abrindo as portas do quarto escuro

Tenho medo do passo em falso

Enquanto deveria temer a certeza

pois não é o pé em suspenso, vacilante e instável, que leva ao passo adiante?


Temo as mudanças

ao invés da estagnação.

Ao contrário, a permanência me conforta

as claras respostas vindas das provas concretas.


Peço para que se cale minha dúvida

meus questionamentos,

conflitos.

Que me deixe em paz nessa ilusória permanência de quem recua frente a ele


O medo


Eu, que deveria temer a realidade

temo a mudança

Eu, que deveria temer a certeza,

torturante necessidade

do acerto,

calo minha infantil curiosidade.

Minha intransigente faísca que me impede a certeza absoluta de coisa alguma


Eu, que deveria

deverei,

devo. (embora não saiba o que)


Tenho medo do escuro

mas não entendo o que é a luz.

Só, a sós, sinto seu sibilar

ao passar acerca o livre vento da mudança nas horas boas e mágicas em que o medo se veste de paz.

E dá lugar à fé.

Às vezes, ao firmar o céu,

A gente tem vontade

Quase necessidade

De ver além de estrelas.

só por hoje…

aproveita o feriado e se dê um presente. não, a gente não é mais criança, talvez até esteja ocupado em dar aos filhos, sobrinhos, garotada em geral, um dia especial.

mas hoje eu percebi que às vezes “trabalho de ser mãe”. trabalhar de brincar?

então pelo menos por hoje vou lembrar do que é brincar de verdade. perder a noção do tempo, da limpeza, de quem se é. porque, em sendo criança, quem se é ainda nem é com tanta força, só depois se fica apegado.

sentir a vida como presente, êxtase, dádiva.

sentir o dia passando sem perceber que o dia passou.

do amor em caos cruento I

(*)

Sente

O vapor gelado pelos dentes

sente

a urgência de não esperar a permissão

permita

o selvagem quase sepulto

evita

o perverso da submissão

Aceita o que é puro, mesmo que pareça devasso

recusa

o que é pudico (puto)

mesmo que pareça recato

enxota da alma toda a obediência

dispa-se em meia-noite de lua

no meio da noite do medo. no som da noite do medo.

nem que seja para uma contemplação de si mesma

Resgata a divindade

ser. exatamente

o que a Terra chama

resgata

toda a força que umidece

mas não apenas chora

que empalidece

mas de prazer


Amote a mim

e por isso,

só por isso

também a ti.


(*) esse, entre outros textos, fazem parte da minha primeira experiência como dramaturga. Um processo colaborativo com a amiga Ana Roxo, ainda na ECA, há exatamente 10 anos. A Praça do Relógio estava tomada pela primavera, e na cena final atores saíam correndo de trás de flores gigantes gritando EU TE AMO, entravam num carro e iam embora. uma coisa deliciosa.teve gente que achou besta, mas a gente amou, literalmente.

Um momento especial da vida, mesmo. Essa é a peça que ainda talvez um dia a gente faça.

a dupla camada da realidade

É uma árvore gigante que mora onde moram meus pais.

Não sei quantos anos tem, mas é uma entidade. Linda, dançando rumo ao céu, dançando rumo ao centro.

Num dia, rodeando e contemplando, vi numa fenda do tronco algo além. Muito além.

Se eu ainda fosse criança, acreditaria em portais.

Não sendo mais, ainda acredito. Um manto, um cajado, figuras, essências esculpidas no tempo. Um mago? Sacerdotisa? Talvez.

diário de et: coisas difíceis de entender

Nesse último domingo, a espécie se mobilizou para escolher seus representantes nos “cargos de poder”. Pelo que entendi, eles preferem votar uma vez só, para não precisar escolher mais nada nos próximos 4 anos, ainda que essas escolhas os afetem diretamente. Incompreensível, como muitas outras coisas que ando pesquisando por aqui.

