na lida

Silenciei aqui, tô escrevendo lá. Ainda na toca. Tá meio difícil de sair, porque esse texto vem em formato novo, pra entender o idioma demora mais. 

Peça:  Jukebox, encomendada pela Alessandra Velho.

Mas tá saindo. Taqui uma fatia.

De desilusão em desilusão se segue. Mas numa hora, fofa, você chega lá. Porque entre uma entrega e uma queda, no vazio entre uma esperança e outra, a gente vive o estado mágico: encantamento.

uma sombra violeta

Eu não sou atriz. É assim que eu me defendia de ser (atriz, e outras demais coisas: eu não sou).

Aí, no curso de pós em direção teatral (do Célia Helena), a gente ia ter que atuar. Era um exercício pra aula do Marco Antônio Rodrigues. Eu até poderia dirigir ao invés de atuar, mas uma coisa maior que minha ranhetice (que disfarçava minha vergonha, que disfarçava meu medo, que disfarçava….) me jogou na corrente. Boralá atuar.

Danilo Moreno seria o diretor. Figura linda, vinda de outros cantos (Recife, Rio, outras paragens). Karina, psicanalista, e Jacqueline, única atriz entre as atrizes, completariam comigo o elenco. Entre as escolhas possíveis de texto, ficamos com Plínio Marcos, o Querô. Quem conhece sabe que não é bolinho: da classe média ao cais de Santos. Chão, chão, chão. Lama, lama, lama. Nós três, poéticas, lendo Clarice, imagine… Mas foi uma escolha.

Das personagens possíveis, me coube a Violeta, cafetina, dona do puteiro, proprietária e exploradora da mão de obra (corpo) alheio. Ou, nas palavras de Leda, a outra personagem, prostituta-mártir de Plínio: machona, greluda. E eu, pesquisando o sagrado feminino, a sexualidade transcendente… fui dar com a sombra de tudo isso.

Numa semana, mergulhamos fundo. Numa semana, nos deixamos, entre encontros e polêmicas, nos conduzir pelas imagens delirantes do Danilo. E eu mergulhei na dor daquela criatura, daquela figura, mergulhei no ressentimento que poderia transformar uma mulher no reverso de si. Dei as mãos a Violeta, aceitei sua existência. Descobri parte de sua voz, parte de um riso funesto que me fez tremer. Vivi parte de uma dor, e digo parte porque só toquei com os pés esse oceano, mas senti essas águas geladas.

Na hora da cena, fui pra lá. Se pensasse, não faria. Me entreguei a ela, ao ponto de não me reconhecer. Depois soube que essa foi a impressão de vários colegas: demoraram para me perceber ali. Eu, não-atriz, a não-puta, me tornei a sim…simultaneidade de possibilidades. Sim ao avesso do que aspiro. Sim à sombra das mulheres, sim ao que lhes torna feridas, humilhadas, submissas e finalmente, também carrascas e castradoras.

Trouxe à tona, à luz. Aceitei. Curei, assim, essa parte de mim. Ainda tremo com ela, tremo de medo, mas sei o seu rosto, seu nome, sua voz, seu grito.

Obrigada, Plínio, por nos trazer esse mundo desprezado. Obrigada, Danilo, Jacque, Karina, companheiros de nau, pela confiança mútua. Obrigada, teatro, por abraçar do baixo ao sublime, por abraçar a todos nós, em sorrisos e dores.

quem poderá me salvar?

– O que você faz?

– Eu escrevo.

– E você também trabalha?

(…)

– Dou aulas.

– Ah, tá. E trabalha em que?

(…)

– Teatro.

– Só?

(…)

– Cinema. Às vezes.

– Ah…

(…)

aprendendo a separar

o que eu quero

o que eu acho que quero

o que eu aprendi a querer,

o que eu acho que deveria querer.

(…)

e que separar não é tão fácil quanto parece,

e que essas opções não são tão claras como poderiam,

e que a mente trai o corpo, às vezes,

que os moralismos traem a gente, sempre.

crônicas de kung fu I – passando pelo portal

O corpo é mais que um tripé de cabeça.

