vida de graça
engraçada
delícia de ser. êxtase
ter muitos tesões por dia
por coisas assim
gozadas
por coisas sagradas
bestas
por risos frouxos
enviados.

de Claudia Pucci Abrahão
vida de graça
engraçada
delícia de ser. êxtase
ter muitos tesões por dia
por coisas assim
gozadas
por coisas sagradas
bestas
por risos frouxos
enviados.
(o) Eu
que na sua (minha?) porção rainha
já pisou sobre tapetes estendidos
escarlates
Hoje, elevando, vendo
pisei sobre tapetes púrpuras e amarelos
das ruas em primavera
estendidos não para, mas com.(igo).
Juntas, as cores caídas e eu, agradecemos, horizontalmente, ao tempo de flores.
ambição:
maldição de nunca mais o presente.
do nunca suficiente.
febre intermitente, mas permanente,
ou motor da curva ascendente?
Tenho medo do passo em falso
Enquanto deveria temer a certeza
pois não é o pé em suspenso, vacilante e instável, que leva ao passo adiante?
Temo as mudanças
ao invés da estagnação.
Ao contrário, a permanência me conforta
as claras respostas vindas das provas concretas.
Peço para que se cale minha dúvida
meus questionamentos,
conflitos.
Que me deixe em paz nessa ilusória permanência de quem recua frente a ele
O medo
Eu, que deveria temer a realidade
temo a mudança
Eu, que deveria temer a certeza,
torturante necessidade
do acerto,
calo minha infantil curiosidade.
Minha intransigente faísca que me impede a certeza absoluta de coisa alguma
Eu, que deveria
deverei,
devo. (embora não saiba o que)
Tenho medo do escuro
mas não entendo o que é a luz.
Só, a sós, sinto seu sibilar
ao passar acerca o livre vento da mudança nas horas boas e mágicas em que o medo se veste de paz.
E dá lugar à fé.
Às vezes, ao firmar o céu,
A gente tem vontade
Quase necessidade
De ver além de estrelas.
(*)
Sente
O vapor gelado pelos dentes
sente
a urgência de não esperar a permissão
permita
o selvagem quase sepulto
evita
o perverso da submissão
Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso
recusa
o que é pudico (puto)
mesmo que pareça recato
enxota da alma toda a obediência
dispa-se em meia-noite de lua
no meio da noite do medo. no som da noite do medo.
nem que seja para uma contemplação de si mesma
Resgata a divindade
ser. exatamente
o que a Terra chama
resgata
toda a força que umidece
mas não apenas chora
que empalidece
mas de prazer
Amote a mim
e por isso,
só por isso
também a ti.
(*) esse, entre outros textos, fazem parte da minha primeira experiência como dramaturga. Um processo colaborativo com a amiga Ana Roxo, ainda na ECA, há exatamente 10 anos. A Praça do Relógio estava tomada pela primavera, e na cena final atores saíam correndo de trás de flores gigantes gritando EU TE AMO, entravam num carro e iam embora. uma coisa deliciosa.teve gente que achou besta, mas a gente amou, literalmente.
Um momento especial da vida, mesmo. Essa é a peça que ainda talvez um dia a gente faça.
Uma cria,
a outra, crica,
critica a cria chegada
não crê
não cresce,
crispa.
crua, teme o fogo e a chispa
sua cruz.
vem a crise: a outra, crente,
ressurge da criatura
abre espaço na crosta terrestre
ignora a cremação passada.
reprograma cristais
reprograma cromossomos
de cro-magnons aos caraíbas
escravos
unge a ferida dos cravos
parece crime
parece caos
vive, criança, a nova cria:
certeza.
Seja qual for a idade, anos ou meses, volta e meia nos deparamos com uma verdade incontestável: crescer dói. Mais fácil quando a dor é física, como aquela que dá na perna, uma coisa esquisita que parece que repuxa, e ao reclamar a mãe profetizava: quando crescer, passa. Não. Tem dores que são mais pra dentro. Sem ter nem pra que, o corpo fica inconveniente, inadequado, parece que tudo remexe, como se a gente não coubesse mais em si. E estando do lado de lá, de quem assiste e desesperadamente busca o que fazer: o que fazer? Buscar remédios, decifrar sintomas, buscar sinais de onde vem o foco, buscar o diagnóstico perfeito? E de repente, no meio disso tudo, a intuição de um abraço. Um aconchego. Desses em que se respira junto. De mansinho, os gritos vão dando lugar a soluços, daí pra suspiros, como quem acha, nas primeiras escuridões de tantas que a vida reserva, alguém para compartilhar a solidão. E do lado de cá, de quem aflita assistia à cria, ver que muitas vezes o fazer é só estar. E pedir junto para que a tempestade passe.
E cobro, cobro, coro, cobro
Como pode você me deixar refém do meu próprio abandono? Essa fuga covarde, na sombra penumbra, de lidar com o medo do outro de ser só e só?
Cobro, coro, envergonho, mas sinto. A falta.
Porque, de repente, um algo só não basta. Não é sempre que conseguimos fazer da própria voz acalanto para noites frias.
estou a esse tempo de encerrar tudo
estou sem tempo
estou fora do meu tempo
estou a tempo de mudar
estou sendo outra. Agora quero ser eu, mesmo sabendo que eu é ilusão.
pelo menos quero uma ilusão menos ilusória, com mais gosto de verdade.
será que vou conseguir deixar de ser outra coisa que não seja eu?
E os outros?
e as dúvidas eternas?
e as cobranças?
e?
passei um ano sendo algo que julguei necessário para que no futuro eu possa ser melhor
quero virar este ano virando o jogo
sendo algo melhor porque é mais necessário
21/12. Data palíndromo, data limite. Que eu seja, enfim.