a mãe que consigo ser

Na velha Raposo (Tavares) de sempre. Gabriel, no carro, narrando um pesadelo.

– A gente estava na escola, brincando. Daí chegou um homem, roubou o brinquedo do Chico (o irmão caçula). Depois, mãe, você ofereceu carona pra ele. Aí quando entramos no carro, e ele jogou a gente pra fora. Roubou a gente.
– E você viu que ele tinha feito tudo isso? Por que não me avisou que o homem era assim?
– Porque eu fiquei sem voz.

E eu, abismada.
Foi um sonho muito forte.
Refleti sobre seu sentimento, essa sensação declarada de que o adulto responsável (no caso, eu), não conseguia identificar o perigo iminente.

“Será que é assim que ele me vê?”- pensei. “Tão distraída, no mundo da lua, a ponto de não conseguir protegê-lo?”

Culpa é um bicho alinhavado à revelia na barra da saia da mãe, né? Jurei em segredo que ia ficar mais atenta, presente, e bla bla bla.

Mas o pesadelo já tinha sido.
(Será que se muda passado?)

Como o conflito é minha matéria prima, propus a ele um jogo: Voltar lá e mudar essa narrativa. Fui fazendo perguntas, e ele foi recontando a história com um “novo final”.

Na primeira sua primeira versão, ele conseguia me avisar do perigo e eu dava uma bronca danada no homem, que saía assustado da escola.
Mas aquilo não me convenceu.

– Acho bom falarmos com esse homem. Você não acha?
– Tá.
– Pergunte por que ele roubou o brinquedo do Chico, pra começar.
(O Gabri ficou quieto, ouvindo de fato a resposta lá de longe, no seu interior.)
– Ele disse que roubou porque ele é ladrão.
– Bom, pergunte por que então. (pausa)
– Porque ele quer.
(Vixi. Como saio dessa?)
– Então pergunte por que ele quer esse brinquedo
(silêncio maior)
– Porque a mãe dele morreu. Ele quer roubar a minha mãe porque ele não tem.
(chegamos a um ponto importante)
– Agora pergunte o nome dele.
(silêncio)
– O que ele disse? – insisti.
– Ele disse que ele não se lembra. Faz tanto tempo que ninguém chama ele pelo nome…
(…)
– Peça para ele tentar se lembrar.
(pausa)
– Ele é xará de um de nós aqui. – respondeu, com suspense.
– Então diga, filho.
– Francisco.
– Ótimo. Agora pergunta pro Francisco se ele quer um abraço.
– Ele disse que quer muito.
– E você? Quer abraçar ele?
– Quero sim.
(pausa para o abraço)
– Tá tudo bem agora? – perguntei.
– Tá sim, mãe. Tá tudo bem.

A essas alturas, já estávamos perto da casa dos pais do Dja, para onde estávamos indo. Mas eu fiquei tão mexida com aquilo tudo que quando me dei conta, tinha entrado em uma rua X, virado numa y, e já não sabia onde estava. Pedi ajuda pro Waze, enquanto ouvia risadas dos meninos. Eles não se conformavam: Como alguém pode se perder num caminho tão cotidiano?

Sim, filhos, essa sou eu. Eu me distraio e me perco muitas vezes, porque vivo no mundo das histórias.
E elas vivem nos sonhos.

há que se cuidar

Há que se cuidar do broto

pra que a vida nos dê flor

e

fruto.

Três brotinhos: esse foi o templo que a vida me concedeu nos últimos tempos.

Parei. Tive que parar tanta coisa. Tive que começar tanta coisa… A cada um que chegava, rever minha própria chegança. Porque há que se tomar tempo pro tempo de cria. Há também que se ter alma lúcida. Há que muita coisa. Mas também há o que está além do “há que”.

Para além do “avental todo sujo de ovo”, comerciais de mamãe-bebê, cartilhas de mãe moderna, todo e qualquer modelo do que ser mãe significa e se ressignifica ao longo de todos os tempos, essa parte da música do Milton trouxe, de repente, de forma linda e sintética, a noção do que é esse ofício: um imenso laboratório alquímico. Ou, se preferir, a figueira debaixo da qual sentou Buda. Campo para transformação, ou até transmutação.

