mais um filho.

o livro

 

Na próxima terça-feira, dia 22 de setembro, virada pra primavera, lua crescente, lá vem mais um broto na história da minha vida.

um livro.

Já fiz filmes e peças pra teatro. O frio na barriga é parecido, mas livro a gente pode carregar debaixo do braço, que nem filho mesmo. Tem uma coisa aqui que difere, que rasga mais, que expõe demais, mas nem por isso é ruim: só tem uma potência tão avassaladora que eu não sei o que fazer com tudo isso até chegar o dia. E hoje ainda é sexta.

Tudo em mim vibra, tudo em mim grita, vertigens à flor da cabeça, suspiros na pele, horas alongadas, nada no lugar, treme o chão, choro, riso, frio, calor, arrepio, alegra-se o espírito. É isso, afinal, estar viva?

o menino de olhos brilhantes

Sem voz há dois dias, com choro enrustido parecendo pecado se saísse em tempos de tanta demanda na fortaleza. No carro, na via travada de sempre, com tanta coisa à frente impedindo a passagem, com tanto excesso, ruído. Secretamente, eu adicionava mais uma memória à minha coleção de fracassos, cansada demais pra ter raiva, ou com raiva demais pra entender alguma coisa. Um mar ao fundo. Água salgada à espreita, muita água. Quem disse que é tempo de seca? Um anúncio hipócrita da Sabesp no rádio, que desliguei num ímpeto de quem dá em alguém um tapa na cara. Se eu me desaguasse inteira ia dar inundação.

Um par de olhos me enxerga. Um par de olhinhos puxados de quase dois anos me observa no banco de trás. Puxa meu foco. Ti foi, mamãe? Como ele sabe? Como pode saber? Me estende a mão, dando conforto, aquele tiquinho que não entende tanta coisa e sabe tanto. Sorriu, lembrando a mim mesma numa foto de infância: quem me sorriu afinal? O sal chega à boca. Não chola mamãe. Uma presença tão evidente que quase se materializa, ainda que invisível. Alguém a mais dentro do carro-presença. A mão gordinha ainda estendida, devolvendo tanto colo já recebido. A certeza de que tudo vale a pena. As águas não mais controladas, certificadas, poluídas pela poeira da aridez. O mesmo sorriso da minha lembrança continuado no seu rostinho, a inocência, a entrega, uma ternura indescritível, a urgência de reencontrar esse espaço em mim para que eu te libere, meu filho, para que eu te libere para crescer.

Esse lugar é seu agora. Você, como eu, atravessará muitos abismos.

Que coisa linda foi ver, uma vez mais, o milagre dos primeiros tempos, lugar onde tudo é possível de tanto que se sente, de tanto que não se pensa, de tanto que se confia.

acordando pra vida

Acordei ainda tonta. há poucos segundos, vivia numa espécie de ditadura.

Sem recursos. Sozinha. Controlada por homens terríveis. Na beira do fim do mundo. O Horror.

O sobressanto trouxe de volta a lucidez. Então me perguntei o que me fez ter sonhos assim. Não, não é óbvio: o resultado das eleições é uma coisa, minha interpretação dos fatos é outra.

Percebi que o MEDO que teceu esse pesadelo é o mesmo que moveu muitos de nós em direção às urnas. o MEDO que a água acabe, que só a polícia sobre (no meu caso), de que a situação não mude (como não, se a vida é mudança?), que os recursos se esgotem, bla bla bla. E pior: medo que o bando oposto ao meu seja a razão da minha desgraça.

Embarquei nessa viagem de ódio.

Embalada nesse “espírito esportivo”, fiz prognósticos fatalistas. porque meu time perdeu.

E hoje, ao sonhar (pesadelar) com um real estado de ditadura, percebi o quanto eu estava sendo leviana, o quanto estava desonrando, inclusive, vários que acreditaram na liberdade quando a situação era mais dura, e deram a vida para que eu pudesse ter autonomia. Tantos que acreditaram e construíram uma realidade mais libertária, e eu aqui de mimimi. reclamando ao SAC catártico das redes sociais, chamando, sem perceber, um estado ainda pior de coisas.

