Plugins da infância no novo milênio

O Pedro agora deu pra uma coisa: antes de chorar, ele fala: “Chorar”. Ou, às vezes, ao invés de. Aí abraça a gente, já pedindo consolo para o que ele sente, seja lá o que for.

Será um plugin de autoconsciência? Céus!

a vida sem hora marcada

Gente se ilude, chega a ser engraçado. Carrega relógio, agenda, GPS, calendário, acha que por medir o espaço-tempo (ou uma interpretação dele) controla tudo.

Aí a vida acontece, e desbanca gente.

Tive essa surpresa no nascimento do Gabriel. Ele não “esperou”a reforma da minha casa acabar, não esperou que eu tomasse banho de rosas, resolveu chegar no dia em que a vida estava um caos. E tudo se reorganizou para a vida.

Há dois dias, uma grande pessoa que eu conheci se foi desse plano: SILO, Mendoncino, fundador do Movimento Humanista e de uma Escola de expansão da consciência e acesso ao profundo. Uma forte referência para muitas pessoas (e para mim), que tive o prazer e honra de conhecer nesse tempo. O cara mais coerente que já conheci, tanto que fez da própria morte um exemplo: não quis ir a um hospital, fazer transplante, ficar entubado, essas coisas. Já sabia que chegava a hora – Preparou as pessoas, e sempre rindo, avisava: Eu já estou indo. E quando largou o manto, estava entre seres queridos.

Uns morrem, outros fazem passagem. E alguns fazem da própria seu discurso:

AMA A REALIDADE QUE CONSTRÓI E NEM MESMO A MORTE DETERÁ TEU VÔO.

Obrigada, Silo, por sua existência nesse planeta. Continue sua jornada para a luz, leva seu sorriso reconfortante e aquela certeza que você vibrava, de que a humanidade é boa, e tudo sairá bem. Sem dramas, você dizia. Paz, força e alegria sempre.

Abaixo, uma pitadinha de Silo, parte da mensagem que ele deixa de herança. Quem quiser mais, acha tudo aqui.

O CAMINHO

Se acreditas que tua vida termina com a morte, o que pensas, sentes e fazes não tem sentido. Tudo termina na incoerência, na desintegração.

Se acreditas que tua vida não termina com a morte, deve coincidir o que pensas e o que sentes com o que fazes. Tudo deve avançar para a coerência, para a unidade.

Se és indiferente à dor e ao sofrimento dos demais, toda ajuda que peças não encontrará justificativa.

Se não és indiferente à dor e ao sofrimento dos demais, deves fazer que coincida o que sentes com o que penses e faças para ajudar a outros.

Aprende a tratar os demais do modo em que queres ser tratado.

Aprende a superar a dor e o sofrimento em ti, em teu próximo e na sociedade humana.

Aprende a resistir à violência que há em ti e fora de ti.

Aprende a reconhecer os signos do sagrado em ti e fora de ti.

Não deixes passar tua vida sem perguntar-te: “Quem sou?”.

Não deixes passar tua vida sem perguntar-te: “Para onde vou?”.

Não deixes passar um dia sem responder-te quem és.

Não deixes passar um dia sem responder-te para onde vais.

Não deixes passar uma grande alegria sem agradecer em teu interior.

Não deixes passar uma grande tristeza sem reclamar em teu interior aquela alegria que ficou guardada.

Não imagines que estás só em teu povo, em tua cidade, na Terra e nos infinitos mundos.

Não imagines que estás acorrentado a este tempo e a este espaço.

Não imagines que em tua morte se eterniza a solidão.


o desmonte da cidade

Vivo numa cidade que não é natal mas é a eleita para viver. Uma metrópole que decidi amar, porque achei uma cidade dentro dela.

Vivo as alegrias de tudo que Sampa tem, já tão cantada. Vivo a intensidade dos dias.

Também vivo revoltada com o que fazem dela. Uma câmara dos vereadores vendida a empreiteiras, CRIMINOSAMENTE, fazendo da cidade gato e sapato. Recentemente, o PARQUE DA ÁGUA BRANCA é a bola da vez. Olhos atentos, hoje e sempre.