Não que eu já soubesse, mas já desconfiava. E como vivo nesse preconceito muderno que privilegia o “pensamento”(leia-se Cabeção) como um grande chefe, e o corpo como o peão que executa as ordens, estava assim, meio largada. Claro, porque chefe que é chefe só manda, e a massa executa. Mexer o corpo é coisa de que ainda não chegou lá, no topo.

Viagem minha ou faz algum sentido?

De qualquer forma, ficava a culpa pelo sedentarismo. Culpa mesmo, dessas cristãs, que adoram o flagelo. Fugi das academias e passava de tentativa em tentativa, a maioria solitária – andar, nadar, pular. Muito efêmero tudo. E meu lado rebelde clamando por tortura nunca mais.

O Cabeção ordenava: Você tem que fazer algum exercício! O que devo fazer, senhor? Sei lá, você não gosta de dançar? Então dança! Mas dava preguiça, porque dançar só tem graça se não tiver que. Aí enganava o chefe: Sabe, senhor, é que eu tenho tanto trabalho sério pra fazer… Sou criadora, professora, orientadora, mãe, também, não sobra tempo pra essas coisas vaporosas. O Cabeção concordava, afinal, ele mesmo nem se importava tanto. Mas eu ficava ali, oprimida, fraquita, doída. E anarquista demais pra encarar um “programa de condicionamento”que, ao meu ver, é coisa de gente velha e sedentária. O Cabeção ficava feliz com essa observação. Nada melhor que ter todo o tempo do mundo pra pensar, afinal.

Uma história paralela: nunca fui alucinada com artes marciais. Meus irmãos fizeram karatê por um tempo, mas eu preferia a dança. E tive, num passado remoto, um caso de amor com a ginástica olímpica: lá eu voava. Lá o amor ao corpo existia. Depois a adolescência chegou, a culpa pelo prazer do corpo chegou, e ele passou a ser inimigo, gerador de todos os conflitos do mundo. Mas algo desse amor ficou guardado que nem semente, e às vezes remexia nas terras de mim ao ver um corpo voando – na dança contemporânea, nas olimpíadas, em alguns filmes, por aí no mundo.

Kill Bill me deixou alucinada, ainda que o Cabeção fizesse que não. De repente quis ser, secretamente, Beatrix Kiddo. Em outra vida, talvez, Cabeção vociferava. Talvez. Não. Tinha medo de fazer kung fu. Coisa de homem, meio bruta, pensava. Eu sou mocinha. Ainda por cima pesquisando o feminino, esse efêmero desconhecido tão falado no momento. Cabeção escreve uma peça sobre o feminino, e eu vou querer logo fazer kung fu? Arquétipo do guerreiro?

Confesso: tenho um prazer secreto de contrariar Cabeção, ainda que pelas tangentes. Fui lá, disfarçada de Grouxo Marx, fazer uma aula-teste. Saí feliz. Corleone, enganado, ficou confuso, mas o que eu senti foi felicidade. Sem querer,  desmoralizei, destronei o chefe. Permiti ao corpo que ele exercesse livremente o movimento que bem entendesse. Ainda que nesse começo seja totalmente destrabelhado.

Voltei à época anterior à crise do corpo, onde só havia amor, e quando eu não era tão eu, era um ser em movimento e possibilidade futura.

Não sei onde isso vai chegar, mas estou adorando.

140 caracteres

Tenho twitter, mas não uso. pelo menos, quase não escrevo nele (e acabo não entrando). Juro que não é ranhetice, mas tem a ver com: 1) uma compulsão iconoclasta de me afligir com seguidores; 2) uma rebeldia à necessidade constante, incessante e irritante (no meu caso) por quantidade e rapidez de informação e 3) os tais 140.

Quanto aos últimos, acho bacaninha – até higiênico, ecologicamente sustentável – poder sintetizar as idéias em tão pouco espaço. O problema é quando não dá. O problema é passar a pensar em 140 toques, e não ter paciência para ler 141. A gente vai sendo contaminado disso, dessa ansiedade. Eu já nem espero mais uma carta escrita a mão – já virou coisa cult, artigo de luxo – mas olha só: nem quase e-mails  eu recebo agora. Pessoais, digo. Quando vêm, até guardo de lembrança, num tipo de caixinha virtual que nem aquelas onde eu guardava cartas de amigos.

