hummm…

vida de graça

engraçada

delícia de ser. êxtase

ter muitos tesões por dia

por coisas assim

gozadas

por coisas sagradas

bestas

por risos frouxos

enviados.

aprendendo

(o) Eu

que na sua (minha?) porção rainha

já pisou sobre tapetes estendidos

escarlates

Hoje, elevando, vendo

pisei sobre tapetes púrpuras e amarelos

das ruas em primavera

estendidos não para, mas com.(igo).

Juntas, as cores caídas e eu, agradecemos, horizontalmente, ao tempo de flores.

abrindo as portas do quarto escuro

Tenho medo do passo em falso

Enquanto deveria temer a certeza

pois não é o pé em suspenso, vacilante e instável, que leva ao passo adiante?


Temo as mudanças

ao invés da estagnação.

Ao contrário, a permanência me conforta

as claras respostas vindas das provas concretas.


Peço para que se cale minha dúvida

meus questionamentos,

conflitos.

Que me deixe em paz nessa ilusória permanência de quem recua frente a ele


O medo


Eu, que deveria temer a realidade

temo a mudança

Eu, que deveria temer a certeza,

torturante necessidade

do acerto,

calo minha infantil curiosidade.

Minha intransigente faísca que me impede a certeza absoluta de coisa alguma


Eu, que deveria

deverei,

devo. (embora não saiba o que)


Tenho medo do escuro

mas não entendo o que é a luz.

Só, a sós, sinto seu sibilar

ao passar acerca o livre vento da mudança nas horas boas e mágicas em que o medo se veste de paz.

E dá lugar à fé.

Às vezes, ao firmar o céu,

A gente tem vontade

Quase necessidade

De ver além de estrelas.

do amor em caos cruento I

(*)

Sente

O vapor gelado pelos dentes

sente

a urgência de não esperar a permissão

permita

o selvagem quase sepulto

evita

o perverso da submissão

Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso

recusa

o que é pudico (puto)

mesmo que pareça recato

enxota da alma toda a obediência

dispa-se em meia-noite de lua

no meio da noite do medo. no som da noite do medo.

nem que seja para uma contemplação de si mesma

Resgata a divindade

ser. exatamente

o que a Terra chama

resgata

toda a força que umidece

mas não apenas chora

que empalidece

mas de prazer


Amote a mim

e por isso,

só por isso

também a ti.


(*) esse, entre outros textos, fazem parte da minha primeira experiência como dramaturga. Um processo colaborativo com a amiga Ana Roxo, ainda na ECA, há exatamente 10 anos. A Praça do Relógio estava tomada pela primavera, e na cena final atores saíam correndo de trás de flores gigantes gritando EU TE AMO, entravam num carro e iam embora. uma coisa deliciosa.teve gente que achou besta, mas a gente amou, literalmente.

Um momento especial da vida, mesmo. Essa é a peça que ainda talvez um dia a gente faça.

crepúsculo do claustro

Uma cria,

a outra, crica,

critica a cria chegada

não crê

não cresce,

crispa.

crua, teme o fogo e a chispa

sua cruz.

vem a crise: a outra, crente,

ressurge da criatura

abre espaço na crosta terrestre

ignora a cremação passada.

reprograma cristais

reprograma cromossomos

de cro-magnons aos caraíbas

escravos

unge a ferida dos cravos

parece crime

parece caos

vive, criança, a nova cria:

certeza.

a noite do dia

Seja qual for a idade, anos ou meses, volta e meia nos deparamos com uma verdade incontestável: crescer dói. Mais fácil quando a dor é física, como aquela que dá na perna, uma coisa esquisita que parece que repuxa, e ao reclamar a mãe profetizava: quando crescer, passa. Não. Tem dores que são mais pra dentro. Sem ter nem pra que, o corpo fica inconveniente, inadequado, parece que tudo remexe, como se a gente não coubesse mais em si. E estando do lado de lá, de quem assiste e desesperadamente busca o que fazer: o que fazer? Buscar remédios, decifrar sintomas, buscar sinais de onde vem o foco, buscar o diagnóstico perfeito? E de repente, no meio disso tudo, a intuição de um abraço. Um aconchego. Desses em que se respira junto. De mansinho, os gritos vão dando lugar a soluços, daí pra suspiros, como quem acha, nas primeiras escuridões de tantas que a vida reserva, alguém para compartilhar a solidão. E do lado de cá, de quem aflita assistia à cria, ver que muitas vezes o fazer é só estar. E pedir junto para que a tempestade passe.

o (ainda) cinza do sol

E cobro, cobro, coro, cobro

Como pode você me deixar refém do meu próprio abandono? Essa fuga covarde, na sombra penumbra, de lidar com o medo do outro de ser só e só?

Cobro, coro, envergonho, mas sinto. A falta.

Porque, de repente, um algo só não basta. Não é sempre que conseguimos fazer da própria voz acalanto para noites frias.

7 dias pra não ser mais outra

estou a esse tempo de encerrar tudo
estou sem tempo
estou fora do meu tempo
estou a tempo de mudar
estou sendo outra. Agora quero ser eu, mesmo sabendo que eu é ilusão.

pelo menos quero uma ilusão menos ilusória, com mais gosto de verdade.
será que vou conseguir deixar de ser outra coisa que não seja eu?

E os outros?
e as dúvidas eternas?
e as cobranças?
e?

passei um ano sendo algo que julguei necessário para que no futuro eu possa ser melhor
quero virar este ano virando o jogo
sendo algo melhor porque é mais necessário

21/12. Data palíndromo, data limite. Que eu seja, enfim.