entre leites e tomates

– Eu não sou uma pessoa boa. Eu só faço coisas ruins.

– Claro que você é uma pessoa boa, meu filho! que bobagem é essa?

Provocação ou não, a declaração me entrou como uma faca.

Ela me chegou depois de uma bronca: uma espécie de autoconsciência depois da décima arte para puxar o foco. Porque eu não tive tempo de pegar tomates, e veio a retaliação. Não era só fome: era vontade de amor. E o amor estava direcionado a nutrir o irmão menor, de nem quatro meses. Mas Gabriel, de quase quatro anos, o atual filho do meio, não entende, nem pode entender, o que é parar o mundo para precisar alimentar alguém.

É difícil aceitar. Eu bem que sei.

Depois de amamentar e ninar o caçula, fui atender o pedido. Dei mais: tomates, beijos, um abraço e uma conversa. Mas aquela frase doeu ouvir. É claro, havia uma certa dose de chantagem emocional, mas era verdade: ele não podia evitar fazer coisas “ruins”, porque queria atenção. Eu queria você, mãe. E teve. E depois disso, abriu um sorriso e disse: Agora o dia está feliz de novo.

Então entendi, mais do que nunca, que a gente nunca pára de amamentar. E que o começo é só um começo, um grande treino de escuta. E que a rede de apoio daquele começo (para as mulheres que tem essa sorte) pouco a pouco se dissipa, o bebê se incorpora à rotina, e as muitas atividades batem à porta, uma a uma, completamente ignorantes da sua falta de tempo ou excesso de cansaço.

E em várias vezes por dia, é necessário parar.

Parar  para nutrir

parar para ouvir

parar para dar.

E a gente. no olho do furacão, tentando não olhar para as tantas coisas pendentes, inacabadas, para as expectativas, pra coisas no fogo, pra um texto pra escrever, outro pra revisar, pra volta ao trabalho, pra casa caindo, especialmente a interna. Sim, é um presente, estupendo presente. A quantidade de ensinamentos que desce com o leite é enorme, cada parada é um transe, se a gente consegue silenciar e escutar.

Mas o silêncio é conquista, ele não vem tão facilmente.

E pesam as coisas que e deveria estar fazendo, as pessoas que eu deveria estar atendendo, o trabalho, os outros filhos, o namoro pendente, os projetos adiados, a vida que mudou completamente, o tempo que insiste em correr além da minha conta, o medo de que o circo pegue fogo sem minha presença onipresente, e o pavor de olhar para o espelho e ver atirada à minha cara, por próprio julgamento, a ofensa:

Eu não sou uma pessoa boa. 

Porque eu não dou conta. Porque me falta paciência. Porque me sobra intolerância. Porque sinto calor, porque me sinto sozinha, porque é tão assustador ser responsável por um ser tão frágil, porque tanta coisa… porque não posso ir ao beco diagonal, comprar uma varinha mágica e dizer: tempus paratus! Porque o braço dói. Porque dói não entender por que às vezes um banho mais demorado do que deveria é mais importante, mesmo que ele esteja chorando… E que às vezes concluir um texto (como esse) é tão urgente que não dá pra adiar um minuto. É difícil entender porque não consigo ser igual à todas aquelas que amamentam serenas, sorrindo, com coluna ereta e posando pra foto. Pelo menos não o tempo todo.

Mas sim, há outro lugar possível. Além do caos dos pensamentos. Além das ansiedades.

Porque às vezes acontece um tempo divino, e um olhar me conquista. Um sorriso ainda mamando. uma mãozinha que me toca o seio. Aí o tempo é eterno. E faz valer a pena, além do que dizem os médicos, as obrigações de mãe, os órgãos públicos, as outras mães.

Aí entendo porque a natureza me fez assim, mamífera. Entendo porque alguma coisa lá dentro de mim, além dos moralismos, me fez seguir por essa opção. Apesar do trabalho, apesar das pressões, dos preconceitos, dos medos.

Porque é sublime.