Há três anos, escrevi uma peça para a Cia de Domínio Público que tinha como tema a transformação radical da cidade. Era uma história meio absurda, que para meu terror vai se tornando cada vez mais real. Lá, a prefeitura contratou uma grande empreiteira para “reformar” toda a cidade. Em pouco tempo, as pessoas já não achavam suas casas. As obras também abriam grandes crateras no chão e o problema é remanejado como solução: pouco a pouco a periferia ia sendo alojada nos buracos, tornando-se uma nova categoria de cidadão: Os buráquios. E por aí vai.

Quem se interessou pode ler na íntegra, é divertida e cômica, apesar de tudo. Coloco aqui um pedacinho…

CENA 10 – CIGANA E O ARQUITETO

Entra uma figura estranha, uma espécie de cigana. Ela fala uma linguagem cifrada

ARQUITETO

Boa tarde…boa noite…eu vim pra…

CIGANA

O senhor tem dúvidas?

CIGANA

Quer saber o que?

ARQUITETO

É… bem… estamos empreendendo um projeto bastante grandioso

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que tem tudo para dar certo!

CIGANA

Sei.

ARQUITETO

Um projeto que vai mudar completamente a nossa concepção de uma organização social, política, econômica…

CIGANA

O senhor veio me consultar ou fazer propaganda?

ARQUITETO

Quem nunca sonhou com um lugar limpo, em paz, finalmente, onde nós poderíamos simplesmente viver?! Não foi para isso que nascemos, para viver bem? E por que, meu Deus, nunca tínhamos conseguido isso? Finalmente, eu entendi! Era falta de organização! Então idealizamos nosso sonho! E agora ele está aqui, acontecendo! Os planos estão corretos. O projeto anda bem… A população anda colaborando… O poder executivo está executando muito bem as etapas… Esse é um projeto perfeito, entende? Uma obra de arte! É a realização de tudo aquilo que sonhávamos quando ficávamos presos em um congestionamento… Quando, na rua, víamos a pobreza brotando das calçadas…

CIGANA

E qual é o problema, então? O senhor quer que eu preveja o que o senhor acha que esqueceu de prever?

ARQUITETO

Isso! A senhora adivinhou meus pensamentos!

CIGANA

Eu não adivinho, eu vejo.

Pausa.

Ela olha profundamente para ele, que fica incomodado.

Ela faz um gesto para que ele se sente na sua frente. Começa a ler a cabeça do arquiteto, como uma bola de cristal

CIGANA

Eu vejo…

Ela começa a fazer uns sons meio cantados, meio palavras balbuciadas, até que se entende alguma coisa

CIGANA

Gavião, gavião, gavião, gavião…

Abre-se a terra em terremoto provocado

É pior que tsunami

É buraco com cimento

Todo mundo foi jogado…

Submersa, submerso…

a vontade soterrada

fluxo retornado

socado pra dentro do ventre,

postura contrária ao que reza a vida,

a vida, ferida, no fototropismo,

que tenta saída por cima de novo,

o cima, concreto, não deixa saída,

a vida, ferida, irrompe o concreto…

A massa, tremenda, contida na terra

não pede, mas toma, o espaço perdido

tal qual como rio que fora aterrado

um dia irrompe a casca do ovo

e ri dos que tinham outrora vencido…

A cigana volta do transe, meio assustada com o que viu.

O homem espera uma resposta. Ela recobra a calma

CIGANA

São duzentos reais.

ARQUITETO

Como assim? Você não me disse nada! Só um monte de palavras sem sentido!

CIGANA

O seu entendimento do que eu vi não é parte do meu trabalho. É seu.

ARQUITETO

Então me fala claramente! Eu esqueci de alguma coisa?

CIGANA

O senhor está se esquecendo de escutar!

ARQUITETO

Pois eu não vou pagar por isso!

CIGANA

O senhor vai pagar sim! Pode ter certeza!

Amnésia

Acordei como se a partir daquele dia eu já não fosse mais, contaminada de uma amnésia de tudo o que antes era considerado objetivo. Havia dormido bem? Não sei. Talvez fora abduzida no ato do sono, levada a terras distantes, doutrinada, destrinchada e mandada de volta também com amnésia disso tudo. O fato é que eu flutuava.

Tomar um copo d´água passou a ter mais sentido que me lançar ao doce cotidiano – ao menos era um dos poucos atos para gerar vida, ainda que fosse a minha própria. Assim, tomei cinco copos como quem procura uma resposta ou quer de volta a ignorância – mas a água não perdoa, ela flui, impassível, indiferente às crises humanas, às suas obras e barreiras, para onde tem que ir.

