duelo

Anteontem fui ver o ensaio do Três Vezes Vênus. É sempre uma coisa de louco você ver um texto ganhando vida, ver as tantas leituras possíveis do que quando a gente escreve parece ser uma coisa só…

Adoro, amo. Preciso.

E não resisto. Vai aí um pedaço.

JOANA

Era uma mulher-sereia, que tinha nascido sem mãe…Quer dizer, nasceu do canto do vento, naqueles dias que o vento uiva quem nem lobo pra lua…

Era tão linda a mulher-sereia…Mas um dia, se encantou pelo mundo dos homens e pediu ao seu pai um par de pernas para pisar em terra firme. Ele concedeu seu pedido, com a condição de que seu pé pisasse como se a terra tivesse ouvidos, com a mesma delicadeza com que deslizava nas ondas.

E a moça foi…

Mas ela não sabia do que eram feitas as coisas no mundo dos homens, e do sopro que era canto, conheceu a tempestade. E como também não sabia que a mesma matéria que tece a virtude também molda a violência, depois de um tempo já não sabia se era feita de água ou de terra. Daí, virou barro e foi sendo tocada por todos, moldada e desmoldada, até que o que sobrou da água se foi, e ela tornou-se uma estátua. Porém, do seu último contato, ficou uma semente…Que crescia e crescia, desafiando o que já era deserto. E como a sua barriga já era de pedra, o ser cresceu inteiro dentro dela, tomando o lugar do corpo todo, e quando estava pronto para nascer… Teve que fazer tanta força que explodiu o lugar onde estava.Ficaram os dois, a cria nova vinda ao mundo e a moça em carne viva, sentindo outra vez o vento que agora na pele queimava.

MILENA

Ah, mas história pior que essa, é a da mulher-árvore. Nos seus galhos desciam as almas pro mundo dos vivos, escorregando até virar semente na barriga da fêmea que se encostasse nela…E na raiz viviam os mortos, soprando por dentro da seiva a direção certa dos ventos, que ela apontava pro céu soprar. Mas de tanto que olhava pra cima, não quis mais ficar na terra, e de tanto se esticar, porque queria virar estrela, se esqueceu de crescer pra baixo.

JOANA

E a outra olhava a criança que dela veio, mas não saía sorriso. Apenas segurou nos braços e a cria logo pediu leite, como é próprio de quem nasce. E no seu primeiro contato com a boca recém-nascida, de água que um dia fora, sua pele virou fogo, e com esse fogo queimou não só a criança, mas toda mata a perder de vista…

MILENA

E a mulher que era árvore, nem árvore nem mulher mais era. O vento parou, um a um galho secou, porque copa grande raiz nenhuma segura, sai do chão. Daí não tem como puxar a água da terra, nem ouvir vento, nem plantar semente, que alma nascente precisa de vida pra poder descer no planeta.

JOANA

E a outra, fugindo do incêndio, voltou pro mar, apagou com as águas o fogo, mas sua graça já tinha virado cinza. Não ouvia mais vento nem terra, então passou a andar pelo mundo, zumbi disfarçada de gente, procurando entender de que afinal são feitas as pessoas…

Cuidado…Ela pode estar aqui, no meio de vocês…Cruzando seus caminhos…

MILENA

E a outra também fica aí, com essa cara de morta-viva e chamando tempestade, porque é o único jeito de beber um pouco de água, e pedindo ao céu um raio que a parta, porque árvore vive muito tempo pro tempo que ela quer viver…

JOANA

Semente só vale a pena se cair em terra fértil, né não? Senão, nasce pra que?

MILENA

E terra fica fértil como? Deixando ao Deus-dará? Não, né? É deixando a água sair e fazendo o ar entrar, revirar o que tem dentro pra fora, senão vai virar o quê?

CECÍLIA

Saci-pererê!

o desmonte da cidade

Vivo numa cidade que não é natal mas é a eleita para viver. Uma metrópole que decidi amar, porque achei uma cidade dentro dela.

Vivo as alegrias de tudo que Sampa tem, já tão cantada. Vivo a intensidade dos dias.

