pele de pêssego

Todo mês ela subverte. Em seguida, cede. Não por falta de coragem, mas por já ter introjetado a crueldade do padrão. Triste: ao terminar, sente-se melhor, ainda que o antes seja um sempre martírio. Sempre adiado. Às vezes, um mês escapa, em trégua. Ela finge não perceber, finge não perceber-se.

Uma vez entregue ao ritual, tem que ir até o fim. Parte por parte, sacrificando a carne. Há quem o faça entre outras, entre revistas e fofocas. Mas só de pensar na possibilidade dos olhos cúmplices, das mãos cúmplices, ela gela: não. Terá que fazer com as próprias mãos. Dizem que ela o faz da forma mais dolorosa, hoje há tecnologia para menos – pra que? Não. Ela resgata, a cada vez, a dor da primeira. Como se mil agulhas entrassem pelos poros, e todo o sofrimento tivesse como recompensa uma única verdade: está mais bonita.

Mais tarde, crescida, percebeu o engodo. Já era tarde, já estava contaminada da necessidade de se livrar deles. Sem perceber, usava como metáfora o verbo desmatar. E só há pouco percebeu a natureza velada dessa coincidência: colocar-se a serviço da prestação de serviços. Ser permeável, nunca selvagem, dificultada. Ser lisa, macia, suave.

Hoje, a pele acostumada nem chia tanto. Chio eu, alma ferida, domada, submetida. E com vergonha, muita vergonha, pela brecha aberta no ser, coloco a cera fria no papel transparente.

DCC

Lá vou eu de novo falar do DCC. Mas merece, merece, merece.

Ontem, apesar da chuva torrencial, rolou, e foi muito, muito bacana. Pra gente que escreve, poder ver o texto vivo, lido no susto, é bom demais: revela tudo, a força, os problemas. Tem que ter desapego, é um jogo. Mas sempre muito divertido, com cara de papo de bar, daqueles bons sem vontade de parar. Aliás, tem bar também.

Ontem fui sorteada – agraciada pela sorte mesmo: ter o texto lido por Ana Roxo e Tica Lemos, e debatido por Silvana Garcia. Obrigada, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, por esse espaço dedicado aos autores. Obrigada, Dani e Luaa, por me ajudar a cuidar dos meninos enquanto eu ouvia as leituras (sim, ainda se pode levar as crianças, coisa rara por aí). Muito obrigada mesmo.

Depois da discussão de ontem, vou mexer no texto. Mas vai aí como foi lido, pra quem quiser. Pode baixar aqui também, se preferir.

ENSAIO PARA QUARTA DE CINZAS

Uma moça está empunhando uma bandeira. Ela canta, e gira a bandeira, como uma porta-estandarte, enquanto a platéia entra

GLORIA

…Será

Que eu serei o dono dessa festa?

Um rei

No meio de uma gente tão modesta

Eu vim descendo a serra

Cheio de euforia para desfilar

O mundo inteiro espera

Hoje é dia do riso chorar

Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar

Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá, eu levei

Levei o meu samba pra mãe-de-santo rezar

Contra o mau-olhado eu carrego o meu patuá

Acredito…

Ouve-se um apito.

Homem entra na cena, olhando por todos os cantos, enquanto fala

HOMEM

É isso que dá colocar nome de gente! Fica tudo abusado, desobediente!

(ele começa a girar em círculos. De repente, se dá conta do que está fazendo e pára)

Apolo! Vem já aqui!

(tempo)

Aqui Apolo! Junto!

(olha constrangido para a platéia)

Na minha casa, cachorro sempre teve nome de galinha, e galinha não tinha nome pra gente não ter apego.

(pega o apito e toca. Desanima)

Gloria, ao ver o homem, arruma-se.

Ela revela ser uma dessas moças que ficam nas esquinas segurando bandeiras de lançamento de prédios.

Observa ao redor. Ao perceber-se sem vigília, arrisca cantar novamente, agora a plenos pulmões, como uma diva dos palcos.