Aí sou nutrida, e a imagem se espelha: com um bebê no meu colo, vejo-me apoiada no colo da Mãe. E tantas e tantas maravilhas me chegam, vertendo em leite divino o amor necessário para enfrentar o que seja.

E isso vai muito além.

Porque depois do desmame, dá pra transformar esse tempo em abraço, em beijo, em novas atenções. Em outras escutas. Vira um lugar sagrado, onde se nutre e se é nutrida.

Então que esse tempo nunca seja ocupado com nada menos importante, é o que eu peço. Assim posso ter coragem para ouvir tantas e tantas frases duras e difíceis, passar por situações novas, e saber que terei condições de ver um sorriso brotando de novo.

Amamentar é só o começo. Ainda bem.

Eu sou G

Ontem estive numa loja para uma troca. Peguei tudo M e sem experimentar, mas chegando em casa, ficou apertado.

Fiquei com vergonha.

Não mais do meu corpo – do meu preconceito.

Nem vou entrar no assunto das padronagens, da diminuição das numerações e bla bla bla, que isso é marmita requentada. Vou falar da minha dificuldade em ser grande. Em ocupar espaço. Em ser quem sou, fora da medida considerada – por quem? – ideal.

Então aceitei. Aceitei a música do tempo desenhada em mim, aceitei todas as ondas deixadas pelas gestações, pelos anseios, pelas gulas, pelos medos. Aceitei a medida do presente: não é o corpo do passado nem aquele que poderá ser estreitado por uma nova dieta: agora sou.

E sou G.

Saí da média.

Deixei pra trás a mediocridade.

Desencanei das maneiras.

E quero ocupar meus espaços. Com minhas medidas, com minhas palavras, com minha presença por inteiro.

Porque é revolucionário não pressionar a pele.

Então liberei a dança pintada no corpo: que vá para onde deseja. E leve, então, meu ser, sem a pressão da cabeça ou dos elásticos, para o tamanho que eu necessite.

E que 2014 seja de pura expansão: das palavras, do meu alcance, de minha consciência,

e da liberdade.

criando

não que me sinta obrigada a justificar silêncios…

mas para os que passam por aqui de vez em quando, quis deixar um recado: ando metida em outras criações.

na vida, meninos.

na tela, uma peça que há três anos desafia minhas certezas.

nessa casa do delírio, onde entro por saudade, deixo uma imagem da alegria do presente. pros mais chegados, é só chegar em casa e tomar café ao vivo. 😉

 

clau&chico

frases do cão (de se ouvir e acreditar) sobre vida com filhos

normalmente, parecem grandes elogios, ou pequenas piadas.

mas são a porta pro fundo do poço.

sobre pais:

“que sorte que ele te ajuda em casa”

“quer dizer que você tem dois meninos na sua casa?” (um é o pai)

“que bom que ele é um pai carinhoso!” (oi? não era pra ser?)

“nossa, ele trabalha e também ajuda a cuidar dos filhos” (variação das anteriores, mas sintetizando o espanto)

(história termina com um moleque-mimado-mimimi  – mas ainda pai – posando de herói e secretamente arrependido de ter se metido nessa “roubada” . Ainda achando que merece uma medalha cada vez que pega o filho no colo)

 

sobre mães:

“como ela é forte!” (como uma mula de carga)

“impressionante como ela dá conta!”

“e ela faz tudo sozinha!”

“tem coisas que só a mãe pode fazer” (isso só vale pra aleitamento. o que nos primeiros 6 meses, significa pelo menos 5 horas do dia dedicadas a isso, no mínimo.)

(história termina com uma mãe-chuck-norris com síndrome de mulher-maravilha completamente esgotada, cheia de medalhas por ter dado conta de tudo melhor que qualquer um.)

 

no futuro:

O pai nunca deixa de ser filho, e passa a ser filho de seus filhos, mala eterno.

A mãe, depois de anos de raiva acumulada, manda a conta de tudo o que deu conta pros filhos, virando vítima eterna do fardo maternal.