Começa com o corpo. Mas além do parto, o que ainda nos espera? A longa estrada da criança: criar além da chegança. Burilar palmo a palmo da pequena alma que eu era, nesse reflexo renovado que, dia a dia, me abraça e mira com todo amor que um dia sonhei sentir.

Cuidar do broto, a cada dia. Entender que espírito é esse que me brindou com sua presença. Ouvir nossa história juntos. Conduzir carinhosamente essa plantinha até a elevação máxima dos seus potenciais, ser também solo, terra. E quando sentir as raízes profundas no corpo do meu ser, confiar que o sol fará sua parte.  Celebrar cada flor que desabrocha, exalando um perfume ímpar: saber-se testemunha do propósito, então do filho, alcançado, vertendo em novos frutos pro mundo.

A co-criação com a vida: é isso, mãe?

Carta aos meninos num quase-inverno de 2016

balanço meninos

Meus queridos,

O país ferve. O mundo ferve. As vitórias democráticas conquistadas quando sua mãe tinha a idade de vocês foram novamente ameaçadas. Os livros de História estão se revirando do avesso, com páginas sendo reescritas por múltiplos pontos de vista, com folhas futuras arranhando previsões apaixonadas. É um tempo bem estranho, bem louco, talvez até lúdico, e se comento essas coisas é para explicar a vocês porque às vezes eu, outras seu pai, anda pelos cantos coçando a cabeça.

Porque a gente é teimoso pra caramba.

A gente tem todos os aparatos possíveis para se enquadrar no “sistema”: inteligência, formação em instituição superior reconhecida, informação, ímpeto, talento. Mas a gente preferiu usar tudo isso pra fazer outras coisas, daquelas que colaboram para a vida. Resolvemos não usar um tapa-olho e comprar aquele pacote “vou me submeter ao mal necessário porque tenho filho pra criar”, porque nem vocês nem o planeta merecem essa conta para pagar no futuro. Então é no aqui e agora que nós dois estamos lidando com ela, às custas de muitas conversas buscando saídas e outras contas penduradas.

Muitas vezes, a vontade de gritar é muita. A gente até grita, e deve ser assustador. Tem dias que nem eu me aguento, tem dias que a fé fraqueja, vá pra sala brincar, que não tô podendo com tanta coisa! Nesses momentos me contento em pelo menos não me esquecer de dar o almoço, água, mas colo não dá, porque sou eu quem preciso. Ou seu pai. Vá conversar com seu pai, digo, nos tempos em que ele também se assusta e a bronca entra na frente por se estar vivendo em modo de briga. Porque é preciso reinventar, meninos, o que é ser adulto, o que é ser família, mãe, pai, gente.

Mas não pensem que a coisa é só dura: também tem momentos sublimes. Ouvir, diariamente, o doce canto da vida coerente. Libertar-se de tantas crenças… Retirar do DNA o “ter que ser”, a síndrome do sucesso a qualquer custo, a culpa, a tentação de retroceder… Porque os olhos só brilham se os pés caminharem na direção do espírito. Olhos brilhantes são faróis, iluminando essa trilha obscura e nova.

Isso, queridos, é ser gente grande: já ter cruzado limites. Todos sem volta.

Nessa travessia, é gostoso se deparar com fogueiras no caminho. Ali encontramos gente que também busca. Então cantamos, trocamos medicinas, trocamos marcas no mapa, porque vamos para uma direção parecida, mas o caminho percorrido é dança individual. Seu pai e eu vamos dançando juntos essa canção do espírito. Não há caminhos pavimentados, mas a delícia da aventura é garantida. Uma jornada que se vive na pele, que se arrepia na espinha, que se localiza no coração tantas vezes acelerado, um percurso de verdade, sentido na planta do pé, não projetado em telas planas. É essa a herança que queremos deixar a vocês: a coragem de seguir sua própria verdade, o desejo profundo do ser, sem se submeter às chantagens do que é desumano e decadente, ainda que disfarçado de luxo. Ou pior, de necessidade.