GLÓRIA

…Acredito ser o mais valente

Nessa luta do rochedo com o mar

E com o mar…

É hoje o dia

Da alegria

E a tristeza

Nem pode pensar em chegar

Diga espelho meu

Se há na avenida alguém mais feliz que eu

Diga espelho meu

Se há na avenida alguém mais feliz que eu…

Aos poucos, ouve-se um som de construção de prédios. Britadeiras, marretadas. Às vezes, esses sons se parecem a um rugido de bicho. Também ouvimos motos e carros.

Entra Maristella, também com uma bandeira. Coloca-se em outra posição

Ao vê-la chegando, Gloria interrompe a cantoria


GLÓRIA

Tá fazendo o que aqui? Não era hoje?

MARISTELLA

Pensei que era amanhã!

GLÓRIA

Mas é hoje!

MARISTELLA

Você disse que ia marcar na sexta-feira 13.

GLÓRIA

Sexta já é carnaval, ficou pra quinta, não lembra?

MARISTELLA

Ai meu Deus! Que horas são?

GLÓRIA

Tá no tempo. Se eu fosse você, eu já ia. Ela não gosta de atrasos.

MARISTELLA

Mas e aqui?

GLÓRIA

Se o fiscal passar, eu invento desculpa

MARISTELLA

Não sei se eu quero ir…

GLÓRIA

Você me diz isso agora? Marquei faz um mês, e nem tinha vaga!

MARISTELLA

Ai, Glória, eu morro de medo. E se ela disser só desgraça?

GLÓRIA

É um risco que a gente corre…

MARISTELLA

O que ela te falou?

GLÓRIA

Não posso dizer. É segredo.

MARISTELLA

Então foi coisa ruim

GLÓRIA

Não foi não. Foi ótimo!

MARISTELLA

Coisa boa a gente conta sem medo

GLÓRIA

Quem disse que é medo? Se a gente fica falando a coisa não acontece.

MARISTELLA

Fala só um pedacinho, assim, genérico.

Maristella consente. Faz um suspense, até que fala, esperançosa.

GLÓRIA

Eu vou subir!

Maristella fica esperando o resto da história, o que não acontece.

MARISTELLA

Só isso? 50 paus só pra saber isso?

GLÓRIA

Não foi só isso que ela disse. É só isso que eu quero contar.

MARISTELLA

Subir aonde?

GLÓRIA

Na vida, oras! No palco! Vou conseguir ser cantora, ela disse! Onde mais se sobre?

MARISTELLA

No telhado. Seu gato subiu no telhado, seu gato caiu do telhado, seu gato morreu!

GLÓRIA

Não devia ter contado…

MARISTELLA

Você cantora, e eu o que será? O que será que a vida me guarda? (divaga) Ô Glória! Tô pensando em mudar meu nome. Stella Maris, que tal?

GLÓRIA

Tá parecendo nome de prédio.

MARISTELLA

Você não sacou não? É uma inversão…Maristella, Stella Maris…Será que ela vai achar que dá sorte? Ela faz numerologia?

GLÓRIA

Só tem um jeito de saber, né?!

MARISTELLA

Então eu vou, pronto.

GLÓRIA

Se for, vai já. Já tá na hora e você com você andando o tempo dobra!

MARISTELLA

Seu tempo não é o meu.

Maristella vai saindo. Ao caminhar, percebemos que ela é manca. O cabo da bandeira torna-se uma bengala. Dá alguns passos e vira-se novamente para Glória

MARISTELLA

Fica esperta mesmo pra ver se ele vem. Esse cão tem um olho em cada esquina…

Maristella …Stella Maris…

Maristella sai

O homem volta

HOMEM
Apolo! Apolo!

(tempo)

Aqui Apolo! Junto!

(pega o apito e toca. Desanima)

HOMEM

Nem que eu viva por novecentos anos, nunca vou entender a razão idiota que leva um cachorro perseguir um carro que anda em uma velocidade visivelmente superior à dele.

Passa o tempo

Volta Maristella. Toma seu lugar, sem nada dizer. Gloria espera um tempo, ansiosa, e nada. Até que ela não agüenta.

GLÓRIA

E aí, o que ela te disse?

MARISTELLA

É segredo.

GLÓRIA

Mas eu te contei o meu!

MARISTELLA

Porque quis.

