas histórias de hoje. Obviamente, sendo mãe de 3 meninos, reparo muito nos personagens masculinos, os tais guerreiros. A serviço do que estão? De que discurso? Que ideologia eles sustentam, maquiados nessa coragem extrasupermegablasterheróica?

Mas daquela história eu estava gostando, e testemunhando o Pedro, meu filho, agora com 8 anos, torcendo pro xará dele. E eu torcendo pro enredo me surpreender e não reproduzir o discurso “você-fez-por-merecer-a-sua-morte-seu-modafoca”.

Os inimigos eram feras. Feras más.

Eles avançaram contra Pedro. Provocaram. Incitaram-no a usar sua espada. Ele não a puxou da bainha. A natureza se encarregou de separar o conflito.

Ufa.

Mas claro, surgiu novamente o perigo. Novamente, as feras atacaram. Dessa vez era vida ou morte. Novamente, Pedro se viu no mesmo dilema.

Sem lhe dar muito tempo, a fera pulou por cima dele. Pedro puxou a espada, que acaba rasgando o corpo do animal.

A fera morre.

A espada matou.

No silêncio pós-dramático da sala, eu me pergunto: E agora? O que os meninos acharam disso?

E como quem me lê no silêncio, Pedro diz: Ele virou adulto, né, mãe?

(sem mais.)

 

leaonarnia

uma ponte ao país dos exílios

nem sete, nem um

nem colo constante, nem domínio das letras

nem grande nem pequeno

só o segundo.

 

Não importavam as tantas histórias que eu lhe contava. nada resolvia.

queria mudar de nome, de mãe (surpreendi-me atordoada nessa brincadeira)

mudava de lugar à mesa, buscando nas brechas o que ainda era mutante.

banido de si, nenhuma atenção bastava.

 

(eu que sei desses estados nômades, contemplava minha impotência diante do seu terremoto.)

 

Estava insuportável.

era um pedido de socorro de um náufrago que atirava nos barcos que tentavam lhe prestar socorro.

nós – o pai e eu – declaramos nossa impaciência: o que mais falta fazer?

 

depois, nossa ignorância.

 

Até que também nos reconhecemos nesse lugar de despertencer,

nessa ilha de desassossegos,

e acolhemos o insuportável de nós mesmos banido pra lá de nossos cantos

(havia em mim tanto exílio, e nesse muito, não sei porque, algo nele se reconhecia.)

 

Então consegui dizer a partir de um outro lugar: eu te amo mesmo assim, quando você faz isso.

 

Passaram-se alguns dias

ele novamente quis saber: você me ama mesmo quando está brava comigo?

 

Eu nunca vou deixar de te amar, nem no dia em que eu estiver muito muito muito brava com você. você é meu filho querido, e nunca vai sair do meu coração.

 

A gente nunca sabe qual é o ato que desencanta a dor. Na hora. nem tive pretensão, fui sincera e só. Sem saber, apertei o botão que procurava.

 

Então o vento mudou

ele montou em seu barco

e voltou pra casa.

 

gabribarco

o abraço que mora nas bordas

Sim, tem limite.

É necessário ter.

Mas eu achava que não. É claro, a última memória de ser filha pousava na adolescência, época de romper tecidos, de sair da casca.

Da primeira infância, eu pouco lembrava ao virar mãe. Então não entendia que, para ser irreverente, era necessário primeiro reverência. Que para romper a pele, é necessário suporte.

Isso pode, isso não pode. 

Isso sim, isso não.

corte. frustração.

No começo, tentava outra coisa: negociação. adulação.

Por fim, competição. Sem saber, chorava mais que a criança sedenta de bordas. Reclamava cansaço. Fugia pro espaço (sideral ou virtual). Tinha impulsos consumistas, trocava coisas por sossego: da bolachinha açucarada ao brinquedo psicotrópico, as babás eletroeletrônicas, os passeios estrambóticos.

Mas nada tinha fim.

Nada era suficiente.

Porque eu, no meu desespero infantil, na dor do meu abandono,

dava tudo, menos o fim.

Tudo menos a contenção.

Dava presentes, mas não a presença.

Pedia silêncio e dava ruído.

Acreditava-me frágil, mas não percebia o óbvio: que estávamos em times diferentes, as crianças e eu.

(ou contra mim.)

Eu, vítima dos meus próprios rebentos.

Eu, mulher feita, profissional, inteligente, descolada, amorosa, com resposta pra tudo, sem resposta pra nada, desolada, rendida, irritada.

 

eu, eu, eu.

eu, eu, ai de mim.

 

Não consegui.

Eu explodi.

 

Reconheci meus limites,

aterrei na presença,

dei o que ainda não queria dar, e era a única coisa que eles pediam: a verdade.

dei o que me era mais caro: a frustração de aguentar frustrar, de não me sentir amada (admirada?), boazinha.

 

Aceitei o fato de que era eu a única pessoa que poderia dar a eles a insatisfação das bordas.

( e aí percebi que isso era bem mais que um abraço.)

Mas que também, depois, em consolo, poderia virar abraço.

(forte, profundo lastro)

E as contenções verdadeiras, postas em coragem, abriram meu coração pro amor maior. E aí sim o abraço era acolhida. Reconhecimento mútuo da dor e da alegria de estar aqui, em pele, peito e presente.

“sim, meus queridos. às vezes dói, às vezes espanta, mas é lindo, lindo viver.”

 

E então não éramos mais eles e eu.

Éramos nós

Doce egrégora aprendendo juntos

um melhor ser.

 

um ano de Francisco

foi hoje do ano passado

hoje é chuva,

lá era sol.

mas chovia dentro das veias, eu cachoeirava pelas ventas

t(r)emia nem tanto a dor conhecida, mas a certeza de que você traria atado aos pés um certo tipo de bússola

eu já sentia esse norte apontando com você ainda no ventre

sabia que a vida caminharia pros eixos

sabia que sua existência me cobraria harmonia

e como temer tudo isso?

(não é lógica, é inércia)

e você esperou, paciente, que eu terminasse minhas guerras. esperou que eu gritasse por socorro. esperou que meu orgulho cedesse. esperou que eu desistisse de tudo o que achava ser chão, até que a terra verdadeira me amparasse pelos braços

você esperou, paciente, que a Mãe chegasse à nossa casa

e ela se apresentou

e ela me acalantou

para que eu tivesse forças pra te conduzir e embalar

e ela me encantou

e ela me transformou

até que eu, feita terra,

em terremoto me abri.

 

até que eu, frente à fera,

fiz a entrega e parti.

 

e então,

e só então

você chegou

 

e eu morri.

 

(feliz primavera, caçulinha amado!)

 

chegada de Francisco

primeiro setênio!

 

doce alma em sempre música

nosso menino-passarinho

sabedor do reino dos silêncios

fantasia, em sua mente,

mil castelos dourados

só para dividir com quem ama

o sol do seu encantário

Nesses castelos, inclui a nós todos,

família, amigos, seres imaginados,

somos todos viventes em seu mundo

cabemos todos em seu enorme coração

(sempre acompanhado de abraço)

menino-vento,

menino canto,

agora um ciclo completa.

o mundo de fora, agora, é descoberta.

vai, e leva a ele seu sorriso

que a vida é boa, meu filho, 

e ainda melhor com você.

feliz 7 anos!

pedrojanelinha