não, não vou mais poetizar o presídio,
lustrar o pedestal reluzente das vítimas,
ou justificar minha mediocridade pelo pacto comum dos mártires.
a partir de agora, vou pisar na lama
sujar o pé de tentativas. ser opaca.
aceitar a solidão de ser única
afrouxar o corpo, passar entre as grades
colher os frutos das árvores (na grande floresta de dúvidas)
sem garantia. sem glamour. só liberdade.
travessando
há dias que passam
outros acontecem
tem dias que a gente atravessa
outros atravessam a gente
nesses dois últimos, se vive.
coisas que filhos nos dão pra pensar e que servem pra tudo na vida
sim, eu posso.
posso ser violenta, se esse for meu jeitinho.
posso ser violenta, se for conveniente.
posso ser violenta, porque às vezes é justificável.
posso ser violenta, porque às vezes é mais rápido.
posso ser violenta, porque preciso de você agora!
posso ser violenta cedendo à sua pressão (e te odiando em segredo por ter me violentado)
posso ser violenta, porque às vezes o outro merece (ou preciso impedi-lo de ser mais violento que eu)
mas tenho que saber que isso não muda nada. na melhor das hipóteses, adia o confronto para um novo momento, onde ainda seremos dois times: o “você-que-me-violenta” e o “eu-preciso-me-defender-de-você”
Não-violência ativa exige energia livre. Exige ficar, e não ceder ao impulso de abandonar o outro à sua compulsão. Exige não ceder à delicia de deitar o braço (mesmo um braço simbólico), à catarse de se deixar levar pelo turbilhão de uma força que, ilusoriamente, chamo de minha, mas é coisa que também me toma, e também me bate.
Não-violência depende de muito amor. muito amor mesmo. incondicional, para que eu te acolha numa atitude totalmente fora de minhas expectativas. e muita escuta.
Abraçar você no seu “pior”, na sua treva de sobrevivência, naquela hora em que você me agarra e quase me afoga como tábua de salvação, é tarefa árdua, quase titânica.
Mas às vezes, eu consigo. E só assim, consigo também nos salvar. Então é tarefa humana.
Depois de ver tudo isso, posso até ceder ao beijo da violência e me enganar, mas dura pouco.
já sei que é preguiça espiritual.
francisco:
promessa de casamento
o cabeça grita: mais!
a corpo pede: paz!
mas sei que a dupla se ama.
estou dando uma de cupido
e, enfim, sentirei: mais paz.
língua do B
a boca do bebê baba
e beijo babado de bebê
é bom é bom é bom
entre leites e tomates
– Eu não sou uma pessoa boa. Eu só faço coisas ruins.
– Claro que você é uma pessoa boa, meu filho! que bobagem é essa?
Provocação ou não, a declaração me entrou como uma faca.
Ela me chegou depois de uma bronca: uma espécie de autoconsciência depois da décima arte para puxar o foco. Porque eu não tive tempo de pegar tomates, e veio a retaliação. Não era só fome: era vontade de amor. E o amor estava direcionado a nutrir o irmão menor, de nem quatro meses. Mas Gabriel, de quase quatro anos, o atual filho do meio, não entende, nem pode entender, o que é parar o mundo para precisar alimentar alguém.
É difícil aceitar. Eu bem que sei.
Depois de amamentar e ninar o caçula, fui atender o pedido. Dei mais: tomates, beijos, um abraço e uma conversa. Mas aquela frase doeu ouvir. É claro, havia uma certa dose de chantagem emocional, mas era verdade: ele não podia evitar fazer coisas “ruins”, porque queria atenção. Eu queria você, mãe. E teve. E depois disso, abriu um sorriso e disse: Agora o dia está feliz de novo.
Então entendi, mais do que nunca, que a gente nunca pára de amamentar. E que o começo é só um começo, um grande treino de escuta. E que a rede de apoio daquele começo (para as mulheres que tem essa sorte) pouco a pouco se dissipa, o bebê se incorpora à rotina, e as muitas atividades batem à porta, uma a uma, completamente ignorantes da sua falta de tempo ou excesso de cansaço.
E em várias vezes por dia, é necessário parar.
Parar para nutrir
parar para ouvir
parar para dar.
E a gente. no olho do furacão, tentando não olhar para as tantas coisas pendentes, inacabadas, para as expectativas, pra coisas no fogo, pra um texto pra escrever, outro pra revisar, pra volta ao trabalho, pra casa caindo, especialmente a interna. Sim, é um presente, estupendo presente. A quantidade de ensinamentos que desce com o leite é enorme, cada parada é um transe, se a gente consegue silenciar e escutar.
Mas o silêncio é conquista, ele não vem tão facilmente.
E pesam as coisas que e deveria estar fazendo, as pessoas que eu deveria estar atendendo, o trabalho, os outros filhos, o namoro pendente, os projetos adiados, a vida que mudou completamente, o tempo que insiste em correr além da minha conta, o medo de que o circo pegue fogo sem minha presença onipresente, e o pavor de olhar para o espelho e ver atirada à minha cara, por próprio julgamento, a ofensa:
Eu não sou uma pessoa boa.
Porque eu não dou conta. Porque me falta paciência. Porque me sobra intolerância. Porque sinto calor, porque me sinto sozinha, porque é tão assustador ser responsável por um ser tão frágil, porque tanta coisa… porque não posso ir ao beco diagonal, comprar uma varinha mágica e dizer: tempus paratus! Porque o braço dói. Porque dói não entender por que às vezes um banho mais demorado do que deveria é mais importante, mesmo que ele esteja chorando… E que às vezes concluir um texto (como esse) é tão urgente que não dá pra adiar um minuto. É difícil entender porque não consigo ser igual à todas aquelas que amamentam serenas, sorrindo, com coluna ereta e posando pra foto. Pelo menos não o tempo todo.