Também vivo revoltada com o que fazem dela. Uma câmara dos vereadores vendida a empreiteiras, CRIMINOSAMENTE, fazendo da cidade gato e sapato. Recentemente, o PARQUE DA ÁGUA BRANCA é a bola da vez. Olhos atentos, hoje e sempre.

Há três anos, escrevi uma peça para a Cia de Domínio Público que tinha como tema a transformação radical da cidade. Era uma história meio absurda, que para meu terror vai se tornando cada vez mais real. Lá, a prefeitura contratou uma grande empreiteira para “reformar” toda a cidade. Em pouco tempo, as pessoas já não achavam suas casas. As obras também abriam grandes crateras no chão e o problema é remanejado como solução: pouco a pouco a periferia ia sendo alojada nos buracos, tornando-se uma nova categoria de cidadão: Os buráquios. E por aí vai.

Quem se interessou pode ler na íntegra, é divertida e cômica, apesar de tudo. Coloco aqui um pedacinho…

CENA 10 – CIGANA E O ARQUITETO

Entra uma figura estranha, uma espécie de cigana. Ela fala uma linguagem cifrada

ARQUITETO

Boa tarde…boa noite…eu vim pra…

CIGANA

O senhor tem dúvidas?

CIGANA

Quer saber o que?

ARQUITETO

É… bem… estamos empreendendo um projeto bastante grandioso

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que tem tudo para dar certo!

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que vai mudar completamente a nossa concepção de uma organização social, política, econômica…

CIGANA

O senhor veio me consultar ou fazer propaganda?

ARQUITETO

Quem nunca sonhou com um lugar limpo, em paz, finalmente, onde nós poderíamos simplesmente viver?! Não foi para isso que nascemos, para viver bem? E por que, meu Deus, nunca tínhamos conseguido isso? Finalmente, eu entendi! Era falta de organização! Então idealizamos nosso sonho! E agora ele está aqui, acontecendo! Os planos estão corretos. O projeto anda bem… A população anda colaborando… O poder executivo está executando muito bem as etapas… Esse é um projeto perfeito, entende? Uma obra de arte! É a realização de tudo aquilo que sonhávamos quando ficávamos presos em um congestionamento… Quando, na rua, víamos a pobreza brotando das calçadas…

CIGANA

E qual é o problema, então? O senhor quer que eu preveja o que o senhor acha que esqueceu de prever?

ARQUITETO

Isso! A senhora adivinhou meus pensamentos!

CIGANA

Eu não adivinho, eu vejo.

Pausa.

Ela olha profundamente para ele, que fica incomodado.

Ela faz um gesto para que ele se sente na sua frente. Começa a ler a cabeça do arquiteto, como uma bola de cristal

CIGANA

Eu vejo…

Ela começa a fazer uns sons meio cantados, meio palavras balbuciadas, até que se entende alguma coisa

CIGANA

Gavião, gavião, gavião, gavião…

Abre-se a terra em terremoto provocado

É pior que tsunami

É buraco com cimento

Todo mundo foi jogado…

Submersa, submerso…

a vontade soterrada

fluxo retornado

socado pra dentro do ventre,

postura contrária ao que reza a vida,

a vida, ferida, no fototropismo,

que tenta saída por cima de novo,

o cima, concreto, não deixa saída,

a vida, ferida, irrompe o concreto…

A massa, tremenda, contida na terra

não pede, mas toma, o espaço perdido

tal qual como rio que fora aterrado

um dia irrompe a casca do ovo

e ri dos que tinham outrora vencido…

A cigana volta do transe, meio assustada com o que viu.

O homem espera uma resposta. Ela recobra a calma

CIGANA

São duzentos reais.

ARQUITETO

Como assim? Você não me disse nada! Só um monte de palavras sem sentido!

CIGANA

O seu entendimento do que eu vi não é parte do meu trabalho. É seu.

ARQUITETO

Então me fala claramente! Eu esqueci de alguma coisa?

CIGANA

O senhor está se esquecendo de escutar!

ARQUITETO

Pois eu não vou pagar por isso!

CIGANA

O senhor vai pagar sim! Pode ter certeza!

matéria dos sonhos

Essa peça curta foi apresentada no Satyrianas em 2008, dirigida pelo Sandro de Cássio Dutra, e interpretada por Maria Clara Spinelli. Não pude ver a montagem, estava viajando, uma pena.Mas a Maria Clara me mandou uma fotos lindas, deve ter sido bom.