GLÓRIA

Ingrata! Deve ser coisa ruim!

MARISTELLA

Praga de peste não pega.

As duas ficam um tempo agitando as bandeiras

MARISTELLA

Eu não vou agüentar não falar!

GLÓRIA

Eu sabia…

MARISTELLA

Mas você não disse que ela disse que se falar não acontece?

GLÓRIA

Você quer que o que ela falou aconteça?

MARISTELLA

Depende. Não sei

GLÓRIA

Então conta só um pedaço

Maristella hesita, mas acaba falando

MARISTELLA

Estava lá, claro como cristal…(imita a cartomante) No domingo de carnaval, no auge do desfile, você vai conhecer o grande amor da sua vida…Você saberá quem, porque a partir desse momento, sua vida será transformada.

Faz uma pausa dramática, depois segue o relato

MARISTELLA

Serão dias tão intensos que você perderá a noção do tempo e espaço. Você será aquela que sempre sonhou ser, cada segundo será de pleno êxtase, e nada parecerá estranho ou proibido para vocês. Nesse momento, você entrará em contato com uma força divina que mudará toda a sua vida…

GLÓRIA

Nossa…

MARISTELLA

Até que…

GLÓRIA

Até que…

MARISTELLA

Na quarta-feira de cinzas…

tempo

GLÓRIA

Fala, o que tem a quarta-feira de cinzas?

MARISTELLA

Nós vamos morreeeeeeeeeeerrrrrr!!!!!!!!!!!!

GLÓRIA

Morrer de que?

MARISTELLA

Ela não conseguiu ver. Mas disse que era com ele. E ainda disse que seria uma morte linda!

tempo

GLÓRIA

Como ela sabe que vai ser linda se não sabe como você vai morrer?

MARISTELLA

Ela viu nós dois abraçados, sorrindo. E a cara do cão da morte baforando nas nossas costas!

GLÓRIA

Será que ela não quis dizer morte no sentido figurado?

MARISTELLA

Eu tô com medo!

GLÓRIA

Medo de que? Nem é tão ruim assim!

MARISTELLA

Credo, não fala isso não, bate na boca!

GLÓRIA

Viver muito pra que? Pra passar mais tempo balançando essa tralha?

MARISTELLA

Minha filha, e eu vou lá passar a vida nisso? É só até o carnaval.

GLÓRIA

Vai pedir demissão?

MARISTELLA

Fico até conseguir trabalho.

GLÓRIA

Eu tô falando isso há três anos.

MARISTELLA

Você é que é preguiçosa e não corre atrás.

GLÓRIA

Nem você, que é manca.


Ficam um tempo quietas.


GLÓRIA

Você consegue sambar mancando?

MARISTELLA

Sambando ninguém nota a perna.

GLÓRIA

Faz tempo que você é assim?

MARISTELLA

Desde que caiu uma lasca de ferro lá de cima…


As duas olham para cima, para o prédio em construção


GLÓRIA

Lá do alto?

MARISTELLA

É. Bem na coxa.


Silêncio


GLÓRIA

Faz tempo então, né? Esse trabalho… Pensei que isso aqui era um bico antes do carnaval.

MARISTELLA

Todo ano tem carnaval!

GLÓRIA

Então daqui a um ano eu te encontro numa esquina dessas. Isso se você ainda estiver viva, claro!

MARISTELLA

Sai pra lá! Porque não se mata você, ô mau agouro?

GLÓRIA

Eu já tentei. Não deu certo.

MARISTELLA

Como?

GLÓRIA

Pular da cobertura. Uma coisa me segurou


As duas olham para cima, para o prédio em construção


MARISTELLA

E que coisa foi essa?

GLÓRIA

A raiva. Eu tava com uma raiva tão grande que parecia estar parafusada no chão. Uma âncora. Acho que a minha vontade de matar era maior do que a minha vontade de morrer.

MARISTELLA

Você precisa de mais amor no coração, Glória…(percebe que Gloria se ofendeu) Raiva do que, hein?

GLÓRIA

Raiva de ter que morrer levando junto uma vidinha de merda. Não achei justo sair daqui sem levar nada que preste de lembrança.