Para os cargos executivos, eles levam a escolha bastante a sério. Fazem debates públicos, que se parecem bastante aos programas de humor que também produzem. Apesar de haver diversos partidos, as partes no horário da TV não são iguais, o que me confunde um pouco quando releio no dicionário  o conceito da palavra democracia. Apesar das várias opções, sempre terminam nas mesmas duas. Talvez se sintam perdidos com muitas escolhas, depois de um longo período de ditadura, que graças ao Deus deles, dizem que terminou.

Para o legislativo, eles são mais relaxados. O maior representante eleito é um palhaço, o que demonstra o enorme senso de humor dessa espécie. Talvez seja para continuarem com o epíteto de “país da piada pronta”. Ou, quem sabe, é um representante contemporâneo dos bobos da corte. O que também me confunde um pouco, porque pesquisando a função histórica dos bobos da corte, da bufonaria, não corresponde ao personagem eleito, cujo humor é bastante raso e pouco provocador. Talvez ele ainda carregue consigo alguns outros cadidatos não eleitos, ou seja, que ninguém quis, mas mesmo assim vão decidir sobre leis que afetarão a todos. Por esse motivo estranho, alguns tem chamado o palhaço de “cavalo de tróia”, uma outra referência histórica vinda do mesmo povo que inventou a democracia. Uma última curiosidade: tiririca também é o nome de uma praga que dá em grama, e se alastra bastante. Em Brasília, além de muito concreto e espaços vazios, há muitos gramados também.

programa de quinta

Ontem dei um pulo no DCC. Como já comentei, um puta espaço bacana pra nova dramaturgia. Na definição da Fernanda D’Umbra, a debatedora da noite, a roda de samba da dramaturgia. Sem frescura, sem nada, uma hora pra improvisar um texto com tema dado na hora. É um espírito festivo, dionisíaco, delicioso.

Tema? O Inesperado. Taí o resultado

Dramaturgia de Improviso 30.09 – autor Claudia Pucci

DCC – O Inesperado

RUBRICA

Gilda, mulher poderosa,linda,sensual,maravilhosa mesmo, risca um céu estrelado com os dedos. Olha fixamente para o desenho criado. Está satisfeita.

GILDA

(em completo êxtase)

Finalmente:um auto-retrato.

RUBRICA

Ela desenha numa grande tela a imagem vista no céu: um auto-retrato. Pergunta-se, em segredo, para quem poderia enviar a carta,que autoridade mundial teria autoridade mundial para batizar uma nova constelação. O nome? Gilda.

GILDA

(ainda em completo êxtase)

Nenhum lugar seria mais apropriado. Os mapas estrelares são imortais. Sabe-se lá, com essas tecnologias de hoje, o que ainda será armazenado nos próximos quinhentos anos. Mil anos. Mil e novecentos anos. Alguém duvida que existiram as catedrais? (para alguém do público) Você. Você duvida que existiram catedrais? Já foi em Notre Dame? Nem eu, mas você sabe que existe, não é? E ainda existirá. Sabe por que? Porque é grande, imponente, maravilhosa, inesquecível. (faz uma pausa dramática) Agora me diz: Se uma catedral que é uma coisa de pedra fica milênios existindo, imagina nós, que somos gente, matéria animada. A gente deveria ter esse direito também!

RUBRICA

A atriz faz um ar maroto de mistério, como se tivesse a posse da idéia mais genial de todos os tempos.

GILDA

Então eu decidi: Se todos me consideram uma grande estrela, por que tenho que ser imortalizada somente em filmes? Ainda mais agora, que é tudo digital? Virtual? Tem algum cineasta aqui? Vocês agora nem tema dignidade de filmar em película! Não sobra nada! Imagina se acaba a energia elétrica? Quem vai saber de mim? Tudo o que eu fiz,a minha vida toda vai virar sabe o que?

