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logo atrás dos cabelos, perto da nuca, chama. mora próximo à região do ouvido. um ponto delicado. se regido, faz circular o choque costa abaixo e costa acima, fazendo cócegas na espinha e perto da axila. há um som que dispara o ato, dito de determinada forma, naquele exato ponto. o choque desce ventre abaixo, conectando sexo ao ser, o ser a tudo. sangue corre mais forte, de repente mais intenso, cachoeirando artérias e dando calor. suor sai pela pele, mostrando a saída do dentro pra fora. é lá que saio de mim cotidiana. é lá que sou, natureza. logo atrás dos cabelos, lá na raiz, perto da escuta.

Uma obstetriz me fez (re)nascer

Semana passada fiquei CHOCADA com uma notícia: a ameaça de se acabar com o curso de Obstetrícia na EACH (pra quem não sabe, a unidade USP na Zona Leste). Não posso dizer que fiquei surpreendida, porque achava quase inacreditável que um curso tão revolucionário pudesse estar abrigado nos moldes quadrados da USP, mas não imaginei que chegassem a tamanha barbaridade e desrespeito. Como tive minha vida transformada pelo encontro com uma obstetriz, Vilma Nishi, seria quase uma heresia ficar quieta frente a esse fato.

Adianto que não vou partir para a briga, pelo menos aqui nesse texto. Sei que há um movimento iniciado, e mulheres e homens trabalhando para defender o tangível e o intangível do curso – porque apesar de todas as questões concretas, como número de vagas públicas, currículo e etc, há algo além para se levar em conta: a importância de se criar uma CULTURA DO CUIDAR NA ÁREA DA SAÚDE, já tão contaminada pelas doenças sociais do preconceito e do descaso. Defender esse efêmero é quase como tentar explicar a importância do canto dos pássaros no meio de uma guerra civil, parece tão vaporoso aos ouvidos surdos de quem detém o poder que sua potência pode ser facilmente desprezada. Mas é profundamente transformadora, e urgentemente necessária.

Assim como a grande maioria dos brasileiros, nasci de cesariana. Assim como a grande maioria das mulheres, minha mãe me conta que gostaria de ter vivido um parto normal. É claro que não é uma regra, mas uma estatística: o ato de nascer, que deveria ser algo absolutamente natural, virou fato clínico. É quase como se necessitássemos de um médico para colocar comida em nossas bocas.

Já aviso: não tenho nada contra médicos, cresci com um deles: meu pai. Um grande exemplo íntimo de ética e amor à profissão. Também não tenho nada contra o avanço da ciência. Só acho que um parto só está próximo disso se aparecem verdadeiras complicações, mas não deveria, nunca, ser a regra, ou a primeira opção.

E quem sou eu pra achar tanto? Nem médica, nem enfermeira, nem profissional de saúde. Se isso serve pra algo, tenho uma experiência real, talvez a mais concreta da minha vida, pra contar.

Tive dois filhos de parto normal, natural e domiciliar. E tive a coragem de viver essa experiência assim, dessa forma, pela graça do encontro com Vilma – parteira e amiga. Já durante as consultas de pré-natal (que na médica duravam 10 minutos, e com a Vilma 2 horas), conversávamos muito sobre todos os medos das complicações na hora do parto, sobre o que seria virar uma família e, principalmente, sobre o poder que a mulher conquista em viver realmente a experiência daquela forma. Quando finalmente chegou a grande hora, estava segura quanto à minha opção, e o começo foi bem tranquilo – se é que se pode usar essa palavra pra descrever um trabalho de parto. Cheguei a falar: “pensava que ia ser pior”, o que deve ter desencadeado uma piadinha dos deuses – logo depois “travei” por 7 horas, e na pior parte. Sabia, com a cabeça, o que tinha que fazer, mas o corpo não me “obedecia”. E percebi que o que me amarrava não era apenas o medo típico que todas as mulheres sentem desde sempre, mas toda a corrente de preconceitos modernos que eu também carregava que nem uma couraça, ou pior, como um carrasco colado às minhas costas, berrando: “Você não vai conseguir! É perigoso! Sua louca, vai fazer mal pra criança! O bebê pode morrer!”

Soa familiar? Contemporâneo? Não, a ditadura ainda não acabou.