Mais de uma vez me disseram que eu “escrevo e-mails grandes”. Juro, demorei um tempo para entender –  não a informação, obviamente, mas o problema. Tolinha… E olha que nem sou daquelas traças de livro – gostaria de ler bem, bem mais do que atualmente consigo. Mas também já vivo com cinco coisas abertas, já estou contaminada pelos saltos de pensamento, pela dificuldade de me concentrar num ato único – a não ser, é claro, que a leitura tenha um poder tão grande de rapto que as vistas não se queixem de não variar o assunto.

É, realmente, uma prova de fogo pras letras. E pra emoções e raciocínios que tomam um tiquinho mais de espaço.

A tempo: gosto muito de microcontos, micronarrativas, hai kais. Tem coisas geniais feitas aí. Mas também curto livrinhos de 500 páginas, pode ser?

resposta pra Lu

Lucienne Guedes, dramaturga, puta atriz e diretora, pessoa incrível, num projeto com o Teatro de Narradores, pergunta, assim como quem não quer nada, lá no facebook: “VOCÊ QUERIA ESTAR ONDE ESTÁ?”

Difícil responder a essa pergunta hoje, agoniada e feliz que estou, simultaneamente. Hoje estréia Arritmia, hoje estréia a mostra na ESPM, o filme tá lindo mas não tá pronto, e estou sentindo taquicardia. Talvez esteja indo para lugares certos por caminhos equivocados, porque o corpo anda sofrendo, e isso não é legal.

Mas sem querer me estender demais, respondi isso ai. Paradoxo.

Eu estou a caminho do lugar onde quero estar.
Coloco todo meu ser nessa busca, mas de uma hora pra outra, a energia se esvai. De repente, descubro a ilusão, e o querer revela-se desvio. Viro escrava dos desejos ilusórios, e descubro que onde queria estar era só uma lua, inalcançável, atrás da próxima montanha.
humildemente, me realinho,pedindo silêncio à mente autoritária, pedindo socorro ao corpo que sabe, lá dentro, as respostas.
Volto pra busca verdadeira, e descubro que onde quero estar é, simplesmente, no caminho sincero. Ai o lugar a se alcançar não é futuro, vira presente, presença.
Estou onde quero estar.

um numerozinho redondo…

Há mais ou menos uns 6 meses, coloquei um contador de visitas no blog. Sei lá se movida por ego, curiosidade, ou até vontade  de saber se o dito aqui tem serventia. Pra minha surpresa (mesmo), vi que tem gente que lê, que continua lendo, mesmo num mês que nem esse, que eu tô louquita da silva, sem tempo pra muita palavra, por conta do retorno às imagens.

Nesses dias, reparei que a contagem bateu em 10 mil. Aí me veio um agradecimento grande, grande, mesmo sem saber quais são esses rostos leitores. Quem se mete com coisas do tipo deve entender, é gostoso, muito, saber que a escrita circula… e que tem gente por aí me escutando com os olhos.

Obrigada, então. Café?

respingos antes de um último dia de set

Ano de mercúrio, tudo muitorápidoagorajanesseminuto. Peguei no ar o momento de voltar a dirigir cinema, apesar de parecer impossível, dadas as condições do momento. Não ia fazer, era apertado demais, pepino demais, loucura demais, os meninos, pequenos, buraco na conta, e sei lá tudo aquilo que vem quando a gente tem medo. Mas aí, não sei o que acontece, as coisas vão dando certo, pessoas foram chegando, ajudando, a equipe foi se formando, e todo esse gerúndio acontecendo, de repente o impossível, o improvável foi perdendo força e a história resolveu que queria existir fora do texto. Entreguei-me ao sacerdócio, às doze horas diárias de set, às doze horas restantes do dia pesando no dia seguinte (inclusive nos sonhos), às conversas no carro de um lado pro outro, à correria das decisões imediatas, à espera da nuvem pra tapar o sol, à busca da veracidade cênica, à sauna dos refletores e janelas fechadas, à gratidão pelo muito que cada um oferece, à alegria do convívio intenso e coletivo, ao espanto de ver, através da janela, a vida acontecer de verdade, ainda que fosse mentira.