Então fiquei ali, no sol, esperando ter sede novamente.



conto de espadas

Era um lugar perigoso. Lugar de gente perigosa, bairro sombrio. Ela estava fora de casa, não lembrava o que fazia ali, no meio daquela gente. Foi pra lá com uma missão, tinha que encontrar alguém. Seu único contato era o guia da viagem, que a conduziu temeroso àquele lugar – mas pra que diabos alguém se mete num canto desses? Qualquer problema, ligue. O problema chegou, a ligação se perdeu. O celular se perdeu. Ela se perdeu. Era só, no meio de gente perigosa e estranha, piratas, ladrões, ressentidos, excluídos. Era só, no meio de gente estranha, ressentidos, excluídos. Era só, no meio de gente estranha, excluída. Era só, no meio de gente estranha. Era só, no meio de gente. Era ela, no meio de gente. Gente como ela, só gente. Gente que sofria, como ela sofria. Sofria, e só. Aí ela sofreu junto, e achou saída. Achou saída para sua covardia, porque pensava que era só. Achou saída, achou sentimento novo e antigo, ganhou coragem, voltou pra casa, era outra casa, mais sua que a outra antiga.

e acordou.

como mãe é besta…

ah, a gente é.

Gabriel, que hoje faz 7 meses, tá gribadinho. Rouco. Imagine, um bebê rouco. Corleonito. Aí ontem, no ápice do dengo da gripe, ele fala: Babõe. E olha profundamente, fazendo beicinho.

Acho que desde que mundo é mundo, as babões babonas bobonas escutam alguma coisa que elas sabem que se referem a elas, ou ao peito, e sentem esse orgulho besta. Digo besta, porque as melhores coisas da vida são assim, comuns. Tãaaaao arquetípico, tão único. Tão meu, foi.

crônicas da pracinha

Olha, eu não sou daquelas mães exemplares que vão todos os dias, em horário de sol baixo, levar os filhos na pracinha. Aqui em casa é uma zona de horários e prioridades. Mas de vez em quando, vou. Ainda mais agora, que o Pedro resolveu se interessar por areia – na verdade, transportar areia de um lado a outro, e jogar para cima, fazendo nuvem de pó.

Antes de continuar, um aparte: a sociologia do tanque de areia. Devo dizer que nada melhor que esse microcosmos  para refletir sobre propriedade privada. O que fazer quando seu filho pega o brinquedinho do outro? No meu caso, observo o “dono”. Se ele for relax, não falo nada, as crianças se entendem melhor sem nós. Mas em alguns casos, os donos ficam bravos. Aí eu tento explicar: filho, é dele, e ele não quer que pegue. Mas por que o do outro pode? Porque o outro deixa. E o Pedro, que ainda se recusa a falar português, faz mímicas e olha. Só olha.

A gente costuma ir no Parque da Previdência, que é pertinho de casa e uma delícia, sossegado, e isso inclui as pessoas. Pois hoje, aproveitando a falta de trânsito, o Dja sugeriu da gente ir no Parque Volpi, pra conhecer. De cara, vimos o tal tanque de areia, cheio de crianças. E lá foi o Pedro, com seu pequeno kit zona. O parque é legal, com trilhas, mas já espelha aquela tensão social da zona sul. A gente sente ao entrar. Sim, tenho meus preconceitos, assumo, não gosto de tensões sociais, prontofalei. Me enche o saco. ainda mais num ambiente redondo e democrático, um tanque de areia.

Bom, lá fui eu pro tanque, ver o que passava. Aí chegam gêmeas fofas e rosas, desse rosa babaloo e chapéu babadinho, cada qual com sua mochilinha cheinha de pás, baldinhos e etc. O baldinho era igual ao do Pedro que, naturalmente, estava jogado no meio do tanque enquanto ele tocava um violino imaginário com dois gravetos. A menininha pegou o balde e começou a brincar. Não deu cinco minutos os pais perceberam: ela está com o brinquedo do outro menino! Tudo bem, eu disse, mas eles ficaram constrangidíssimos. E depois fiquei eu, tendo que ouvir um pai falando pra uma menina de 2 anos: você roubou o brinquedo do seu vizinho. Pede desculpas. Não, não, por favor, eu pensei. Não precisa, eu disse. E ela pediu desculpas! por ter roubado o balde do Pedro, igual ao dela, jogado na areia!

Sim, eu tenho preconceitos.