Eu aqui, reclamando porque fui boazinha e não ganhei o pirulito.

Acordei.

Percebi a necessidade de sair dessa corrente de medo, de futurismos fatalistas, e acreditar que a vida é bem maior que essas manipulações dos que se dedicam a formar bandos opostos. Porque acreditar nesse futuro trágico é implantar um tumor silencioso e traiçoeiro que, aos poucos, corrói o próprio destino, nos afasta da nossa coragem e dá a um suposto “opressor” – alguém nem tão diferente de nós – o poder de tecer as histórias que nos conduzem.

Decidi honrar a história de todas e todos que colocaram suas vidas a serviço do amor e da liberdade, honrar o destino que quero ter, e isso só é possível tomando a vida nas mãos, sem acreditar em heróis nem em opressores. Sem ficar xingando o “povo”que vota “errado” (errado=diferente de mim).

Nada está pronto. É o contrário do que está escrito nas embalagens.

E isso é bom.

con fiança

olouco

 

ontem, de frente ao penhasco, lugar tão visitado há tempos,

finalmente saltei.

a parte que se foi na queda

levou consigo a orfandade. levou consigo o desespero. levou consigo a negação da vida, as desculpas do auto-boicote. a corda que me amarrava à mediocridade,

a corda que nos separava

soltei a última instância da descrença

abri mão do controle

abri mão de ser esteio

estou livre para voltar ao lugar onde primeiro nos encontramos. aquele lugar onde recém-vivíamos nossos desapegos, e sentíamos o frescor da primavera de outubro.

renasci para esse lugar em pleno outono.

renasci para esse lugar oito meses depois que nosso último fruto chegou.

renasci para esse amor livre de medo

coloquei novamente os pés na correnteza, e depois me joguei rio adentro

abri mão das margens seguras, da platéia de quem contempla, em inveja silenciosa, os saltos alheios.

te libertei desse peso,

me libertei dessa culpa

abri vazio para que só o amor agora preencha.

estou pronta pra tudo,

porque tenho o essencial: a volta à minha casa sagrada.

confiei novamente em mim

e pude, então,

perceber que sempre confiei em você.

obrigada por ter esperado. mesmo tendo ido na frente.

nossa música é assim. feitas de ritmos alternados.

te amo

e isso faz parte do rio.

pedido antes de soprar 39 velas

Que hoje, aos 39 anos, eu consiga agradecer e ver todos os recursos internos e externos disponíveis para (e)levar minha vida a um novo patamar de sentido.

Até aqui cheguei. Vivi em uma família boa e doativa, tomei coragem para alçar vôo sozinha nma cidade imensa, desenvolvi talentos, ampliei minha consciência para além de meu próprio mundo, plantei sementes, uni minha estrada com um homem querido, levantamos um lar, evocamos e temos criado filhos. Estou cercada de amigos, de afeto, de outros corações e lares para pousar meu avião, que está sempre disposto a novos vôos.

Agradeço a tudo o que vivi, doei e recebi. A todos que de mim cuidaram e cuidam, aos que convivo e troco, àqueles dos quais eu cuido e tem sido para mim a maior fonte de sentido, movimento e transformação. Às vezes, transgressão.

Meu pedido, hoje, é que de agora em diante eu inicie um novo movimento, mais sintonizado com os desejos do meu coração, de meu ser verdadeiro, em sintonia com as necessidades da minha família, dos meus entes queridos e da humanidade, mas especialmente alinhado com meu propósito verdadeiro.

Eu também declaro que abdico de qualquer trajetória de vida que tenha como base o sofrimento e o auto-martírio, pois isso não pertence à alma humana, é um desvio incetado  para o controle da potência que somos. Declaro, assim, que só percorrerei o caminho da beleza e da fartura, e aceitarei os obstáculos como aprendizados para minha evolução.

Peço a essa força que nos ampara e acompanha os recursos necessários para dar esse novo salto em minha vida, com coragem para os desapegos e desafios necessários, com amor para tecer o meu passo a passo em permanência e com alegria para me abrir a visão do futuro Que eu possa unificar todas as forças e vozes internas em um coro harmonizado de múltiplas frequências que cante a música que meu ser mais profundo inspira.