Se esse fosse um livro de histórias, estaríamos agora naquela parte perigosa. Naquele momento da noite em que a última vela se apaga, e só nos resta a confiança na ajuda vinda das estrelas. É uma pausa no movimento, pede calma, escuta, cautela. O desafio é resistir à tentação de sair correndo, atirando pra qualquer lado, atirando em faces inimigas, atirando a vida numa corrente de ressentimentos. Porque o tempo é de sombras, mas é também de mudanças. Irreverência ao bruto, ainda que solene. Subverter é se permitir sentir, profundamente, a alegria pulsando, insubmissível a qualquer lamento, a qualquer culpa marcada a ferro e brasas, confiando que essa estrada coletiva caminha para um ser verdadeiro.

Confiando que o rio da nossa História transbordará em uma cascata de luz divina, enchendo de frescor e arco-íris por onde passa.

Estamos juntos nessa aventura, queridos. E a cada noite, quando olho para vocês em suas camas depois de cantar nossas músicas, depois de acesa a vela pro anjo, depois de ouvir a singela reza que brota dos seus sorrisos… Depois de sentir reverberar em mim a alegria que sinto fluir dos seus corações…

Sei que estamos rumo a essa cachoeira alucinante, repleta de sons, cores, potência,

paz, consciência,

e fúria de amor.

boca a boca

o livro molhado

 

Na madrugada do eclipse, a cidade tremeu em tempestade.

Pela manhã, a surpresa: a potência das (abençoadas) águas inundou a nossa biblioteca. Coisa que às vezes passa, mas me pegou desprevenida… alguns livros queridos, deixados no tapete depois de mais uma vez visitados, amanheceram recheados de chuva.

“Estragaram”, um pensamento súbito-consumista-imediatista.

Mas depois, olhando com mais cuidado, relendo nas páginas ensopadas o choro sutil da primeira folheada, vi que as águas trouxeram à superfície impressões antes invisíveis: as noites e noites de risos e brincadeiras inventadas a partir daqueles desenhos, o calor das mãos que tantas vezes abriram os portais pra tanto carinho, a delícia de uma voz que lia as primeiras frases aprendidas. Desse tesouro revelado, um ato se fez urgente: o livro precisava ser salvo.

Como quem segura um afogado, de secador em punho, soprei um ar caloroso boca a boca, página a página. E aquele tesouro-testemunha de tantos afetos sobreviveu.

Nossas memórias impressas nas entrelinhas foram salvas. Todos os risos, preservados.

Ele nunca mais será o mesmo.

Mas ainda será insubstituível.

 

mais um filho.

o livro

 

Na próxima terça-feira, dia 22 de setembro, virada pra primavera, lua crescente, lá vem mais um broto na história da minha vida.

um livro.

Já fiz filmes e peças pra teatro. O frio na barriga é parecido, mas livro a gente pode carregar debaixo do braço, que nem filho mesmo. Tem uma coisa aqui que difere, que rasga mais, que expõe demais, mas nem por isso é ruim: só tem uma potência tão avassaladora que eu não sei o que fazer com tudo isso até chegar o dia. E hoje ainda é sexta.

Tudo em mim vibra, tudo em mim grita, vertigens à flor da cabeça, suspiros na pele, horas alongadas, nada no lugar, treme o chão, choro, riso, frio, calor, arrepio, alegra-se o espírito. É isso, afinal, estar viva?

o menino de olhos brilhantes

Sem voz há dois dias, com choro enrustido parecendo pecado se saísse em tempos de tanta demanda na fortaleza. No carro, na via travada de sempre, com tanta coisa à frente impedindo a passagem, com tanto excesso, ruído. Secretamente, eu adicionava mais uma memória à minha coleção de fracassos, cansada demais pra ter raiva, ou com raiva demais pra entender alguma coisa. Um mar ao fundo. Água salgada à espreita, muita água. Quem disse que é tempo de seca? Um anúncio hipócrita da Sabesp no rádio, que desliguei num ímpeto de quem dá em alguém um tapa na cara. Se eu me desaguasse inteira ia dar inundação.