Depois teve uma leitura no primeiro DCC, o evento de dramaturgia contemporânea realizado no Núcleo Bartolomeu. Aliás, maravilhoooooso, maravilhoooso espaço para a palavra nova. Linda idéia, todo mês tem. Só não vou com mais frequência porque o Gabriel é novinho, ainda mama e insiste em falar junto com os atores em cena…

Lembrei dela nesses dias, talvez o tema esteja ainda fresquinho.

Matéria dos sonhos

Mulher (ou homem) cercada (o) por comprimidos. Nas mãos, um pacote de presente.Olha para o pacote por um tempo, até que resolve abri-lo.Retira dele um cristal de rocha bruto e uma carta.

Deixa o cristal no chão e pega a carta com certo desânimo.

Ela/ele a lê

MULHER/HOMEM

Querida(o) amiga(o),

(por que todas as cartas começam assim? Que falta de imaginação…)

Querida(o) amiga(o),

Há tempos, por dolorosas experiências, aprendi que não há como transmitir registros ou sentimentos. Isso se dá por ressonância, e só o que podemos fazer é vibrar. Então vibro essa carta, esperando que ela reverbere no seu vácuo. Talvez ainda haja uma partícula de algo que possa conduzir o dentro de mim para dentro de ti.

São épocas difíceis, não? Talvez, por isso um cristal.

Homem/mulher olha em direção à pedra jogada no chão. A partir de agora, a carta não mais é “lida”, ele a cita como se já a soubesse.Sua postura varia entre o ceticismo e a fé.

MULHER/HOMEM

Desde pequena, pego pedras no chão. Um dia, na fazenda do meu avô, descobri algumas que brotavam da terra, várias eram transparentes. Encontrei meu tesouro, pode imaginar o que foi isso aos olhos de uma criança? Pedras coloridas e brilhantes brotando da terra, acessíveis às pequenas mãos que cavavam o solo. Não era só a beleza do feito, nem a beleza dos minerais. Era a concretude da magia.

Observe um cristal. Milhares de microformações, alguns têm pontas. São os senhores do tempo, banalizados nos relógios. A glândula pineal também tem cristais, pelo que descobri. Há quem diga que eles sejam guardiões de informações pelos séculos, há quem percorra neles infinitos caminhos. Há quem pendure no pescoço porque a pedra brilha e reflete a luz. Entranha essa natureza dos seres vivos e inanimados, em que uma mesma coisa pode ser uma pedra enterrada na terra ou um portal pra outros mundos. Nesse caso, essa que você segura nas mãos é um presente. É uma daquelas do meu tesouro de infância, daquelas que eu tirei das terras do meu avô, terras que antes eram de outro, até que, voltando mais, eram terras da Terra, e só. Esses cristais são do tempo sem ilusões das cercas de propriedade.

Eles foram, para mim, uma espécie de cura. Não o tipo de cura atribuída às pedras, mas a cura da fé no sagrado. Algo, em mim, foi tomado há um tempo que não consigo prever, nem ver. Lembro de uma discussão com um primo que me trouxe a revelação do engodo: Papai Noel não existe. Lembro da minha eficiência em defender minha crença, na raiva do herege que testava minha fé no mundo invisível, da fúria e da ânsia em segurar um tesouro que parecia escoar pelos dedos a cada palavra maldita, a simples verdade revelada. Verdade? Não sei se foi aí, ou antes, talvez, mas algo trincou. A magia do mundo escoou pelo buraco negro, portais foram fechados. Um objeto era só um objeto e o que não se vê não existe.

Eu vejo a pedra. Ela existe. Um belo pedaço de mineral.

É humilhante essa queda. É humilhante crer tanto, com tanta devoção e entrega, e se sentir lesado. Sabe qual é a vontade? Dormir para sempre, até que alguém te acorde desse pesadelo do real.

Porque o mago tornou-se o mágico. Sabe, aqueles que enganam a gente, na televisão ou ao vivo? Mesmo que ele não revele seu truque, sabemos ser um truque. Fingimos nos deliciar com esse truque com a esperança daquele ser um mago disfarçado. Um Merlin escondido nessa época de descrença, esperando para se revelar ao mundo. Esperei por um truque não revelado pela ciência, pelos que sabem da verdade das coisas, pelos que se ocupam em tirar véus.