E que minha medicina cresça, floresça e reverbere, trazendo alegria e abundância à minha vida e à de todos com quem convivo. Que esse novo ano que se inicia me ajude a transmutar quaisquer barreiras a esse desejo, e que eu possa, daqui a um ano, celebrar meus 40 com a certeza de estar no rumo do meu espírito.

Que assim seja, hoje, e em todos os próximos anos da minha vida na Terra.

10 de maio de 2014

perto dos 39 degraus

a minha geração nasceu na ditadura,

a minha geração subiu pro céu num balão mágico e desceu numa nave espacial xata,

a minha geração tinha mapa de sala na escola. lugar fixo. só vencia um.

 

a minha geração batalhou muito. corre atrás. ainda batalha. aliás, a vida é uma luta

(pra chegar na frente)

 

eu fui criancinha nos anos 70, menstruei nos anos 80 e virei self made woman nos 90.

eu queria um canivete. eu queria ser aventureira. eu queria ser Goonie. eu queria ser popular. eu queria passar pro outro lado da televisão.

eu cresci com barbie-querendo-ser-cinderela-precisando-ser-she-ra-temendo-ser-mulherzinha.

meu irmão cresceu com falcon-querendo-ser-thundercat-precisando-ser-superhomem-temendo-ser-mulherzinha.

eu sabia fazer tricô, mas esqueci.

eu aprendi a fazer bolo, mas eles não crescem mais no forno.

(mas tudo bem, no mercado tem bolo)

eu dediquei tudo à batalha da vida.

 

minha geração tem muitos rótulos

minha geração pode comprar muitos rótulos também

minha geração pode escolher entre muitas coisas parecidas,

(mas meu celular é o ÚNICO com elástico pra segurar a capinha)

 

minha geração gerou filhos depois dos 30, ou perto dos 40.

(todos subversivos, contrariando a ordem celibatária da carreira emergente)

dormimos ao lado do celular

levamos trabalho pra casa

(e fingimos levar casa pro trabalho)

 

minha geração venceu.

 

e o troféu virou peso de porta,

lastro de balão

atraso de vôo.

um dia a gente vai se dar conta de tudo isso, de todo tempo devotado a causas inúteis

de todo pensamento canalizado

a coisas fúteis

ouro de tolo,

sonhos rasgados

então nós, tão especialistas, inteligentes e workaholics

vamos trabalhar, incansáveis,

pra uma encontrar uma saída.

..

.

até que a gente se esgote

e enfim consiga

olhar

por dez

minutos

 

uma

 

flor

 

e ser. só ser.

 

das aprendizagens permaculturais

uma coisa é a lapidação dos talentos, outra é o estreitamento do ser.
a especialização emburrecedora
a redução da ação a um emprego, a um título, a um estado temporário e dependente
de promoção
de reconhecimentos alheios
pior: de um sistema de violência (insustentável) que o sustente

a monocultura
do ser e do pensamento
só tem um fim:
o deserto.

(a partir da ponte entre monocultura da terra e do pensamento de Djair Guilherme)

marte, macacos e macarrões

era um lindo domingo. sol e céu azul, disfarçando de serenidade a turbulência absurda desse momento: lá em cima, Marte bem perto da Terra, eclipses iminentes, alinhamentos tensos e um monte de previsões de rompantes.

cá embaixo, na nossa vidinha, um cuidado pra não comprar briga. mas é outono, é quaresma, é isso tudo, é hora de largar o que não serve mais, e essa energia é boa pra desapegar sem mimimi, porque as coisas que precisam sair da cola dão no saco mesmo, e de um jeito insuportável.

mas ainda assim, era um lindo domingo. por que não aproveitar e passear em família?

escolhemos o templo Zu Lai, que é aqui perto de casa, mas que a gente nunca tinha ido. apesar da paulistanice da chegada – carros e mais carros buscando seu lugar à sombra – o lugar vibra equilíbrio, e nossa mente serenou. Havia uma celebração no templo que ficava na parte alta do terreno, e lá debaixo, onde chegamos, à beira de um lago, ouvíamos os cânticos. conhecemos todo o lugar e por último voltamos à beira do lago, circundado por uma matinha fresca com grandes pedras para sentar. lá fizemos um piquenique.