Naquele momento, parecia um campo de batalha: éramos eu e meus inimigos: Medo de fracassar, medo de virar mãe, medo de ser mulher, medo da força absurda, ancestral, que pulsava dentro de mim, que carinhosamente conduzia meu corpo, que me levava a uma dimensão fora do tempo, naquele lugar onde todas as mulheres de todas as épocas se encontram e se reconhecem. Era uma grande floresta a atravessar, e só eu poderia fazer aquilo. Somente eu, só. Quer dizer, é claro que, se eu estivesse num hospital, com tudo ali, facinho, poderiam tirar a criança. Nesse caso, haveria o nascimento, bendito seja sempre, mas eu não teria cruzado o limiar.

Então num daqueles ápices, em que eu estava quase desmaiada no meio daquela guerra, contei com dois apoios: o de meu companheiro, Djair, e o da Vilma, obstetriz, parteira, que até então esperava sem a menor pressa, fazendo massagens, medindo periodicamente os batimentos cardíacos do bebê, me transmitindo calma para o meu parto. Sim, meu. Porque como ela mesma me disse, o nascimento é do filho, mas o parto é da mãe. E no momento mais crítico, naquele em que o carrasco quase ganhava a batalha, ela me disse forte e carinhosamente: Claudia, ou você dorme ou faz esse menino nascer. Naquele momento, ela quis dizer literalmente isso, mas o múltiplo sentido da frase me tocou mais fundo que o meu medo. Alguma coisa mudou. Tomei contato com toda a forca da Terra, toda a ancestralidade, entreguei meu corpo a algo maior, como uma sacerdotisa a algo sagrado. Dei passagem ao que tinha que nascer, até que morri e renasci junto com Pedro, às seis e pouco da manhã. Atravessei o portal das impossibilidades. Senti o corpo tremendo em choque e revivendo mãe. Em estado de graça, vi o Dija cortar o cordão, vi o pequeno ser que recebia em minha casa, no meu corpo, no meu seio, na minha nova vida, que nunca mais foi a mesma, porque eu não era mais igual.

Além de todos os procedimentos técnicos, o que me ajudou a fazer essa passagem foi o INTANGÍVEL do ofício de obstetriz: o amor, o cuidado e a sensibilidade durante todas aquelas horas. A fé na possibilidade de que cada mulher pode viver seu feminino, viver por direito esse momento tão importante. O apoio, a paciência, a falta de pressa. A vida sem hora marcada.

Como disse, não tenho nada a ver com a área de saúde, dedico minha vida a contar histórias em palcos, telas e blogs. Mas espero ter ajudado com essa, e que uma experiência tão pessoal possa servir como prova da importância de uma profissional que sabe conduzir um parto dessa forma, sem distorções. Um nascimento vivido assim é o começo de uma grande relação, é totalmente transformador para toda a família, fortalece laços, e traz uma base sólida para os novos seres que estão chegando, futuros adultos, futura sociedade. Tenho confiança de que esse curso vai ganhar mais força, porque a vida é maior que todas as mesquinharias, e sempre vence. Mas é essencial, em épocas de tanta brutalidade, defender as ilhas de sensibilidade já conquistadas.

IMPORTANTE: Pra quem puder ajudar, o abaixo-assinado contra o fechamento do curso está logo aqui:

crônicas de kung fu I – passando pelo portal

O corpo é mais que um tripé de cabeça.

Não que eu já soubesse, mas já desconfiava. E como vivo nesse preconceito muderno que privilegia o “pensamento”(leia-se Cabeção) como um grande chefe, e o corpo como o peão que executa as ordens, estava assim, meio largada. Claro, porque chefe que é chefe só manda, e a massa executa. Mexer o corpo é coisa de que ainda não chegou lá, no topo.

Viagem minha ou faz algum sentido?

De qualquer forma, ficava a culpa pelo sedentarismo. Culpa mesmo, dessas cristãs, que adoram o flagelo. Fugi das academias e passava de tentativa em tentativa, a maioria solitária – andar, nadar, pular. Muito efêmero tudo. E meu lado rebelde clamando por tortura nunca mais.