Era mais fácil viver desse jeito? E o que eu podia fazer com a crença sem dono que ficou em algum lugar aqui dentro? Um ímã buscando algo a se conectar, buscando um complemento, um novo eixo central. Nunca mais, um buraco negro dizia. Nunca mais com os dois pés, com o peito aberto. A ferida ainda sangra, e não só no peito, mas nas costas. As asas dos anjos foram arrancadas de súbito, e voar virou coisa de fantasia. Coisa de só um sonho.

Só um sonho.

Mas eu voava em um avião. Foi, realmente, uma infância engraçada. Voava em um teco-teco, um fusca de asas decolado do aeroclube da minha antiga cidade. O amigo de meu pai precisava cumprir horas de vôo para ser piloto, e esse era o programa de alguns domingos. Eu ia sentada no banco de trás olhando as nuvens. Lembro – e lembro mesmo, porque ninguém viu – de dar adeus aos anões da Branca de Neve que via nas nuvens. Lembro de já não acreditar na existência deles. Não era um adeus, era um chamado, um pedido por algo que se apresentasse e provasse que minha falta de fé não tinha fundamento. Mas eram apenas nuvens, e seguiram sendo.

A pedra é uma pedra, bem palpável. Eu podia olhar entre elas e ver cores. Será que essa que eu te dei tem arco-íris?

O mais engraçado é que o mundo invisível não existia mais para as minhas fantasias, mas era muito real para os meus medos. Por que ele só existia para as coisas ruins? Uma guerra nuclear era tão impalpável quanto uma fada, mas a guerra nuclear eu sentia, como um animal à espreita. Como se pode sentir algo que não existe? O sentimento não é concreto?

Depois, mais tarde, eu senti o amor. O amor também não era palpável, nem ruim, e eu senti. Será que eu sentia porque ele se vestia de alguém? Alguém sentível?

O cristal eu sinto na pele. Apertando contra a mão, ele até machuca. Por que a gente precisa se machucar ao sentir?, nem precisaria, se a gente conseguisse ficar só no sutil. Mas a densidade das coisas prova a sua existência no mundo concreto.

A delicadeza é concreta, e é sutil. Ela existe?

A pedra é delicada, apesar da natureza bruta das pedras. Nela, guardei um pedido, um pedido de transformação, de que se largue o velho, de que se abra espaço para um novo ser que suporte a felicidade como estado constante de espírito.

Os cristais vibram, não é? A felicidade é invisível, mas pode transparecer em sons. Escuta.

FIM

primeiro ensaio de coisa nova

Ontem aconteceu uma coisa. Dessas coisas que podem passar batido se a gente não coloca tento. Ontem foi o primeiro ensaio do Três Vezes Vênus, um texto muito querido que escrevi há um tempo. Conta a história de três mulheres que fazem um show mambembe para sobreviver.

No caminho, não registrei um aperto no estômago que achei que teria. Estranho.

Lá, não fiquei nervosa como achei que ficaria. Estranho.

Durante a leitura do texto, não me defendi: ouvi. E, juro, fiquei emocionada, e não tensa. Estranho.

Saí do ensaio tranquila, feliz, sem a sensação alienígena que costumava ter, como quem estava em terras estrangeiras pedindo licença para estar. Então percebi o que eu sempre soube, que vinha dessa terra mesmo, do tal teatro. E era casa, e era a mesma sensação deliciosa e todo-dia de tomar café quentinho de manhã.

do três vezes vênus, que o Paulinho vai montaaaar!

Coçar os olhos

Abrir os olhos

Olhar o longe embaçado

Saber-se sem horizonte

Mas marretar a parede

Porque tijolo é de barro, não de pedra

E barro, assim como coisa de terra

teima em ceder,

fazer curvas.

Aí eu rasgo uma fenda na parede

E mesmo sem ver, amparo.

E enlaço o horizonte com o fundo dos olhos

Lugar onde formam imagens

do tempo da espera,

esperança

papo meio besta antes de dormir

E você dormia vendo o teatrinho dos bichos de pelúcia na estante.