esse foi o ponto alto. levamos vários tipos de frutas e, para a nossa surpresa, apareceram macaquinhos por todo lado. ficamos um tempão compartilhando com eles bananas, goiaba e maçãs, rindo de suas macaquices, de suas pequenas mesquinharias (claro que quem pegava a fruta saía correndo pra não dividir). os meninos riam, riam, e nós também. não sei quanto tempo cronológico passamos ali, mas foi a eternidade de quando se equilibra o profundo e o irreverente, o meditativo e o mundano risível. simples. secreto. sagrado. riso compartilhado.

e tudo tinha sido tão bom que resolvemos esticar o passeio e almoçar lá perto.

saímos procurando um lugar sem conhecer muito os arredores. ao ver um restaurante que nos pareceu bacaninha, resolvemos parar. não vou falar o nome porque o fato objetivo pouco importa agora. meu relato é puramente subjetivo e pode não ter nada a ver com o restaurante em si.

porque sim, marte despencou na minha cabeça. aproveitou meu estado de abertura e falou: quer ver uma coisa que vc precisa cortar de vez da sua vida? vou te fazer um desenho, tá? (e assim me empurrou restaurante adentro).

era um lugar bonitinho, feito pra agradar. muitos, muitos garçons e garçonetes descoladamente uniformizados. já foram nos mimando. já foram nos acomodando. sorriam muito. nos ofereceram uma mesa maior do que éramos. já trouxeram comidinhas. literalmente, iscas. iscas de frango.

mordi a isca.

fiquei refém.

olhei o cardápio, já era tarde. rodízio de massas e risotos.

não gosto de rodízios, lugares onde se paga caro pra comer até morrer. atualmente o extremo contrário do que acredito.

os meninos não gostam de massas, nem de risotos.

a gente não tinha nada pra fazer ali, na verdade.

mas as pessoas alegres do lugar não paravam de falar comigo. crianças pequenas não pagam, grandes pagam meia. ofereceram até papinha para o bebê, mas não obrigada, eu tinha levado a que eu mesma fiz, não obrigada, sim, obrigada, eu fiquei ocupada em me defender de tantas solicitações e quando dei por mim, já estava sentada com pratos na frente, bebidas, entradinhas e o escambau.

agora já era, pensei. mas não consegui relaxar. fui ficando cada vez com mais raiva. e de três em três minutos – juro, deve ter sido isso mesmo – aparecia um garçom com um determinado prato oferecendo de uma forma muito, muito animada, overanimada, até competindo entre eles para dizer que “o meu é mais gostoso”, e eu me vi tendo que parar de falar, de comer e até de ser a cada três minutos para dizer um “não, obrigada” e me defender daquele assédio.

mas, minha querida, era um rodízio! não é assim que um rodízio funciona?

não, não é. eles estavam me empanturrando de comida pra conseguirem me expulsar dali o mais rápido possível pra liberar a mesa pros próximos “clientes” cheios de bananas e maçãs.

pelo menos os macacos eram sinceros.

os meninos, é claro, estavam com cara de bunda. eles sentem a falsidade como ninguém. não queriam comer nada, e isso virou quase uma ofensa pessoal pros garçons competidores, que não se conformavam em não terem seu espetáculo aplaudido. aí um deles teve uma idéia genial: perguntou se eles gostavam de batata frita, eles disseram que sim, e disse que iria trazer uma quase batata frita: inhoque.

claro, inhoque e batata frita são praticamente a mesma coisa.

não, não se pode enganar uma criança. isso é crime.

não, não posso mais enganar a minha criança. não dá pra comer uma coisa pela outra, e dizer que tudo bem, tudo é feito de batata.