MARISTELLA

De onde você quase pulou era alto assim, é?

GLÓRIA

Era mais alto ainda

MARISTELLA

Chique assim? Diz aqui que é um duplex, vai ter até cinema!

GLÓRIA

Não. Era um prédio público.

MARISTELLA

Ainda bem, é menos perigoso…


Glória olha para ela, sem entender


MARISTELLA

Se é público, não é de ninguém… Pelo menos você não ia presa.

GLÓRIA

Mortos não vão presos!

MARISTELLA

E se você sobrevivesse?


Silêncio


GLÓRIA

Escuta…Você perguntou em que ano isso ia acontecer?

MARISTELLA

Ué…a previsão não deveria ser pra esse?

GLÓRIA

Não sei, né? Todo ano tem quarta-feira de cinzas. Você poderia morrer em qualquer uma delas.

MARISTELLA

Nesse caso ela não foi específica

GLÓRIA

E se não for agora? E se for daqui a 60 anos?

MARISTELLA

Eu não quero levar 60 anos para achar o amor da minha vida!

GLÓRIA

Pelo menos ela vai ser longa, já que você prefere assim…


Silêncio


MARISTELLA

Ô Glória…

GLÓRIA

Que?

MARISTELLA

Será que eu fui enganada?

GLÓRIA

Se foi, melhor pra você…

MARISTELLA

Eu não sei o que fazer.

GLÓRIA

Então pronto. Não vai no desfile, assiste de casa.

MARISTELLA

Tá louca? Prefiro morrer!

GLÓRIA

Aí é com você.

MARISTELLA

Eu não quero morrer!

GLÓRIA

Quer ser imortal?

MARISTELLA

Eu não quero morrer!

GLÓRIA

Até as estrelas morrem, tudo morre um dia.

MARISTELLA

Eu não quero morrer! Não quero! Eu não quero ser assim, igual a todas as coisas, igual a todas as pessoas, igual a todos os dias, igual a todas as horas! Eu não quero morrer porque eu ainda não sou quem eu nasci pra ser, porque eu quero ver o final da novela, porque eu ainda não fui a rainha da bateria, porque eu ainda não dei um beijo que me fizesse perder o rumo de casa, porque…


Buzina. Som de freada de carro

Homem surge, desesperado


HOMEM

Apolo! Apolo!

Apolo, seu estúpido! Eu disse pra ficar junto, não disse? Idiota, cretino! Idiota! (para o motorista) Seu imbecil, não viu o cachorro? Comprou a carteira? (tempo) É mais fácil matar que pisar no freio, sua besta? (para o cachorro morto) Apolo! O que eu vou fazer sem você? Apolo!


Mais buzinas. Apito de policia


HOMEM

Passa por cima! Passa por cima! Seus canalhas!


Os sons de construção e trânsito misturam-se com sons de bateria de carnaval.

O homem fica no chão, chorando a morte do cachorro.

passagem de tempo.

Maristella cruza o palco girando com a bandeira nas mãos.


MARISTELLA

Glória, cadê você, Glória? Preciso te contar, Glória! Eu não resisti, me joguei na festa! Ela estava errada, Glória! Ela errou! Eu não descobri meu amor! Eu não mudei! Eu estou aqui, Stella Maris, em carne e osso! Minha vida não mudou, Glória! Hoje é quarta-feira…quarta-feira… quarta-feira de rosas!


Ela volta à posição inicial, na sua esquina. O som volta a ser o da construção, porém muito mais frenético, como se fosse sufocar sua voz.


MARISTELLA

Eu estou viva! Eu ainda estou viva! Eu estou viva!


O som vai aumentando até ao conseguirmos mais ouvir Maristella, como se ela fosse tragada pela construção.