Era mesmo

Dizia que todos mexiam

Era mesmo

E eu ficava olhando pro vão debaixo da escrivaninha pensando que lá poderia abrir uma porta mágica

Tipo Alice

É, tipo Alice. Imaginava coisas que poderiam ter atrás da porta

Mas não era legal?

Não. Porque eu não acreditava que aquilo existia

Se você me falasse, eu ia acreditar

Lembra quando você queria me convencer que veio de outro planeta?

Você quase acreditou

Eu nunca acreditei.

Mas você acreditava que eu via os bichinhos mexerem

Ué, mas isso eu sei que você via

Sabe como, se só eu via?

Sei lá, mas nisso eu acreditava

E era por causa do revenil.

Era por causa do revenil…

(pausa)

Será que o papai sabia que o remédio te dava alucinação?

Acho que ele preferia a gente alucinada que doente.

Ele ficava bem louco com a gente doente, né?

É, ficava bem louco.

(pausa)

Lembra que você só dormia depois de fechar todas as portas dos armários e conferir todas as chaves das portas?

Era pra não sair nada de lá.

Ué, mas nisso você acreditava?

Nisso eu tinha dúvidas.

Aí, pelas dúvidas…

É.

(pausa)

Eu morria de medo. Aí eu fiz um acordo: se eu dormisse pra cá, eles poderiam aparecer. Mas se eu dormisse pra lá, eles não teriam o direito de me atrapalhar.

Funcionava?

Funcionava.

E por que esse era o lado bom?

Porque nesse eu conseguia te ver.

Você tinha muito medo, né?

Muito.

O papai tinha muito medo, e a mamãe também.

A mamãe tinha medo de raio e trovão. Mas o papai tinha medo que a gente morresse doente.

Por isso o revenil.

É. O redoxon e o revenil.

pausa

Você ainda tem medo?

Muito.

três vezes vênus (fatia)

Risca um fósforo. Acende um cigarro.

JOANA

Foi assim que tudo começou…

Assim que fizeram os perfumes

E as bombas

A razão do homo sapiens

Homem sapiens, mulher sapiens

H-o-m-o s-a-p-i-e-n-s

E agora é assim, portátil

A gente carrega no bolso

Fogo pro rabo, pro cigarro, pra cabeça

A gente risca e psssssssssssssssssss

Faz a mágica

Logo apaga

E joga fora.

mais um tequinho da peça

Uma vez eu fui com minha mãe no cemitério. Foi a única vez, pro enterro de uma tia. Era um lugar muito lindo, um dia ensolarado. Eu era pequena, mas já entendia o que era a tristeza, então queria saber por que num lugar tão bonito as pessoas choravam em vez de fazer pic nic. E também perguntava por que tanto espaço sem gente brincando, e por que tanta flor se nem gente tinha pra ver, e antes de outro por que minha mãe explicou:

– Porque quando a gente morre, que nem a tia Mena, vira flor.

– Mas e quando a flor morre, vira o que?

– Semente. E espalha na terra toda.

E eu, que era gente com nome de flor, ia virar o que? Outra flor ou semente? Como eu ia me esparramar na terra sem deixar de ser uma coisa só? Eu ia perguntar pra mamãe, mas nessa hora ela tava chorando. Deixei pra perguntar depois, muito tempo depois. Mas eu já tinha esquecido aquela pergunta, então quis saber por que meu nome era aquele.

– Porque você nasceu com um sol dentro na cabeça, um sol amarelo que nem miolo de margarida.

O segredo da noite escura

(trecho de peça nova ainda no forno…)

E ela carregava na frente uma terrível imagem poderosa. E ela carregava à sua frente a imagem dela mesma carregando o filho morto, partido, partido por raios, partido pelas espadas, partindo para fora de sua vista, de sua vida, de suas asas. E era esse o destino futuro do qual ela fugia. Era esse o fantasma dos tempos vindouros, era essa a marca passada projetada pra frente feito filme em tela, feito coisa que se lança sem se pertencer. Como poderia um fantasma do passado assombrar daquela forma algo que ainda não veio? Como poderia algo sem existência existir, ainda que em mente, tingindo de escuro todo o caminho adiante?