 

(gente, a Medéia já passou por isso, virou mito, peça grega, até sambinha do Chico. tá na hora de aprender e largar essa carroça, né não?)

38 em vênus

olhos irradiam raios
apontando nas bordas
presentes da maturidade

 

vEnUs

 

 

a tempo: carxs canalhas da indústria-da-estética-padronizadora: meu rosto não é poleiro pra ter pé de galinha.

não me importam as marcas. o que me interessa é se elas vão registrar mais sorrisos (sinceros) que tristezas (escondidas).

Miguel

Daqui a alguns dias,

vão se somar dois anos.

Dois anos desde sua partida para as estrelas.

 

Fiz desse dia um marco. Desde que você se foi, levou com você uma trava, um espinho. Abriu um caminho vermelho entre minhas pernas.

 

Doeu.

 

Tentei fingir que era comum, tentei me agarrar às estatísticas, tentei voltar à rotina.

Tentei me fazer de forte, mas do nada, de uma hora pra outra, desfalecia.

derretia.

Fiquei com vergonha do fracasso. Fiquei com medo de ser punida por algo que nem sabia. Segurei sozinha sua mão, porque não deixei ninguém mais segurar, mesmo sabendo que não poderia nunca te segurar aqui. Porque a escolha foi sua.

Você chegou no tempo das folhas amarelas, e partiu como partem logo as suaves flores de inverno.

 

Mas ao romper o cordão, você rompeu muito mais.

 

Desligou, em mim, uma corda que me prendia. Desenrolou um outro cordão do meu pescoço. Desencadeou um longo processo de liberdade, de reconexão, de reencontro com o próprio amor.

 

Você, alma imortal, me reaproximou do Caminho

me trouxe de volta as estrelas

a ponte.

 

Você, filho querido

me trouxe de frente a humildade

me mostrou o tamanho da minha arrogância

me mostrou reverência e fé

mostrou que as marés que trazem a vida e a morte são idênticas,

que nascer e morrer é uma coisa só,

e coisa que não se controla: só se navega.

 

Seu luto foi minha liberdade

não pela sua partida

mas porque a partir dela

fui ao meu encontro

ao meu próprio parir

 

E nesses dias tão intensos

há quase dois anos de sua viagem,

e a poucos dias da chegada de seu irmão caçula,

você nos trouxe a família.

 

Percebi, entre dores no corpo e nervos pinçados,

entre dentes cerrados,

que eu ainda carregava nas ancas o seu pequeno peso

que nunca pude embalar.

 

E carregava sozinha.

 

Percebi que apartava você do restante de nossa família

percebi que ainda confundia sua trajetória de luz com meu próprio fracasso

e percebi o quanto temia

 

enquanto meu corpo tremia.

 

Então, querida alma,

soltei de vez o cordão

libertei sua memória da torre

e deixei que todos celebrassem sua existência

entre dores e alegrias, a própria essência da vida.

 

Aí, e só aí

no meu último suspiro,

respirei

você foi, eu fiquei,

e só então nos unimos.

 

E juntos,

seu pai, sua mãe

seus pequenos irmãos já em terra

e seu pequeno caçula entre mundos

contamos sua história

para que nunca ninguém te esqueça.

 

Seu pai, por te sentir menino,

te batizou Miguel

e eu, por ainda te sentir flor

te chamo também Sakura

 

Aqui, você é anjo de quartzo rosa,

no centro da nossa unidade

nas estrelas,

alma imortal

e parte (nunca apartada) de nossa vida.

 

as feministas vão destruir o mundo

e rápido.

 

Porque elas não sossegarão enquanto tudo não terminar.

 

Elas são Kali. mostram a língua, tem dentes afiados. são o terror, e não vão parar enquanto não fizerem em pedaços todo o tecido fiado pelo pecado original. enquanto Eva for vadia, enquanto Conhecimento for leite de cobra,

elas não descansarão.