FIM

pensamentos aleatórios I

hoje percebi: cortar a unha com os dentes deixa as pontas mais retas que usando a tesoura. Fica meio serrilhado, mas isso logo sai, mantendo o formato desejado.

isso me deu um estranho poder sobre as máquinas, mesmo as mecânicas. é sempre bom poder contar com poucos recursos para as necessidades cotidianas.

coisa nova no comecinho…

adoro esse momento:

o aninhar dos livros de referência,

as pesquisas,

a trilha sonora,

queimar folhas de sálvia, me perder no imaginário. Ouvir: decifrar: agora, o que é?

pedir pelas palavras essenciais, que não sejam mera catarse. o que merece receber, o mundo além-mim?

nova espiral que começa a girar. no centro, apurando ouvidos, uma parte de mim: sacerdotisa das palavras e entrelinhas.

cotidiano

Eu passo por eles às quintas de manhã.

O tráfego é intenso. Poderia olhar atentamente, se quisesse.

Quero, mas o receio de que a cena enquadrada pela janela, tal tela de cinema, torne-se real demais, próxima demais, segura o olhar no soslaio.

Retrovisores.

É uma casa a céu aberto, como seria a de Vinícius, se não tivesse ao menos o chão. Minto, mais que isso: chão, colchão, correntes e papelão.

Eita que um deles escova os dentes em plena rua, enxagua a boca com água de garrafa pet, num despertar público. Ousa ser cotidiano, trivial, e no meio desse ato obsceno, observa a bunda da moça que passa, fingindo indiferença num salto alto.

Ousam seguir vivendo, os miseráveis. E eu, que tenho hora pra acordar e quis dormir só mais quinze minutos, atrasada para o trabalho, só consigo pensar tudo isso porque estou presa no trânsito.

guias da gente mesmo

Outro dia me deparei com isso aqui. Um sorriso de leite.

Fiquei olhando pra ela pedindo conselho. Diz aí, como é que faz mesmo? Ser assim, tão inteira? tão presente?

O que foi que eu deixei pra trás? O que eu tenho que deixar pra trás? Falta ou sobra?

Lembrei dos dias inteiros. Dias para brincar e viver, nunca dormir (era esse o único drama).

Ela me olhou por um tempo. Não respondeu nada muito sério, nem elaborar muito sabia. Só pulou da cadeira e buscou um livro de histórias, me pediu pra ler, enquanto comia sorvete. Sem resposta clara, e sem saída, abri. Ao invés do “era uma vez”, aquela começava assim: uma vez, eu era…

lugares sagrados

às vezes, no mundo espiritual, a gente visita espaços únicos, indescritíveis.

às vezes, no mundo visível, esses espaços se materializam. Aí viram ponte para outras dimensões.

pariquera-açu. sítio toque natural

entre matas e estrelas cadentes, em águas reveladoras, no meio do fogo da oca sagrada, guarda-se um sonho.

guardiã do segredo: amiga-irmã Maria Esther.

morra, eletropaulo!

Ontem cortaram minha luz.

No meio do dia, sem mais nem menos. Chegou um técnico aos berros e simplesmente desligou um botão. Ou virou uma chave, não entendo dessas coisas.

O fato é que no meio da tarde me vi sem luz.

Preferi chamar de indignação, por ser tratada como criminosa por uma porcaria de prestadora de serviços. Monopólica. Mas não era, era mais. Indignação leva, por oposição, a uma postura digna. Mas não foi. Foi uma raiva gigante, das entranhas, como se alguém tivesse, sem aviso prévio (como de fato, foi), me atirado à escuridão. Indefesa, com dois filhos pequenos. Ontem visitei se não o ódio profundo, pelo menos a leoa que protege a cria.

Mundo cão. E lá eu estava, sem luz.

Querendo matar de tanta raiva.

Esbravejando no deserto das reclamações telemarketicas.

Esquecendo o silêncio gerador de novas luzes. Lá era, sobretudo, um grande e sedutor vazio de forjado protesto. Ontem odiei, só isso é certo. Ainda que não socialmente.

pra quem tem tempo, um papim.

Num sei pur que, duns tempracá, eu tenho lembrado de Min’s.

Juiz d’fora. Lá dionde eu vim.

De viver num outro tempo, sabe? Do cafezim. De bater um papim. Sei lá, boba, faz um tempão que eu tô aqui, em São Paulo, mas nossa senhora! Acho que é saudade.