Um par de olhos me enxerga. Um par de olhinhos puxados de quase dois anos me observa no banco de trás. Puxa meu foco. Ti foi, mamãe? Como ele sabe? Como pode saber? Me estende a mão, dando conforto, aquele tiquinho que não entende tanta coisa e sabe tanto. Sorriu, lembrando a mim mesma numa foto de infância: quem me sorriu afinal? O sal chega à boca. Não chola mamãe. Uma presença tão evidente que quase se materializa, ainda que invisível. Alguém a mais dentro do carro-presença. A mão gordinha ainda estendida, devolvendo tanto colo já recebido. A certeza de que tudo vale a pena. As águas não mais controladas, certificadas, poluídas pela poeira da aridez. O mesmo sorriso da minha lembrança continuado no seu rostinho, a inocência, a entrega, uma ternura indescritível, a urgência de reencontrar esse espaço em mim para que eu te libere, meu filho, para que eu te libere para crescer.

Esse lugar é seu agora. Você, como eu, atravessará muitos abismos.

Que coisa linda foi ver, uma vez mais, o milagre dos primeiros tempos, lugar onde tudo é possível de tanto que se sente, de tanto que não se pensa, de tanto que se confia.

con fiança

olouco

 

ontem, de frente ao penhasco, lugar tão visitado há tempos,

finalmente saltei.

a parte que se foi na queda

levou consigo a orfandade. levou consigo o desespero. levou consigo a negação da vida, as desculpas do auto-boicote. a corda que me amarrava à mediocridade,

a corda que nos separava

soltei a última instância da descrença

abri mão do controle

abri mão de ser esteio

estou livre para voltar ao lugar onde primeiro nos encontramos. aquele lugar onde recém-vivíamos nossos desapegos, e sentíamos o frescor da primavera de outubro.

renasci para esse lugar em pleno outono.

renasci para esse lugar oito meses depois que nosso último fruto chegou.

renasci para esse amor livre de medo

coloquei novamente os pés na correnteza, e depois me joguei rio adentro

abri mão das margens seguras, da platéia de quem contempla, em inveja silenciosa, os saltos alheios.

te libertei desse peso,

me libertei dessa culpa

abri vazio para que só o amor agora preencha.

estou pronta pra tudo,

porque tenho o essencial: a volta à minha casa sagrada.

confiei novamente em mim

e pude, então,

perceber que sempre confiei em você.

obrigada por ter esperado. mesmo tendo ido na frente.

nossa música é assim. feitas de ritmos alternados.

te amo

e isso faz parte do rio.

pedido antes de soprar 39 velas

Que hoje, aos 39 anos, eu consiga agradecer e ver todos os recursos internos e externos disponíveis para (e)levar minha vida a um novo patamar de sentido.

Até aqui cheguei. Vivi em uma família boa e doativa, tomei coragem para alçar vôo sozinha nma cidade imensa, desenvolvi talentos, ampliei minha consciência para além de meu próprio mundo, plantei sementes, uni minha estrada com um homem querido, levantamos um lar, evocamos e temos criado filhos. Estou cercada de amigos, de afeto, de outros corações e lares para pousar meu avião, que está sempre disposto a novos vôos.

Agradeço a tudo o que vivi, doei e recebi. A todos que de mim cuidaram e cuidam, aos que convivo e troco, àqueles dos quais eu cuido e tem sido para mim a maior fonte de sentido, movimento e transformação. Às vezes, transgressão.

Meu pedido, hoje, é que de agora em diante eu inicie um novo movimento, mais sintonizado com os desejos do meu coração, de meu ser verdadeiro, em sintonia com as necessidades da minha família, dos meus entes queridos e da humanidade, mas especialmente alinhado com meu propósito verdadeiro.

Eu também declaro que abdico de qualquer trajetória de vida que tenha como base o sofrimento e o auto-martírio, pois isso não pertence à alma humana, é um desvio incetado  para o controle da potência que somos. Declaro, assim, que só percorrerei o caminho da beleza e da fartura, e aceitarei os obstáculos como aprendizados para minha evolução.