 

Invadirão casas com sua intensidade de vida, com seus cheiros de vida, sua sexualidade livre,

morderão quilos e  quilos de maçã, sem medo,

influenciarão seus filhos e filhas, suas moléculas, seu DNA.

Irão banir de nossas células o sofrimento da culpa, do pecado, do controle,

 

 

do medo da vida,

 

 

não se importarão com o formato dos contornos, dos pelos, mas vão arrepiar seus pelos em êxtase a cada contato de pele.

Irão destruir os templos da sexualidade imposta

e reconstruir os degraus que levam ao templo sagrado do corpo.

 

Terão sangue entre as pernas, pois sabem que esses rios nos contam o fluxo de nossas histórias.

Terão marcas no corpo, honrando a dança do tempo.

Terão flores brotando de sua terra, mas não serão cultivadas em estufa.

Terão os cheiros das intempéries.

Terão plugadas as antenas ancoradas no útero, caverna imemorial de toda sabedoria.

 

Elas vão destruir o mundo

(realidade imposta como prisão)

e reconstruir o amor.

Kali_By_Piyal_Kundu

arte de Piyal Kundu

pequena escuta no grande hiato das revoluções

O gigante acordou! brandamos, orgulhosos.

e sim, foi motivo de orgulho: a manifestação do despertar consciente.

porém, com o caminhar da lua no céu,

o gigante se revelou multifacetado. E mil cores ainda desconhecidas (ou indesejadas) pintaram seu rosto.

então miramos com horror para a face informe do que somos. talvez, pela primeira vez, em contornos tão claros, refletidos nas ruas de asfalto, tão cinzas e tão espelhadas.

algumas dessas faces, órfãos de pai, de pátria, de comando, pedem ordem.

algumas sentem medo

algumas fritam o cérebro buscando respostas rápidas

é duro, é terrível: mas junto com o tal gigante, acordamos nossa consciência para o ser ferido e fragmentado que somos: um ser perdido entre múltiplos discursos e gritos de ordem.

não é uma pátria, não é um pai. é um grande órfão pedindo cuidado.

mostrando, com sua violência, o abandono sofrido

reclamando os anos tomados

mas revelando, também, sua enorme potência.

é duro aceitar a face torta, e torto é sempre o outro.

está sendo difícil olhar para tudo como um único ser que chama por justiça. a justiça que rege o universo, as leis do amor universal.

hoje acordei dolorida. então resolvi curar.

e percebi que pedimos: “cuidado!” não apenas por medo. não há porque ter medo, as forças que regem o país estão cada vez mais claras, iluminadas pelo sol e pela lua. o oculto agora se revela.

Cuidado! = atender. cuidar do novo que brota no meio ao caos.

cuidar e confiar

que o verdadeiro gigante ainda está às portas, ainda semente, e é o novo espírito que está nascendo.

 

Que o amor dissolva a dureza da terra, para que nosso corpo possa ser fértil,

e deixar brotar,

apesar do difícil pensar, e do tortuoso agir.

 

E se o novo, para chegar, pedir sangue

que esse seja o sacrifício vindo não da violência,

mas do nosso consciente parir. a dor de se auto-gerar.

pra nascer.

desobediência (poética) civil

acordei meio zonza hoje. é tanta coisa acontecendo que se a gente tenta entender com a cabeça fica louco. o tom geral nas redes sociais hoje era de “e agora?” (na melhor das hipóteses) ou desapontamento com as “distorções”,  e era de se esperar esse hiato depois de tanta euforia. mas – pensei – essa é a hora de ter firmeza para não se perder a esperança. o negócio é seguir o fluxo da História, confiar que o processo desencadeado é sábio – mais que as nossas palavras – e que tudo caminha para a evolução.

ainda assim, na prática mesmo, hoje eu estava fora do ar. ou fora da terra.

fiquei na rede buscando e compartilhando informações, e perdi o pé das coisas cotidianas. quando dei por mim, estava bem atrasada para buscar os meninos na escola. saí correndo, ainda dei de cara com um acidente na Raposo Tavares, cheguei meia hora mais tarde e fui recebida por dois sorrisos lindos.