Trudia, pedi prum amigo o endereço dele pra mandar uma carta. Faz tanto tempo que eu não escrevo carta que vai doer a mão de escrever. Porque é uma coisa de doido isso, depois do e-mail só chega conta debaixo da porta, e às vezes uma encomenda. E também depois do facebook só chegam mensagens coletivas, dessas de listas, na minha caixa de e-mail. Faz tempo que não recebo e-mail pessoal, nem quando mando pra alguém, respondem. Pra falar a verdade, não me importo. Assim como não me importo de me assustar quando toca o telefone fixo. Em muitos casos, é telemarketing. Hoje é tudo network.

Então não vou fazer aquela reclamação ranheta da tecnologia, apesar de ter saudades de receber as tais das cartas. Menos papel impresso, penso, pra compensar. Eu mesma me surpreendo comigo: antes ligava pras pessoas e dizia: “Que saudade! Liguei pra conversar”. Agora pergunto: “Tá podendo falar?”Supõe-se que sim, já que a pessoa atendeu. Mas a verdade é que é todo mundo tão escravo do telefone que a gente atende mesmo sem poder, xingando quem ligou.

Aí eu lembro de uma aula de cinema que eu dava dentro dum estúdio preto em que imagens eram projetadas num telão. Passei uma semana de sol  vendo projetadas imagens de montanhas e cachoeiras. Nunca estive tão próxima da caverna, e desesperada para viver. E lembrei das montanhas de Ibitipoca.

Mas dá saudade mais das pessoas, sabe? Das portas abertas. Trudia, eu cismei de levar o pedro, filhim de 3 anos, numa loja de instrumentos musicais pra ver se ele ia curtir o presente que a vó queria dar: um violino (ele é meio que fissurado nisso). Sabe aquelas coisas que a gente faz meio abilolado? Porque, obviamente, ele surtou ao ver o violino ao vivo e a cores, e surtou ainda mais quando o vendedor tirou, sabiamente, a peça de mostruário das mãos dele. Até o segurança da loja chegou pra ver o que tinha de errado com o pequeno ser que se debatia, protegendo seu sonho recém-concretizado dos adultos do mal que o ameaçavam. É, a gente educa. Faz de tudo. Nessas horas, faz o que pode. Compramos o tal violino num desespero de final dos tempos, sem afinar nem nada, com a certeza derradeira de que ele tinha gostado, e ao chegar em casa, a coisa não tocava. Voltei na loja (sozinha), sendo reconhecida rapidamente por todos, e pedi com ar de desespero que alguém pelamordedeus fizesse aquilo tocar.

Aí apareceu um minerim.

Recém-chegado de lá, recém-chegado na loja. Recém-casado. Com portas abertas.

Pegou o violino como se fosse uma obra de arte, ainda que fosse desses made in china. Ouviu, ouviu. Foi para um canto quieto da loja. Sorriu. Pediu calma. Eu ainda me desculpando pelo ataque de fúria do filho, ele só disse: “Criança é assim mesmo.” E disse isso com um amor tão grande que me fez perceber que minha rigidez vinha mais de um medo de não estar sendoeficientenaeducaçãodomeufilhoquenãopodedarchiliqueporquequercoisas do que de um desejo concreto de ajudar. E ele, ali, ajudando. E ainda repetiu, num outro contexto: Criança é assim mesmo.

Eu pedi, naquela hora, dentro daquele templo que ele construiu à nossa volta sem perceber, para que ele conseguisse manter aquele lugar sagrado vivendo aqui, nessa terra de tempo doido. E ele, em silêncio, afinando, com suas portas abertas balançando com sua respiração, convidando a entrar, tomar café, desacelerar. Entrei paulista, saí mineira. Ele afinou o violino, e a mim também.

Amo São Paulo, viu? Apesar de tudo. Mas às vezes é muuuuuuuuito, muito bom voltar pra terra, aquela, aninhada pelas montanhas.

coisas que a gente escuta por aí II

(…)

– Mas você não vai dar dinheiro pra ela?

– Não.

– Vai virar corno.

– Dar dinheiro pra que? Pra ela bancar o cara?

– É?

– Prefiro ser só corno.

(…)

De: 2 carecas vestidos com ternos baratos nas imediações do Shopping Iguatemi