Mas sim, há outro lugar possível. Além do caos dos pensamentos. Além das ansiedades.
Porque às vezes acontece um tempo divino, e um olhar me conquista. Um sorriso ainda mamando. uma mãozinha que me toca o seio. Aí o tempo é eterno. E faz valer a pena, além do que dizem os médicos, as obrigações de mãe, os órgãos públicos, as outras mães.
Aí entendo porque a natureza me fez assim, mamífera. Entendo porque alguma coisa lá dentro de mim, além dos moralismos, me fez seguir por essa opção. Apesar do trabalho, apesar das pressões, dos preconceitos, dos medos.
Porque é sublime.
Aí sou nutrida, e a imagem se espelha: com um bebê no meu colo, vejo-me apoiada no colo da Mãe. E tantas e tantas maravilhas me chegam, vertendo em leite divino o amor necessário para enfrentar o que seja.
E isso vai muito além.
Porque depois do desmame, dá pra transformar esse tempo em abraço, em beijo, em novas atenções. Em outras escutas. Vira um lugar sagrado, onde se nutre e se é nutrida.
Então que esse tempo nunca seja ocupado com nada menos importante, é o que eu peço. Assim posso ter coragem para ouvir tantas e tantas frases duras e difíceis, passar por situações novas, e saber que terei condições de ver um sorriso brotando de novo.
Amamentar é só o começo. Ainda bem.
Eu sou G
Ontem estive numa loja para uma troca. Peguei tudo M e sem experimentar, mas chegando em casa, ficou apertado.
Fiquei com vergonha.
Não mais do meu corpo – do meu preconceito.
Nem vou entrar no assunto das padronagens, da diminuição das numerações e bla bla bla, que isso é marmita requentada. Vou falar da minha dificuldade em ser grande. Em ocupar espaço. Em ser quem sou, fora da medida considerada – por quem? – ideal.
Então aceitei. Aceitei a música do tempo desenhada em mim, aceitei todas as ondas deixadas pelas gestações, pelos anseios, pelas gulas, pelos medos. Aceitei a medida do presente: não é o corpo do passado nem aquele que poderá ser estreitado por uma nova dieta: agora sou.
E sou G.
Saí da média.
Deixei pra trás a mediocridade.
Desencanei das maneiras.
E quero ocupar meus espaços. Com minhas medidas, com minhas palavras, com minha presença por inteiro.
Porque é revolucionário não pressionar a pele.
Então liberei a dança pintada no corpo: que vá para onde deseja. E leve, então, meu ser, sem a pressão da cabeça ou dos elásticos, para o tamanho que eu necessite.
E que 2014 seja de pura expansão: das palavras, do meu alcance, de minha consciência,
e da liberdade.
como educar um saci
Gabriel, meu filho
o que que eu faço com você?
Você tá virado do avesso, me virando junto
você é o filho do Menino Maluquinho com a Emília. Sem medo da Cuca, e discípulo do Saci.
você é insubordinável, irreverente, inflexível nos seus fins,
mas flexibiliza os meios, tem ginga da malandragem: olhos atentos.
nasceu com pleno domínio de cada músculo, mas escolhe cair o dia inteiro. Porque tem a cabeça na próxima diabragem.
você é, pintado, meu riso de infância.
você tem a coragem que eu nunca tive para as desobediências.
você é aquele amigo da escola que eu adoraria ter.
mas você nasceu meu filho.
e aí? o que eu faço?
o que que é “educar” você?
o que fazer com essa parte minha que se recusa a se dobrar a qualquer coisa? que não dá aval pra castigo, que cospe (ou esculpe, como vc diz) na ordem estabelecida?
O que fazer naqueles dias na borda do limite, com nervos à flor da pele, com o caçula no colo e o mais velho na frente, quando preciso que você me obedeça e desejo, secretamente, que você nunca obedeça a ninguém?
que raio de função é essa, a de te ensinar limites? te ensinar que o outro existe, e que às vezes você passa da conta?
te ensinar que a existência do outro não é uma pedra no seu caminho? que o outro sente – inclusive dor – e você também?
você, que brotou do pó da obra, na construção desse lar que a gente vive. Você que veio ordenar o caos naquele momento, e agora coloca a casa abaixo.
só me resta te mostrar que você tem coração.
só me resta te ajudar a ouvir sua música, e perceber que com outros a gente faz uma orquestra de tambores em diferentes tons.
você é um desafio, maluquinho, porque é a parte que eu gostaria de ter sido, mas tinha moralismo demais na frente.
espero que meus braços não sejam prisões, mas um trampolim para alavancar seu vôo.
espero ter amor suficiente para superar meus próprios limites, porque às vezes o cansaço é grande. porque me mostra o ridículo de segurar o curso do rio, o curso do riso. quebrar a cabeça da lógica da ordem. espero que você, no meio dessa bagunça, esteja forjando bem seu caminho.
espero que fazer a coisa certa talvez não seja sempre fazer a coisa certa,
entre um tombo e uma bronca, entre um choro e um riso, a gente acerta.
eu sei que você consegue.
eu sei que eu também. porque te amo.
criando
não que me sinta obrigada a justificar silêncios…
mas para os que passam por aqui de vez em quando, quis deixar um recado: ando metida em outras criações.
na vida, meninos.
na tela, uma peça que há três anos desafia minhas certezas.
nessa casa do delírio, onde entro por saudade, deixo uma imagem da alegria do presente. pros mais chegados, é só chegar em casa e tomar café ao vivo. 😉