minha criança não aguenta mais tanta mentira. não aguenta mais ter que fazer cara de paisagem e deixar pra depois o que gostaria de fazer, ou comer, ou viver, naquele instante. não aguenta mais se submeter à demanda alheia, que traz uma porcaria de bandeja de forma tão animada que você fica constrangido em dizer “não, não quero comer essa coisa. isso não me alimenta.”

e eu, sentindo aquela violência toda, doida praquela tortura acabar e poder ir embora, mas aguentando até o fim, e tudo por que?

porque, ao morder a isca, não consegui simplesmente ir embora.

fiquei me sentindo responsável. uma responsabilidade CDF cretina. um exemplo de bom comportamento de merda nenhuma.

e a porra do inhoque também não descia pela minha garganta.

não sei se por piedade divina ou se pelo horror da minha cara, uma garçonete “conseguiu” nos trazer, depois, uma batata frita de fato. um prêmio de consolação, liberdade condicional, medalhinha de honra ao mérito, bônus pra quem tirou nota 10 e estava suportando bravamente o sacrifício de apoiar a mentira coletiva.

e no fim, claro, pagamos o preço. um preço bem alto por não conseguir chutar o pau da barraca, por ceder aos mimos e às iscas e às demandas de outros, da sociedade de consumo, do espetáculo e bla bla bla. zzzzzzzzz.

almoço indigerível, graças aos céus. graças à ira de Marte, que coloca um basta no que tem que morrer. ou no que já está morto, e ainda carrego por apego, por culpa nem sei do que.

ainda bem que Marte chegou.

ainda bem que os macacos são sinceros

ainda bem que posso fazer macarrão em casa.

ainda bem que aprendi, finalmente, a lição: foda-se.

todo mundo merece um creditozinho, né não?

crefisa-credito-facil-2

Não passe vontade. Compre agora. Pense depois. Pegue já o que é seu. Positive-se. Dedo em riste. Não espere. Aproveite! Últimas unidades.

vencedores não esperam. vencedores pegam a oportunidade.

vencedores não se frustram. pegam agora e pensam depois. o futuro não existe.

mercadorias abundam

bundas também.

mulheres tem bundas

(homens também. mas nenhum quer ser bundão)

ninguém merece esperar. pode pagar depois.

as mercadorias não merecem esperar. querem ser consumidas.

especialmente, se vestirem curtas embalagens

fáceis de rasgar.

 

algumas saem de graça

não precisa nem pôr na conta.

 

algumas já vem cortadas em fatias

(só o filezinho, sem osso)

e ainda embalando amortecedores de consciência.

 

cervejamulher

 

Vem, meu bem!

tá esperando o que?

corre, que vai acabar!

 

pinup

 

(reflexões e analogias trazidas pelo companheiro de vida Djair Guilherme, em nossas conversas estimulantes sobre o corpo, a atualidade e o SER.

Aqui tem a versão dele dessa mesma história)

a favor

caminhava por fricção.

então necessitava de um solo duro, árido, para me contrapor.

até a não-violência já me parecia oposição.

minha liberdade de movimentos dependia de uma luta diária contra meu chão,

corporação. patriarcado. verticalismo.bandos opostos. tanta mentira.contradição.

 

até que vi ser impossível fixar raízes em algo contra o qual se luta.

para acelerar o movimento, raspava os pés, touro desenfreado em direção a vermelhos aleatórios.

enquanto isso, a cabeça calculava movimentos. e o corpo arqueava, vazio de tanta pressão nos extremos.

 

um dia, meus pés já secos de tanta briga,

começaram a coçar,

depois ferir,

depois sangrar.

recusaram-se a caminhar.

pediam trégua, água.

deixaram de ouvir os comandos do general geral do alto comando central

 

o centro da voz interna escorregou pra pineal

o centro do movimento externo subiu pro planalto central.

 

revirou meu estômago

mexeu nos meus medos

instalou-se no coração

 

e o fogo que ardia meus pés acendeu a fogueira da alma.

 

e me vi assim: tocha acesa.

 

sem pressa. só presença

 

e a mente ordenando comandos vazios

 

.

(só espera)

 

até que meus pés, finalmente livres,

 

descobriram um caminhar para cima. movidos pela fogueira da alma, com a terra fofa acarinhando o percurso.