O Cabeção ordenava: Você tem que fazer algum exercício! O que devo fazer, senhor? Sei lá, você não gosta de dançar? Então dança! Mas dava preguiça, porque dançar só tem graça se não tiver que. Aí enganava o chefe: Sabe, senhor, é que eu tenho tanto trabalho sério pra fazer… Sou criadora, professora, orientadora, mãe, também, não sobra tempo pra essas coisas vaporosas. O Cabeção concordava, afinal, ele mesmo nem se importava tanto. Mas eu ficava ali, oprimida, fraquita, doída. E anarquista demais pra encarar um “programa de condicionamento”que, ao meu ver, é coisa de gente velha e sedentária. O Cabeção ficava feliz com essa observação. Nada melhor que ter todo o tempo do mundo pra pensar, afinal.

Uma história paralela: nunca fui alucinada com artes marciais. Meus irmãos fizeram karatê por um tempo, mas eu preferia a dança. E tive, num passado remoto, um caso de amor com a ginástica olímpica: lá eu voava. Lá o amor ao corpo existia. Depois a adolescência chegou, a culpa pelo prazer do corpo chegou, e ele passou a ser inimigo, gerador de todos os conflitos do mundo. Mas algo desse amor ficou guardado que nem semente, e às vezes remexia nas terras de mim ao ver um corpo voando – na dança contemporânea, nas olimpíadas, em alguns filmes, por aí no mundo.

Kill Bill me deixou alucinada, ainda que o Cabeção fizesse que não. De repente quis ser, secretamente, Beatrix Kiddo. Em outra vida, talvez, Cabeção vociferava. Talvez. Não. Tinha medo de fazer kung fu. Coisa de homem, meio bruta, pensava. Eu sou mocinha. Ainda por cima pesquisando o feminino, esse efêmero desconhecido tão falado no momento. Cabeção escreve uma peça sobre o feminino, e eu vou querer logo fazer kung fu? Arquétipo do guerreiro?

Confesso: tenho um prazer secreto de contrariar Cabeção, ainda que pelas tangentes. Fui lá, disfarçada de Grouxo Marx, fazer uma aula-teste. Saí feliz. Corleone, enganado, ficou confuso, mas o que eu senti foi felicidade. Sem querer,  desmoralizei, destronei o chefe. Permiti ao corpo que ele exercesse livremente o movimento que bem entendesse. Ainda que nesse começo seja totalmente destrabelhado.

Voltei à época anterior à crise do corpo, onde só havia amor, e quando eu não era tão eu, era um ser em movimento e possibilidade futura.

Não sei onde isso vai chegar, mas estou adorando.

do outro lado do mundo aqui

preciso desabar, mas estou a caminho.

,num coletivo, com minha dor somada a tantas outras. tantas mais graves.

o que será que acontece com o choro não chorado? coagula em cólera? empedrece em mágoa? engelece-indiferença?

e se a água de mim é salgada, posso fingir, então, que vislumbro mar distante. de tão perto que de repente fica, vaza um pouco pelos cantos. pelas bordas ciliares.

assim justifico lágrimas caídas em público, sem a menor explicação. desculpe, é a natureza, pelo descuido, em tsunami.

sobre devotos

Ao lado dos altares-pedestais caprichosamente decorados com oferendas, há sempre uma cesta de pedras.

Estranhamente, para a mesma divindade. Mas só em casos de amor não correspondido.

estudando o amor IV

Sempre há um terror infantil da segunda expulsão do paraíso. Como se já não bastasse nascer.

O terrorismo da bronca: serei eu ainda amado pelos poucos que me rodeiam?

O terrorismo da aula de genética: de onde vem minha pele escura, meu olho claro? E se venho de outro lugar desconhecido de mim?

Qual minha origem?

Se posto na filosofia – de onde viemos? – fica tudo tão distante que se perde a natureza da coisa.

Se posto na biologia – de onde vem os bebês? – fica tão científico que se perde a poesia.

Realmente, não há respostas para a nossa entrada.

Só saídas: abraços.

140 caracteres

Tenho twitter, mas não uso. pelo menos, quase não escrevo nele (e acabo não entrando). Juro que não é ranhetice, mas tem a ver com: 1) uma compulsão iconoclasta de me afligir com seguidores; 2) uma rebeldia à necessidade constante, incessante e irritante (no meu caso) por quantidade e rapidez de informação e 3) os tais 140.