Mas ela não se lembrava, não sabia em que momento a culpa tomou lugar da fé em seu coração. Teria sido no primeiro momento de aflição não acudida? Um primeiro abandono na primeira infância, um mero instante eterno perdido em tantos cotidianos? Que teria gerado tamanha mácula que contaminou, nesse momento, toda a vida nascente?

Ela também não sabia.

Mas nesse momento, ela via claramente a luz do seu maior pesadelo. Mirava a cena uma e muitas vezes, com o desespero de experimentar a realidade terrível por uma e muitas vezes, como se assim a imagem pudesse derreter, desaparecer, desmaterializar, de tanto ser vista. Mas não era assim que funcionava. Então ela passou sete noites olhando o quadro, olhando em silêncio. Um silêncio aterrador, um silêncio sem movimentos. Nesse tempo, sua boca secara sem água, seus olhos quedaram estatelados de tanto buscar o invisível, o indizível e o encoberto.

Então percebeu, de tanto ver sem ver, percebeu que na imagem algo além da Pietá, algo além do luto. Percebeu a rigidez de alguém que tenta deter o espírito, deter a própria morte, numa devoção infinita ao corpo débil. Percebeu um espírito em luta, raivoso, em silenciosa batalha contra o destino, contra os deuses, contra morte, contra a própria vida. E o que mais lhe espantou, então, não foi o olhar doloroso da perda, mas o olhar petrificado, eternizado, da culpa.

Onde foi que tudo começou? No momento em que descobriu que a vida era perecível, teria ela desistido de viver? Teria se sentido traída por ter recebido uma dádiva finita, como uma piada dos deuses? Aferra-te à vida, e quando estiveres apaixonado, ela escorrerá pelos seus dedos. Inútil será sua tentativa de reter o espírito, feito de matéria impalpável. Teus dedos não bastam, nem teu amor.

(…)

Era só dor o que sentia, mas sabia que havia algo mais fundo. Então sentou-se ao sol como quem pede socorro, deu as costas ao sol como quem se dá a um abraço. E sentiu as costas curvadas pelo peso da vergonha de ainda não ser. Entre os ombros, o centro côncavo, cova que ocultava um segredo – o que seria? Não lhe foi dado o direito de entender, pensava. Pois se seus ombros fizeram do peito uma gruta, algo frio e úmido, também não sabia o que ocultava, o que protegia com tanto afinco, mas nesse movimento fez-se pedra, e suas asas atrofiaram pelo desuso.
Mas sentou-se ao sol, e sem saber do que necessitava, pedia. Pedia pelo invisível, pelo indecifrável, pois não encontrava o que era, só sabia que algo faltava. Pedia a absolvição de uma pena que ela mesma se impusera, pensando que merecia. Que havia feito de tão terrível? O que ocultava? Um segredo antigo, que nem ela ainda lembrava. Então ficara ali, na cela vazia, já nem mais trancada, sem nada nem carcereiro, numa obediência invisível a um deus ignoto.

Então sentou-se ao sol como quem pede socorro. Então deu-se o direito à luz como quem, mesmo em dúvida, se permite a dúvida do que ainda dorme. Então subverteu a condenação às sombras e sentou-se ali, humilhada, doída, ferida, estilhaçada, sentindo o sol às suas costas, um breve afago de bondade sem nome. A mente fervilhando de perguntas não respondidas, a alma reivindicando o prêmio pelo bom comportamento de séculos. Mas não era nada além da luz e do calor em silêncio. Não havia respostas. Mas àquela altura, depois de tanta batalha, bastava o calor. O silencioso calor. Apesar dos seus bramidos, da sua cega obediência sem palavras. Sem caminhos, mas também não havia sentença. Não havia nada, apenas o calor.

Talvez um riso, distante. Como algo ou alguém que, do pedestal da eternidade, achasse graça de sua pequena noz de orgulho onde se aprisionara. Achasse graça de como alguém poderia curvar-se com tanta reverência a um castigo auto-imposto. Assim como nos parece patético um pássaro que bate contra o vidro em pleno vôo, e cai.