mamãe tá muito louca: tava na minha testa.

no caminho de volta, os meninos pediram “pra ver o castelo” – é uma construção que lembra um, e passo pela frente lá de vez em quando, porque eles acham o máximo ver de perto aquela representação que só se vê em livros. claro que não conto pra eles o que é de fato o tal castelo, só dou um “tchau”de dentro do carro e sigo meu rumo. ainda bem, os portões daquilo estão sempre fechados.

hoje não foi diferente. mas voltando de lá, o Pedro me sai com um comentário típico da sua ordem mental: sempre uma poesia espontânea.

 

o castelo do rei tá fechado

o rei disse não

o rei não entra no meu castelo

 

acho que não vou precisar explicar pra ele o que é desobediência civil, nem anarquia.

 

e ainda no caminho, pra completar, os dois foram cantando o refrão da música da Menina da Lanterna, uma história linda sobre a descoberta da luz que brota no mais escuro inverno:

 

“a luz se apagou

pra casa eu vou

com minha lanterna na mão”

 

tem como não ter fé no futuro?

 

de quem é a mulher? (ou ainda sobre o debate)

Quando me convidaram pra falar alguma coisa no debate que ia rolar na ESPM sobre feminismo, a violência contra a mulher e o abuso da mídia (mais informações no post anterior), achei que ia estar em casa. Fiquei revirando minhas memórias de mais de 15 anos em ativismo humanista pra buscar uma forma simples e sintética de falar de um caminhão de coisas que o tema “feminismo” sugere. Eu, particularmente, sempre penso na não-violência num campo mais abrangente, mas sei que às vezes as “lutas” tem que tomar formas mais recortadas para melhor representar problemas específicos de violência: sejam eles de desigualdade social, sem-terra, sem-teto, violência contra homossexuais, contra mulher, violências raciais e tantas variedades no cardápio de horror que vivemos nessa era de luz e sombra.

Alguns dias antes da conversa, comecei a perceber uma criação de borboletas no meu estômago. Não entendi a razão desse sentimento. Será que eu estava nervosa? Era estranho. A coisa foi piorando até chegar no dia do debate, quando eu já acordei com trombetas na cabeça. Além disso, havia dois fatores intensificadores de sensibilidade: o estado de gravidez (que normalmente me faz ficar entre-mundos) e as reverberações de uma vivência que experimentei durante o último final de semana baseada em ensinamentos do profundo feminino. Ou seja, eu era tudo menos um cabeção. Era um nervo exposto e um coração em taquicardia.

Ao entrar no auditório, a intensidade desse sentimento cresceu. Era, pra mim, um lugar conhecido, com muitos rostos conhecidos, mas a sensação era estrangeira.  O local estava cheio, na grande maioria, por alunos. De “fora” , apenas uma convidada, a blogueira Nádia Lapa, que escreve sobre feminismo e liberação feminina, e eu, que também era meio de dentro: Por estar bastante próxima do coletivo que iniciou a discussão, fui convidada a abrir o bate-papo, não apenas por ser professora da casa e ex-aluna, mas por ter feito parte, há 20 anos, do grupo que fundou a TV Pixel, um dos temas da discussão. Fiquei honrada com o convite, mas não sabia a intensidade da questão até aquele momento em que entrei no auditório com as tais borboletas batendo asas em frequência máxima.

“Vou fazer o que dá”, pensei, já me degladiando com meu ego-militante-fascista que me exigia nada menos que a perfeição (sobre esse senhor falarei mais tarde). Quando a coisa começou, minha voz parecia uma gelatina. E uma pergunta começou a palpitar na minha cabeça: Por que estava tão difícil falar? Por que essa sensação de estar falando baleiês? Mas fui tocando em frente. Já adianto que sou uma pessoa bem venusiana e tenho terror de conflito. Terror. Não acho que isso seja virtude, é praticamente um preconceito. Então quando me percebi numa arena armada, vi o tamanho da encrenca: estava muito longe da minha zona de conforto.