RUBRICA

Gilda pega um tubinho de bolinhas de sabão e começa a soprar bolinhas na platéia. As bolinhas formam bolas perfeitas e absolutamente redondas, dignas de admiração plena. Atingem seu ápice em forma e múltiplas cores e rapidamente desmaterializam-se, como é próprio das bolinhas de sabão. Gilda observa a cena entristecida,como se presenciasse a maior tragédia jamais encenada pela história humana.

GILDA

Então eu decidi: Serei imortalizada como uma verdadeira estrela deve ser: um auto-retrato no céu. Um traçado perfeito ligando pontos brilhantes, compondo a perfeição de um rosto inesquecível: A partir de hoje…

RUBRICA

Ela faz uma longa pausa dramática

GILDA

Serei a constelação das constelações! Gilda.

RUBRICA

Gilda volta seu olhar novamente para o céu,como forma de se certificar que o traçado ainda estava lá. Ela traça novamente o auto-retrato com os dedos, mas sente que algo falta. Alguns pontos desapareceram da perfeição do seu rosto. Indignada, ela se pergunta se alguma das estrelas cometeu a indignidade de cair, atrapalhando a fluidez do traço. Busca novamente o desenho, agora passando da indignação a um leve desespero. Teria sido ela traída pelos deuses? Seria ela mesma uma estrela cadente?

GILDA

Cala essa boca!

RUBRICA

Em total descontrole, ela…

GILDA

Ninguém está descontrolada aqui!

RUBRICA

em total negação do descontrole, ela…

GILDA

Por favor, cumpra apenas o seu papel!

RUBRICA

Eu sou a narradora soberana da cena!

GILDA

Você é uma reles rubrica, não um grilo falante!

RUBRICA

Já me enchi de rubricar adjetivos maravilhosos ao seu respeito.

GILDA

Então vá reclamar no sindicato das rubricas!

RUBRICA

E por um acaso eu disse alguma mentira?

GILDA

Claro que sim! Você me chamou de descontrolada!

RUBRICA

Eu só narrei seu estado psíquico!

GILDA

Eu estava dramaticamente alterada! Com o coração em frangalhos. Descontrolada nunca! Isso é coisa de gente louca.

RUBRICA

Eu só descrevi seu estado psíquico.

GILDA

Só faltava agora eu ficar te dando explicações! Cai fora, você tá demitida!

RUBRICA

Nunca, em mais de cem anos de cinema, alguém reclamou do meu trabalho!

GILDA

Tudo tem a primeira vez.

RUBRICA

Marlene Dietrich, Lauren Bacal, até a chatinha da Vivian Leigh… Todas concordavam com a minha visão cênica!

GILDA

Ela fala pausadamente, como só uma grande mulher o faria: adeus!

RUBRICA

Você acha que se vira sozinha, não é?

GILDA

Gilda, recuperando sua dignidade, prefere o silêncio como resposta.

RUBRICA

A rubrica sai, totalmente digna. Não considera o acontecido como demissão, apenas mais um caso de negação entre tantos que já conheceu. Ela, que era antiga,já conhecia de cor aquele texto, e já sabia que voltaria. Porque ainda que momentaneamente sua presença fosse descartada, já tinha vivido demais com os homens e mulheres desse mundo para saber de sua necessidade. Tamanha era sua solidão que criavam Olimpos imaginários, eleitos entre eles próprios, só para ter a perene sensação de ser tocados e aceitos pelos deuses.

GILDA

Ela, num ato súbito de generosidade, ainda lhe dirige mais três palavras: Até nunca mais!

RUBRICA

Até breve.

FIM

duelo

Anteontem fui ver o ensaio do Três Vezes Vênus. É sempre uma coisa de louco você ver um texto ganhando vida, ver as tantas leituras possíveis do que quando a gente escreve parece ser uma coisa só…

Adoro, amo. Preciso.

E não resisto. Vai aí um pedaço.