Quanto aos últimos, acho bacaninha – até higiênico, ecologicamente sustentável – poder sintetizar as idéias em tão pouco espaço. O problema é quando não dá. O problema é passar a pensar em 140 toques, e não ter paciência para ler 141. A gente vai sendo contaminado disso, dessa ansiedade. Eu já nem espero mais uma carta escrita a mão – já virou coisa cult, artigo de luxo – mas olha só: nem quase e-mails  eu recebo agora. Pessoais, digo. Quando vêm, até guardo de lembrança, num tipo de caixinha virtual que nem aquelas onde eu guardava cartas de amigos.

Mais de uma vez me disseram que eu “escrevo e-mails grandes”. Juro, demorei um tempo para entender –  não a informação, obviamente, mas o problema. Tolinha… E olha que nem sou daquelas traças de livro – gostaria de ler bem, bem mais do que atualmente consigo. Mas também já vivo com cinco coisas abertas, já estou contaminada pelos saltos de pensamento, pela dificuldade de me concentrar num ato único – a não ser, é claro, que a leitura tenha um poder tão grande de rapto que as vistas não se queixem de não variar o assunto.

É, realmente, uma prova de fogo pras letras. E pra emoções e raciocínios que tomam um tiquinho mais de espaço.

A tempo: gosto muito de microcontos, micronarrativas, hai kais. Tem coisas geniais feitas aí. Mas também curto livrinhos de 500 páginas, pode ser?

ensinar?

não gosto de regras, só de nortes.

então compartilho bússolas,

e dúvidas sobre a precisão dos ponteiros.

fragmentos de uma peça em gestação

Na gangorra cinema-teatro, de tanto cinemar, volto um tantinho ao escuro de mim, e escrevo. Deixo sair um pouco, pra respirar pro mundo, pra dividir com quem lê. É só um pedaço, mas já dá o tom do que vem. Ainda sem nome. Desculpe. Não posso mostrar muito, tão antes do fim…

“Sentia arder o que não sabia ser. O que ainda não era, porque estava desconectado do resto. Eram fragmentos de ser colados por músculos, tão frágil que era, mas não se dissolvia em pedaços porque a casca era dura. Apesar da delicadeza da pele.

Aproximaram-se a uma distância ambígua, no limite de múltiplos significados. Conspiravam. A pele feita casca, não se sabe o por que, derretia, suava, assim como também exalavam outros humores. Uma quentitude nada estranha tomando corpo, tomando espaço, alterando o estado de consciência. A mente, que julgavam clara, mergulhou no torpor do desejo – e não havia nada, nenhuma substância, um licor que fosse, que viesse do externo. Era uma embriaguez gerada pelo próprio sangue, como proteção de um momento sagrado que não poderia se perder na corrente dos preconceitos. Era quase tóxico. O torpor chegara ao limite da perda de consciência, e as mentes saltaram o espaço-tempo e fugiram, juntas, para o interior da floresta.

Ali, não eram eus. Não eram época, nem endereço. Eram mulher e homem, dois seres que se buscavam e completavam, como se tivessem subido pela escada da queda, retornado ao paraíso perdido e suspendido, por um segundo, a dor de quem caiu e procura o caminho pra casa. Suspenderam todo o abandono de si e, ainda que durasse pouco, abriram de vez a casca protetora.

E ele atirou-se até ela simplesmente como água que rompe a represa, inundando a floresta de água fervente. Ela sentiu o corpo abrir-se sem ressalvas, sentiu o calor do peso atiçando fogueira, queimando o passado, queimando a culpa, queimando o abandono, reconectando cada célula com a outra, reconstruindo o campo sagrado feito corpo de mulher que era pura onda de energia latejante. Já estavam além do desejo – subiram pelo prazer sagrado sem saber o que faziam, foram juntos para outro tempo.

Ao fim de tudo, no silencio do retorno, resistiram à tentativa de explicar o acontecido, de esticar o momento na linha do tempo cotidiana. Perceberam que aquilo não pertencia à frequência dos dias. O estado de embriaguez ainda os acompanhava, agora mais sutil, mas lembrando à mente confusa que eram muito mais do que julgavam ser. Devagar e sem pressa, retornaram à sua época, aos seus nomes, às suas máscaras, mas agora um pouco deslocados de tudo, como quem muda de lugar no mapa da eternidade. Olharam-se como além de amantes, como partes do mesmo ser que se entendem separados apenas por uma suave ilusão.”

(…)