A conversa seguiu com outras apresentações, e quando eu parei de falar, fiz o árduo exercício do silêncio e da observação. Minha vontade era falar por horas, mas muita gente precisava também se colocar, e eu precisava entender – ou sentir – o que estava acontecendo. Havia algo se materializando no subterrâneo do auditório.  ” Por que está tão difícil falar?” acabou virando, na minha mente, “por que está tão difícil?” E quando a forma da conversa passou da apresentação pro debate, quando as pessoas começaram a tomar a palavra, percebi que a dificuldade de falar não era só minha, mas de todo mundo que colocava (ou não) as mãos no microfone. Era uma densidade impressionante o que eu sentia, um estado de confusão latente, anos e anos de opressão eclodindo em tentativas de conter em simples palavras sentimentos contraditórios e antigos. Por que está tão difícil, por que está tão difícil?.. E de repente, sapatos começaram a voar pela platéia, e logo depois eram bolsas. E então eu percebi, num rapto, que não estávamos falando só de um video, só de festas universitárias, de passadas de mão, era um negócio mais antigo. Era uma ferida profunda, muito doída, séculos e séculos de opressão, tudo encolhido numa palavrinha de sete letras: estupro. Pronto, aí eu vi: abrimos esse portal. Agora vamos ter que aguentar isso aqui… Agora vou ter que sentir as feridas de minha história pessoal, de todas as mulheres oprimidas da minha ancestralidade, da origem do meu próprio país. Não era só eu, era toda uma linhagem, que em última instância abarcava a humanidade inteira.

De volta do rapto, percebi que voavam línguas. E a discussão foi para o conceitual, para as terminologias, para os “ismos” e o problema dos “ismos”. Uma fuga, seria? Vamos pro racional conceituar porque é o termo é confuso ou porque é insuportável ficar no corpo e  lidar com essa dor coletiva? Uma dor que tem nas mulheres suas maiores representantes, mas que também atinge todos os homens, é claro. A dor existencial é a mais igualitária de todas. E havia um grau de contrariedade e violência, de resistência, uma outra coisa que eu tentava entender ali. Por que tanta dificuldade em aceitar o direito humano a suas próprias escolhas? Nos meus anos de ativismo, só tinha visto esse estado de tensão e patrulha em movimentos que tratavam de uma polêmica em especial: o direito à propriedade privada.

Então, tóin. Um gongo.

Entendi.

Da mesma forma que é tão difícil abrir mão do direito irrevogável (e ilusório) à propriedade da terra, de um pedaço de um planeta boiando num mar de estrelas e infinitos universos assegurado por um pedaço de papel registrado em cartório, assim era com o corpo. No momento em cada um reivindica o direito de ” dar pra quem quiser”, oficializa-se o fato de que “isso não é do outro por direito”. (Aliás, se alguém desse mesmo sairia da transa sem corpo. O que às vezes acaba acontecendo simbolicamente. Na verdade, se a coisa rola gostoso, a gente compartilha). Então vi que esse “direito tácito ao corpo humano alheio”, em especial o da mulher, (talvez por ser tão parecido ao corpo do planeta) é o que faz parecer que esses corpos estão à disposição para uso e abuso de quem assim queira. Ao ter esse “direito” negado, há, é claro, resistência. Então percebi que estávamos discutindo o direito à propriedade. Ou a confusão sobre o que é propriedade.