E ela olhou para o pássaro caído com a certeza de sua morte, ainda que estivesse ainda vivo. De que importava adiar o momento? Não era dor ou sadismo o que experimentava, era apenas um leve torpor em observar a vida lutando para ainda ser vida. Inútil tentativa da matéria em seguir coagulada no tempo; nem mesmo o sol, estrela máxima, mas também mortal, lograria o feito.

E ficou um tempo mais, com o sol finito pelas costas, e o pássaro ferido se debatendo, e ela imóvel, inerte, buscando um por que em tudo aquilo, pensando que talvez fosse tudo miragem em pleno deserto sem água. Então sentiu sede. Então percebeu há quanto tempo havia estado ali, passado sem água, sentindo só dor e nada mais. E uma necessidade de água tomou conta dela, escorreu pela curva convexa de seu passado ao sol, uma necessidade sem dúvidas, sem perguntas, era apenas necessidade.

E cavou o chão com as unhas, e buscou onde havia vida, e naquele momento nada mais importava, somente a fonte.

E sentiu uma última vez o sol pelas costas, ele que já partia. E ela, ao deixar de ser o reflexo de seu calor, percebeu que estava vestida de lua. Vestida de mistérios e terreno árido, como um grande refletor de luz noturna atingindo sua carne, o solo da Terra. Ergueu as costas, ergueu os braços, não sabia se era sede, desespero ou reverência, mas no torpor da boca seca, transbordou reverência e rezou.

Senhora,
Ensina-me, no amor,
A não temer mais a noite.
Ensina-me a ver, nos seus contornos de prata,
Luz sutil.
Ensina-me a fé
Luz generosa que guia a noite
Luz que suporta a quietude
Da beira do abismo
Senhora, que empresta seu corpo para que algo do sol nos chegue na noite escura,
me ensina
A humildade de ouvir
A coragem de ver e saber.

Não sabia há quanto tempo havia ficado ali, de braços erguidos, mas percebeu que chorava um choro doce, sem sal, como lágrimas da própria lua devolvendo a ela algo perdido.
E embriagou dela, do líquido, e levou da fonte ao pássaro, na delicadeza urgente de quem redescobre o por que, de quem redescobre a importância de se manter vivo o que parecia ter fim.

Voa, voa para trás da primeira mágoa, da primeira ferida. Voa além da cicatriz do tempo, praquele lugar de sonhos intactos, lugar onde se cura e reintegra a confiança. Voa, livre, e espera o novo sonho sem máculas, espera a nave que te levará a seu destino. O novo nome que te levará. Voa além das ilusões do próprio sofrimento, além da ilusão das feridas, voa até a margem do abismo e salta. O lugar da não-separação, onde o corpo recobre as asas. Voa, voa, voa, praquele lugar onde a vida é vida e os sonhos são apenas a vida ainda não realizada.

E uma dor antiga tomou posse de suas entranhas, tomou cada espaço vazio entre elétrons de cada célula e fez-se urgente que algo saísse. Além de suas dúvidas, de sua culpa, de seu ilusório controle, além de qualquer impedimento, tal qual represa estourada, ali ela estava, e algo inominável tomou conta dela e lançou-a num tempo sem tempo. E ela se encostou em algo desconhecido, suas costas em carne viva, ela se encostou numa presença divina até então irreconhecível, e deixou-se partir. Deixou-se parir. E sentiu a pele na pele, preenchendo o que antes era o côncavo do segredo, pulsando a surpresa da chegada, o peso do milagre recém-nascido.

sangue novo brotando

Alguma coisa exige mais fé do que um salto de fé sem fé?

Ela não se imaginava, assim, pendurada, se fosse pensar pouco tempo atrás. Andava entre planícies colhendo maçãs, mordia as mais doces pra justificar o trabalho. Andava no plano. Num mundo plano e extenso, tal qual os mapas antigos, os que terminavam no abismo.

Agora, era ele. Era ela, o abismo. De frente pra ele ela estava, surpresa que ficou da planície ter fim. Recém-chegada nas bordas, pensou em dar meia-volta e percorrer novamente todo o mundo plano cruzando as duas metades. Mas uma vez que se vê o fim, já não tem volta. Então ela se jogou. E para sua surpresa, ao invés do vazio infinito, percebeu-se num poço sem fundo.