Peço a essa força que nos ampara e acompanha os recursos necessários para dar esse novo salto em minha vida, com coragem para os desapegos e desafios necessários, com amor para tecer o meu passo a passo em permanência e com alegria para me abrir a visão do futuro Que eu possa unificar todas as forças e vozes internas em um coro harmonizado de múltiplas frequências que cante a música que meu ser mais profundo inspira.

E que minha medicina cresça, floresça e reverbere, trazendo alegria e abundância à minha vida e à de todos com quem convivo. Que esse novo ano que se inicia me ajude a transmutar quaisquer barreiras a esse desejo, e que eu possa, daqui a um ano, celebrar meus 40 com a certeza de estar no rumo do meu espírito.

Que assim seja, hoje, e em todos os próximos anos da minha vida na Terra.

10 de maio de 2014

marte, macacos e macarrões

era um lindo domingo. sol e céu azul, disfarçando de serenidade a turbulência absurda desse momento: lá em cima, Marte bem perto da Terra, eclipses iminentes, alinhamentos tensos e um monte de previsões de rompantes.

cá embaixo, na nossa vidinha, um cuidado pra não comprar briga. mas é outono, é quaresma, é isso tudo, é hora de largar o que não serve mais, e essa energia é boa pra desapegar sem mimimi, porque as coisas que precisam sair da cola dão no saco mesmo, e de um jeito insuportável.

mas ainda assim, era um lindo domingo. por que não aproveitar e passear em família?

escolhemos o templo Zu Lai, que é aqui perto de casa, mas que a gente nunca tinha ido. apesar da paulistanice da chegada – carros e mais carros buscando seu lugar à sombra – o lugar vibra equilíbrio, e nossa mente serenou. Havia uma celebração no templo que ficava na parte alta do terreno, e lá debaixo, onde chegamos, à beira de um lago, ouvíamos os cânticos. conhecemos todo o lugar e por último voltamos à beira do lago, circundado por uma matinha fresca com grandes pedras para sentar. lá fizemos um piquenique.

esse foi o ponto alto. levamos vários tipos de frutas e, para a nossa surpresa, apareceram macaquinhos por todo lado. ficamos um tempão compartilhando com eles bananas, goiaba e maçãs, rindo de suas macaquices, de suas pequenas mesquinharias (claro que quem pegava a fruta saía correndo pra não dividir). os meninos riam, riam, e nós também. não sei quanto tempo cronológico passamos ali, mas foi a eternidade de quando se equilibra o profundo e o irreverente, o meditativo e o mundano risível. simples. secreto. sagrado. riso compartilhado.

e tudo tinha sido tão bom que resolvemos esticar o passeio e almoçar lá perto.

saímos procurando um lugar sem conhecer muito os arredores. ao ver um restaurante que nos pareceu bacaninha, resolvemos parar. não vou falar o nome porque o fato objetivo pouco importa agora. meu relato é puramente subjetivo e pode não ter nada a ver com o restaurante em si.

porque sim, marte despencou na minha cabeça. aproveitou meu estado de abertura e falou: quer ver uma coisa que vc precisa cortar de vez da sua vida? vou te fazer um desenho, tá? (e assim me empurrou restaurante adentro).

era um lugar bonitinho, feito pra agradar. muitos, muitos garçons e garçonetes descoladamente uniformizados. já foram nos mimando. já foram nos acomodando. sorriam muito. nos ofereceram uma mesa maior do que éramos. já trouxeram comidinhas. literalmente, iscas. iscas de frango.

mordi a isca.

fiquei refém.

olhei o cardápio, já era tarde. rodízio de massas e risotos.

não gosto de rodízios, lugares onde se paga caro pra comer até morrer. atualmente o extremo contrário do que acredito.

os meninos não gostam de massas, nem de risotos.

a gente não tinha nada pra fazer ali, na verdade.