Novo rapto. Então vi o que é nascer. Chegar a esse mundo tão só, e ter como consolo um seio jorrando leite. E ter a plenitude da  vida pulsando no planeta. Sim, a vida é plena e generosa, e caminhamos para uma autonomia. Primeiro aprendemos a extrair o ar por conta própria, e não por um cordão. Depois, aos poucos, substituímos a nutrição no corpo da mãe pela nutrição cedida pelo corpo da Terra. E a Terra é farta, especialmente no país onde vivemos, cheio de água, de árvores, de terra. Não precisaríamos tomar nada, só colher o que nos é dado de bom grado, agradecer, e também CUIDAR, e DEVOLVER.  Muitas sociedades entenderam isso, e por isso havia tantos ritos de gratidão, reverência e fertilidade. Ao agradecer, tomamos consciência de nossa dádiva, e nos tornamos felizes por estar sendo cuidados. E assim, embalados por essa graça, também cuidamos. É essa a troca. E nosso querido Brasil era pleno dessa dádiva, e não é à toa que se tornou o Eldorado para quem, já refugiado de guerras, escassez e violência, aqui aportou há alguns séculos.

Mas quem chegou, não veio criança. Já havia perdido sua conexão, sua CONFIANÇA na plenitude e no amor. Chegaram pedaços de homens, e por isso fizeram em pedaços a natureza que aqui vivia. A dor do abandono, do auto-abandono, que nos leva a querer tomar do outro esse amor não recebido. Porque cortamos o canal, porque a abundância vem da mesma fonte onde também damos ao mundo alguma coisa. Mas na nossa ferida, nos sentimos vazios, e vamos talhando do mundo o que nos falta, manipulando, oprimindo, e reclamando o direito quando ele nos é ” negado”. E todos nós, homens e mulheres, somos assim. E compensamos esse vazio tentando pegar do outro o que, em nosso delírio, pensamos não ter. E também fazemos isso com nós mesmos, viramos um servo desses infinitos desejos sem saciedade, das ordens daquele senhor que nos manda fazer isso ou aquilo, ser isso ou aquilo, de provar que somos importantes, de provar que somos melhores, que existimos, e viramos adictos de algo que pelamordedeus acabe de vez com essa dor de estar vivo,

e sozinho.

Porque perdemos a conexão e a confiança na bondade e na abundância.

Então, possuímos. Fazemos do planeta, do outro e de nosso próprio corpo uma prótese bidimensional dos desejos desse tirano – ou tirana – que essa dor cultivou. Ficamos cegos à tridimensionalidade, à subjetividade do outro. Somos os bárbaros saqueadores, somos as terríveis manipuladoras (quem já viu a animação Kiriku e a Feiticeira?), somos almas rasgadas por espinhos cobrando do mundo e de outros um remédio contra essa ferida. Se não recebemos, vamos pegar por roubo. Ou, no mínimo, passar a mão na bunda.

…”E passaram a mão na bunda da minha amiga”,

e aí retornei do transe durante um relato pessoal ocorrido em uma festa da ESPM. E já não voavam tantos sapatos, e algumas pessoas colocaram algumas histórias pessoais na roda. E alguns pedidos de desculpa aconteceram. E eu percebi que todo aquele barraco tinha sido também necessário, o circo precisou pegar fogo pra limpar um mínimo de feridas. Porque tem coisa que a gente limpa com a água, e tem coisa que só o fogo transmuta. E por mais difícil que tenha sido, cada um teve um papel importante, seja na lucidez ou na confusão, para mover a carga de energia que foi mexida naquele auditório.

Do começo àquele momento, haviam se passado 3 horas. Oficialmente, houve um fim, mas quando eu saí de lá uma grande quantidade de pessoas ainda conversava, e seguiu conversando nos bares. Pessoalmente, eu segui o debate nas horas seguintes, com a cabeça física no travesseiro e a mente vivendo outras grandes discussões em sonhos. Acordei numa ressaca incrível. Fui meditar, fazer tai chi, qualquer coisa que me trouxesse de volta ao meu corpo, e então chorei, chorei, chorei. Não de tristeza, nem sei dizer que sentimento movia aquelas águas. Só sabia era o tempo de recolher e aprender. De ouvir de mim o que ficou daquilo tudo.

E percebi, agradecida, que depois de tanto tempo de ativismo, o que eu vivi foi uma experiência nova.

Difícil, mas nova. E viva.