JOANA

Era uma mulher-sereia, que tinha nascido sem mãe…Quer dizer, nasceu do canto do vento, naqueles dias que o vento uiva quem nem lobo pra lua…

Era tão linda a mulher-sereia…Mas um dia, se encantou pelo mundo dos homens e pediu ao seu pai um par de pernas para pisar em terra firme. Ele concedeu seu pedido, com a condição de que seu pé pisasse como se a terra tivesse ouvidos, com a mesma delicadeza com que deslizava nas ondas.

E a moça foi…

Mas ela não sabia do que eram feitas as coisas no mundo dos homens, e do sopro que era canto, conheceu a tempestade. E como também não sabia que a mesma matéria que tece a virtude também molda a violência, depois de um tempo já não sabia se era feita de água ou de terra. Daí, virou barro e foi sendo tocada por todos, moldada e desmoldada, até que o que sobrou da água se foi, e ela tornou-se uma estátua. Porém, do seu último contato, ficou uma semente…Que crescia e crescia, desafiando o que já era deserto. E como a sua barriga já era de pedra, o ser cresceu inteiro dentro dela, tomando o lugar do corpo todo, e quando estava pronto para nascer… Teve que fazer tanta força que explodiu o lugar onde estava.Ficaram os dois, a cria nova vinda ao mundo e a moça em carne viva, sentindo outra vez o vento que agora na pele queimava.

MILENA

Ah, mas história pior que essa, é a da mulher-árvore. Nos seus galhos desciam as almas pro mundo dos vivos, escorregando até virar semente na barriga da fêmea que se encostasse nela…E na raiz viviam os mortos, soprando por dentro da seiva a direção certa dos ventos, que ela apontava pro céu soprar. Mas de tanto que olhava pra cima, não quis mais ficar na terra, e de tanto se esticar, porque queria virar estrela, se esqueceu de crescer pra baixo.

JOANA

E a outra olhava a criança que dela veio, mas não saía sorriso. Apenas segurou nos braços e a cria logo pediu leite, como é próprio de quem nasce. E no seu primeiro contato com a boca recém-nascida, de água que um dia fora, sua pele virou fogo, e com esse fogo queimou não só a criança, mas toda mata a perder de vista…

MILENA

E a mulher que era árvore, nem árvore nem mulher mais era. O vento parou, um a um galho secou, porque copa grande raiz nenhuma segura, sai do chão. Daí não tem como puxar a água da terra, nem ouvir vento, nem plantar semente, que alma nascente precisa de vida pra poder descer no planeta.

JOANA

E a outra, fugindo do incêndio, voltou pro mar, apagou com as águas o fogo, mas sua graça já tinha virado cinza. Não ouvia mais vento nem terra, então passou a andar pelo mundo, zumbi disfarçada de gente, procurando entender de que afinal são feitas as pessoas…

Cuidado…Ela pode estar aqui, no meio de vocês…Cruzando seus caminhos…

MILENA

E a outra também fica aí, com essa cara de morta-viva e chamando tempestade, porque é o único jeito de beber um pouco de água, e pedindo ao céu um raio que a parta, porque árvore vive muito tempo pro tempo que ela quer viver…

JOANA

Semente só vale a pena se cair em terra fértil, né não? Senão, nasce pra que?

MILENA

E terra fica fértil como? Deixando ao Deus-dará? Não, né? É deixando a água sair e fazendo o ar entrar, revirar o que tem dentro pra fora, senão vai virar o quê?

CECÍLIA

Saci-pererê!

palavrões da minha infância

didi mocó sonrisal colesterol novalgina mufumo (que o Renato Aragão se incumbiu de matar)

supercalifragilistiexpialegocious

leitemaltadocaramelizadocomflocoscrocanteseumdeliciosochocolatenestlé (cholocate com espinhas)

inconstitucionalissimamente

otorrinolaringologista (meu pai)

paralelepípedo (minha rua)