mas as pessoas alegres do lugar não paravam de falar comigo. crianças pequenas não pagam, grandes pagam meia. ofereceram até papinha para o bebê, mas não obrigada, eu tinha levado a que eu mesma fiz, não obrigada, sim, obrigada, eu fiquei ocupada em me defender de tantas solicitações e quando dei por mim, já estava sentada com pratos na frente, bebidas, entradinhas e o escambau.

agora já era, pensei. mas não consegui relaxar. fui ficando cada vez com mais raiva. e de três em três minutos – juro, deve ter sido isso mesmo – aparecia um garçom com um determinado prato oferecendo de uma forma muito, muito animada, overanimada, até competindo entre eles para dizer que “o meu é mais gostoso”, e eu me vi tendo que parar de falar, de comer e até de ser a cada três minutos para dizer um “não, obrigada” e me defender daquele assédio.

mas, minha querida, era um rodízio! não é assim que um rodízio funciona?

não, não é. eles estavam me empanturrando de comida pra conseguirem me expulsar dali o mais rápido possível pra liberar a mesa pros próximos “clientes” cheios de bananas e maçãs.

pelo menos os macacos eram sinceros.

os meninos, é claro, estavam com cara de bunda. eles sentem a falsidade como ninguém. não queriam comer nada, e isso virou quase uma ofensa pessoal pros garçons competidores, que não se conformavam em não terem seu espetáculo aplaudido. aí um deles teve uma idéia genial: perguntou se eles gostavam de batata frita, eles disseram que sim, e disse que iria trazer uma quase batata frita: inhoque.

claro, inhoque e batata frita são praticamente a mesma coisa.

não, não se pode enganar uma criança. isso é crime.

não, não posso mais enganar a minha criança. não dá pra comer uma coisa pela outra, e dizer que tudo bem, tudo é feito de batata.

minha criança não aguenta mais tanta mentira. não aguenta mais ter que fazer cara de paisagem e deixar pra depois o que gostaria de fazer, ou comer, ou viver, naquele instante. não aguenta mais se submeter à demanda alheia, que traz uma porcaria de bandeja de forma tão animada que você fica constrangido em dizer “não, não quero comer essa coisa. isso não me alimenta.”

e eu, sentindo aquela violência toda, doida praquela tortura acabar e poder ir embora, mas aguentando até o fim, e tudo por que?

porque, ao morder a isca, não consegui simplesmente ir embora.

fiquei me sentindo responsável. uma responsabilidade CDF cretina. um exemplo de bom comportamento de merda nenhuma.

e a porra do inhoque também não descia pela minha garganta.

não sei se por piedade divina ou se pelo horror da minha cara, uma garçonete “conseguiu” nos trazer, depois, uma batata frita de fato. um prêmio de consolação, liberdade condicional, medalhinha de honra ao mérito, bônus pra quem tirou nota 10 e estava suportando bravamente o sacrifício de apoiar a mentira coletiva.

e no fim, claro, pagamos o preço. um preço bem alto por não conseguir chutar o pau da barraca, por ceder aos mimos e às iscas e às demandas de outros, da sociedade de consumo, do espetáculo e bla bla bla. zzzzzzzzz.

almoço indigerível, graças aos céus. graças à ira de Marte, que coloca um basta no que tem que morrer. ou no que já está morto, e ainda carrego por apego, por culpa nem sei do que.

ainda bem que Marte chegou.

ainda bem que os macacos são sinceros

ainda bem que posso fazer macarrão em casa.

ainda bem que aprendi, finalmente, a lição: foda-se.

entre leites e tomates

– Eu não sou uma pessoa boa. Eu só faço coisas ruins.

– Claro que você é uma pessoa boa, meu filho! que bobagem é essa?

Provocação ou não, a declaração me entrou como uma faca.

Ela me chegou depois de uma bronca: uma espécie de autoconsciência depois da décima arte para puxar o foco. Porque eu não tive tempo de pegar tomates, e veio a retaliação. Não era só fome: era vontade de amor. E o amor estava direcionado a nutrir o irmão menor, de nem quatro meses. Mas Gabriel, de quase quatro anos, o atual filho do meio, não entende, nem pode entender, o que é parar o mundo para precisar alimentar alguém.

É difícil aceitar. Eu bem que sei.

Depois de amamentar e ninar o caçula, fui atender o pedido. Dei mais: tomates, beijos, um abraço e uma conversa. Mas aquela frase doeu ouvir. É claro, havia uma certa dose de chantagem emocional, mas era verdade: ele não podia evitar fazer coisas “ruins”, porque queria atenção. Eu queria você, mãe. E teve. E depois disso, abriu um sorriso e disse: Agora o dia está feliz de novo.

Então entendi, mais do que nunca, que a gente nunca pára de amamentar. E que o começo é só um começo, um grande treino de escuta. E que a rede de apoio daquele começo (para as mulheres que tem essa sorte) pouco a pouco se dissipa, o bebê se incorpora à rotina, e as muitas atividades batem à porta, uma a uma, completamente ignorantes da sua falta de tempo ou excesso de cansaço.

E em várias vezes por dia, é necessário parar.

Parar  para nutrir

parar para ouvir

parar para dar.

E a gente. no olho do furacão, tentando não olhar para as tantas coisas pendentes, inacabadas, para as expectativas, pra coisas no fogo, pra um texto pra escrever, outro pra revisar, pra volta ao trabalho, pra casa caindo, especialmente a interna. Sim, é um presente, estupendo presente. A quantidade de ensinamentos que desce com o leite é enorme, cada parada é um transe, se a gente consegue silenciar e escutar.

Mas o silêncio é conquista, ele não vem tão facilmente.

E pesam as coisas que e deveria estar fazendo, as pessoas que eu deveria estar atendendo, o trabalho, os outros filhos, o namoro pendente, os projetos adiados, a vida que mudou completamente, o tempo que insiste em correr além da minha conta, o medo de que o circo pegue fogo sem minha presença onipresente, e o pavor de olhar para o espelho e ver atirada à minha cara, por próprio julgamento, a ofensa:

Eu não sou uma pessoa boa. 

Porque eu não dou conta. Porque me falta paciência. Porque me sobra intolerância. Porque sinto calor, porque me sinto sozinha, porque é tão assustador ser responsável por um ser tão frágil, porque tanta coisa… porque não posso ir ao beco diagonal, comprar uma varinha mágica e dizer: tempus paratus! Porque o braço dói. Porque dói não entender por que às vezes um banho mais demorado do que deveria é mais importante, mesmo que ele esteja chorando… E que às vezes concluir um texto (como esse) é tão urgente que não dá pra adiar um minuto. É difícil entender porque não consigo ser igual à todas aquelas que amamentam serenas, sorrindo, com coluna ereta e posando pra foto. Pelo menos não o tempo todo.

Mas sim, há outro lugar possível. Além do caos dos pensamentos. Além das ansiedades.

Porque às vezes acontece um tempo divino, e um olhar me conquista. Um sorriso ainda mamando. uma mãozinha que me toca o seio. Aí o tempo é eterno. E faz valer a pena, além do que dizem os médicos, as obrigações de mãe, os órgãos públicos, as outras mães.

Aí entendo porque a natureza me fez assim, mamífera. Entendo porque alguma coisa lá dentro de mim, além dos moralismos, me fez seguir por essa opção. Apesar do trabalho, apesar das pressões, dos preconceitos, dos medos.

Porque é sublime.

Aí sou nutrida, e a imagem se espelha: com um bebê no meu colo, vejo-me apoiada no colo da Mãe. E tantas e tantas maravilhas me chegam, vertendo em leite divino o amor necessário para enfrentar o que seja.

E isso vai muito além.

Porque depois do desmame, dá pra transformar esse tempo em abraço, em beijo, em novas atenções. Em outras escutas. Vira um lugar sagrado, onde se nutre e se é nutrida.

Então que esse tempo nunca seja ocupado com nada menos importante, é o que eu peço. Assim posso ter coragem para ouvir tantas e tantas frases duras e difíceis, passar por situações novas, e saber que terei condições de ver um sorriso brotando de novo.

Amamentar é só o começo. Ainda bem.